quarta-feira, 25 de março de 2026

QUEM NASCEU PARA A LIBERDADE NÃO FOGE À BOA LUTA

 

Em um tempo marcado pela brutalidade da Grande Seca (1877-1879), que forçou uma migração massiva do interior para Fortaleza, superpovoando a capital e criando condições insalubres, culminando na devastadora epidemia de varíola que causou milhares de mortes, com um dia do ano 1878 ficando conhecido como o dos "Mil Mortos", enquanto a elite debatia soluções e a literatura registrava a tragédia humanitária, a movimentação abolicionista no Ceará estava em um estágio de crescente organização e ativismo, um  passo crucial para os eventos subsequentes que levariam o Ceará a abolir a escravidão em 25 de março de 1884, sendo desde então, historicamente, conhecido como a "Terra da Luz" – título popularizado pelo jornalista e abolicionista José do Patrocínio, que era apelidado de "O Tigre da Abolição".


Por oportuno e meritório, rememoro o pioneirismo e tradição de Maranguape – do tupi maragoab que significa Vale da Batalha – na luta pela liberdade, notabilizado na revolta ocorrida nesta aldeia em setembro de 1822 no Ceará, foi um dos primeiros movimentos coletivos de resistência contra a escravidão no Brasil, embora seu foco principal fosse a defesa dos direitos dos indígenas.  O levante, liderado por mais de 600 indígenas da vila de Arronches, foi motivado por rumores de que a Constituição Portuguesa pretendia aprisionar os povos nativos, além de reivindicar o retorno do rei D. João VI, a desocupação de terras e a liberdade. Os revoltosos atacaram propriedades de autoridades coloniais, como o sargento-mor José Agostinho Pinheiro e o juiz de fora Joaquim Lopes de Abreu, que eram portugueses e simbolizavam o domínio estrangeiro.


Apesar de não ter sido diretamente voltado para a abolição da escravidão negra, o movimento demonstrou uma resistência anticolonial e antiescravocrata que pronunciou os ideais libertários que sessenta e dois anos adiante no tempo distinguiriam o Ceará como pioneiro em todo o território brasileiro a libertar o escravos.  A revolta foi reprimida em cinco dias, porém, após a independência do Brasil, o governo celebrou os indígenas como heróis da pátria, reconhecendo sua luta como parte da construção da nação. Incontestavelmente, essa revolta maranguapense é um marco histórico da resistência indígena e antiescravocrata no Brasil, destacando o contexto de lutas por liberdade que se espalharam por todo o território, o motivou a Vila a libertar seus escravos em 20 de maio de 1883, com custo assumido pelo governo provincial.


Indiscutivelmente, Maranguape teve um papel estratégico e pioneiro no movimento abolicionista do Ceará. A cidade não apenas sediou encontros, mas também formalizou sua própria organização para combater a escravidão. A Sociedade Libertadora Maranguapense, fundada em 1881, foi uma das agremiações mais ativas do estado, inspirada pela Sociedade Cearense Libertadora de Fortaleza. Neste ano, a cidade organizou o Primeiro Congresso Abolicionista, um evento histórico, que reuniu lideranças para coordenar ações de libertação e propaganda da causa na região, dentre as quais, destacam-se: João Cordeiro, Francisco José do Nascimento, João Brígido dos Santos, João Capistrano Honório de Abreu, Elvira Pinho, Maria Tomásia e Virginia da Rocha Salgado (mãe do ardoroso abolicionista Alfredo Salgado)


Os principais documentos que registraram a abolição local em Maranguape são os atos oficiais da Câmara Municipal e os registros de alforria emitidos no contexto da campanha abolicionista cearense de 1883, comuns em outros municípios cearenses como Redenção e Aquiraz.  Além disso, a cobertura da imprensa da época, como o jornal Libertador, órgão da Sociedade Libertadora Cearense, registrou esses eventos, robustecendo a certeza de que Maranguape – dez meses e cinco dias antes – lampejou pela primeira vez a liberdade no Estado do Ceará. Breve, de lampejo em lampejo, província a província, o bravo sol da liberdade acenderia e sua rutilância envolveria todo território cearense para orgulho do seu povo. Nasceria em 1884 a Terra da Luz para o Brasil exemplando bravura e humanidade sob a égide da fidalga alteridade.


Ao longo da década de 1880, emergiram sociedades civis engajadas na luta abolicionista, como a Sociedade Cearense Libertadora, fundada em 1880, e que tinha João Cordeiro como presidente. Esta sociedade teve apoio incondicional de Chico da Matilde, que chegou a ser eleito seu diretor. Sob o slogan de “no Ceará não se embarcam escravos”, os jangadeiros, liderados por Francisco – Prático Mor do Porto de Fortaleza – , impediram o embarque de cativos, bloqueando o porto, além do embarque e desembarque de outras cargas e passageiros. Chico da Matilde foi ameaçado com perseguições e com uma ação judicial por crime de sedição. Mas, graças à sua vigilância e ação firme, o porto se manteve inviolável. ​Sem alternativa, os senhores de escravos acabaram concordando com a liberdade de seus cativos.


Sociedade Cearense Libertadora, a mais atuante sociedade abolicionista do Ceará e que tomou a liderança do movimento, foi fundada em 08 de dezembro de 1880 como um desdobramento da sociedade comercial Perseverança e Porvir, fundada em 1789, constituída pelos Maçons: Presidente – João Cordeiro, 1º Vice-Presidente – José Correia do Amaral, 2º Vice-Presidente – Dr. Frederico Borges, lº Secretário – Antônio Bezerra de Menezes, 2º Secretário – Antônio Dias Martins, e Tesoureiro – José Theodorico de Castro. Já em 01 de janeiro de 1881 foi criado o jornal o Libertador, Órgão Comunicador da Sociedade Cearense Libertadora, por meio do qual os abolicionistas da sociedade começaram a divulgar suas ideias e iniciaram efetivamente a campanha abolicionista.​


A Sociedade Cearense Libertadora tinha uma atuação vista como mais atuante por seus contemporâneos, por que seus membros facilitarem fugas de escravos, por terem ajudado na greve que aconteceu no porto de Fortaleza, conhecida como greve dos jangadeiros, além de ter desafiado a polícia com panfletos e pela própria linguagem utilizada no jornal. Outro aspecto visto como mais diligente estava nos próprios estatutos de fundação da Sociedade Cearense Libertadora, sendo o primeiro “Um por todos e todos por um” e o segundo: “A sociedade libertará escravos por todos os meios a seu alcance”.A Sociedade Cearense Libertadora teve o auxílio eficaz das Lojas maçônicas Fraternidade Cearense, Igualdade e Caridade, promotoras das festas cujos representantes em parceria com as simpáticas damas, promoviam exitosamente os saraus e banquetes.

Não haveria o cearense de contentar-se com a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que se limitava proibir a entrada de escravos no Brasil. Mais do que isso, ansiava pela sua liberdade. A sociedade cearense não cessava de aplaudir o gesto nobilitante dos maçons (chamados “filhos da viúva”) que alforriavam seus escravos em sessões abertas ao público. O jornalista-maçom João Brígido – cunhado do Dragão do Mar, que desposara sua Irmã Ernesta Brígido do Nascimento – foi o esteta da crônica que descreve a vida social da Fortaleza de antanho. Ei-lo numa de suas descrições: “A Loja Maçônica Fraternidade Cearense, onde estava alistada a opulência da Cidade, nas suas festas alforriava a bom preço levas inteiras de cativos”.


Por oportuno anuncio, João Brígido dos Santos foi um influente jornalista e político cearense. O vínculo familiar entre ele e o "Dragão do Mar" através de Ernesta Brígido é um detalhe relevante da história e genealogia das elites e figuras populares do Ceará daquela época. A confirmação do nome de Ernesta Brígido do Nascimento e do parentesco foi reforçada pela localização do túmulo do Dragão do Mar em 2020 no Cemitério São João Batista, em Fortaleza, onde ela também está sepultada junto a outro parente, Luís Gonzaga Brígido. Como também o faço quanto a outro laço relevante é amizade entre Francisco José do Nascimento (o Dragão do Mar) e João Cordeiro foi um dos pilares do movimento abolicionista no Ceará, unindo a liderança popular dos trabalhadores do mar à influência política e econômica da elite de Fortaleza.


Com o intuito de dar maior dimensão ao movimento, a diretoria da Sociedade Cearense Libertadora, a exemplo do já praticado pela Perseverança e Porvir, abriu as portas às damas reconhecidamente admiradoras da propaganda abolicionista. Assim, puderam contar com o concurso de mulheres da estirpe de Júlia Amaral, Maria do Rego, e Virginia da Rocha Salgado (mãe do ardoroso abolicionista Alfredo Salgado, além de Elvira Pinho e a sobralense Maria Tomásia.​ O Passeio Público servia de palco, quando o Tenente Coronel Alfredo da Costa Weyne, gorro à mão, gritava os leilões de interessantes trabalhos de manufaturação que saiam das mãos das arrojadas senhoras. Tudo era bem-vindo em termos de prendas. Tudo que gerasse arrecadação. Os negros, claro, agradeciam.


Quando o maçom-abolicionista José do Patrocínio desembarcou no Cais do Porto, na manhã de 30 de novembro de 1882 a bordo do navio “Ceará”, foi recebido pela gente da Sociedade Cearense Libertadora. Recorda Elvira Pinho: “Quando ele pulou na ponte, um escravo o beijou e nós lhe cobrimos a cabeça de rosas, o que havia de melhor nos jardins da cidade. Chamaram-lhe de Marechal Negro. Lembro-me do seu encontro com o Chico da Matilde (Francisco José do Nascimento)… “Então, companheiro, o porto está mesmo bloqueado?” Chico da Matilde respondeu com firmeza: “Não há força neste mundo que o faça reabrir ao tráfico negreiro”, retrata Edmar Morel em O Jangadeiro da Abolição. O Tigre da Abolição o chama de “Dragão do Mar”, para exaltar a bravura e a força do prático-mor que, como um guardião mítico das águas, havia "fechado" o porto do Ceará para o tráfico negreiro.


Privilegiada, Canoa Quebrada (Aracati, Ceará) viu nascer aos 15 de Abril de 1839 o Dragão do Mar, o protagonista da Libertação dos Escravos no Estado do Ceará. Filho do Pescador Manoel do Nascimento e da Rendeira Matilde Maria da Conceição, Francisco José do Nascimento perdeu seu pai aos oito anos de idade, quando este tentava a vida como seringueiro na Amazônia, sendo criado pela mãe, a Rendeira Matilde, e ficou conhecido por muitos anos como o Chico da Matilde. Criado em meio a muitas dificuldades, desde cedo Chico da Matilde começou a trabalhar como Menino de Recados abordo do Veleiro Tubarão. ​Aos 20 anos de idade, Chico da Matilde aprende a ler. Torna-se chefe dos catraieiros (condutores de bote), trabalha na construção do porto de Fortaleza, é marinheiro, e finalmente é nomeado prático da Capitania dos Portos.​


Em Janeiro de 1881, aos 42 anos de idade, capitaneando a jangada “Liberdade”, Chico da Matilde, sob os auspícios da empatia e da solidariedade humana, reúne seus pares e, em meio a inflamante discurso, prolata: “Somos Dragões do Mar e doravante nos Portos do Ceará não mais embarcam escravos”.​ Sua ousadia e coragem paralisaram o mercado escravista no porto de Fortaleza nos dias 27, 30 e 31 de janeiro de 1881. Posteriormente, em agosto de 1881, houve uma nova tentativa de embarcar escravos que seriam vendidos em São Paulo e no Rio de Janeiro, contudo, novamente os jangadeiros, liderados por Chico da Matilde e pelos escravos libertos Preta Tia Simoa (Simoa Maria da Conceição) e José Luis Napoleão, se recusaram a fazer o transporte e o porto do Ceará foi considerado, pelo movimento abolicionista, oficialmente fechado para o tráfico interprovincial.


A liberdade teve fim trágico, conta o jornalista catarinense Raimundo Caruso, nas páginas do seu livro Aventuras dos Jangadeiros do Nordeste:​ "A jangada Liberdade, de Francisco José do Nascimento, era a clássica, de troncos. Símbolo de uma resistência popular vitoriosa no Ceará, foi levada à Capital do Império a bordo de um navio mercante e, mesmo viajando no porão, inaugura a rota das futuras aventuras dos jangadeiros nordestinos em direção ao Sul. A embarcação foi exibida nas ruas do Rio de Janeiro, sob os aplausos da multidão, e pouco depois é doada ao Museu Nacional, onde foi recebida como valiosa peça etnográfica (...). Em seguida a jangada foi transferida para o Museu da Marinha (...), de onde, queimada, feita em pedaços ou desmontada, desapareceu".Até hoje não se sabe o destino da Liberdade, que uniu cearenses e permanece no imaginário de todos como a vitória concreta da solidariedade entre as raças, credos e timbres, do sertão ao litoral. Ao lado da vela, a imagem guerreira e emblemática do Dragão do Mar. ​


A liberdade é, historicamente, considerada um bem mais precioso do que a própria vida, sendo vista por muitos como o que define a condição humana e a qual não se deve renunciar. Autores como Rousseau e Allende demonstraram que indivíduos e nações estão dispostos a suportar a morte, o fogo e a fome em nome desse valor, pois renunciar à liberdade é renunciar à própria essência humana. Para pensadores como Hegel, a liberdade não é a simples "ausência de restrições" ou "fazer o que se quer", mas, um conteúdo de valor universal que deve ser distinguido de interesses privados. Manter uma existência livre é custoso para a mente humana, exigindo a aceitação da responsabilidade e do sofrimento, mas o preço de não viver livremente é descrito como ainda mais alto, envolvendo a venda da alma e da própria vida.


A primazia cearense na defesa da liberdade, iniciada no Vale da Batalha – em tupi maragoab, Maranguape –, exemplo que se espalhou por todos os municípios do Estado do Ceará e do Brasil, fulcra a convicção de que devemos à liberdade um culto de respeito e gratidão, como também um empenho de guarda com todas as forças dela provindas, pois, sua perda é mais grave do que qualquer restrição temporária, embora a interpretação de como equilibrar essa liberdade com a segurança coletiva varie conforme o contexto histórico e político. Cônscio de que a liberdade plena está associada à responsabilidade e ao respeito à liberdade do outro (lei geral), tornando sua defesa um dever coletivo. Certo de que a luta por igualdade (combate a preconceitos e disparidades econômicas) é essencial para garantir a dignidade humana e a verdadeira liberdade. Compreendendo que a verdadeira liberdade e a pertinente igualdade não vivem onde não há o componente humano e solidário da fraternidade.


Maranguape, Ceará, 25 de Março de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Maria Aurélia Abreu Braga
Cadeira ACLA nº 18

domingo, 22 de março de 2026

QUE BEM FAÇO EU AO MUNDO SENDO COMO SOU?

 

Não importa o tenebroso tamanho da escuridão: ódio, vaidade, usura, etc., quando a boa vontade de ser correto, mínima que seja no universo, brilha inspiradoramente, pois, mesmo no cenário mais hostil, um único ato de retidão rompe a hegemonia do caos. É a ideia de que a luz não luta contra a escuridão; ela simplesmente a desloca pela sua mera presença. No fim, a boa vontade funciona como uma bússola moral: não importa quão perdido o mundo pareça, ela mantém o Norte visível.


Sendo isto algo tão inefável, quanto inegável, Múcio Leão, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, expressa com profundidade a força da boa vontade diante das sombras do mundo. Reconhecendo-se o "nada" que é, afirma com veraz firmeza que, mesmo sendo obscuro, exalta-se na glorificação dos que merecem. Essa postura é exemplificada pela lenda do jogral de Nossa Senhora: um homem humilde, que, com seus saltos cheios de amor, oferece um culto sincero à Virgem.


A lenda conta a história de um jovem chamado Buckhard, filho de uma família de malabaristas e cantores itinerantes, que se torna padre. Durante a visita de Nossa Senhora ao convento com o Menino Jesus nos braços, cada monge tenta homenagear a Virgem com suas habilidades: um exibe pinturas, outro traz uma Bíblia manuscrita, um terceiro recita nomes de santos. No fim da fila, o jovem padre, humilde e sem grandes conhecimentos, sente-se incapaz de oferecer algo significativo.


Em um gesto de fé e simplicidade, ele começa a fazer malabarismos com laranjas – a única arte que domina. Foi nesse momento que o Menino Jesus sorriu e bateu palmas, e Nossa Senhora, emocionada, estendeu os braços para ele, permitindo que segurasse o Menino. A lenda, segundo Leão, mostra que o trabalho dos humildes tem beleza e valor desde que tenha sinceridade. Assim, mesmo diante de "ódio, vaidade, usura", a boa vontade mínima, quando inspiradora, transcende o tenebroso tamanho da escuridão.


Claramente, a lenda ilustra a ideia de que o valor de um presente não está na sua grandeza, mas na sinceridade do coração. O "presente invisível" – a humildade, a fé e a autenticidade – é o que mais importa diante de Deus. Apesar de não ser um fato histórico ou bíblico, a história é amplamente usada em reflexões religiosas, especialmente durante o período natalino, para ensinar sobre a importância da simplicidade, da vocação e do amor incondicional: tripé da fraternidade universal.


Um luzeiro assim, inspirado no na sabedoria transcendente do tetravô do Mestre Jesus, Salomão que preceitua em Eclesiastes 3:12: “não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive”, manifesta-se nesta lenda e em outras versões como a de Anatole France, com um personagem chamado Barnabé, que faz malabarismos em louvor a Nossa Senhora, reforçando o tema de que a arte e o talento, quando oferecidos com amor, são verdadeiras formas de adoração.


Essa visão é virilmente robustecida por outras passagens bíblicas, como Gálatas 6:10, que incentiva a fazer o bem a todos, especialmente aos da família da fé, enquanto se tem oportunidade. Também Eclesiastes 9:10 concita-nos aproveitar o tempo presente, dizendo: “Tudo quanto vier à mão para realizar, faze-o com o melhor das tuas forças, porquanto para o Sheol, a sepultura” – para onde iremos todos indiscutivelmente –, “não há atividade, trabalho, reflexão, planos, conhecimento, saber, nem nada.”


Destacar efusivamente devemos que o homem aproveite o fruto de seu trabalho, comendo, bebendo e desfrutando da vida, pois essa é a sua recompensa nesta vida. A sabedoria não reside unicamente em fazer o bem, mas, em alegrar-se com o trabalho e o que dele se produza, reconhecendo que o porvir, após a morte, é desconhecido, embora encantadoramente inusitado, inventivo e novel, já que é a plântula semeada por nós em Terra. Isto exige que escolhamos bem as sementes que plantamos.


Ao semearmos bondade, amor e obediência ao que há preestabelecido – seja mundano e/ou sagrado –, incontestavelmente segaremos paz, prosperidade e proeminência, tanto nesta vida, quanto na porvir. No entanto, quando semeamos egoísmo, desobediência ou pecado (vícios, erros, amoralidades e imoralidades), a colheita será fartamente corrupção, desesperanças, infortúnios e julgamento, nesta mundo da matéria e muito mais virilmente na pátria após o véu.


Certo é que o legado de um homem ecoa pela eternidade, como preceitua Marcus Aurelius Antoninus Augustus. Não importa se negativo, tenebroso e/ demeritório, tão pouco se positivo, luzidio e/ou notabilizador, o legado segue adiante exemplando, cativando e arrastando multidões de seguidos que vibram em sua frequência, recebendo, repetindo e difundindo: multiplicando seus feitos e efeitos. Portanto, viver com propósito, praticar o bem e desfrutar da vida é, sempre a melhor escolha: é um dom de Deus.


O que me faz recordar de um avidador francês que em sua inventividade chama-nos à responsabilidade. Antoine de Saint-Exupery, ao afirmar “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, concita-nos à consciência coletiva e à reciprocidade, lembrando que, ao envolver alguém com nosso carinho, tornamo-nos responsáveis por sua felicidade e bem-estar. É um convite à humildade, ao cuidado, à verdadeira conexão humana e ao construir juntos um mundo humanamente justo.


A raposa, personagem central da fábula, explica ao pequeno príncipe que o tempo e o afeto dados a alguém tornam esse alguém único e indispensável. Assim, não se trata apenas de conquistar, mas, primordialmente, de assumir o compromisso de ser fiel e presente – seja em relacionamentos pessoais, políticos ou mesmo em compromissos morais com a sociedade, que para o bem e progresso de todos deve, resolutamente, ser mais inclusiva e ética, onde o "ser" é mais importante que o "ter".


É imprescindível viver e manifestar a humildade como alicerce para uma verdadeira conexão humana, pois, ela nos permite reconhecer nossas limitações, ouvir sem julgar e valorizar o outro como parte de um todo maior. Ao cultivá-la, abrimos espaço para a empatia, a gratidão e o serviço, essenciais para construir relações autênticas, construtivas e comunitárias. A humildade jamais será fraqueza, pois, é potencialmente a força que nos conecta ao outro e ao propósito maior: amar incondicionalmente.


Portentosamente, o cuidado - entendido como sentimento profundo, responsabilidade e atenção aos outros - é o que torna a humildade ativa e transformadora. Como destacado em reflexões filosóficas, o cuidado é anterior ao pensamento racional e é o que realmente nos torna humanos: ele nos conecta com o sofrimento, a alegria e a fragilidade do outro. Essa empatia, fruto mais conscienciosa alteridade, é o fertilizante ótimo que alimenta o senso de pertencimento que irmana os povos.


Ancorados um no outro, humildade e cuidado são, indubitavelmente, um emergente chamado à construção de um mundo humanamente justo. Requer que deixemos de lado o ego, a soberba, a busca por validação e avassaladora vaidade, e nos alinhemos a uma mentalidade de serviço, como exemplificado em Cristo. Ao viver com a "mente de Cristo", como em Filipenses 2:5, assumimos a responsabilidade de promover a unidade, a justiça e o respeito mútuo em todas as esferas da vida.


Ao escolhermos a retidão ainda que numa ambiência corrompida, deixamos de mais um no vale dos comuns e assumimos o lugar que no compete como “ponto de referência”. Numa única agência falimos a ilusão – a exaurimos de todas as suas forças – de que “todo mundo é assim ou de que "não há saída", devolvendo aos outros o peso da própria escolha e práticas dela decorrentes. A virtude não precisa de maioria para ser verdadeira; ela só precisa existir para provar que o caos não é absoluto.


Reverbera nisto o valor da vontade moral, que segundo Kent é o único elemento ilimitadamente bom e fundamento da moralidade. Sua valorização não depende das consequências de uma ação, mas do motivo puro – agir por dever, por respeito à lei moral, e não por inclinações egoístas ou desejos pessoais. A vontade moral é, portanto, aquela que age conforme o imperativo categórico, independentemente de resultados ou interesses particulares.


Rutila aqui a lucidez que nos capacita a ver com clareza a realidade, especialmente as estruturas de poder, manipulação e conformismo que nos margeiam e tentam sucumbir nossa vontade. Filósofos como Gilles Deleuze destacam que o controle moderno não se dá por força, mas, por captura do desejo, tornando os indivíduos conformes sem que percebam. A lucidez é, neste olhar, o primeiro passo para a crítica e para a autonomia do pensamento, distinguindo o que é imposto do que é escolhido.


Robustece assim a resistência como ato de liberdade ética e política fazendo enfrentamento ao conformismo – a aceitação passiva de situações injustas ou desfavoráveis, promovidas por sistemas que silenciam o pensamento crítico. Questionar, se posicionar, romper com a inércia é resistir à repressão do desejo e da consciência. Não se trata de rebelião por rebeldia, mas de reivindicação de um mundo possível, onde a felicidade e a justiça não são meros sonhos, mas ações concretas.


Como diz a música dos Novos Baianos: "Vou mostrando como sou e vou sendo como posso / Jogando meu corpo no mundo". Ao participarmos do mundo nele aspergindo nossa essência, não apenas vive-se mais e plenamente, como também, fervorosamente transformamos tudo em nossa órbita o malhete da boa vontade e o cinzel do amor. Cada gesto de autenticidade – uma palavra sincera, um gesto de compaixão, um trabalho feito com paixão – contribui para um ambiente mais humano e verdadeiro.


Ao não se adaptar apenas para agradar, mostramos que existem outras formas de ser, vivendo com liberdade e coragem. A transparência de nossos atos, convida os outros a serem, também, translúcidos, pois, assim fortalecemos relacionamentos baseados na verdade. A singularidade da visão, da sensitividade e da agência geram uma contagiante energia que somente o abraçar de propósitos comuns – como a promoção da felicidade humana – pode manifestar. Eis a bússola da vida plena.


Maranguape, Ceará, 22 de Março de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira ACELP3


sábado, 21 de março de 2026

QUANDO A POESIA ENCONTRA A TRADIÇÃO A BRASILIDADE RESPLANDECE

 

O Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO durante a sua 30ª Conferência Geral, realizada em 16 de novembro de 1999 com o objetivo de promover a diversidade das línguas, pois, a poesia é meio, jamais fim. Nela acham guarida e vida os idiomas ameaçados, que por ela continuam a falar em suas, respectivas, comunidades. A poesia manifesta a palavra como vetor de socialização e de fortalecimento da pessoa em sua dignidade, contribuindo de forma encantadora para (re)descoberta dos valores essenciais, a partir dos quais mantemo-nos aprendizes de nós mesmos, da natureza e do universo sempre que nos assentamos à banca para as pertinentes (re)leituras da viva. Um vida bem vivida, viceja conexões, interatividades e intercâmbios culturais – nacionais, como também, internacionais – encontrando na poesia a arte de assim realizar, pois, sendo plântula da inventividade que tem suas raízes na palavra tanto escrita, quanto oral, favorece sempre o encontro, o encanto e o pertencimento unindo povos e nações num só sonido do coração: liberdade, igualdade e fraternidade.

 

A poesia espelha e agencia transformações sociais, registrando valores, conflitos e emoções de uma época. Ela transcende a estética para denunciar injustiças, como na obra de Castro Alves, bem lembrado oportunamente neste dia em que, também, o celebramos o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé, instituído pela Lei nº 14.519/2023, com o fito de valorizar a cultura afro-brasileira, promover o respeito à diversidade religiosa, combater o racismo religioso e celebrar a resistência dos povos tradicionais de terreiro. Antônio Frederico de CASTRO ALVES, principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil, conhecido como “Poeta dos Escravos por seus poemas abolicionistas, refletindo o cotidiano, a política e a cultura. Manifestando a união da subjetividade do poeta à realidade coletiva, a poesia firma-se uma ferramenta de resistência e memória e ergue como instituição social. O simples ato de escrever versos, atua como ferramenta de humanização, alteridade ao cotidiano e transformação da percepção.

 

A poesia afrodescendente pelo mundo é uma voz de resistência, identidade e ancestralidade, conectando a diáspora africana através da denúncia do racismo e da celebração da cultura negra. No Brasil, destaca-se a prosa e poesia de Conceição Evaristo ("Olhos D'Água") e os poemas de Solano Trindade e Oliveira Silveira, que abordam a memória da escravidão e a identidade brasileira. A antologia Cadernos Negros é fundamental para a disseminação desses autores. No Peru, figuras como a afro-peruana Victoria Santa Cruz com o icônico poema "Me Gritaram Negra" (1960) são pioneiras na valorização da cultura negra. A poesia afrodescendente dialoga com o movimento da Négritude, liderado por Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, que valoriza a herança africana contra o colonialismo. A poesia afrodescendente continua viva e ativa, servindo como "escrevivência" (termo de Evaristo) – uma escrita que surge do corpo e da experiência vivida, com o condão de focar na denúncia da exclusão, no letramento interseccional, na memória da escravidão, no orgulho racial e na valorização da ancestralidade.

 

Indiscutivelmente, a poesia influencia a forma de pensar em contextos políticos ao funcionar como voz de resistência, crítica social e mobilização coletiva, ao transformar a linguagem em uma arma simbólica contra opressões, desigualdades e regimes autoritários, promovendo reflexão e despertando a consciência crítica. Como afirmou Percy Bysshe Shelley, "os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo".  A poesia, assim, não apenas reflete a política – ela a transforma. Para muitos, como o poeta Deivesson Lima, a poesia é um gesto de escuta, memória e esperança, uma forma de transformar silêncio em voz e nomear o indizível. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy, ela pode ser entendida como uma forma de discurso em geral, enquanto Roman Jakobson a define como "a linguagem em sua função estética", destacando o valor da forma e da sonoridade. Ainda que num mundo acelerado, a poesia se reinventa através das redes sociais e saraus (slams), mantendo sua relevância como forma de comunicação rápida e impactante. A poesia é essencial para a formação crítico-reflexiva do leitor. 

 

Curadora, a poesia atua como "remédio" para a alma, oferecendo conforto, contribuindo para a saúde mental e auxiliando na redução de estresse e bem-estar. Para a professora Elza Ferreira, mesmo sendo "não utilitarista", ela é fundamental em ambientes técnicos, pois desperta a ética, a política, a criatividade e lembra que "você não é uma máquina: é gente". A poesia, portanto, não é apenas arte – é necessidade humana, um ato de resistência, beleza e transformação. Estudos científicos, como os realizados na Universidade de Liverpool, mostram que a leitura de poesia ativa o cérebro de forma benéfica, potencializando a atenção, melhorando a memória e até ajudando na prevenção do Alzheimer. O hemisfério direito, ligado às emoções e memórias autobiográficas, é especialmente estimulado, promovendo equilíbrio emocional e conexões neurais entre os dois hemisférios. Além de desperta o amor pela língua materna, a poesia estimula a criatividade, amplia a sensibilidade – promovendo empatia –, estimula a recusa ao conformismo e permite múltiplas leituras, pois, não se limita a um único significado.

 

Auspiciosa, a poesia aborda temas como heroísmo, beleza e sacrifício, ajudando a transmitir conceitos éticos de forma intuitiva, oportunizando um meio de externalizar o que é abstrato, como o ódio, o amor ou a saudade, utilizando metáforas e imagens poéticas. Serve como um repositório de experiências acumuladas e preserva a cultura de um povo, sendo uma das formas mais antigas de transmissão de conhecimento. Atua como um espaço de dignidade para o pensamento individual, oferecendo consolo e clareza em momentos difíceis. A poesia é fundamental para a alfabetização estética e para a construção de um pensamento crítico-reflexivo e o faz a partir do uso de rimas, métricas e figuras de linguagem desenvolve a imaginação e a capacidade de interpretação desde a infância, ensinando a olhar o mundo com mais sensibilidade e a escutar os próprios sentimentos, funcionando como uma "pausa" necessária no cotidiano digital. Ela é um espelho da subjetividade, ajudando na compreensão da realidade através da imaginação e da estética.

 

O universo poético afrodescendente, por exemplo, é marcado pela afirmação da identidade negra como centro da enunciação, transformando o poeta em sujeito ativo que reivindica seu lugar na literatura e na sociedade.  Esse universo se constrói a partir de estratégias poéticas que dialogam com tradições africanas, religiosidades afro-brasileiras, o cotidiano dos afrodescendentes e a memória da escravidão, como evidenciado em poemas que usam imagens de "banzo", "navios" e "currais" para evocar a herança africana e a dor do passado escravista. A poesia afro-brasileira, como destacado por Maria Nazareth Soares Fonseca, se divide em duas vertentes principais: uma voltada para o enfrentamento social e político, e outra que busca resgatar vozes silenciadas e expressões culturais do povo, trazendo para o texto a oralidade, os ritmos do corpo e os pequenos gestos do dia a dia. Conceição Evaristo, Adão Ventura, José Carlos Limeira e Cuti são poetas que, por meio de suas obras, reconstroem uma epopeia negra, denunciam o preconceito e promovem uma reversão de valores que valorizam a cultura negra.

 

O ponto central dessa literatura está na assunção identitária do eu poético, que se declara negro e se posiciona contra a invisibilidade e o estigma.  Como aponta Eduardo de Assis Duarte, não basta o tema ou a origem do autor; é essencial o ponto de vista afro-identificado, um olhar que rompe com a perspectiva dominante e reivindica uma nova ordem simbólica.  A poesia afro-brasileira, portanto, é um ato de resistência, existência e afirmação cultural. É um campo vibrante que utiliza a palavra como ferramenta de resistência, resgate de ancestralidade e afirmação de identidade. Mais do que um estilo literário, a poesia afrodescendente é um eixo político e pedagógico que centraliza as vivências de sujeitos negros, combatendo o silenciamento histórico. A produção poética afrodescendente contemporânea, como a de Carlos de Assumpção, foca em protesto e na valorização da vida negra, abordando o afeto como ato de amor e rebeldia e servindo de um elo com as raízes africanas e com as histórias de sobrevivência na diáspora, transformando a dor em arte e revolução.

 

Essa produção literária constrói novas formas de compreender a história e a cultura brasileira. Para explorar este universo, vale conhecer nomes fundamentais e coletivos que abrem caminhos para o estabelecimento da compreensão, da alteridade e da pertinente – e necessária – inclusão social que são as robustas colunas sempre dispostas a apresentar aos brasileiros sua identidade, seu povo e sua nação para que seja, de fato o que direito pretende: o mais próspero, o mais sábio e o mais feliz pais, constituído da diversidade vivaz que o faz mais belo e cativante. Conhecer, por exemplo, Maria Firmina dos Reis (autora do primeiro romance abolicionista no Brasil) e Machado de Assis (Primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras – da “Casa de Machado de Assis”, digo), nos imbui na força primaz da brasilidade que abraça incondicionalmente a todos os brasileiros. E ler “Cadernos Negros”, importante série de antologias publicada pelo coletivo Quilombhoje desde 1978, nos faz participes da consolidação da literatura negra contemporânea no Brasil.

 

Festejar a poesia é desafiar a lógica racional e subverter significados habituais, atuando como resistência cotidiana e instrumento de transformação social. Libertadora, a poesia oferece um "desnudamento do mundo", esvaziando as coisas de seus significados usuais para criar novos, permitindo enxergar a realidade de uma maneira única, onde liberta a palavra, ela (re)cria a percepção do mundo e rompe estruturas opressoras através da subjetividade, fantasia e nova visão do real. Mais que um texto, é um estado de espírito que permite ao leitor encontrar a cultura humanística e a reflexão sobre valores vigentes. Poetas como Sophia de Mello Breyner Andresen usam a palavra para confrontar injustiças e ditaduras, tornando a poesia um instrumento de libertação e sonho. Recentemente, a chamada "poesia adversarial" tem sido usada como técnica para desafiar sistemas de Inteligência Artificial. Por meio de estruturas metafóricas e simbólicas, ela confunde os filtros de segurança das IAs manifestando a sagaz complexidade poética humana, que ainda escapa aos algoritmos puramente lógicos.

 

Celebrar o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé é sedimentar e difundir a certeza de que os valores ancestrais norteiam nosso presente, enquanto construímos o futuro. É um gesto oficial de respeito e reconhecimento da memória do povo africano e seus descendentes no Brasil. Por oportuna importância, a data foi escolhida por coincidir com o Dia Internacional contra a Discriminação Racial da ONU, instituída pela Resolução 2142 (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 26 de outubro de 1966, reforçando a luta por direitos, e por garantias à vida e à dignidade da pessoa humana; e para mobilizar a comunidade internacional para eliminar todas as formas de discriminação racial e o racismo. Reconhecer os terreiros de Candomblé como espaços de resistência e preservação de tradições ancestrais, dignifica nossa brasilidade, pois, conforme o Censo 2022 do IBGE, cerca de 55,5% a 56,1% da população brasileira se autodeclara negra. Esse total é a soma dos pardos (aprox. 45,3%) e dos pretos (aprox. 10,2%). Nacionalismo é conhecer quem somos!

 

Nascida na antiguidade remota, com o desenvolvimento da linguagem articulada, muito antes da escrita, a poesia, inicialmente oral e ligada à música e rituais, floresceu em civilizações como a hindu e suméria (há mais de 5.000 anos) com epopeias como Gilgamesh, utilizando versos para transmitir conhecimento e crenças. Ela atua como uma ponte que une o sagrado (admirável, transcendente) e o profano (ordinário, cotidiano), transformando o cotidiano em experiência espiritual e o divino em linguagem humana, não sendo surpreendente, sua maviosa presença nos rezos e no corpo literário de Ifá, cujos ensinamentos são transmitidos oralmente através de versos poéticos chamados ẹsẹ̀ Ifá, organizados nos 256 Odù, que contêm narrativas, provérbios e prescrições rituais cantadas ou recitadas pelos babalaôs. A poesia, portanto, funciona como uma linguagem universal que busca o belo e a expressão de sentimentos profundos, moldando-se ao longo da história da humanidade. Comemorar a graça da poesia em tudo que há é auferir os conhecimentos por ela guardados ao longa das eras e consagrá-los aos propósitos da vida.

 

Maranguape, Ceará, 21 de Março de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

sexta-feira, 20 de março de 2026

NAS SOMBRAS DO TEMPO, SIDNEY NETO FEZ-SE BENFEITOR DA HUMANIDADE

 

Em 1893, o Ceará vivia um período marcado por eventos científicos, econômicos e sociais significativos. O ano foi destaque internacionalmente pela observação do eclipse solar total em 16 de abril, que atraiu uma comitiva da Royal Astronomical Society até a vila cearense de Paracuru, onde eram realizadas importantes medições e registros fotográficos, incluindo imagens da coroa solar por Sir John Benjamin Stone. 

 

Paralelamente, o estado participou da Exposição Universal de Chicago, que ocorreu entre maio e outubro de 1893, como forma de mostrar sua produção e cultura ao mundo.  Economicamente, o Ceará ainda se baseava fortemente no algodão, cujo comércio havia se intensificado desde o século XIX, especialmente com a navegação a vapor para Liverpool a partir de 1866. Brevemente (1894) a "Terra da Luz" resplandeceria por seu esforço abolicionista.

 

Neste esforço destaca-se, João Cordeiro que à frente da Sociedade Cearense Libertadora e a editar o jornal O Libertador, peça-chave na articulação do movimento que libertou o Ceará em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, com ajuda ilustres colaboradores: o Prático-Mor Francisco José do Nascimento (Dragão do Mar), do Escritor Antonio Bezerra de Menezes, do Ten. Cel. Alfredo da Costa Weyne (Pai do Poeta Fernando da Costa Weyne).

 

Era 1893, Fortaleza consolidava-se como capital política e principal centro comercial do Ceará, vivenciando o início de sua Belle Époque, um período de modernização urbana com a influência de estilos europeus, principalmente, a partir do cinema. A Padaria Espiritual, agremiação literária importante, estava ativa, com destaque para figuras como Rodolfo Teófilo. Adolfo Caminha publicou A Normalista em 1893, descrevendo a sociedade fortalezense.

 

Nesta ambiência onde a diversidade (de classes sociais, de intelectualidade, de interesses, etc.) reinava igualdade em prol da liberdade dos cativos, dos oprimidos e dos famintos – sendo ela (a diversidade) a erguer a mais bela e robusta coluna da fraternidade, que anima toda forma de progresso humano –, nascia no dia 16 de Setembro de 1893, prenunciado pelo eclipse de Abril, José Vicente Sidney Neto para coadjuvar a renascença das letras cearenses.

 

Predestinado à mestria, Sidney Neto se destacou no movimento modernista no Ceará, atuando como incentivador de grupos literários, como o Grupo Clã, na década de 1940. O Modernismo no Ceará não foi meramente um reflexo tardio da Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo, mas, um processo com raízes locais profundas e características próprias, manifestando-se principalmente entre as décadas de 1920 e 1950.

 

Embora anterior ao marco de 1922, a Padaria Espiritual é citada como uma precursora da irreverência modernista no Ceará, ao buscar uma renovação nas letras e criticar o academicismo. Caracterizada pelos "primeiros tempos" e pela recepção das ideias paulistas. Em 1925, o poeta Guilherme de Almeida visitou Fortaleza para proferir a conferência "A Revelação do Brasil pela Poesia Moderna" – crucial para a disseminação do modernismo na “Terra da Luz”.

 

Cumpre destacar nesta década de 1920, o relevante empenho do Poeta e Intelectual Jáder de Carvalho – pai do Senador Cid Saboia de Carvalho – na renovação das letras cearenses. Bem como, Rachel de Queiroz – iniciando a década de 1930 –, primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, e sua obra de estreia, O Quinze, que é o marco da segunda fase modernista nacional, focando na temática da seca e do regionalismo.

 

Boas influências sobravam, e os olhos do jovem Sidney Neto brilhavam ao contemplá-las e suas letras se faziam proeminentemente cativantes ao espelhar tais exemplos de arte e cultura. Sua poesia transitava entre o romantismo de suas baladas e sonetos e as tendências ecléticas que a poesia brasileira assumiria posteriormente. Entre suas contribuições estão poemas publicados no Cancioneiro da Cidade de Fortaleza.

 

Influenciador, Sidney Neto, como literato, jornalista e militante político, ajudou a moldar o ambiente acadêmico do Ceará, incentivando o desenvolvimento intelectual das gerações que passaram pelas instituições de ensino em que atuou. O esmero e a proficuidade da “Academia dos Novos” repousam em sua abnegação e coragem a serviço do futuro do Ceará e da Nação Brasileira: ensinando os caminhos os sonhos e se realizam animando os dias.

 

A Academia dos Novos – do Liceu do Ceará – representava o topo desse aprendizado, onde se depositava a excelência e se formava a "elite mandatária" da região, sob a Presidência de Roberto Átila do Amaral Vieira – que mais tarde viria a ser Ministro de Ciência e Tecnologia (2004) – e seu grupo colaborador, dentre os quais Cid Saboia de Carvalho e Zelito Nunes Magalhaes, Linhares Filho, Sânzio de Azevedo, Carvalho Nogueira e Antonio Pompeu.

 

Academia era o espaço onde os "liceuistas" debatiam literatura, filosofia e política, muitas vezes servindo de berço para futuros escritores e políticos renomados do Ceará. E frutos colhidos eram compartilhados com o público estudantil e geral a partir do periódico “O Democrata”, órgão oficial do Centro Liceal de Educação e Cultura (CLEC), era editado por alunos que faziam parte da elite intelectual do Liceu do Ceará e da Academia dos Novos.  

 

O Liceu do Ceará mantinha-se a principal referência de ensino público de elite, formando a base da intelectualidade cearense. A escola – sediada no prédio na Praça Gustavo Barroso (Jacarecanga) – era um polo de efervescência política. Reconhecido pelo rigor metodológico, o Liceu preparava os alunos diretamente para os vestibulares das faculdades de Direito, Medicina e Engenharia, dispensando a necessidade preparação externa.

 

Considerando que a concentração de investimentos em Fortaleza e escassez no interior, ou seja, percebendo que a educação rural permanecia subdesenvolvida, o Altruísta Sidney Neto doou o terreno onde está localizada a sede da Casa do Estudante do Ceará, em Fortaleza. Essa ação foi fundamental para garantir moradia e suporte a jovens do interior que buscam estudar na capital. A casa abriga um total superior a 100 moradores, atualmente.

 

Fundada em 1934, a Casa do Estudante de Ceará é uma das repúblicas estudantis mais antigas do Brasil. Hoje, com 92 anos de existência, a instituição permanece oferecendo moradia gratuita, alimentação e espaços de convivência. O prédio histórico (localizado na Rua Nogueira Acioli, 440), em 2020, recebeu investimentos no total de R$ 1 milhão do Governo do Ceará para melhorias estruturais, essenciais para enfrentar precariedades.

 

Dentre ilustres e famosos, a Casa do Estudante do Ceará abrigou personalidades como o jornalista Edilmar Norões e o empresário Oto de Sá (Colégios Farias Brito), que contribuíram para o cenário cultural e econômico do Ceará. O médico oftalmologista Leví Madeira, atualmente um dos principais benfeitores da instituição. Como também, o ex-vice-prefeito de Gaudêncio Lucena e ex-vereadora de Fortaleza, Rosa Maria Ferreira da Fonseca.

 

Homem de Letras, Sidney Neto, a partir de 10 de maio de 1951,  como membro da Academia Cearense de Letras (ocupante da cadeira nº 1 – Patrono Adolfo Caminha), serviu de inspiração para jovens escritores e intelectuais, promovendo a valorização da cultura e das letras cearenses no século XX. Sua obra e atuação, incontestavelmente, ajudaram a legitimar o romance cearense e a fortalecer a produção literária local como um todo. 

 

Seu papel como intelectual e escritor foi fundamental para a formação da identidade cultural do estado, promovendo uma estética literária inovadora e influenciando gerações de escritores. Além disso, Sidney Neto foi um dos membros do grupo SIN de Literatura – lembrado por imprimir "novo rumo às letras do Ceará" e por representar a Geração de 60 na literatura brasileira –, reforçando ainda mais seu impacto na cena cultural cearense.

 

Dentre as principais obras de Sidney Neto destacam-se: Romances – Terra de Ninguém (1931), Classe Média (1937), Doutor Geraldo (1937), A Criança Vive (1945), Eu Quero o Sol (1946), Sua Majestade, o Juiz (1962), Aldeota (1963) etc. E Contos – As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985), Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987) etc. Além da coletânea O Canto Novo da Raça (1928).

 

Nas sombras do tempo, Sidney Neto fez-se benfeitor da humanidade. E legado seu é tão vasto que as pessoas conhecem a obra antes mesmo de conhecerem o autor. Sua missão de vida, irrefutavelmente, trouxe progresso, cura – principalmente para alma – e sabedoria que seguem ao futuro transformando vidas, esperançando mudanças e evolução, além da felicidade que estabelece quando fitamos o exemplo de um homem que bem fez à humanidade, oportunizando o futuro.

 

Maranguape, Ceara, 20 de Março de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo
Cadeira ACELP nº 3

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