Em um tempo marcado pela brutalidade da Grande Seca (1877-1879), que forçou uma migração massiva do interior para Fortaleza, superpovoando a capital e criando condições insalubres, culminando na devastadora epidemia de varíola que causou milhares de mortes, com um dia do ano 1878 ficando conhecido como o dos "Mil Mortos", enquanto a elite debatia soluções e a literatura registrava a tragédia humanitária, a movimentação abolicionista no Ceará estava em um estágio de crescente organização e ativismo, um passo crucial para os eventos subsequentes que levariam o Ceará a abolir a escravidão em 25 de março de 1884, sendo desde então, historicamente, conhecido como a "Terra da Luz" – título popularizado pelo jornalista e abolicionista José do Patrocínio, que era apelidado de "O Tigre da Abolição".
Por oportuno e meritório, rememoro o pioneirismo e tradição de Maranguape – do tupi maragoab que significa Vale da Batalha – na luta pela liberdade, notabilizado na revolta ocorrida nesta aldeia em setembro de 1822 no Ceará, foi um dos primeiros movimentos coletivos de resistência contra a escravidão no Brasil, embora seu foco principal fosse a defesa dos direitos dos indígenas. O levante, liderado por mais de 600 indígenas da vila de Arronches, foi motivado por rumores de que a Constituição Portuguesa pretendia aprisionar os povos nativos, além de reivindicar o retorno do rei D. João VI, a desocupação de terras e a liberdade. Os revoltosos atacaram propriedades de autoridades coloniais, como o sargento-mor José Agostinho Pinheiro e o juiz de fora Joaquim Lopes de Abreu, que eram portugueses e simbolizavam o domínio estrangeiro.
Apesar de não ter sido diretamente voltado para a abolição da escravidão negra, o movimento demonstrou uma resistência anticolonial e antiescravocrata que pronunciou os ideais libertários que sessenta e dois anos adiante no tempo distinguiriam o Ceará como pioneiro em todo o território brasileiro a libertar o escravos. A revolta foi reprimida em cinco dias, porém, após a independência do Brasil, o governo celebrou os indígenas como heróis da pátria, reconhecendo sua luta como parte da construção da nação. Incontestavelmente, essa revolta maranguapense é um marco histórico da resistência indígena e antiescravocrata no Brasil, destacando o contexto de lutas por liberdade que se espalharam por todo o território, o motivou a Vila a libertar seus escravos em 20 de maio de 1883, com custo assumido pelo governo provincial.
Indiscutivelmente, Maranguape teve um papel estratégico e pioneiro no movimento abolicionista do Ceará. A cidade não apenas sediou encontros, mas também formalizou sua própria organização para combater a escravidão. A Sociedade Libertadora Maranguapense, fundada em 1881, foi uma das agremiações mais ativas do estado, inspirada pela Sociedade Cearense Libertadora de Fortaleza. Neste ano, a cidade organizou o Primeiro Congresso Abolicionista, um evento histórico, que reuniu lideranças para coordenar ações de libertação e propaganda da causa na região, dentre as quais, destacam-se: João Cordeiro, Francisco José do Nascimento, João Brígido dos Santos, João Capistrano Honório de Abreu, Elvira Pinho, Maria Tomásia e Virginia da Rocha Salgado (mãe do ardoroso abolicionista Alfredo Salgado)
Os principais documentos que registraram a abolição local em Maranguape são os atos oficiais da Câmara Municipal e os registros de alforria emitidos no contexto da campanha abolicionista cearense de 1883, comuns em outros municípios cearenses como Redenção e Aquiraz. Além disso, a cobertura da imprensa da época, como o jornal Libertador, órgão da Sociedade Libertadora Cearense, registrou esses eventos, robustecendo a certeza de que Maranguape – dez meses e cinco dias antes – lampejou pela primeira vez a liberdade no Estado do Ceará. Breve, de lampejo em lampejo, província a província, o bravo sol da liberdade acenderia e sua rutilância envolveria todo território cearense para orgulho do seu povo. Nasceria em 1884 a Terra da Luz para o Brasil exemplando bravura e humanidade sob a égide da fidalga alteridade.
Ao longo da década de 1880, emergiram sociedades civis engajadas na luta abolicionista, como a Sociedade Cearense Libertadora, fundada em 1880, e que tinha João Cordeiro como presidente. Esta sociedade teve apoio incondicional de Chico da Matilde, que chegou a ser eleito seu diretor. Sob o slogan de “no Ceará não se embarcam escravos”, os jangadeiros, liderados por Francisco – Prático Mor do Porto de Fortaleza – , impediram o embarque de cativos, bloqueando o porto, além do embarque e desembarque de outras cargas e passageiros. Chico da Matilde foi ameaçado com perseguições e com uma ação judicial por crime de sedição. Mas, graças à sua vigilância e ação firme, o porto se manteve inviolável. Sem alternativa, os senhores de escravos acabaram concordando com a liberdade de seus cativos.
Sociedade Cearense Libertadora, a mais atuante sociedade abolicionista do Ceará e que tomou a liderança do movimento, foi fundada em 08 de dezembro de 1880 como um desdobramento da sociedade comercial Perseverança e Porvir, fundada em 1789, constituída pelos Maçons: Presidente – João Cordeiro, 1º Vice-Presidente – José Correia do Amaral, 2º Vice-Presidente – Dr. Frederico Borges, lº Secretário – Antônio Bezerra de Menezes, 2º Secretário – Antônio Dias Martins, e Tesoureiro – José Theodorico de Castro. Já em 01 de janeiro de 1881 foi criado o jornal o Libertador, Órgão Comunicador da Sociedade Cearense Libertadora, por meio do qual os abolicionistas da sociedade começaram a divulgar suas ideias e iniciaram efetivamente a campanha abolicionista.
A Sociedade Cearense Libertadora tinha uma atuação vista como mais atuante por seus contemporâneos, por que seus membros facilitarem fugas de escravos, por terem ajudado na greve que aconteceu no porto de Fortaleza, conhecida como greve dos jangadeiros, além de ter desafiado a polícia com panfletos e pela própria linguagem utilizada no jornal. Outro aspecto visto como mais diligente estava nos próprios estatutos de fundação da Sociedade Cearense Libertadora, sendo o primeiro “Um por todos e todos por um” e o segundo: “A sociedade libertará escravos por todos os meios a seu alcance”. A Sociedade Cearense Libertadora teve o auxílio eficaz das Lojas maçônicas Fraternidade Cearense, Igualdade e Caridade, promotoras das festas cujos representantes em parceria com as simpáticas damas, promoviam exitosamente os saraus e banquetes.
Não haveria o cearense de contentar-se com a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que se limitava proibir a entrada de escravos no Brasil. Mais do que isso, ansiava pela sua liberdade. A sociedade cearense não cessava de aplaudir o gesto nobilitante dos maçons (chamados “filhos da viúva”) que alforriavam seus escravos em sessões abertas ao público. O jornalista-maçom João Brígido – cunhado do Dragão do Mar, que desposara sua Irmã Ernesta Brígido do Nascimento – foi o esteta da crônica que descreve a vida social da Fortaleza de antanho. Ei-lo numa de suas descrições: “A Loja Maçônica Fraternidade Cearense, onde estava alistada a opulência da Cidade, nas suas festas alforriava a bom preço levas inteiras de cativos”.
Por oportuno anuncio, João Brígido dos Santos foi um influente jornalista e político cearense. O vínculo familiar entre ele e o "Dragão do Mar" através de Ernesta Brígido é um detalhe relevante da história e genealogia das elites e figuras populares do Ceará daquela época. A confirmação do nome de Ernesta Brígido do Nascimento e do parentesco foi reforçada pela localização do túmulo do Dragão do Mar em 2020 no Cemitério São João Batista, em Fortaleza, onde ela também está sepultada junto a outro parente, Luís Gonzaga Brígido. Como também o faço quanto a outro laço relevante é amizade entre Francisco José do Nascimento (o Dragão do Mar) e João Cordeiro foi um dos pilares do movimento abolicionista no Ceará, unindo a liderança popular dos trabalhadores do mar à influência política e econômica da elite de Fortaleza.
Com o intuito de dar maior dimensão ao movimento, a diretoria da Sociedade Cearense Libertadora, a exemplo do já praticado pela Perseverança e Porvir, abriu as portas às damas reconhecidamente admiradoras da propaganda abolicionista. Assim, puderam contar com o concurso de mulheres da estirpe de Júlia Amaral, Maria do Rego, e Virginia da Rocha Salgado (mãe do ardoroso abolicionista Alfredo Salgado, além de Elvira Pinho e a sobralense Maria Tomásia. O Passeio Público servia de palco, quando o Tenente Coronel Alfredo da Costa Weyne, gorro à mão, gritava os leilões de interessantes trabalhos de manufaturação que saiam das mãos das arrojadas senhoras. Tudo era bem-vindo em termos de prendas. Tudo que gerasse arrecadação. Os negros, claro, agradeciam.
Quando o maçom-abolicionista José do Patrocínio desembarcou no Cais do Porto, na manhã de 30 de novembro de 1882 a bordo do navio “Ceará”, foi recebido pela gente da Sociedade Cearense Libertadora. Recorda Elvira Pinho: “Quando ele pulou na ponte, um escravo o beijou e nós lhe cobrimos a cabeça de rosas, o que havia de melhor nos jardins da cidade. Chamaram-lhe de Marechal Negro. Lembro-me do seu encontro com o Chico da Matilde (Francisco José do Nascimento)… “Então, companheiro, o porto está mesmo bloqueado?” Chico da Matilde respondeu com firmeza: “Não há força neste mundo que o faça reabrir ao tráfico negreiro”, retrata Edmar Morel em O Jangadeiro da Abolição. O Tigre da Abolição o chama de “Dragão do Mar”, para exaltar a bravura e a força do prático-mor que, como um guardião mítico das águas, havia "fechado" o porto do Ceará para o tráfico negreiro.
Privilegiada, Canoa Quebrada (Aracati, Ceará) viu nascer aos 15 de Abril de 1839 o Dragão do Mar, o protagonista da Libertação dos Escravos no Estado do Ceará. Filho do Pescador Manoel do Nascimento e da Rendeira Matilde Maria da Conceição, Francisco José do Nascimento perdeu seu pai aos oito anos de idade, quando este tentava a vida como seringueiro na Amazônia, sendo criado pela mãe, a Rendeira Matilde, e ficou conhecido por muitos anos como o Chico da Matilde. Criado em meio a muitas dificuldades, desde cedo Chico da Matilde começou a trabalhar como Menino de Recados abordo do Veleiro Tubarão. Aos 20 anos de idade, Chico da Matilde aprende a ler. Torna-se chefe dos catraieiros (condutores de bote), trabalha na construção do porto de Fortaleza, é marinheiro, e finalmente é nomeado prático da Capitania dos Portos.
Em Janeiro de 1881, aos 42 anos de idade, capitaneando a jangada “Liberdade”, Chico da Matilde, sob os auspícios da empatia e da solidariedade humana, reúne seus pares e, em meio a inflamante discurso, prolata: “Somos Dragões do Mar e doravante nos Portos do Ceará não mais embarcam escravos”. Sua ousadia e coragem paralisaram o mercado escravista no porto de Fortaleza nos dias 27, 30 e 31 de janeiro de 1881. Posteriormente, em agosto de 1881, houve uma nova tentativa de embarcar escravos que seriam vendidos em São Paulo e no Rio de Janeiro, contudo, novamente os jangadeiros, liderados por Chico da Matilde e pelos escravos libertos Preta Tia Simoa (Simoa Maria da Conceição) e José Luis Napoleão, se recusaram a fazer o transporte e o porto do Ceará foi considerado, pelo movimento abolicionista, oficialmente fechado para o tráfico interprovincial.
A liberdade teve fim trágico, conta o jornalista catarinense Raimundo Caruso, nas páginas do seu livro Aventuras dos Jangadeiros do Nordeste: "A jangada Liberdade, de Francisco José do Nascimento, era a clássica, de troncos. Símbolo de uma resistência popular vitoriosa no Ceará, foi levada à Capital do Império a bordo de um navio mercante e, mesmo viajando no porão, inaugura a rota das futuras aventuras dos jangadeiros nordestinos em direção ao Sul. A embarcação foi exibida nas ruas do Rio de Janeiro, sob os aplausos da multidão, e pouco depois é doada ao Museu Nacional, onde foi recebida como valiosa peça etnográfica (...). Em seguida a jangada foi transferida para o Museu da Marinha (...), de onde, queimada, feita em pedaços ou desmontada, desapareceu".Até hoje não se sabe o destino da Liberdade, que uniu cearenses e permanece no imaginário de todos como a vitória concreta da solidariedade entre as raças, credos e timbres, do sertão ao litoral. Ao lado da vela, a imagem guerreira e emblemática do Dragão do Mar.
A liberdade é, historicamente, considerada um bem mais precioso do que a própria vida, sendo vista por muitos como o que define a condição humana e a qual não se deve renunciar. Autores como Rousseau e Allende demonstraram que indivíduos e nações estão dispostos a suportar a morte, o fogo e a fome em nome desse valor, pois renunciar à liberdade é renunciar à própria essência humana. Para pensadores como Hegel, a liberdade não é a simples "ausência de restrições" ou "fazer o que se quer", mas, um conteúdo de valor universal que deve ser distinguido de interesses privados. Manter uma existência livre é custoso para a mente humana, exigindo a aceitação da responsabilidade e do sofrimento, mas o preço de não viver livremente é descrito como ainda mais alto, envolvendo a venda da alma e da própria vida.
A primazia cearense na defesa da liberdade, iniciada no Vale da Batalha – em tupi maragoab, Maranguape –, exemplo que se espalhou por todos os municípios do Estado do Ceará e do Brasil, fulcra a convicção de que devemos à liberdade um culto de respeito e gratidão, como também um empenho de guarda com todas as forças dela provindas, pois, sua perda é mais grave do que qualquer restrição temporária, embora a interpretação de como equilibrar essa liberdade com a segurança coletiva varie conforme o contexto histórico e político. Cônscio de que a liberdade plena está associada à responsabilidade e ao respeito à liberdade do outro (lei geral), tornando sua defesa um dever coletivo. Certo de que a luta por igualdade (combate a preconceitos e disparidades econômicas) é essencial para garantir a dignidade humana e a verdadeira liberdade. Compreendendo que a verdadeira liberdade e a pertinente igualdade não vivem onde não há o componente humano e solidário da fraternidade.
Maranguape, Ceará, 25 de Março de 2026
Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Maria Aurélia Abreu Braga
Cadeira ACLA nº 18
👏👏👏
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