O
Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO durante a sua 30ª Conferência
Geral, realizada em 16 de novembro de 1999 com o objetivo de promover a
diversidade das línguas, pois, a poesia é meio, jamais fim. Nela acham guarida
e vida os idiomas ameaçados, que por ela continuam a falar em suas, respectivas,
comunidades. A poesia manifesta a palavra como vetor de socialização e de fortalecimento
da pessoa em sua dignidade, contribuindo de forma encantadora para (re)descoberta
dos valores essenciais, a partir dos quais mantemo-nos aprendizes de nós mesmos,
da natureza e do universo sempre que nos assentamos à banca para as pertinentes
(re)leituras da viva. Um vida bem vivida, viceja conexões, interatividades e intercâmbios
culturais – nacionais, como também, internacionais – encontrando na poesia a
arte de assim realizar, pois, sendo plântula da inventividade que tem suas
raízes na palavra tanto escrita, quanto oral, favorece sempre o encontro, o
encanto e o pertencimento unindo povos e nações num só sonido do coração: liberdade,
igualdade e fraternidade.
A
poesia espelha e agencia transformações sociais, registrando valores, conflitos
e emoções de uma época. Ela transcende a estética para denunciar injustiças,
como na obra de Castro Alves, bem lembrado oportunamente neste dia em que,
também, o celebramos o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações
do Candomblé, instituído pela Lei nº 14.519/2023, com o fito de valorizar a
cultura afro-brasileira, promover o respeito à diversidade religiosa, combater
o racismo religioso e celebrar a resistência dos povos tradicionais de terreiro.
Antônio Frederico de CASTRO ALVES, principal representante da terceira geração
do romantismo no Brasil, conhecido como “Poeta dos Escravos por seus poemas
abolicionistas, refletindo o cotidiano, a política e a cultura. Manifestando a união
da subjetividade do poeta à realidade coletiva, a poesia firma-se uma
ferramenta de resistência e memória e ergue como instituição social. O simples
ato de escrever versos, atua como ferramenta de humanização, alteridade ao
cotidiano e transformação da percepção.
A
poesia afrodescendente pelo mundo é uma voz de resistência, identidade e
ancestralidade, conectando a diáspora africana através da denúncia do racismo e
da celebração da cultura negra. No Brasil, destaca-se a prosa e poesia de
Conceição Evaristo ("Olhos D'Água") e os poemas de Solano Trindade e
Oliveira Silveira, que abordam a memória da escravidão e a identidade
brasileira. A antologia Cadernos Negros é fundamental para a disseminação
desses autores. No Peru, figuras como a afro-peruana Victoria Santa Cruz com o
icônico poema "Me Gritaram Negra" (1960) são pioneiras na valorização
da cultura negra. A poesia afrodescendente dialoga com o movimento da
Négritude, liderado por Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, que valoriza a
herança africana contra o colonialismo. A poesia afrodescendente continua viva
e ativa, servindo como "escrevivência" (termo de Evaristo) – uma
escrita que surge do corpo e da experiência vivida, com o condão de focar na
denúncia da exclusão, no letramento interseccional, na memória da escravidão, no
orgulho racial e na valorização da ancestralidade.
Indiscutivelmente,
a poesia influencia a forma de pensar em contextos políticos ao funcionar como
voz de resistência, crítica social e mobilização coletiva, ao transformar a
linguagem em uma arma simbólica contra opressões, desigualdades e
regimes autoritários, promovendo reflexão e despertando a consciência crítica. Como
afirmou Percy Bysshe Shelley, "os poetas são os legisladores não
reconhecidos do mundo". A poesia,
assim, não apenas reflete a política – ela a transforma. Para muitos, como o
poeta Deivesson Lima, a poesia é um gesto de escuta, memória e esperança, uma
forma de transformar silêncio em voz e nomear o indizível. Segundo o filósofo
Jean-Luc Nancy, ela pode ser entendida como uma forma de discurso em geral, enquanto
Roman Jakobson a define como "a linguagem em sua função estética",
destacando o valor da forma e da sonoridade. Ainda que num mundo
acelerado, a poesia se reinventa através das redes sociais e saraus (slams),
mantendo sua relevância como forma de comunicação rápida e impactante. A poesia
é essencial para a formação crítico-reflexiva do leitor.
Curadora,
a poesia atua como "remédio" para a alma, oferecendo conforto,
contribuindo para a saúde mental e auxiliando na redução de estresse e
bem-estar. Para a professora Elza Ferreira, mesmo sendo "não
utilitarista", ela é fundamental em ambientes técnicos, pois desperta a
ética, a política, a criatividade e lembra que "você não é uma máquina: é
gente". A poesia, portanto, não é apenas arte – é necessidade humana, um
ato de resistência, beleza e transformação. Estudos científicos, como os
realizados na Universidade de Liverpool, mostram que a leitura de poesia ativa
o cérebro de forma benéfica, potencializando a atenção, melhorando a memória e
até ajudando na prevenção do Alzheimer. O hemisfério direito, ligado às emoções
e memórias autobiográficas, é especialmente estimulado, promovendo equilíbrio
emocional e conexões neurais entre os dois hemisférios. Além de desperta o amor
pela língua materna, a poesia estimula a criatividade, amplia a sensibilidade –
promovendo empatia –, estimula a recusa ao conformismo e permite múltiplas
leituras, pois, não se limita a um único significado.
Auspiciosa,
a poesia aborda temas como heroísmo, beleza e sacrifício, ajudando a transmitir
conceitos éticos de forma intuitiva, oportunizando um meio de externalizar o
que é abstrato, como o ódio, o amor ou a saudade, utilizando metáforas e
imagens poéticas. Serve como um repositório de experiências acumuladas e
preserva a cultura de um povo, sendo uma das formas mais antigas de transmissão
de conhecimento. Atua como um espaço de dignidade para o pensamento individual,
oferecendo consolo e clareza em momentos difíceis. A poesia é fundamental para
a alfabetização estética e para a construção de um pensamento crítico-reflexivo
e o faz a partir do uso de rimas, métricas e figuras de linguagem desenvolve a
imaginação e a capacidade de interpretação desde a infância, ensinando a olhar
o mundo com mais sensibilidade e a escutar os próprios sentimentos, funcionando
como uma "pausa" necessária no cotidiano digital. Ela é um espelho da
subjetividade, ajudando na compreensão da realidade através da imaginação e da
estética.
O
universo poético afrodescendente, por exemplo, é marcado pela afirmação da
identidade negra como centro da enunciação, transformando o poeta em
sujeito ativo que reivindica seu lugar na literatura e na
sociedade. Esse universo se constrói a partir de estratégias
poéticas que dialogam com tradições africanas, religiosidades afro-brasileiras,
o cotidiano dos afrodescendentes e a memória da escravidão, como evidenciado em
poemas que usam imagens de "banzo", "navios" e
"currais" para evocar a herança africana e a dor do passado
escravista. A poesia afro-brasileira, como destacado por Maria Nazareth
Soares Fonseca, se divide em duas vertentes principais: uma voltada para o
enfrentamento social e político, e outra que busca resgatar vozes silenciadas e
expressões culturais do povo, trazendo para o texto a oralidade, os ritmos do
corpo e os pequenos gestos do dia a dia. Conceição Evaristo, Adão Ventura, José
Carlos Limeira e Cuti são poetas que, por meio de suas obras, reconstroem uma
epopeia negra, denunciam o preconceito e promovem uma reversão de valores que
valorizam a cultura negra.
O
ponto central dessa literatura está na assunção identitária do eu poético, que
se declara negro e se posiciona contra a invisibilidade e o estigma. Como aponta Eduardo de Assis Duarte, não
basta o tema ou a origem do autor; é essencial o ponto de vista
afro-identificado, um olhar que rompe com a perspectiva dominante e reivindica
uma nova ordem simbólica. A poesia
afro-brasileira, portanto, é um ato de resistência, existência e afirmação cultural.
É um campo vibrante que utiliza a palavra como ferramenta de resistência,
resgate de ancestralidade e afirmação de identidade. Mais do que um estilo
literário, a poesia afrodescendente é um eixo político e pedagógico que
centraliza as vivências de sujeitos negros, combatendo o silenciamento
histórico. A produção poética afrodescendente contemporânea, como a de Carlos
de Assumpção, foca em protesto e na valorização da vida negra, abordando o
afeto como ato de amor e rebeldia e servindo de um elo com as raízes africanas
e com as histórias de sobrevivência na diáspora, transformando a dor em arte e
revolução.
Essa
produção literária constrói novas formas de compreender a história e a cultura
brasileira. Para explorar este universo, vale conhecer nomes fundamentais e
coletivos que abrem caminhos para o estabelecimento da compreensão, da alteridade
e da pertinente – e necessária – inclusão social que são as robustas colunas
sempre dispostas a apresentar aos brasileiros sua identidade, seu povo e sua
nação para que seja, de fato o que direito pretende: o mais próspero, o mais
sábio e o mais feliz pais, constituído da diversidade vivaz que o faz mais belo
e cativante. Conhecer, por exemplo, Maria Firmina dos Reis (autora do
primeiro romance abolicionista no Brasil) e Machado de Assis (Primeiro
Presidente da Academia Brasileira de Letras – da “Casa de Machado de Assis”,
digo), nos imbui na força primaz da brasilidade que abraça incondicionalmente a
todos os brasileiros. E ler “Cadernos Negros”, importante série de antologias
publicada pelo coletivo Quilombhoje desde 1978, nos faz participes da
consolidação da literatura negra contemporânea no Brasil.
Festejar
a poesia é desafiar a lógica racional e subverter significados habituais,
atuando como resistência cotidiana e instrumento de transformação social. Libertadora,
a poesia oferece um "desnudamento do mundo", esvaziando as coisas de
seus significados usuais para criar novos, permitindo enxergar a realidade de
uma maneira única, onde liberta a palavra, ela (re)cria a percepção do mundo e
rompe estruturas opressoras através da subjetividade, fantasia e nova visão do
real. Mais que um texto, é um estado de espírito que permite ao leitor
encontrar a cultura humanística e a reflexão sobre valores vigentes. Poetas
como Sophia de Mello Breyner Andresen usam a palavra para confrontar injustiças
e ditaduras, tornando a poesia um instrumento de libertação e sonho. Recentemente,
a chamada "poesia adversarial" tem sido usada como técnica para
desafiar sistemas de Inteligência Artificial. Por meio de estruturas
metafóricas e simbólicas, ela confunde os filtros de segurança das IAs manifestando
a sagaz complexidade poética humana, que ainda escapa aos algoritmos puramente
lógicos.
Celebrar
o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do
Candomblé é sedimentar e difundir a certeza de que os valores ancestrais
norteiam nosso presente, enquanto construímos o futuro. É um gesto oficial de
respeito e reconhecimento da memória do povo africano e seus descendentes no
Brasil. Por oportuna importância, a data foi escolhida por coincidir com o
Dia Internacional contra a Discriminação Racial da ONU, instituída pela Resolução
2142 (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 26 de outubro de
1966, reforçando a luta por direitos, e por garantias à vida e à dignidade da
pessoa humana; e para mobilizar a comunidade internacional para eliminar todas
as formas de discriminação racial e o racismo. Reconhecer os terreiros de
Candomblé como espaços de resistência e preservação de tradições ancestrais,
dignifica nossa brasilidade, pois, conforme o Censo 2022 do IBGE, cerca de
55,5% a 56,1% da população brasileira se autodeclara negra. Esse total é a soma
dos pardos (aprox. 45,3%) e dos pretos (aprox. 10,2%). Nacionalismo é conhecer
quem somos!
Nascida
na antiguidade remota, com o desenvolvimento da linguagem articulada, muito
antes da escrita, a poesia, inicialmente oral e ligada à música e rituais,
floresceu em civilizações como a hindu e suméria (há mais de 5.000 anos) com
epopeias como Gilgamesh, utilizando versos para transmitir conhecimento e
crenças. Ela atua como uma ponte que une o sagrado (admirável, transcendente) e
o profano (ordinário, cotidiano), transformando o cotidiano em experiência
espiritual e o divino em linguagem humana, não sendo surpreendente, sua maviosa
presença nos rezos e no corpo literário de Ifá, cujos ensinamentos são
transmitidos oralmente através de versos poéticos chamados ẹsẹ̀ Ifá,
organizados nos 256 Odù, que contêm narrativas, provérbios e prescrições
rituais cantadas ou recitadas pelos babalaôs. A poesia, portanto, funciona
como uma linguagem universal que busca o belo e a expressão de sentimentos
profundos, moldando-se ao longo da história da humanidade. Comemorar a graça da
poesia em tudo que há é auferir os conhecimentos por ela guardados ao longa das
eras e consagrá-los aos propósitos da vida.
Maranguape,
Ceará, 21 de Março de 2026
ACADEMIA
INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria
de Comunicação Social
Bruno
Bezerra de Macedo

Excelente reflexão.
ResponderExcluirO texto evidencia, com sensibilidade e consistência, como a poesia transcende o campo estético e se afirma como instrumento de memória, identidade e transformação social.
Uma leitura que enriquece e provoca o pensamento.