sábado, 21 de março de 2026

QUANDO A POESIA ENCONTRA A TRADIÇÃO A BRASILIDADE RESPLANDECE

 

O Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO durante a sua 30ª Conferência Geral, realizada em 16 de novembro de 1999 com o objetivo de promover a diversidade das línguas, pois, a poesia é meio, jamais fim. Nela acham guarida e vida os idiomas ameaçados, que por ela continuam a falar em suas, respectivas, comunidades. A poesia manifesta a palavra como vetor de socialização e de fortalecimento da pessoa em sua dignidade, contribuindo de forma encantadora para (re)descoberta dos valores essenciais, a partir dos quais mantemo-nos aprendizes de nós mesmos, da natureza e do universo sempre que nos assentamos à banca para as pertinentes (re)leituras da viva. Um vida bem vivida, viceja conexões, interatividades e intercâmbios culturais – nacionais, como também, internacionais – encontrando na poesia a arte de assim realizar, pois, sendo plântula da inventividade que tem suas raízes na palavra tanto escrita, quanto oral, favorece sempre o encontro, o encanto e o pertencimento unindo povos e nações num só sonido do coração: liberdade, igualdade e fraternidade.

 

A poesia espelha e agencia transformações sociais, registrando valores, conflitos e emoções de uma época. Ela transcende a estética para denunciar injustiças, como na obra de Castro Alves, bem lembrado oportunamente neste dia em que, também, o celebramos o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé, instituído pela Lei nº 14.519/2023, com o fito de valorizar a cultura afro-brasileira, promover o respeito à diversidade religiosa, combater o racismo religioso e celebrar a resistência dos povos tradicionais de terreiro. Antônio Frederico de CASTRO ALVES, principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil, conhecido como “Poeta dos Escravos por seus poemas abolicionistas, refletindo o cotidiano, a política e a cultura. Manifestando a união da subjetividade do poeta à realidade coletiva, a poesia firma-se uma ferramenta de resistência e memória e ergue como instituição social. O simples ato de escrever versos, atua como ferramenta de humanização, alteridade ao cotidiano e transformação da percepção.

 

A poesia afrodescendente pelo mundo é uma voz de resistência, identidade e ancestralidade, conectando a diáspora africana através da denúncia do racismo e da celebração da cultura negra. No Brasil, destaca-se a prosa e poesia de Conceição Evaristo ("Olhos D'Água") e os poemas de Solano Trindade e Oliveira Silveira, que abordam a memória da escravidão e a identidade brasileira. A antologia Cadernos Negros é fundamental para a disseminação desses autores. No Peru, figuras como a afro-peruana Victoria Santa Cruz com o icônico poema "Me Gritaram Negra" (1960) são pioneiras na valorização da cultura negra. A poesia afrodescendente dialoga com o movimento da Négritude, liderado por Aimé Césaire e Léopold Sédar Senghor, que valoriza a herança africana contra o colonialismo. A poesia afrodescendente continua viva e ativa, servindo como "escrevivência" (termo de Evaristo) – uma escrita que surge do corpo e da experiência vivida, com o condão de focar na denúncia da exclusão, no letramento interseccional, na memória da escravidão, no orgulho racial e na valorização da ancestralidade.

 

Indiscutivelmente, a poesia influencia a forma de pensar em contextos políticos ao funcionar como voz de resistência, crítica social e mobilização coletiva, ao transformar a linguagem em uma arma simbólica contra opressões, desigualdades e regimes autoritários, promovendo reflexão e despertando a consciência crítica. Como afirmou Percy Bysshe Shelley, "os poetas são os legisladores não reconhecidos do mundo".  A poesia, assim, não apenas reflete a política – ela a transforma. Para muitos, como o poeta Deivesson Lima, a poesia é um gesto de escuta, memória e esperança, uma forma de transformar silêncio em voz e nomear o indizível. Segundo o filósofo Jean-Luc Nancy, ela pode ser entendida como uma forma de discurso em geral, enquanto Roman Jakobson a define como "a linguagem em sua função estética", destacando o valor da forma e da sonoridade. Ainda que num mundo acelerado, a poesia se reinventa através das redes sociais e saraus (slams), mantendo sua relevância como forma de comunicação rápida e impactante. A poesia é essencial para a formação crítico-reflexiva do leitor. 

 

Curadora, a poesia atua como "remédio" para a alma, oferecendo conforto, contribuindo para a saúde mental e auxiliando na redução de estresse e bem-estar. Para a professora Elza Ferreira, mesmo sendo "não utilitarista", ela é fundamental em ambientes técnicos, pois desperta a ética, a política, a criatividade e lembra que "você não é uma máquina: é gente". A poesia, portanto, não é apenas arte – é necessidade humana, um ato de resistência, beleza e transformação. Estudos científicos, como os realizados na Universidade de Liverpool, mostram que a leitura de poesia ativa o cérebro de forma benéfica, potencializando a atenção, melhorando a memória e até ajudando na prevenção do Alzheimer. O hemisfério direito, ligado às emoções e memórias autobiográficas, é especialmente estimulado, promovendo equilíbrio emocional e conexões neurais entre os dois hemisférios. Além de desperta o amor pela língua materna, a poesia estimula a criatividade, amplia a sensibilidade – promovendo empatia –, estimula a recusa ao conformismo e permite múltiplas leituras, pois, não se limita a um único significado.

 

Auspiciosa, a poesia aborda temas como heroísmo, beleza e sacrifício, ajudando a transmitir conceitos éticos de forma intuitiva, oportunizando um meio de externalizar o que é abstrato, como o ódio, o amor ou a saudade, utilizando metáforas e imagens poéticas. Serve como um repositório de experiências acumuladas e preserva a cultura de um povo, sendo uma das formas mais antigas de transmissão de conhecimento. Atua como um espaço de dignidade para o pensamento individual, oferecendo consolo e clareza em momentos difíceis. A poesia é fundamental para a alfabetização estética e para a construção de um pensamento crítico-reflexivo e o faz a partir do uso de rimas, métricas e figuras de linguagem desenvolve a imaginação e a capacidade de interpretação desde a infância, ensinando a olhar o mundo com mais sensibilidade e a escutar os próprios sentimentos, funcionando como uma "pausa" necessária no cotidiano digital. Ela é um espelho da subjetividade, ajudando na compreensão da realidade através da imaginação e da estética.

 

O universo poético afrodescendente, por exemplo, é marcado pela afirmação da identidade negra como centro da enunciação, transformando o poeta em sujeito ativo que reivindica seu lugar na literatura e na sociedade.  Esse universo se constrói a partir de estratégias poéticas que dialogam com tradições africanas, religiosidades afro-brasileiras, o cotidiano dos afrodescendentes e a memória da escravidão, como evidenciado em poemas que usam imagens de "banzo", "navios" e "currais" para evocar a herança africana e a dor do passado escravista. A poesia afro-brasileira, como destacado por Maria Nazareth Soares Fonseca, se divide em duas vertentes principais: uma voltada para o enfrentamento social e político, e outra que busca resgatar vozes silenciadas e expressões culturais do povo, trazendo para o texto a oralidade, os ritmos do corpo e os pequenos gestos do dia a dia. Conceição Evaristo, Adão Ventura, José Carlos Limeira e Cuti são poetas que, por meio de suas obras, reconstroem uma epopeia negra, denunciam o preconceito e promovem uma reversão de valores que valorizam a cultura negra.

 

O ponto central dessa literatura está na assunção identitária do eu poético, que se declara negro e se posiciona contra a invisibilidade e o estigma.  Como aponta Eduardo de Assis Duarte, não basta o tema ou a origem do autor; é essencial o ponto de vista afro-identificado, um olhar que rompe com a perspectiva dominante e reivindica uma nova ordem simbólica.  A poesia afro-brasileira, portanto, é um ato de resistência, existência e afirmação cultural. É um campo vibrante que utiliza a palavra como ferramenta de resistência, resgate de ancestralidade e afirmação de identidade. Mais do que um estilo literário, a poesia afrodescendente é um eixo político e pedagógico que centraliza as vivências de sujeitos negros, combatendo o silenciamento histórico. A produção poética afrodescendente contemporânea, como a de Carlos de Assumpção, foca em protesto e na valorização da vida negra, abordando o afeto como ato de amor e rebeldia e servindo de um elo com as raízes africanas e com as histórias de sobrevivência na diáspora, transformando a dor em arte e revolução.

 

Essa produção literária constrói novas formas de compreender a história e a cultura brasileira. Para explorar este universo, vale conhecer nomes fundamentais e coletivos que abrem caminhos para o estabelecimento da compreensão, da alteridade e da pertinente – e necessária – inclusão social que são as robustas colunas sempre dispostas a apresentar aos brasileiros sua identidade, seu povo e sua nação para que seja, de fato o que direito pretende: o mais próspero, o mais sábio e o mais feliz pais, constituído da diversidade vivaz que o faz mais belo e cativante. Conhecer, por exemplo, Maria Firmina dos Reis (autora do primeiro romance abolicionista no Brasil) e Machado de Assis (Primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras – da “Casa de Machado de Assis”, digo), nos imbui na força primaz da brasilidade que abraça incondicionalmente a todos os brasileiros. E ler “Cadernos Negros”, importante série de antologias publicada pelo coletivo Quilombhoje desde 1978, nos faz participes da consolidação da literatura negra contemporânea no Brasil.

 

Festejar a poesia é desafiar a lógica racional e subverter significados habituais, atuando como resistência cotidiana e instrumento de transformação social. Libertadora, a poesia oferece um "desnudamento do mundo", esvaziando as coisas de seus significados usuais para criar novos, permitindo enxergar a realidade de uma maneira única, onde liberta a palavra, ela (re)cria a percepção do mundo e rompe estruturas opressoras através da subjetividade, fantasia e nova visão do real. Mais que um texto, é um estado de espírito que permite ao leitor encontrar a cultura humanística e a reflexão sobre valores vigentes. Poetas como Sophia de Mello Breyner Andresen usam a palavra para confrontar injustiças e ditaduras, tornando a poesia um instrumento de libertação e sonho. Recentemente, a chamada "poesia adversarial" tem sido usada como técnica para desafiar sistemas de Inteligência Artificial. Por meio de estruturas metafóricas e simbólicas, ela confunde os filtros de segurança das IAs manifestando a sagaz complexidade poética humana, que ainda escapa aos algoritmos puramente lógicos.

 

Celebrar o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé é sedimentar e difundir a certeza de que os valores ancestrais norteiam nosso presente, enquanto construímos o futuro. É um gesto oficial de respeito e reconhecimento da memória do povo africano e seus descendentes no Brasil. Por oportuna importância, a data foi escolhida por coincidir com o Dia Internacional contra a Discriminação Racial da ONU, instituída pela Resolução 2142 (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 26 de outubro de 1966, reforçando a luta por direitos, e por garantias à vida e à dignidade da pessoa humana; e para mobilizar a comunidade internacional para eliminar todas as formas de discriminação racial e o racismo. Reconhecer os terreiros de Candomblé como espaços de resistência e preservação de tradições ancestrais, dignifica nossa brasilidade, pois, conforme o Censo 2022 do IBGE, cerca de 55,5% a 56,1% da população brasileira se autodeclara negra. Esse total é a soma dos pardos (aprox. 45,3%) e dos pretos (aprox. 10,2%). Nacionalismo é conhecer quem somos!

 

Nascida na antiguidade remota, com o desenvolvimento da linguagem articulada, muito antes da escrita, a poesia, inicialmente oral e ligada à música e rituais, floresceu em civilizações como a hindu e suméria (há mais de 5.000 anos) com epopeias como Gilgamesh, utilizando versos para transmitir conhecimento e crenças. Ela atua como uma ponte que une o sagrado (admirável, transcendente) e o profano (ordinário, cotidiano), transformando o cotidiano em experiência espiritual e o divino em linguagem humana, não sendo surpreendente, sua maviosa presença nos rezos e no corpo literário de Ifá, cujos ensinamentos são transmitidos oralmente através de versos poéticos chamados ẹsẹ̀ Ifá, organizados nos 256 Odù, que contêm narrativas, provérbios e prescrições rituais cantadas ou recitadas pelos babalaôs. A poesia, portanto, funciona como uma linguagem universal que busca o belo e a expressão de sentimentos profundos, moldando-se ao longo da história da humanidade. Comemorar a graça da poesia em tudo que há é auferir os conhecimentos por ela guardados ao longa das eras e consagrá-los aos propósitos da vida.

 

Maranguape, Ceará, 21 de Março de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

Um comentário:

  1. Excelente reflexão.
    O texto evidencia, com sensibilidade e consistência, como a poesia transcende o campo estético e se afirma como instrumento de memória, identidade e transformação social.

    Uma leitura que enriquece e provoca o pensamento.

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