domingo, 8 de março de 2026

DA VÊNUS DE WILLENDORF A ROSÉLIA MACEDO, COCRIA -SE AMOR.

 

A ideia da mulher como criadora do universo está profundamente arraigada em mitologias antigas, tradições religiosas e simbologias culturais ao redor do mundo. Em diversas civilizações, figuras femininas são vistas como a fonte primordial da vida e da criação. O feminino é a forma superior do universo, possuindo uma força invisível que une luz, sombra, espiritualidade e matéria. Na mulher, o Sagrado Feminino manifesta uma força geradora que molda a realidade, parindo projetos, filhos e vida.


O sagrado feminino liga a mulher à terra, aos ciclos naturais e à intuição, funcionando como um "portal" pelo qual a vida chega à Terra. Além da procriação biológica, as mulheres são co-criadoras da realidade, efluindo inventividade, dando vida a mundos de ideias, ideais e prodígios. O universo é sua “forma", conforme perspectivas místicas, como quer que ela se assuma (homem ou mulher) é considerada superior. A mulher não somente é a cuidadora, é a primaz detentora da energia criativa essencial.


Estudiosos da neurociência e da espiritualidade, nesta contemporaneidade, debatem a mulher como "co-criadora”, tanto por sua capacidade biológica de gerar vida (parir filhos), quanto por sua habilidade intelectual e espiritual de "parir" gestar sonhos e e parir realidades. Prodigiosa desde a mais tenra idade da humanidade, é venerada na Arte Rupestre em representações como a Vênus de Willendorf, datada de cerca de 28.000 anos a.C., simbolizando a fertilidade e a força criadora feminina.


Portentosa, a mulher é, historicamente, notabilizada em muitas culturas pré-abraâmicas que adoravam divindades femininas como as criadoras primordiais e mantenedoras de tudo o que existe, dentre elas, Cibele. Apesar de não ser uma deusa-mãe em si, Europa - de eurus (largo, amplo) + ops (olho, rosto), que pode indicar "ampla visão" ou se referir à "terra de amplas margens" - é personificada como a mãe do continente europeu.


Neite (ou Neith) era uma das divindades mais antigas do panteão egípcio, conhecida como a criadora do universo. Chamada de "Mãe dos Deuses", "A Grande Deusa" e "Avó dos Deuses", e abrange múltiplos domínios: guerra, caça, tecelagem, sabedoria, água, destino e funerais. Por verosimidade, os gregos a têm como Gaia (ou Geia), mãe de todos os deuses e criadora de todas as coisas vivas, denotando a Terra, magnífico colo que abriga a diversidade de criaturas cuja interdependência manifesta a Deusa.


No cristianismo, Maria é reverenciada como a Mãe de Deus (Theotokos), uma figura de intercessão e proteção. Embora não seja criadora do universo no sentido criacional, ela é considerada a Mãe da Humanidade espiritual, com papéis centrais na salvação e na mediação entre os fiéis e Deus. Sua imagem se assemelha às deusas antigas, como Ísis (egípcia) e Gaia (Europa), por exemplo, que também aparecia com o filho ao colo. A energia da mãe se manifesta independente de como a denominamos.


Nas tradições afrodescendentes, os povos jejes, que têm uma tradição matriarcal, tem Nanã Buruku como a Mãe do Universo. Segundo a mitologia jeje, ela é a entidade que deu origem ao mundo, junto com as serpentes Aido Wedo e Dangbala. Nanã Buruku (Saluba Nanã) moldou o mundo, a terra, o barro e as águas, estabelecendo os fundamentos da vida, morte e sabedoria ancestral. Ela responsável por dar vida aos animais, às plantas e por incumbir os gêmeos Mawu-Lisa de criar os seres humanos.


Entre os povos do Daomé (região da atual Benin), a criação do universo é relacionada a uma divindade principal com duas faces: Lisa (representando o Sol) e Mawu (representando a Lua). Essa dualidade divina é interpretada como uma forma de Mãe do Universo, já que, o cosmos se originou de sua divisão. A serpente cósmica, filha dessa divindade, e seu filho Gu são responsáveis por moldar o universo, reforçando a ideia de que a criação é um ato sagrado feminino e cósmico.


O culto de Nanã Buruku no Brasil, dentro do Candomblé Jeje, enfatiza seu papel como a guardiã do portal entre a vida e a morte (o retorno à terra).A parceria com Aido Wedo (o arco-íris) e Dan (a serpente) simboliza a união entre o céu, a terra e o movimento que mantém o cosmos em equilíbrio. Nanã fornece a "matéria-prima" e o sopro, enquanto o par de gêmeos executa a modelagem da humanidade, consolidando uma estrutura familiar e espiritual profundamente matriarcal.


Além das figuras míticas, mulheres históricas também mudaram a forma como entendemos o universo. Um melhor entendimento muda a forma de pensar. Mudar pensamentos, muda a forma de interpretar e de interagir com o mundo, criando novas realidades. Essa ideia ecoa tanto na psicologia quanto na filosofia: “a vida é o que nossos pensamentos a tornam”, preceituam os Estoicos. Tudo começa no pensamento - essa é a base de uma transformação profunda, tanto no plano pessoal quanto no universo que nos cerca.


Mulheres como Marlene dos Santos Santana, da Reserva Extrativista de Canavieiras, Bahia, exemplificam essa mudança ao se organizar na Associação Mãe da Reserva (Amex), lutar pelos direitos das pescadoras e promover a igualdade de gênero, mesmo em contextos de extrema vulnerabilidade. Sua atuação, aliada à criação da Moex - uma moeda social que mantém o lucro na comunidade - mostra como a maternidade pode ser um motor de transformação coletiva, cujo papel vai além do cuidado familiar.


Outra figura emblemática é Maria de Fátima, agricultora cearense que, apesar de ter tido a aposentadoria negada por não conseguir provar seu trabalho desde os nove anos, decidiu escrever uma carta ao presidente para reivindicar justiça. Descrita como alguém que não se submete à dor ou ao desânimo, enfrentando desafios com coragem. Sua coragem e determinação transformam o sofrimento em denúncia política, desafiando estigmas e mostrando que a mulher nordestina é agente de sua própria história.


Essas mulheres, e muitas outras, como Marta, Nise da Silveira e Margarida, não apenas enfrentam adversidades, como também, (re)definem o pensamento sobre identidade, gênero e resistência. Elas desafiam narrativas estereotipadas de submissão e pobreza, mostrando que a força da mulher nordestina está na capacidade de criar, liderar, educar e transformar - não apenas sua vida, mas a sociedade. Bráulio Bessa, exalta a mãe nordestina como um "pedaço de Deus" e a base de valores inegociáveis.


A mãe nordestina, em essência, é um símbolo de resiliência, ancestralidade e força vital. Sua essência é sobrevivência com dignidade, amor incondicional e esperança. Representa a figura da mulher que, diante das adversidades do sertão - como a seca, a pobreza e a migração -, mantém viva a vida, a cultura e o amor através do vínculo maternal. Sua identidade está profundamente ligada à fé, à devoção religiosa e ao trabalho constante, seja na roça, na casa ou na luta por dignidade.


A mulher nordestina é um pilar fundamental da sociedade brasileira, pois, é protagonistas na preservação da cultura, no desenvolvimento econômico rural e urbano, e na liderança comunitária, conciliando dupla jornada de trabalho com a luta em prol do bem coletivo. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a personagem Sinhá Vitória representa a força feminina diante da adversidade. É protagonista da informalidade e empreendedorismo, sustentando famílias com vendas de produtos típicos, artesanato e serviços.


A valorização do protagonismo feminino tem crescido, com comissões de mulheres no agronegócio (FAEC/SENAR) e maior reconhecimento da gestão humanizada. Apesar de maior escolaridade, enfrenta desigualdades no mercado de trabalho: rendimento médio 15% menor que o dos homens, 39% de subutilização da força de trabalho e carga de cuidados quase o dobro da dos homens. Na cultura, a mulher nordestina é guardiã dos costumes, preservando tradições por meio da culinária, do artesanato, da música, das festas juninas, dos maracatús e frevos, etc.


A quem Deus alumia, a escuridão não aterroriza. Ela é fiandeira e tecelã de histórias, conectada à terra, à natureza e à espiritualidade, sendo muitas vezes associada a arquétipos de deusas como Gaia, Nanã Buruku, Yemanjá e Maria, mãe de Jesus, que simbolizam proteção, cura e a fecundidade. A relevância da mulher nordestina repousa na alteridade com que lidera, resisti e transforma, sendo essencial para o desenvolvimento da região.


Essa força é celebrada não apenas como um dom genético, mas, como uma escolha diária de persistir e cuidar, transmutar a escassez em abundância de afeto, convertendo o "pouco em tudo" para garantir a dignidade da família. As mulheres da Família Macedo, como Rosilda, Daniela, Rosélia, Bruna e Rosildinha, transformam o ambiente familiar ao priorizar o caráter e o respeito, ensinando que os maiores tesouros são a família e os valores morais, e não os bens materiais. Seu amar é cocriação perene.


Imbuídos neste espírito, como ocorre há décadas de milênio, festejamos nestas horas que seguem mais um Dia da Mulher, ainda que saibamos que cortejá-las e tributar-lhe no amor-reconhecimento, amor-gratidão, amor-felicidade seja um honrado dever a se cumprir todos os dias em presença da mulher: avó, mãe, irmã, esposa, filha, amiga e/ou aquelas que eflorescem em nosso entorno. Oficializada pela ONU em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher, esta data tem o fito de oportunizar a igualdade de gênero, de reconhece-lhe suas conquistas e de consagrar-lhe nosso amor.


Maranguape, Ceará, 08 de Março de 2026


ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo


sábado, 7 de março de 2026

SEM PASSADO, NINGUÉM TEM FUTURO

 

Neste dia (07/03) festejamos o Dia do Paleontólogo - do cientista especializado no estudo da história da vida na Terra, analisando fósseis de animais, plantas, bactérias e fungos para compreender a evolução biológica e os ecossistemas do passado. A Paleontologia reconstrói e interpreta organismos que viveram em eras geológicas passadas, sendo fundamental para compreender a evolução, paleoclimas e paleoecologia. Ela reconstrói o desenvolvimento físico dos seres humanos.


Sim, a paleontologia conta a história do homem no mundo, focando principalmente nas etapas pré-históricas e evolutivas, utilizando fósseis para rastrear a origem da nossa espécie (gênero Homo) e seus ancestrais (como os Australopithecus). Paleontólogos investigam as evidências físicas dos primeiros hominídeos que surgiram na África, analisando ossos, dentes e pegadas para compreender a bipedalidade (postura ereta) e o aumento do volume craniano. Podendo contar sua história.


A ideia de que o homem teria futuro sem a história é contraditória, pois a própria existência humana é historicidade — o ser humano se realiza, se constrói e se projeta no tempo através da ação histórica. Como aponta o pensamento filosófico, especialmente em autores como Gevaert e Caldera, o ser humano é "um vir-a-ser", um projeto em constante transformação que só se realiza no diálogo com o passado e a responsabilidade pelo futuro. Quem não tem passado, não tem futuro, digo-vos eu.


O homem só tem futuro porque viveu e vive a história. Sem história, não há identidade, memória, cultura ou projeto coletivo - e, sem isso, o futuro perde sentido. Ela funciona como um mapa que impede a repetição de tragédias (o passado como "lição") e permite a construção de um futuro mais consciente, ético e planejado. A história transforma a experiência vivida em sabedoria acumulada para o futuro. E fornece o contexto, a memória coletiva e as lições dos erros e acertos do passado.


Um futuro sem história seria um "eterno presente" ou uma repetição cíclica de erros, anulando o progresso humano. Ou seja, sem história, não há homem como agente consciente e responsável - o futuro não é dado, mas, habilidosamente, construído coletivamente a partir das decisões, lutas e escolhas do presente. Marx afirma que "os homens fazem a sua própria história, porém, não a fazem como querem", já que, as condições históricas moldam as ações humanas, embora jamais as elimine.


Além disso, argumentam Schopenhauer e pensadores do pessimismo filosófico, o sofrimento humano é uma constante histórica, mas, a consciência desse sofrimento é também um produto da história. Portanto, o futuro humano só pode ser pensado dentro do contexto histórico, não como algo que existiria independentemente dele. O estudo da história nunca é somente sobre o passado, pois, firma-se dia a dia como uma ferramenta criadora de novas possibilidades e soluções para problemas atuais.


A História não é apenas um registro de datas, mas a "ciência dos homens no tempo", preceitua o célebre Historiador Marc Bloch, posto que, se abnega a compreender o ser humano, suas ações - e transformações - em um determinado período de tempo – a ação dos seres humanos no contexto social e temporal. O tempo não é apenas cronológico, mas, (r)evolucionariamente, a duração em que os fenômenos ocorrem e encontram sua inteligibilidade, sendo um meio contínuo e em constante mudança.


Por oportuno, lembro que esta abordagem, ligada à Escola dos Annales, inovou a historiografia ao focar nas estruturas sociais e na vida cotidiana dos homens, em vez de apenas grandes eventos políticos. Envolve compreender as motivações, valores e contextos dos indivíduos, grupos e civilizações, para melhor entender o presente e as mudanças ao longo do tempo. A história é essencial para o melhor entendimento do desenvolvimento humano - sociais, culturais e políticas - em seu caminhar rumo ao futuro.


Indubitavelmente, ideias de futurismo e progresso tecnológico são conceitos construídos sobre o acúmulo de conhecimento histórico. Sem o legado de gerações anteriores, cada indivíduo teria que "reinventar a roda" a cada vida. O poeta Fernando Pessoa ao indagar quem escreveria a "história do que poderia ter sido", ou seja, o passado, como um prisma, iluminado pelo clarão do nosso olhar do presente, oferta um largo espectro de oportunidades – realizadas ou não – e todas são fundamentais ao porvir.


O conceito de progresso tecnológico e social é relativamente recente. No passado, muitas sociedades viam o tempo como uma "Era de Ouro" como já é vastamente difundida. A história permite que o homem acumule conhecimento e se construa sobre as bases deixadas por gerações anteriores, com a mesma dedicação com erige a sociedade que o motiva a ser historiador de si e do mundo que cocria juntamente com seus pares - sem saber sua origem, não se pode traçar metas coletivas para onde se quer ir.


Desbravadoramente, para que o homem tenha um "futuro", ele precisa de um objetivo. A História não apenas registra o passado; ela é a base da nossa identidade, da nossa capacidade de aprendizado e do que nos diferencia das outras espécies. Sem ela, o homem seria incapaz de evoluir ou planejar o amanhã. Direitos humanos, democracia e medicina avançada são produtos de séculos de lutas históricas. Sem esse lastro, o futuro seria um vazio sem propósito. E o homem não arquitetaria seu destino.


Sob o auspício da paleoantropologia - ramo da paleontologia focado na evolução humana, o que inclui estudos sobre a migração dos ancestrais da África e fósseis encontrados ao redor do mundo - a história serve como um alerta e um guia ético para as escolhas que fazemos hoje. A ciência combina dados de genética, biologia, geologia e ecologia para reconstruir o passado dos seres humanos e suas interações com o ambiente, portanto, historia evolução do homem e do ecossistema Terra.

A paleontologia contemporânea evoluiu de uma ciência baseada apenas em "desenterrar ossos" para uma disciplina de alta tecnologia que utiliza métodos digitais e análises moleculares para entender a história da vida. O uso de tomografias computadorizadas, por exemplo, permite visualizar o interior de fósseis e ovos sem danificá-los. Fósseis de plantas e microrganismos são usados como "termômetros" do passado, ajudando a prever os efeitos do aquecimento global atual.


Além da tomografia computadorizada, a datação radiométrica e a análise química oportunizam interpretações cada vez mais precisas dos registros fossilíferos, abrindo janelas para o passado geológico, essencial para compreender a biodiversidade atual e os processos evolutivos que moldaram a vida na Terra. Isso tem impulsionado áreas como paleoecologia, paleoclimatologia e micropaleontologia, que são fundamentais para entender mudanças climáticas passadas e a prospecção de recursos como petróleo.


Caprichosamente, ao investigar as origens da vida, evolução, extinções em massa, mudanças climáticas e adaptações ambientais ao longo de bilhões de anos, os paleontólogos interpretam anatomia, comportamento e ambientes antigos, indo muito além de apenas estudar dinossauros. Ao analisar fósseis, sedimentos e a geocronologia, eles descrevem prodigiosamente criaturas antigas, decifram como a vida respondeu às mudanças climáticas e extinções em massa ao longo de bilhões de anos.


A paleontologia ao estudar minuciosamente o "morto"; oferece lições vitais para o presente e o futuro. Compreender as mudanças biogeoquímicas do passado ajuda a quantificar o impacto das atividades humanas atuais, como a emissão de gases de efeito estufa. Ela funciona como o "setor de perícia" da história da Terra; ao investigar as causas de colapsos biológicos passados, resulta em nos fornece a perspectivas necessárias para o melhor entender a gravidade da crise atual.


Explicar as extinções em massa do passado, a paleontologia ajuda a prever e a mitigar os impactos das mudanças climáticas atuais sobre a vida contemporânea, como também, e principalmente, a traçar estratégias de conservação da vida nos dias atuais. O maior perigo hoje não é unicamente o aquecimento global, mas, a velocidade com que ele ocorre. A paleontologia é um poderosa ferramenta de sobrevivência estratégica à disposição da espécie que conscienciosamente da segurança e vida da Terra.


No Brasil, a pesquisa paleontológica está em expansão, com instituições como o Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Paleovert reunindo pesquisadores de ponta. Descobertas recentes, como fósseis de pterossauros na China e de "tatu gigante" no Sul do país, demonstram o impacto global da ciência brasileira. A paleontologia permite ao homem ser o sujeito do seu próprio destino, em vez de apenas um espectador da natureza, pois, o presente é mutável e o futuro construível.


Sem esse olhar para trás que nos oportuniza a paleontologia, não teríamos ferramentas intelectuais, tão pouco a consciência necessária para dar um passo à frente e transforma os dias e a vida. Essa data (07/03) é uma oportunidade para refletir sobre a importância da paleontologia no entendimento da evolução histórico biológica e do patrimônio natural do planeta. A celebração reforça a relevância dos fósseis como testemunhas únicas do passado, com valor científico, educativo e cultural.


Além de valorizar o trabalho científico, o dia de hoje destaca o papel fundamental dos paleontólogos na educação, na preservação de sítios arqueológicos, na inspiração de novas gerações de pesquisadores. Como também, ressalta que o conhecimento paleontológico é fundamental na prospecção de combustíveis fósseis (petróleo e carvão), no desenvolvimento do turismo científico e cultural (geoparques e museus), criação de políticas de contenção dos efeitos as mudanças climáticas.


O Dia do Paleontólogo é celebrado anualmente em 7 de março, data escolhida pela Sociedade Brasileira de Paleontologia (SBP), em 1958, para homenagear profissionais que com o passado consolidam no presente o futuro de prodígios e de prosperidade que constroem seguramente a bem de todos os seres vivos do planeta Terra. No Brasil, a paleontologia tem figuras históricas importantes, como o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, considerado o "pai da paleontologia brasileira".


Maranguape, Ceará, 07 de Março de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Maria Aurélia Abreu Braga
Cadeira ACLA nº 18

sexta-feira, 6 de março de 2026

DE MICHELANGELO A PATATIVA SETE SÍLABAS ESCULPEM O DESTINO

 

Escultura é uma forma de arte tridimensional que transforma materiais brutos - como pedra, metal, madeira, argila, mármore, gesso ou resinas - em formas com volume, altura e profundidade. É uma forma de arte tridimensional que molda, talha ou constrói materiais sólidos para criar formas expressivas, figuras humanas ou conceitos abstratos.


Considera uma das artes plásticas e, tradicionalmente, uma das artes clássicas, surgiu no período Paleolítico Superior (Idade da Pedra Lascada), com as primeiras estatuetas de marfim e osso, como a Vênus de Willendorf (aprox. 29.500 a.C.) descoberta na Áustria em 1908 e o Homem-Leão (aprox. 35.000-41.000 a.C.), encontrado na Alemanha em 1939.


Essas peças indicam um impulso artístico inato e uma busca simbólica pelo significado, já presentes nos primeiros estágios da humanidade: na Pré-História, no Oriente Médio e na Grécia Clássica, aprimorada pelos romanos e destacou-se no Renascimento, com artistas como Michelangelo, Donatello, Auguste Rodin eAndrea del Verrocchio.


A escultura renascentista, desenvolvida principalmente na Itália entre os séculos XV e XVI, valorizou o humanismo, a anatomia precisa, a proporção perfeita e o uso de técnicas como o contraposto. Materiais como mármore, bronze e madeira foram amplamente utilizados, e as obras exaltavam o potencial humano, refletindo os ideais do movimento.


No Brasil, a escultura consolidou-se no período Colonial, especialmente com o Barroco e o Rococó no século XVIII, no qual Antonio Francisco de Lisboa (Aleijadinho) é seu maior expoente. Suas obras variam entre estátuas de vulto pleno (busto/corpo inteiro), alto-relevo e baixo-relevo, integrando fachadas de igrejas e prédios, altares e os Profetas em Congonhas.


Marcada por expressões vívidas, roupas esvoaçantes, olhos amendoados e, no caso de Aleijadinho, elementos singulares como cabelos encaracolados e pés em forma de caracol. O auge dessa produção ocorreu nas cidades mineiras como Ouro Preto (Vila Rica), Congonhas e São João del-Rei, sob o auspício do ciclo do ouro e da profunda religiosidade da época.


Aleijadinho, mulato mineiro, destacou-se por esculpir com maestria a pedra-sabão e talhar madeira, mesmo com limitações físicas graves. Essa escultura colonial não é estática; ela interage com o ambiente por meio da luz natural, que acentua o drama, e da perspectiva, criando efeitos de cenografia, especialmente em conjuntos como os Passos da Paixão.


Com a chegada do Neoclassicismo, impulsionado pela Missão Artística Francesa (1816) e vinda da corte portuguesa para o Brasil (1808), a escultura evolui, com o surgimento da Academia Imperial de Belas Artes e o fortalecimento do sistema acadêmico, substituindo a estética Barroca por um estilo baseado na razão, equilíbrio e temas clássicos.


Esse período marca a transição da tradição barroca e rococó, de caráter predominantemente religioso e artesanal, para uma produção laica, oficial e institucionalizada. Artistas como Jean-Baptiste Debret e Auguste Marie Taunay trouxeram a estética europeia, visando um "projeto civilizatório" e a modernização da nova sede da corte.


Com a criação da Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) – inicialmente "Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios" –, a escultura acadêmica consolidou o uso do mármore, proporções harmônicas e figuras heroicas, influenciada, a priori, por artistas franceses como Marc Ferrez (no ensino inicial) e, posteriormente, brasileiros como Chaves Pinheiro.


A transição para o Neoclassicismo foi um projeto político-cultural que redefiniu a produção artística, moldando a identidade visual do Brasil Imperial. A Academia Imperial de Belas Artes foi um dos principais instrumentos para modernizar o país, retratando o Brasil como uma nação civilizada e progressista, contrastando sua imagem barroca.


No século XIX, a escultura ainda estava em segundo plano em relação à pintura, mas no início do século XX, com o Modernismo, houve uma ruptura com o academismo. Artistas como Victor Brecheret, precursor da escultura modernista brasileira, e Alfredo Ceschiatti exploraram novos materiais, formas abstratas e temas ligados à identidade nacional.


Na década de 1950, a arte contemporânea consolidou-se no Brasil, com uma ampla diversidade de estilos, materiais e abordagens. Escultores como Hélio Oiticica – mestre em transformar o espectador em "participador" –, enquanto Tunga expande essa herança ao fundir escultura com performance e narrativas quase mitológicas, desafiaram limites.


O Brasil vivia nestes ano 50 o surgimento do Neoconcretismo, um movimento vanguardista que rompeu com a rigidez do Concretismo e valorizou a interação do espectador com a obra. Nomes como Lygia Clark e Amílcar de Castro forram cruciais para que escultura deixasse ser um objeto contemplativo e passasse a atuar como experiência sensor.


Hoje, a escultura brasileira marcada pela pluralidade, com artistas como Sérgio Romagnolo, Sandra Cinto e Carmela Gross utiliza, além do barro, madeira e metal, tecnologia, materiais industriais e referências à cultura popular e à memória histórica, retratando o cotidiano, folclore e mitologia, especialmente em regiões como Minas Gerais, Bahia e Pernambuco.


Caprichosamente, a escultura no Nordeste do Brasil é uma expressão artística rica e diversificada, fortemente enraizada na cultura popular, com destaque para a modelagem em barro (cerâmica) e a talha em madeira. Figuras icônicas como o Mestre Vitalino, de Caruaru-PE, retratam o cotidiano do sertão, vaqueiros e festas populares; a vida.


Os trabalhos de Vitalino, ceramista de Belo Jardim, Pernambuco, feitos desde a infância, foram fundamentais para consolidar Caruaru como o maior centro de artesanato do Nordeste. Atraído pela Obra de Vitalino, o desenhista Augusto Rodrigues, que promoveu a primeira exposição de cerâmica pernambucana no Rio de Janeiro, em 1947.


A arte escultórica nordestina é um pilar da identidade cultural brasileira, fundindo tradições indígenas, africanas e europeias em formas que retratam, além do cotidiano, a religiosidade e o imaginário do sertão ao litoral. Além da cerâmica e madeira, destaca-se o trabalho com materiais minerais, rendas e trançados que compõem o artesanato regional.


Além da tradição popular, o Nordeste abriga nomes influentes na escultura moderna e contemporânea, como o cearense Sérvulo Esmeraldo, conhecido por suas obras geométricas e cinéticas em metal. Há, também, Patativa do Assaré, um verdadeiro escultor de palavras belas, moldando versos que transformavam a dor, a luta e a beleza do sertão em arte.


A beleza de suas palavras reside na forma como ele enxergava o sertão, não somente como terra seca, mas, principalmente, como um espaço de contemplação, criatividade e esperança. De inventividade. Em poemas como "Cante lá que eu canto cá", ele afirma que a dor só é bem cantada por quem a vive, reforçando sua autoridade como poeta do povo.


Prodigiosamente, sua expertise ao usar o malho e o cinzel para dar forma de poesia à vida: o trabalho na roça, o canto do vento, a beleza das flores nos abrolhos. Como ele mesmo diz: "A minha rima faz parte / Das obras da criação", mostrando que a poesia jamais será unicamente dádiva divina, mas, poderosamente, um ato de fé e de graciosa liberdade.


Escultor de palavras, Patativa não apenas escrevia versos - ele esculpia a alma do sertanejo, com um ritmo único, uma musicalidade que ecoava nas vozes do povo, e uma estética que unia lirismo e denúncia social. Seu legado é um testemunho de que a beleza pode nascer da pobreza, da dor e da resistência. Com sete sílabas, Patativa esculpiu o mundo.


A escultura é uma linguagem viva e ancestral (língua materna) que, de forma loquaz (falante), eterniza a memória coletiva e narra as conquistas e vitórias de um povo. Ela reflete a arte como registro histórico e identidade cultural. Comunica sem palavras, preservando a identidade, tradições e valores de uma sociedade ao longo do tempo chegando ao futuro.


Inventiva, a escultura nordestina se destaca por sua inovação contemporânea, com artistas como Romero Andrade Lima e Jared Domício, que combinam linguagens construtivas modernas com símbolos da cultura regional, criando obras que dialogam com o sincretismo religioso e a arquitetura popular. O novo sempre dá motivo à animação do povo.


Hoje (06/03), comemoramos 552 anos de nascimento de Miguel Ángel Buonarroti - 6 de marzo de 1475 -, considerado uma do mais brilhantes e influentes escultores do Renascimento. Seu legado, representado por obras como Davi e Piedade, marcam um ponto de inflexão na História da Arte e serve como referência para incontáveis gerações de artistas.


Hoje (06/03), festejamos o 117º aniversário do nascimento de Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré. Nascido em 1909 no sítio Serra de Santana, em Assaré, Ceará, para tornar-se um dos maiores representantes da poesia popular brasileira, especialmente da literatura de cordel, com o qual esculpiu no papel as belezas nordestinas.


A data exalta o "exercício experimental da liberdade", no qual o artista materializa pensamentos e sentimentos em formas tridimensionais. A arte tridimensional tem o condão de perenizar, agindo como um guardião das narrativas, eventos históricos e figuras importantes. Exaltar a luta e a trajetória popular, esculpe um monumento à coletividade e à sua história.


Sendo uma “língua materna que fala", a escultura é uma forma de expressão primária, natural e universal que comunica mensagens visuais e simbólicas – com o fazem letras, números e icones – desde a pré-história e sua arte rupestre, varando milênios, sem jamais esgotar sua utilidade e/ou inventividade, porém, portentosamente, indo ao porvir sempre.


O Dia Internacional do Escultor celebrado hoje, tornar visível e valida a escultura como disciplina artística que dialoga com a história da humanidade, promovendo o diálogo entre criadores e comunidades, fomentando a educação artística e fortalecendo o reconhecimento social da arte tridimensional em ambientes urbanos, museus e espaços públicos.


Neste dia 6 de março, reconhecemos o trabalho de escultores de todo o mundo, destacando sua criatividade, técnica e paixão na transformação de materiais como mármore, bronze, madeira ou argila – papel e caneta e/ou lápis – em obras de arte com valor estético e simbólico, pois, da proficuidade de suas criações depende a evolução humana.


Maranguape, Ceará, 06 de Março de 2026


ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cleber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

quinta-feira, 5 de março de 2026

O TROVADORISMO UNE A NAÇÃO EM SETE SÍLABAS

 

O Trovadorismo é o primeiro movimento literário da era medieval (séculos XI a XIV), unindo poesia e música em cantigas feitas para serem cantadas. Surgido no sul da França e com grande força em Portugal, caracterizou-se pela lírica (amor/amigo) e sátira (escárnio/maldizer), marcando o início da literatura em língua portuguesa. Seus textos, chamados de cantigas, eram feitos para serem cantados e acompanhados por instrumentos como a lira ou o bandolim.

 

Os textos eram feitos para serem cantados e ouvidos, não lidos. Eram acompanhados por instrumentos como o alaúde, a harpa e o saltério. O núcleo das cantigas de amor, onde o poeta se coloca como um "vassalo" submisso à sua "senhora" (dona), reproduzindo a hierarquia do sistema feudal no campo dos sentimentos. Reflete, claramente, a estrutura do feudalismo e o domínio da Igreja Católica (teocentrismo) através das cantigas.

 

Ainda que o Trovadorismo, enquanto movimento literário e histórico estruturado, ocorrido na Europa entre os séculos XII e XIV, tenha terminado muito antes do descobrimento do Brasil em 1500, seus elementos, temas e a tradição oral do trovadorismo galaico-português influenciaram a cultura e a literatura popular nas colônias portuguesas, incluindo o Brasil, persistindo ao longo dos séculos de forma inconsciente ou adaptada, porém, muito inspiradora.

 

A herança trovadoresca chegou ao Brasil por meio dos colonizadores e alimentou a literatura popular, principalmente através da tradição oral e da poesia de cordel no Nordeste, que utiliza temas e técnicas medievais sem, muitas vezes, ter a consciência da origem. Enquanto o Trovadorismo era medieval e muitas vezes restrito à corte ou feiras europeias, o cordel brasileiro se tornou uma forma popular de expressão nordestina, ilustrada por xilogravuras.

 

Marcado pela oralidade, métrica fixa, rima e ilustrada com xilogravuras, retrata o cotidiano, folclore e críticas sociais. Os cordelistas, ou poetas de cordel, utilizam uma linguagem popular e acessível para narrar acontecimentos de forma poética e rimada. O primeiro cordelista a imprimir seus versos foi Leandro Gomes de Barros (1907). Ele fundou sua própria tipografia por volta de 1906-1907, no Recife, o que permitiu uma produção em grande escala.

 

Embora Leandro tenha iniciado suas publicações por volta de 1889, intensificou a produção com o uso de tipografias próprias e terceirizadas, especialmente após se fixar no Recife em 1907, onde vivia exclusivamente da venda de seus folhetos. Seus folhetos eram fundamentais para a circulação de notícias e histórias no interior do Nordeste, sendo comercializados em feiras populares. Ele influenciou grandes nomes da literatura brasileira, como Ariano Suassuna.

 

Suas histórias, como "O Cavalo que Defecava Dinheiro", serviram de base para obras clássicas da literatura brasileira, incluindo o Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. Ainda que se discuta se ele foi o primeiro absoluto (considerando produções manuscritas ou folhetos avulsos raros de outros autores, como Silvino Pirauá), Leandro é o responsável pela profissionalização e pela primeira fase sistemática de impressão de cordéis no Brasil.

 

Leandro escreveu aproximadamente 240 obras originais, embora algumas estimativas sugiram que ele tenha publicado ou editado cerca de 1.000 folhetos ao longo da vida. Entre as publicações registradas pela Fundação Casa de Rui Barbosa desse período, destaca-se o folheto "A Ave Maria da eleição" (Recife, 1907). Em sua homenagem, o dia de seu nascimento (19 de novembro de 1865) foi instituído como o Dia da Literatura de Cordel no Brasil.

 

Hoje, a literatura de cordel continua viva, sendo valorizada como uma expressão rica da identidade cultural brasileira, especialmente nordestina. Apesar dos desafios da era digital, o cordel se adapta, mantendo seu charme através de folhetos ilustrados com xilogravuras e narrativas orais que celebram a cultura popular. Longe de desaparecer, o gênero se (re)inventa no século XXI, unindo a tradição oral e a rima dos folhetos às novas tecnologias.

 

Continua sendo uma voz potente do cotidiano, fé, amores e desafios do povo nordestino, fortalecendo a identidade regional. Cordelistas modernos mantêm viva a forma fixa (sextilhas, setilhas) enquanto abordam temas atuais, garantindo a sua relevância. Projetos como a "Jornada do Cordel" buscam salvaguardar e promover o gênero, inclusive no ambiente escolar. O cordel não é unicamente memória; é resistência, renovação e inventividade constante. 

 

É a prova de que a "poesia de bancada" tem fôlego para muitas gerações. A tradição dos folhetos de papel agora convive com o cordel digital, podcasts e vídeos de declamação (o repente) que viralizam nas redes sociais. Deixou de ser restrito ao campo e ocupa as grandes cidades, narrando dilemas urbanos, questões sociais e política contemporânea e segue rumo ao futuro consolidando-se como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Iphan desde 2018.

 

Ainda que de forma indireta, o trovadorismo deixou sua marca na região norte do Brasil. Assim como os trovadores medievais, que transmitiam poesias oralmente por conta da baixa difusão da escrita, a cultura popular na região Norte brasileira também se baseia fortemente na tradição oral. A poesia trovadoresca influenciou a poesia oral brasileira, especialmente através da cantoria, que valoriza a honra, coragem e destemor, características medievais.

 

A literatura na região Norte é marcada, incontestavelmente, por uma rica produção regionalista, focada na vivência na floresta, na natureza e nos saberes indígenas, com fortes narrativas orais (lendas como Iara, Curupira). Não há um "trovadorismo nortista" formal, mas sim, uma fusão de tradições ibéricas com a cultura amazônica. No entanto, o termo "trovadorismo" e a forma poética da trova (quadras de sete sílabas com rima) se manifestam na região Norte.

 

Antônio Sales faz referências e conexões com a intelectualidade e o imaginário da região setentrional do país em Trovas do Norte. No final do século XIX e início do XX, autores regionais utilizaram a forma da trova para registrar o folclore e a identidade do Norte, como, por exemplo, o poeta Antônio Juracy Siqueira, membro da UBT em Belém (Pará), reconhecido por sua produção que une a técnica da trova ao imaginário e às "mágoas do mundo".

 

A produção de trovas e a literatura de cordel no Norte do Brasil possui representantes notáveis, focados na cultura amazônica, na vida ribeirinha e na poesia popular. Eliakin Rufino (Roraima), poeta, músico e trovador, é reconhecido por compor versos que retratam os anseios, a cultura e a natureza da Amazônia. A região Norte (como o Nordeste) é um celeiro de poetas populares e trovadores, integrados a associações de cordelistas e folheteiros.

 

A produção literária nortista (Amapá, Amazonas) valoriza vozes que escrevem sobre o cotidiano da Amazônia, com destaque para antologias que reúnem poetas populares e modernos. Zeneida Lima (Pará), mais conhecida por sua atuação como pajé e escritora, tem sua obra é permeada pela musicalidade e poesia oral que remete à figura do "trovador da floresta", cantando as lendas e o cotidiano amazônico. Indubitavelmente, o folclore é dignificante.

 

Os "Amo do Boi" em festivais como o de Parintins atuam como trovadores modernos, improvisando versos (os chamados "versos de desafio") para saudar autoridades e provocar o boi contrário. O que torna fascinante notar como uma tradição do século XII atravessou o Atlântico, se adaptou tão bem ao solo brasileiro e que viria a ser a base da nossa identidade poética oral e popular, provando que a oralidade é um dos nossos maiores patrimônios.

 

Considerado o "Rei do Carimbó", Mestre Verequete traça versos e faz composições que funcionam como crônicas sociais e culturais, exercendo um papel análogo ao do trovador popular na preservação da memória local. A figura do trovador e o legado desse movimento continuam vivos na cultura popular, influenciando, além do Cordel e da música regional brasileira, gêneros modernos com a lírica trovadoresca que viceja na Música Popular Brasileira.

 

Compositores como Chico Buarque e Elomar resgatam a estética das "cantigas de amigo" e "cantigas de amor", utilizando o eu-lírico melancólico e a estrutura de redondilhas. No repente, a dinâmica das "cantigas de escárnio e maldizer" sobrevive nos duelos de improviso, onde a agilidade mental e a sátira social são as ferramentas principais. As modas de viola preservam a função narrativa e a exaltação da vida rural e dos sentimentos pastoris.

 

A viola me lembra que o trovadorismo no Sudeste brasileiro é uma herança literária cultivada que se adaptou do contexto de palácios medievais para a produção lírica popular, competitiva e organizada da trova moderna. A tradição trovadorista – focada na produção de cantigas (poesias cantadas) – mantém-se viva no Brasil, especialmente no Sudeste, onde o "Concurso Nacional / Internacional de Trovas de Taubaté" (SP), atrai gente do mundo inteiro.

 

Nova Friburgo, considerada a capital nacional da trova, sedia desde 1960 os famosos Jogos Florais, evento que reúne poetas de todo o país para competições de trovas.  A primeira edição, em 1960, teve como tema "Amor" e recebeu mais de 2.000 composições. O movimento destes "trovadores modernos" consiste em poetas que escrevem composições curtas (geralmente quadras de sete sílabas poéticas com rima e sentido completo).

 

É cativante como Nova Friburgo preserva essa tradição, transformando a cidade em um verdadeiro refúgio para a poesia popular. Em 2021, os Jogos Florais de Nova Friburgo foram declarados patrimônio imaterial do estado do Rio de Janeiro. Luiz Otávio, considerado um dos maiores trovadores do Brasil, é homenageado no município com o Dia do Trovador (18 de julho) e é fundamental para a história do movimento e para a perpetuação desta arte.

 

Perpetuar a arte, valora o conceito de tradição e os gaúchos são exemplares nisto. A Payada e a Literatura de Cordel, expressões comuns na Argentina e no Brasil, sugiram da literatura ibérica, herdeira de traços trovadorescos, e representam as vozes populares dos pampas (payada) e do sertão (cordel), baseando-se na rima e na improvisação, dando continuidade do fazer poético oral acompanhado de música, presente na cultura sulista, como trovadorismo.

 

O "trovadorismo" no sul brasileiro não é medieval, mas sim, uma herança cultural que se manifesta através do cancioneiro popular, onde o trovador foi substituído pelo cancioneiro popular ou pajador, que narra e canta histórias. A característica central do trovadorismo – a união entre poesia e música (cantigas) – reverbera na música folclórica do Sul, que aborda temas de amor, saudade e crônica social (similar às cantigas de amor, amigo e escárnio).

 

Estudos apontam a intertextualidade entre a poesia trovadoresca (galego-portuguesa) e as formas orais, evidenciando como os temas medievais de "coita amorosa" (sofrimento amoroso) e a sátira foram reescritos e reaproveitados em diferentes épocas e lugares, incluindo a América do Sul. Essa manifestação é um dos pilares do tradicionalismo no Rio Grande do Sul, assemelhando-se às antigas cantigas que animavam os sonhos no velho mundo.

 

Diferente da payada (que é mais literária e acompanhada por violão), a trova é a forma mais popular de improviso no Rio Grande do Sul. Ela possui três estilos principais reconhecidos oficialmente: Campeira (Mi Maior de Gavetão) – o estilo mais tradicional e rústico –, Martelo, caracterizado por versos rápidos e rimas desafiadoras e Estilo Gildo de Freitas, assim nomeado em homenagem a um dos maiores trovadores do gaúcho, focado no relato de fatos cotidianos e no duelo de rimas.

 

Nas paragens gaúchas, o trovadorismo é tão relevante na região que possui datas oficiais de celebração. O Dia Nacional do Trovador celebrado no dia 18 de Julho e o Dia do Trovador do Rio Grande do Sul, festejado no dia 04 de Dezembro, anualmente. Além destas duas datas, Uruguaiana, realiza o maior festival nativista e de palco para diversas expressões poéticas, chamado Califórnia da Canção Nativa, desde 1971, na segunda semana de Dezembro.

 

A trova, composta de quatro versos setissílabos, é um "vaso de flores que o povo põe à janela de sua alma", representando uma união cultural por meio da rima e do ritmo, conforme Luiz Otávio. Em um tempo de baixo índice de alfabetização, as cantigas (de amor, amigo, escárnio e maldizer) são cantadas e acompanhadas por instrumentos, unindo nobres e plebeus sob os mesmos temas de amor, sofrimento e sátira. Embora "medida velha", é suficiente à união dos povos.

 

Maranguape, Ceará, 05 de Março de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira ACELP nº 3

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