A ideia da mulher como criadora do universo está profundamente arraigada em mitologias antigas, tradições religiosas e simbologias culturais ao redor do mundo. Em diversas civilizações, figuras femininas são vistas como a fonte primordial da vida e da criação. O feminino é a forma superior do universo, possuindo uma força invisível que une luz, sombra, espiritualidade e matéria. Na mulher, o Sagrado Feminino manifesta uma força geradora que molda a realidade, parindo projetos, filhos e vida.
O sagrado feminino liga a mulher à terra, aos ciclos naturais e à intuição, funcionando como um "portal" pelo qual a vida chega à Terra. Além da procriação biológica, as mulheres são co-criadoras da realidade, efluindo inventividade, dando vida a mundos de ideias, ideais e prodígios. O universo é sua “forma", conforme perspectivas místicas, como quer que ela se assuma (homem ou mulher) é considerada superior. A mulher não somente é a cuidadora, é a primaz detentora da energia criativa essencial.
Estudiosos da neurociência e da espiritualidade, nesta contemporaneidade, debatem a mulher como "co-criadora”, tanto por sua capacidade biológica de gerar vida (parir filhos), quanto por sua habilidade intelectual e espiritual de "parir" gestar sonhos e e parir realidades. Prodigiosa desde a mais tenra idade da humanidade, é venerada na Arte Rupestre em representações como a Vênus de Willendorf, datada de cerca de 28.000 anos a.C., simbolizando a fertilidade e a força criadora feminina.
Portentosa, a mulher é, historicamente, notabilizada em muitas culturas pré-abraâmicas que adoravam divindades femininas como as criadoras primordiais e mantenedoras de tudo o que existe, dentre elas, Cibele. Apesar de não ser uma deusa-mãe em si, Europa - de eurus (largo, amplo) + ops (olho, rosto), que pode indicar "ampla visão" ou se referir à "terra de amplas margens" - é personificada como a mãe do continente europeu.
Neite (ou Neith) era uma das divindades mais antigas do panteão egípcio, conhecida como a criadora do universo. Chamada de "Mãe dos Deuses", "A Grande Deusa" e "Avó dos Deuses", e abrange múltiplos domínios: guerra, caça, tecelagem, sabedoria, água, destino e funerais. Por verosimidade, os gregos a têm como Gaia (ou Geia), mãe de todos os deuses e criadora de todas as coisas vivas, denotando a Terra, magnífico colo que abriga a diversidade de criaturas cuja interdependência manifesta a Deusa.
No cristianismo, Maria é reverenciada como a Mãe de Deus (Theotokos), uma figura de intercessão e proteção. Embora não seja criadora do universo no sentido criacional, ela é considerada a Mãe da Humanidade espiritual, com papéis centrais na salvação e na mediação entre os fiéis e Deus. Sua imagem se assemelha às deusas antigas, como Ísis (egípcia) e Gaia (Europa), por exemplo, que também aparecia com o filho ao colo. A energia da mãe se manifesta independente de como a denominamos.
Nas tradições afrodescendentes, os povos jejes, que têm uma tradição matriarcal, tem Nanã Buruku como a Mãe do Universo. Segundo a mitologia jeje, ela é a entidade que deu origem ao mundo, junto com as serpentes Aido Wedo e Dangbala. Nanã Buruku (Saluba Nanã) moldou o mundo, a terra, o barro e as águas, estabelecendo os fundamentos da vida, morte e sabedoria ancestral. Ela responsável por dar vida aos animais, às plantas e por incumbir os gêmeos Mawu-Lisa de criar os seres humanos.
Entre os povos do Daomé (região da atual Benin), a criação do universo é relacionada a uma divindade principal com duas faces: Lisa (representando o Sol) e Mawu (representando a Lua). Essa dualidade divina é interpretada como uma forma de Mãe do Universo, já que, o cosmos se originou de sua divisão. A serpente cósmica, filha dessa divindade, e seu filho Gu são responsáveis por moldar o universo, reforçando a ideia de que a criação é um ato sagrado feminino e cósmico.
O culto de Nanã Buruku no Brasil, dentro do Candomblé Jeje, enfatiza seu papel como a guardiã do portal entre a vida e a morte (o retorno à terra).A parceria com Aido Wedo (o arco-íris) e Dan (a serpente) simboliza a união entre o céu, a terra e o movimento que mantém o cosmos em equilíbrio. Nanã fornece a "matéria-prima" e o sopro, enquanto o par de gêmeos executa a modelagem da humanidade, consolidando uma estrutura familiar e espiritual profundamente matriarcal.
Além das figuras míticas, mulheres históricas também mudaram a forma como entendemos o universo. Um melhor entendimento muda a forma de pensar. Mudar pensamentos, muda a forma de interpretar e de interagir com o mundo, criando novas realidades. Essa ideia ecoa tanto na psicologia quanto na filosofia: “a vida é o que nossos pensamentos a tornam”, preceituam os Estoicos. Tudo começa no pensamento - essa é a base de uma transformação profunda, tanto no plano pessoal quanto no universo que nos cerca.
Mulheres como Marlene dos Santos Santana, da Reserva Extrativista de Canavieiras, Bahia, exemplificam essa mudança ao se organizar na Associação Mãe da Reserva (Amex), lutar pelos direitos das pescadoras e promover a igualdade de gênero, mesmo em contextos de extrema vulnerabilidade. Sua atuação, aliada à criação da Moex - uma moeda social que mantém o lucro na comunidade - mostra como a maternidade pode ser um motor de transformação coletiva, cujo papel vai além do cuidado familiar.
Outra figura emblemática é Maria de Fátima, agricultora cearense que, apesar de ter tido a aposentadoria negada por não conseguir provar seu trabalho desde os nove anos, decidiu escrever uma carta ao presidente para reivindicar justiça. Descrita como alguém que não se submete à dor ou ao desânimo, enfrentando desafios com coragem. Sua coragem e determinação transformam o sofrimento em denúncia política, desafiando estigmas e mostrando que a mulher nordestina é agente de sua própria história.
Essas mulheres, e muitas outras, como Marta, Nise da Silveira e Margarida, não apenas enfrentam adversidades, como também, (re)definem o pensamento sobre identidade, gênero e resistência. Elas desafiam narrativas estereotipadas de submissão e pobreza, mostrando que a força da mulher nordestina está na capacidade de criar, liderar, educar e transformar - não apenas sua vida, mas a sociedade. Bráulio Bessa, exalta a mãe nordestina como um "pedaço de Deus" e a base de valores inegociáveis.
A mãe nordestina, em essência, é um símbolo de resiliência, ancestralidade e força vital. Sua essência é sobrevivência com dignidade, amor incondicional e esperança. Representa a figura da mulher que, diante das adversidades do sertão - como a seca, a pobreza e a migração -, mantém viva a vida, a cultura e o amor através do vínculo maternal. Sua identidade está profundamente ligada à fé, à devoção religiosa e ao trabalho constante, seja na roça, na casa ou na luta por dignidade.
A mulher nordestina é um pilar fundamental da sociedade brasileira, pois, é protagonistas na preservação da cultura, no desenvolvimento econômico rural e urbano, e na liderança comunitária, conciliando dupla jornada de trabalho com a luta em prol do bem coletivo. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, a personagem Sinhá Vitória representa a força feminina diante da adversidade. É protagonista da informalidade e empreendedorismo, sustentando famílias com vendas de produtos típicos, artesanato e serviços.
A valorização do protagonismo feminino tem crescido, com comissões de mulheres no agronegócio (FAEC/SENAR) e maior reconhecimento da gestão humanizada. Apesar de maior escolaridade, enfrenta desigualdades no mercado de trabalho: rendimento médio 15% menor que o dos homens, 39% de subutilização da força de trabalho e carga de cuidados quase o dobro da dos homens. Na cultura, a mulher nordestina é guardiã dos costumes, preservando tradições por meio da culinária, do artesanato, da música, das festas juninas, dos maracatús e frevos, etc.
A quem Deus alumia, a escuridão não aterroriza. Ela é fiandeira e tecelã de histórias, conectada à terra, à natureza e à espiritualidade, sendo muitas vezes associada a arquétipos de deusas como Gaia, Nanã Buruku, Yemanjá e Maria, mãe de Jesus, que simbolizam proteção, cura e a fecundidade. A relevância da mulher nordestina repousa na alteridade com que lidera, resisti e transforma, sendo essencial para o desenvolvimento da região.
Essa força é celebrada não apenas como um dom genético, mas, como uma escolha diária de persistir e cuidar, transmutar a escassez em abundância de afeto, convertendo o "pouco em tudo" para garantir a dignidade da família. As mulheres da Família Macedo, como Rosilda, Daniela, Rosélia, Bruna e Rosildinha, transformam o ambiente familiar ao priorizar o caráter e o respeito, ensinando que os maiores tesouros são a família e os valores morais, e não os bens materiais. Seu amar é cocriação perene.
Imbuídos neste espírito, como ocorre há décadas de milênio, festejamos nestas horas que seguem mais um Dia da Mulher, ainda que saibamos que cortejá-las e tributar-lhe no amor-reconhecimento, amor-gratidão, amor-felicidade seja um honrado dever a se cumprir todos os dias em presença da mulher: avó, mãe, irmã, esposa, filha, amiga e/ou aquelas que eflorescem em nosso entorno. Oficializada pela ONU em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher, esta data tem o fito de oportunizar a igualdade de gênero, de reconhece-lhe suas conquistas e de consagrar-lhe nosso amor.
Maranguape, Ceará, 08 de Março de 2026
ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo
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