terça-feira, 10 de março de 2026

CARLOS TORRES CÂMARA E O CEARÁ MOLEQUE

 

As duas décadas finais do Século XIX foram marcadas por profundas transformações que moldaram as sociedades humanas, inspirando um forte ideário de evolução e progresso.  Esse período foi impulsionado pela Revolução Industrial, que transformou economias agrárias em industriais, emergindo novas classes sociais – como a burguesia e o proletariado – e acelerando a urbanização. Efervescia a crença no "progresso" científico e tecnológico, enquanto as estruturas sociais eram radicalmente alteradas pela urbanização e pela consolidação da sociedade burguesa. 

 

A vida urbana foi transformada por novas tecnologias, como a iluminação elétrica, que mudou o cotidiano da noite para o dia. As cidades cresceram rapidamente, consolidando o modo de vida burguês, com valorização do conforto, lazer (teatros, bailes) e nova organização familiar. Augusto Comte, Herbert Spencer e Edward Tylor foram indiscutivelmente prodigiosos nesse processo, promovendo modelos lineares e etapistas de desenvolvimento histórico, em que as sociedades ocidentais europeias eram vistas como superiores, com isso, efusivamente, exemplando as demais nações do planeta.

 

Essas décadas definiram uma nova "cara" para a sociedade, unindo a expansão capitalista global com intensas transformações no cotidiano e no poder político mundial sob a égide de uma dualidade intensa: o otimismo cego no progresso tecnológico e científico convivendo com a ansiedade de um mundo antigo que estava morrendo. Aurorescia tanto um momento de inovação científica e tecnológica quanto de legitimação ideológica de estruturas de dominação, deixando um legado duradouro nas relações sociais, políticas e culturais. O mundo vicejava inventividade e (r)evolução.

 

Esse período, chamado de "Fin de Siècle", foi uma verdadeira panela de pressão de mudanças que criaram a base do mundo moderno. Vivemos no Brasil a transição da Monarquia para a República (1889) e a abolição formal da escravidão com a Lei Áurea (1888), embora sem políticas de integração para os libertos. Uma libertação inaugura pelo Ceará, que já em 1881 sediou a Revolta dos Jangadeiros, sob a liderança do Prático-Mor do Porto Cearense, Francisco José do Nascimento, chamado Dragão do Mar, pelo Tigre da Abolição, José do Patrocínio, que denomino “Terra da Luz”, o Ceará.

 

Resume perfeitamente a "Belle Époque" – de 1871 a 1914 – e a virada para o século XX. O termo foi criado retrospectivamente para descrever esse clima de otimismo e "era de ouro" – caracterizada pela "joie de vivre" (alegria de viver) – em contraste com os horrores dos conflitos mundiais que vieram a seguir. A Belle Époque foi um momento de "ilusão de ótica" histórica, onde a exuberância tecnológica e a liberdade artística conviviam com o acúmulo de tensões sociais e políticas, moldando a identidade urbana moderna antes do "mundo de ontem" fenecer nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

 

No Ceará, as duas décadas finais do Século XIX promoveram transformações econômicas, sociais e políticas profundas, que consolidaram sua identidade regional e nacional. Em 1884, tornou-se a primeira província do Brasil a abolir a escravidão, quatro anos antes da Lei Áurea.  Esse fato foi resultado de múltiplos fatores: a pequena dependência da economia cearense em relação à mão de obra escrava, a pressão da campanha abolicionista e a ação de líderes populares, como Francisco José do Nascimento, o "Dragão do Mar", que liderou greves para impedir o embarque de escravos em 1881.

 

Neste ano alvissareiro, 1881, nasce Carlos Torres Câmara, predestinado a inovar a arte cênica cearense e a tornar-se uma das figuras mais emblemáticas da cultura cearense. Conhecido como o "maior comediógrafo cearense", sua trajetória foi marcada por uma versatilidade impressionante e contribuições que moldaram a cena artística da Terra da Luz. Carlos era o filho mais velho do segundo casamento de João Eduardo Torres Câmara (1840-1906) e de Maria de Souza Câmara, nascido em Fortaleza, no dia 03 de Maio de 1881. Em 1886, este polímata cearense, iniciou seus estudos no Colégio Pe. Liberato da Costa.

 

Em 1891, ano em que o Brasil sancionou a Constituição dos Estados Unidos do Brazil, sua primeira Carta Magna Republicana, Carlos estudou no “Partenon Cearense”, e depois foi para o Liceu do Ceará. Aos 16 anos, ele conheceu o teatro, entrando em 1898 para o "Grêmio Taliense de Amadores" e iniciou na vida literária e boêmia através do "Clube Adamantino", sociedade literária fundada em 1896, publicando a revista "A Estréia" que o teve como diretor. Também, em 1898, Carlos iniciou a carreira profissional como amanuense (escrevente copista) da Assembleia Legislativa do Ceará.

 

Em 1901, em Manaus, Carlos foi redator do jornal "O Amazonas" e, também, escrivão de Depósito Público Manauara. Dedicou-se à advocacia e exerceu a Promotoria de Justiça em Boa Vista, Roraima. De volta ao Ceará (1903) assumiu a redação de "A República", onde começou a publicar a coluna "Entrelinhas". Nesse mesmo ano assumiu função pública na Secretaria da Fazenda do Ceará. Além da Sefaz, foi diretor-secretário da Junta Comercial, exerceu cargo técnico na Rede de Viação Cearense e foi eleito Deputado Estadual (1909–1912). Até 1932. Publicou o Almanaque do Ceará – com o Sófocles, seu irmão.

 

Apesar de sua carreira no serviço público, Carlos é mais lembrado como um dos maiores nomes do teatro cearense, sendo advogado, jornalista. Até falecer, dirigiu a "Escola de Aprendizes de Artífices" (atual Instituto Federal do Ceará). Nessa instituição funda as revistas "O Aprendiz de Artífice" e "Revista Pedagógica".  Fundou o Grêmio Dramático Familiar (1918), instituição que imortalizou seu nome na história do teatro cearense. Depois de obter vários sucessos com suas peças, entrou para o quadro de sócios da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (1921), representando a instituição no Ceará até 1924.

 

Em 1922 convidado por Leonardo Mota, Carlos passou a integrar a Academia Cearense de Letras em sua primeira reorganização. Em 1924, Carlos dirigiu a "Escola de Aprendizes de Sergipe" (atual Instituto Federal de Sergipe). Foi ainda redator do "Diário da Manhã" de Aracaju. De volta ao Ceará, fundou, juntamente com seus pares, a Associação Cearense de Imprensa (1925); e reencetou suas atividades no Grêmio Dramático Familiar. Carlos Torres Câmara é, sem dúvida, uma figura fundamental na história das artes cênicas e da cultura cearense, cuja relevância perdura até os dias atuais.

 

A inventividade de Carlos Torres Câmara efloresce o teatro nacional – um teatro falado em brasileiro, quer dizer, um teatro genuinamente popular brasileiro, com costumes do povo brasileiro, com a identidade do povo brasileiro; um teatro escrito por brasileiro, com emoções do povo brasileiro, representado por brasileiro e falado nas palavras originais do povo do nosso pais. Ele escreveu dez textos para o teatro A Bailarina (1919), O Casamento da Peraldiana (1919), Zé Fidelis (1920), O Caiu (1920), Alvorada (1921), Os Piratas (1923), Pecados da Mocidade (1926), O Paraíso (1929), Os Coriscos (1931).

 

“Carlos Torres Câmara é um aristocrata que abandona todo um passado fidalgo para se aventurar pelo Ceará moleque”, conceitua José Liberal de Castro. Ainda adolescente ele conheceu o funcionamento de um grupo amador de teatro, fundado pelo romancista e dramaturgo Antônio Papi Junior, tendo sua sede foi no Club Iracema, um espaço de sociabilidade destinados às diversões da “aristocracia” cearense. Também, aproximou-se do Grupo Admiradores de Talma (1914-1918), onde o “cômico” Eurico Pinto “estava no seu esplendor”. Experienciações e conexões vitais para um futuro glorioso.

 

Entrevistado pelo jornal O Nordeste em 11 de maio de 1923, ao ser perguntado pelas discorreu sobre seu modus criativo e preferências, justificando sua escolha pelo gênero que chamou burlesco, ao dizer que as condições do teatro cearense inviabilizavam as montagens de outros gêneros, ou seja, não haveria compensação financeira e afirmou não ter aptidões literárias para uma alta comédia, gênero de sua predileção, que era considerada uma comédia literária. eximiu-se das “veleidades literárias” e voltou-se para o público que apreciava o “teatro regional e caricato.

 

A ideia de Ceará moleque emergida nos romances A Afilhada de Manuel Oliveira Paiva e A normalista de Adolfo Caminha estereotiparam o “caráter cearense” manifestado na “alegria e irreverência” deste povo corajoso e hospitaleiro, rutilando a forma de ser cearense, bastante presente na dramaturgia de Carlos Câmara com o Zé Povinho, que era considerado tipo social popular: malicioso, picante, sensual, cheios de duplo sentido, um “pessoàzim bom!”, embora, de conduta moral controversa. Foi desta forma que Carlos Câmara interpretou esse Ceará moleque, no qual se aventurou.

 

O "Ceará Moleque" é uma expressão cultural e histórica que define a identidade irreverente, criativa e crítica do povo cearense, celebrada e retratada nas obras do teatrólogo Carlos Câmara. Representa uma forma de irreverência que desafiava a normatividade reinante, a burguesia, os padres e a polícia, sendo vista como uma resistência cultural. É marcado por tipos populares, histórias e um humor ácido que questionava as elites locais.  O "Bode Oyô" é mencionado como um ícone dessa irreverência, um animal que, mesmo com proibições municipais, circulava livremente e era protegido pela população.

 

Ao contrário de muitos autores de sua época, Carlos não era apenas um escritor distante; ele atuava como diretor e produtor, mantendo um convívio direto com o fazer teatral. Sua obra continua sendo objeto de estudos acadêmicos e inspiração para novas gerações de artistas, solidificando seu legado como um dos grandes nomes da cultura cearense. Ele foi também um inovador no uso de merchandising teatral, improvisando cenários com materiais de lojas e criando canções que funcionavam como jingles promocionais, como no sucesso O Casamento da Peraldiana.

 

Incontestavelmente, as obras de Carlos, marcada por críticas irreverentes aos costumes da sociedade cearense da época, trouxeram um novo estilo de comédia que cativou o público com humor e originalidade. Suas peças teatrais A BailarinaZé Fidelis e Os Piratas, são consideradas clássicos da comédia cearense. Curiosamente, seu falecimento em 1939, deixou inacabada a peça teatral intitulada “Alma de Artista”. Porém, Carlos é eternizado no Teatro Carlos Câmara, na rua que leva seu nome em Fortaleza, e no Troféu Carlos Câmara, que premia personalidades da arte cênica no estado desde 1987. Sua “Alma” anima nosso “Ceará Moleque”.

 

Maranguape, Ceará, 10 de Março de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira ACELP nº 3


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