quinta-feira, 5 de março de 2026

O TROVADORISMO UNE A NAÇÃO EM SETE SÍLABAS

 

O Trovadorismo é o primeiro movimento literário da era medieval (séculos XI a XIV), unindo poesia e música em cantigas feitas para serem cantadas. Surgido no sul da França e com grande força em Portugal, caracterizou-se pela lírica (amor/amigo) e sátira (escárnio/maldizer), marcando o início da literatura em língua portuguesa. Seus textos, chamados de cantigas, eram feitos para serem cantados e acompanhados por instrumentos como a lira ou o bandolim.

 

Os textos eram feitos para serem cantados e ouvidos, não lidos. Eram acompanhados por instrumentos como o alaúde, a harpa e o saltério. O núcleo das cantigas de amor, onde o poeta se coloca como um "vassalo" submisso à sua "senhora" (dona), reproduzindo a hierarquia do sistema feudal no campo dos sentimentos. Reflete, claramente, a estrutura do feudalismo e o domínio da Igreja Católica (teocentrismo) através das cantigas.

 

Ainda que o Trovadorismo, enquanto movimento literário e histórico estruturado, ocorrido na Europa entre os séculos XII e XIV, tenha terminado muito antes do descobrimento do Brasil em 1500, seus elementos, temas e a tradição oral do trovadorismo galaico-português influenciaram a cultura e a literatura popular nas colônias portuguesas, incluindo o Brasil, persistindo ao longo dos séculos de forma inconsciente ou adaptada, porém, muito inspiradora.

 

A herança trovadoresca chegou ao Brasil por meio dos colonizadores e alimentou a literatura popular, principalmente através da tradição oral e da poesia de cordel no Nordeste, que utiliza temas e técnicas medievais sem, muitas vezes, ter a consciência da origem. Enquanto o Trovadorismo era medieval e muitas vezes restrito à corte ou feiras europeias, o cordel brasileiro se tornou uma forma popular de expressão nordestina, ilustrada por xilogravuras.

 

Marcado pela oralidade, métrica fixa, rima e ilustrada com xilogravuras, retrata o cotidiano, folclore e críticas sociais. Os cordelistas, ou poetas de cordel, utilizam uma linguagem popular e acessível para narrar acontecimentos de forma poética e rimada. O primeiro cordelista a imprimir seus versos foi Leandro Gomes de Barros (1907). Ele fundou sua própria tipografia por volta de 1906-1907, no Recife, o que permitiu uma produção em grande escala.

 

Embora Leandro tenha iniciado suas publicações por volta de 1889, intensificou a produção com o uso de tipografias próprias e terceirizadas, especialmente após se fixar no Recife em 1907, onde vivia exclusivamente da venda de seus folhetos. Seus folhetos eram fundamentais para a circulação de notícias e histórias no interior do Nordeste, sendo comercializados em feiras populares. Ele influenciou grandes nomes da literatura brasileira, como Ariano Suassuna.

 

Suas histórias, como "O Cavalo que Defecava Dinheiro", serviram de base para obras clássicas da literatura brasileira, incluindo o Auto da Compadecida de Ariano Suassuna. Ainda que se discuta se ele foi o primeiro absoluto (considerando produções manuscritas ou folhetos avulsos raros de outros autores, como Silvino Pirauá), Leandro é o responsável pela profissionalização e pela primeira fase sistemática de impressão de cordéis no Brasil.

 

Leandro escreveu aproximadamente 240 obras originais, embora algumas estimativas sugiram que ele tenha publicado ou editado cerca de 1.000 folhetos ao longo da vida. Entre as publicações registradas pela Fundação Casa de Rui Barbosa desse período, destaca-se o folheto "A Ave Maria da eleição" (Recife, 1907). Em sua homenagem, o dia de seu nascimento (19 de novembro de 1865) foi instituído como o Dia da Literatura de Cordel no Brasil.

 

Hoje, a literatura de cordel continua viva, sendo valorizada como uma expressão rica da identidade cultural brasileira, especialmente nordestina. Apesar dos desafios da era digital, o cordel se adapta, mantendo seu charme através de folhetos ilustrados com xilogravuras e narrativas orais que celebram a cultura popular. Longe de desaparecer, o gênero se (re)inventa no século XXI, unindo a tradição oral e a rima dos folhetos às novas tecnologias.

 

Continua sendo uma voz potente do cotidiano, fé, amores e desafios do povo nordestino, fortalecendo a identidade regional. Cordelistas modernos mantêm viva a forma fixa (sextilhas, setilhas) enquanto abordam temas atuais, garantindo a sua relevância. Projetos como a "Jornada do Cordel" buscam salvaguardar e promover o gênero, inclusive no ambiente escolar. O cordel não é unicamente memória; é resistência, renovação e inventividade constante. 

 

É a prova de que a "poesia de bancada" tem fôlego para muitas gerações. A tradição dos folhetos de papel agora convive com o cordel digital, podcasts e vídeos de declamação (o repente) que viralizam nas redes sociais. Deixou de ser restrito ao campo e ocupa as grandes cidades, narrando dilemas urbanos, questões sociais e política contemporânea e segue rumo ao futuro consolidando-se como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Iphan desde 2018.

 

Ainda que de forma indireta, o trovadorismo deixou sua marca na região norte do Brasil. Assim como os trovadores medievais, que transmitiam poesias oralmente por conta da baixa difusão da escrita, a cultura popular na região Norte brasileira também se baseia fortemente na tradição oral. A poesia trovadoresca influenciou a poesia oral brasileira, especialmente através da cantoria, que valoriza a honra, coragem e destemor, características medievais.

 

A literatura na região Norte é marcada, incontestavelmente, por uma rica produção regionalista, focada na vivência na floresta, na natureza e nos saberes indígenas, com fortes narrativas orais (lendas como Iara, Curupira). Não há um "trovadorismo nortista" formal, mas sim, uma fusão de tradições ibéricas com a cultura amazônica. No entanto, o termo "trovadorismo" e a forma poética da trova (quadras de sete sílabas com rima) se manifestam na região Norte.

 

Antônio Sales faz referências e conexões com a intelectualidade e o imaginário da região setentrional do país em Trovas do Norte. No final do século XIX e início do XX, autores regionais utilizaram a forma da trova para registrar o folclore e a identidade do Norte, como, por exemplo, o poeta Antônio Juracy Siqueira, membro da UBT em Belém (Pará), reconhecido por sua produção que une a técnica da trova ao imaginário e às "mágoas do mundo".

 

A produção de trovas e a literatura de cordel no Norte do Brasil possui representantes notáveis, focados na cultura amazônica, na vida ribeirinha e na poesia popular. Eliakin Rufino (Roraima), poeta, músico e trovador, é reconhecido por compor versos que retratam os anseios, a cultura e a natureza da Amazônia. A região Norte (como o Nordeste) é um celeiro de poetas populares e trovadores, integrados a associações de cordelistas e folheteiros.

 

A produção literária nortista (Amapá, Amazonas) valoriza vozes que escrevem sobre o cotidiano da Amazônia, com destaque para antologias que reúnem poetas populares e modernos. Zeneida Lima (Pará), mais conhecida por sua atuação como pajé e escritora, tem sua obra é permeada pela musicalidade e poesia oral que remete à figura do "trovador da floresta", cantando as lendas e o cotidiano amazônico. Indubitavelmente, o folclore é dignificante.

 

Os "Amo do Boi" em festivais como o de Parintins atuam como trovadores modernos, improvisando versos (os chamados "versos de desafio") para saudar autoridades e provocar o boi contrário. O que torna fascinante notar como uma tradição do século XII atravessou o Atlântico, se adaptou tão bem ao solo brasileiro e que viria a ser a base da nossa identidade poética oral e popular, provando que a oralidade é um dos nossos maiores patrimônios.

 

Considerado o "Rei do Carimbó", Mestre Verequete traça versos e faz composições que funcionam como crônicas sociais e culturais, exercendo um papel análogo ao do trovador popular na preservação da memória local. A figura do trovador e o legado desse movimento continuam vivos na cultura popular, influenciando, além do Cordel e da música regional brasileira, gêneros modernos com a lírica trovadoresca que viceja na Música Popular Brasileira.

 

Compositores como Chico Buarque e Elomar resgatam a estética das "cantigas de amigo" e "cantigas de amor", utilizando o eu-lírico melancólico e a estrutura de redondilhas. No repente, a dinâmica das "cantigas de escárnio e maldizer" sobrevive nos duelos de improviso, onde a agilidade mental e a sátira social são as ferramentas principais. As modas de viola preservam a função narrativa e a exaltação da vida rural e dos sentimentos pastoris.

 

A viola me lembra que o trovadorismo no Sudeste brasileiro é uma herança literária cultivada que se adaptou do contexto de palácios medievais para a produção lírica popular, competitiva e organizada da trova moderna. A tradição trovadorista – focada na produção de cantigas (poesias cantadas) – mantém-se viva no Brasil, especialmente no Sudeste, onde o "Concurso Nacional / Internacional de Trovas de Taubaté" (SP), atrai gente do mundo inteiro.

 

Nova Friburgo, considerada a capital nacional da trova, sedia desde 1960 os famosos Jogos Florais, evento que reúne poetas de todo o país para competições de trovas.  A primeira edição, em 1960, teve como tema "Amor" e recebeu mais de 2.000 composições. O movimento destes "trovadores modernos" consiste em poetas que escrevem composições curtas (geralmente quadras de sete sílabas poéticas com rima e sentido completo).

 

É cativante como Nova Friburgo preserva essa tradição, transformando a cidade em um verdadeiro refúgio para a poesia popular. Em 2021, os Jogos Florais de Nova Friburgo foram declarados patrimônio imaterial do estado do Rio de Janeiro. Luiz Otávio, considerado um dos maiores trovadores do Brasil, é homenageado no município com o Dia do Trovador (18 de julho) e é fundamental para a história do movimento e para a perpetuação desta arte.

 

Perpetuar a arte, valora o conceito de tradição e os gaúchos são exemplares nisto. A Payada e a Literatura de Cordel, expressões comuns na Argentina e no Brasil, sugiram da literatura ibérica, herdeira de traços trovadorescos, e representam as vozes populares dos pampas (payada) e do sertão (cordel), baseando-se na rima e na improvisação, dando continuidade do fazer poético oral acompanhado de música, presente na cultura sulista, como trovadorismo.

 

O "trovadorismo" no sul brasileiro não é medieval, mas sim, uma herança cultural que se manifesta através do cancioneiro popular, onde o trovador foi substituído pelo cancioneiro popular ou pajador, que narra e canta histórias. A característica central do trovadorismo – a união entre poesia e música (cantigas) – reverbera na música folclórica do Sul, que aborda temas de amor, saudade e crônica social (similar às cantigas de amor, amigo e escárnio).

 

Estudos apontam a intertextualidade entre a poesia trovadoresca (galego-portuguesa) e as formas orais, evidenciando como os temas medievais de "coita amorosa" (sofrimento amoroso) e a sátira foram reescritos e reaproveitados em diferentes épocas e lugares, incluindo a América do Sul. Essa manifestação é um dos pilares do tradicionalismo no Rio Grande do Sul, assemelhando-se às antigas cantigas que animavam os sonhos no velho mundo.

 

Diferente da payada (que é mais literária e acompanhada por violão), a trova é a forma mais popular de improviso no Rio Grande do Sul. Ela possui três estilos principais reconhecidos oficialmente: Campeira (Mi Maior de Gavetão) – o estilo mais tradicional e rústico –, Martelo, caracterizado por versos rápidos e rimas desafiadoras e Estilo Gildo de Freitas, assim nomeado em homenagem a um dos maiores trovadores do gaúcho, focado no relato de fatos cotidianos e no duelo de rimas.

 

Nas paragens gaúchas, o trovadorismo é tão relevante na região que possui datas oficiais de celebração. O Dia Nacional do Trovador celebrado no dia 18 de Julho e o Dia do Trovador do Rio Grande do Sul, festejado no dia 04 de Dezembro, anualmente. Além destas duas datas, Uruguaiana, realiza o maior festival nativista e de palco para diversas expressões poéticas, chamado Califórnia da Canção Nativa, desde 1971, na segunda semana de Dezembro.

 

A trova, composta de quatro versos setissílabos, é um "vaso de flores que o povo põe à janela de sua alma", representando uma união cultural por meio da rima e do ritmo, conforme Luiz Otávio. Em um tempo de baixo índice de alfabetização, as cantigas (de amor, amigo, escárnio e maldizer) são cantadas e acompanhadas por instrumentos, unindo nobres e plebeus sob os mesmos temas de amor, sofrimento e sátira. Embora "medida velha", é suficiente à união dos povos.

 

Maranguape, Ceará, 05 de Março de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira ACELP nº 3

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CORRESPONDER

  Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu no...