quarta-feira, 4 de março de 2026

PANELA QUE MUITOS MEXEM, OU SAI INSOSSA OU SALGADA

 

A sabedoria do povo, que alimenta a literatura popular, enquanto com ela alicerça a cultura popular é rica em provérbios singelos, porém, de força tão viril quanto graciosa é sua beleza. Ao dizermos que “panela que muitos mexem, ou sai insossa ou salgada" externamos de forma comprovadamente prática e científica que, além da comida, empresas, projetos desta, propósitos coletivos com excesso de opiniões u envolvimento de muitas pessoas tendem a falhar ou perder a qualidade. A metáfora sugere que a falta de uma liderança única resulta em desequilíbrio e resultados ruins.


Resultados inconsistentes e/ou ruins são consequência direta da ausência de um responsável definido em processos ou sistemas, especialmente em gestão de riscos e compliance. Quando não há clareza sobre quem é o responsável por uma ação ou decisão, as medidas de controle perdem eficácia, o acompanhamento se torna inviável e a responsabilidade se dilui. Portanto, definir responsáveis com clareza é essencial para garantir consistência, eficácia e auditoria em qualquer processo organizacional. O responsável nasce dos feitos por si praticados e do impacto (efeitos) causado.


A falta de definição de responsabilidades cria uma ambiguidade de papéis, gerando atrasos, erros operacionais e retrabalho, pois, não se sabe quem deve executar, priorizar ou concluir tarefas, e nem mesmo a quem atender. Isso corrói a confiança, reduz a produtividade e aumenta o estresse, exigindo definição clara de escopo para evitar falhas. A desorganização e a incerteza constante aumentam a carga mental, gerando "modo ansiedade", desmotivação e propensão ao esgotamento (burnout). Numa ambiência tóxica assim, nada viceja, só os conflitos fenecendo os propósitos.


A indefinição de responsabilidade cria o cenário perfeito para o "jogo de empurra". Sem donos claros, as tarefas essenciais acabam caindo no "limbo", onde todos acham que alguém vai fazer, e ninguém faz. Esse cenário claramente faz cultura ao descrever o fenômeno psicológico e organizacional conhecido como difusão de responsabilidade ou "efeito espectador" não somente ambiente de trabalho, pois, isto também ocorre onde o oportunismo encontra o terreno fértil má gestão dos recursos disponíveis, dando vida à improdutividade e à amoralidade dos costumes e práticas.


Recursos ilimitados com responsabilidades ambíguas levam ao desperdício. A saída desse limbo é simples (mas rígida): uma tarefa, um único CPF responsável, pois, a clareza nas responsabilidades é mais importante do que a quantidade de recursos disponíveis, já que, define quem faz o quê, evitando a duplicação de esforços, lacunas de execução e o retrabalho. Quando papéis são claros, a eficiência e a responsabilidade individual (accountability) aumentam, garantindo que os recursos existentes sejam usados de forma otimizada para o sucesso do projeto.


Clareza nas responsabilidades é fundamental para garantir que todos os membros da organização entendam seus papéis, evitando sobreposições, falhas de comunicação e alocamento ineficiente de esforços. Sem essa clareza, mesmo com grandes quantidades de recursos - humanos, financeiros ou tecnológicos -, o desempenho pode ser comprometido por decisões equivocadas, atrasos e falta de coordenação. A clareza nas responsabilidades atua como o sistema operacional de uma grupo: reduz a carga cognitiva, elimina gargalos. Sem ela, não afere desempenho, nem se ajusta rotas.


Ótimo remédio, a definição clara de responsabilidades não só melhora a eficiência, como também, é fundamental para o bom clima organizacional e a saúde mental dos colaboradores. Clareza garante que a pessoa certa, com a habilidade certa, execute a tarefa correta. Fomentar uma cultura de Accountability (contabilização) onde cada um assume o compromisso com o resultado final (see it, own it, solve it, do it) é imprescindível para o sucesso e felicidade de todos os envolvidos no empreendimento. Siga o líder, que foi por todos legitimado.


A responsabilidade do líder é refletir a responsabilidade de todos, que em suas ações se veem refletidos e representados. Ao agir, o líder representa o grupo, transformando ações individuais em resultados comuns, onde cada membro se vê representado. Isso cria um ambiente de confiança onde o líder dá o exemplo, promovendo uma cultura de autorresponsabilidade e engajamento. A responsabilidade do líder vai além da hierarquia; trata-se de guiar, desenvolver e influenciar pessoas para objetivos comuns, servindo de modelo. Sua missão é ser o espelho da cultura e dos valores coletivos.


Liderar, portanto, é assumir a responsabilidade pelas ações e resultados coletivos, construindo uma cultura onde todos se sintam donos dos processos que executam eficaz e proficientemente para a realização dos propósitos e/ou metas assumidos por todos. Para ter uma equipe engajada, o líder deve agir primeiro com clareza, escuta ativa e responsabilidade. Essa é uma visão poderosa e circular da liderança: o líder não é um fim em si mesmo, mas, um espelho da cultura e do compromisso coletivo. Ela é a síntese da vontade e da conduta do time, uma simbiose protagoniza o progresso.


Notadamente, quando o líder assume a responsabilidade, ele valida o esforço de cada liderado, criando um ciclo de pertencimento e integridade. Líderes que assumem seus papéis desenvolvem autonomia, em vez de depender de obediência, transformando o esforço individual em sucesso coletivo. Esse comportamento reforça a cultura ética e a motivação. Liderança eficaz não apenas cobra metas, ela constrói um ambiente onde o desenvolvimento de competências é incentivado. Um veraz líder sente-se alegre com a felicidade daqueles colaboram consigo.


Indiscutivelmente, a liderança autêntica se fundamenta em responsabilidade, autoconhecimento e ações coerentes, gerando um impacto positivo e duradouro no clima organizacional. Como diz Simon Sinek, "a liderança é uma escolha, não um cargo". Quando o líder protege seus liderados, eles, em contrapartida, protegem a organização, gerando resultados sustentáveis e um clima positivo, fundamentado na coerência entre discurso e ação. Ao invés de medo, líderes autênticos cultivam um ambiente de confiança, resultando em cooperação e proteção mútua dentro da organização.


A visão de Sinek ressoa com o conceito do Círculo de Segurança: quando o líder assume a responsabilidade de criar um ambiente seguro, o foco da equipe deixa de ser a sobrevivência interna (politicagem e medo) e passa a ser a superação de desafios externos e a inovação. A autenticidade é o que sustenta essa estrutura. Sem autoconhecimento, o líder age por impulso ou ego; sem coerência, a confiança - que é a base de qualquer clima organizacional saudável — se dissolve rapidamente. Líderes sem essa base geram ambientes de desconfiança e instabilidade, prejudicando o clima.


O autoconhecimento é o alicerce da liderança eficaz, permitindo que líderes controlem impulsos e o ego, enquanto a coerência entre valores e atitudes constrói a confiança, base para um ambiente organizacional saudável. Conhecer a si mesmo é vital para gerenciar emoções, identificar pontos fortes/fracos e manter a consistência, o que sustenta uma eficaz gestão de pessoas. Essa é uma leitura muito precisa da psicologia da liderança. Sem o autoconhecimento, o líder torna-se refém de seus próprios gatilhos emocionais, reagindo ao ambiente em vez de respondê-lo com intenção.


Incontestavelmente, havendo um abismo entre o que o líder diz e o que ele faz, a equipe entra em um estado de vigilância e insegurança, o que mata a inovação e a colaboração. No fim das contas, a liderança não é sobre o cargo, mas sobre a previsibilidade ética e o domínio de si. A coerência é o que transforma o discurso em exemplo, posto que, a liderança verdadeira ancora-se no comportamento - postura e respeito demonstrados nas atitudes diárias - e na capacidade de influência, e não apenas no título, pois, pessoas seguem atitudes, não posições.


A cultura organizacional sempre é – e será sempre - moldada pelas ações dos líderes; quando discurso e prática se alinham ("walk the talk"), a liderança torna-se exemplar e consistente. A previsibilidade ética, o domínio de si (autocontrole) e a coerência entre discurso e prática são os pilares que transformam o líder em um exemplo, gerando confiança e engajamento. Líderes de sucesso gerenciam suas emoções para não se tornarem reféns delas, agindo racionalmente e com integridade para que a equipe possa confiar em suas decisões, pois, elas representam exatamente os anseios do grupo.


Habilidosamente, o cargo confere autoridade, porém, a coerência é o que conquista a legitimidade. Quando um líder possui domínio de si, ele responde com base em valores e princípios que equilibram os interesses de todos num só propósito. Essa previsibilidade ética gera segurança psicológica na equipe, pois todos sabem que as decisões não serão arbitrárias, mas, fundamentadas nestes sólidos princípios que norteiam o feliz convívio dos homens nas interações que promovem ao longo de suas existências, na constante busca pelo aprimoramento intimo, pelo progresso e bem-estar.


Essa cultura de integridade não somente melhora a eficiência, mas, principalmente, promove uma "ambiência feliz" ao reduzir conflitos e aumentar a lealdade. Esse ambiente permite que as pessoas se expressem e assumam riscos fundamentais para o progresso e o aprimoramento íntimo, pois, a energia que seria gasta em autodefesa é canalizada para a colaboração e o propósito comum. A integridade transforma o clima organizacional, esculpindo-o como um espaço seguro para o crescimento pessoal e profissional, sob o auspícios da lealdade que abraça a todos no mesmo propósito.


Embora o adágio popular “panela que muitos mexem, ou sai insossa ou salgada” avise sobre os perigos do excesso de opiniões, o dito também é questionado, pois, em alguns casos, o "tempero do coletivo" enriquece a receita (o processo). A melhor receita surge do "trabalho em equipe" (colaboração com papéis definidos e objetivos alinhados), onde o saber coletivo é maior que a soma das partes. A inteligência coletiva e a diversidade, se geridas, superam o pensamento individual. O ditado alerta para a desordem, não para a colaboração em si.


Maranguape, Ceará, 04 de Março de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira ACELP nº 3


terça-feira, 3 de março de 2026

CANTAR CONSTRÓI O AMANHÃ

 

A cantoria, especificamente a nordestina, é um espetáculo poético-musical de improviso, onde poetas (cantadores) enfrentam-se ao som da viola. Baseia-se na tradição oral, versos improvisados, métrica e rimas rigorosas (como a sextilha ou o martelo), originada no interior do Nordeste brasileiro no século XIX. O conceito central da cantoria reside no duelo poético improvisado, em que um cantador inicia com uma estrofe e o outro responde, mantendo rigor na métrica (predominando versos heptassílabos e decassílabos) e na rima perfeita.


A prática envolve não somente técnica, mas, principalmente, dom criativo, sensibilidade poética e conhecimento profundo das tradições orais. Trata-se de uma manifestação cultural rica e vibrante, que combina além da oralidade, música e poesia, onde os participantes criam versos em rimas de forma espontânea, geralmente acompanhados por instrumentos típicos como a viola de 10 cordas (na afinação nordestina), símbolo da música popular e do repente, de influência ibérica, ou a sanfona. É uma estética da cultura que conecta o passado ao presente.


A cantoria é uma herança cultural transmitida de geração em geração, focada na vivência, na emoção e na sabedoria popular, afastada dos modismos urbanos. A essência da cantoria, indiscutivelmente, é o repente, cuja inventividade manifesta instantaneamente sua arte sobre quaisquer temas sugeridos pelo público ou predefinidos. O cantador é um intérprete da brasilidade, que louva a terra, o amor e o cotidiano, com foco na emoção e na mensagem, mais do que na técnica vocal perfeita. A cantoria canta a vida e a inspira a evoluir ao som do progresso que faz.


A cantoria de viola, profundamente arraigada no âmago do nordestino, une o Brasil de norte a sul como uma das expressões mais autênticas da identidade popular. Com o improviso, rimas e violeiros viajantes, a arte perpetua tradições orais e conecta o baião ao repente, sendo reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Um legado iniciado no século XIX, tendo a região da Serra do Teixeira (PB) como um de seus marcos iniciais. Hoje, é considerado um dos pilares da identidade cultural brasileira, influenciando gêneros modernos como o Rap e o Cordel.


Imprescindível ao Brasil, a cantoria não é simplesmente música, mas, um documento vivo da tradição oral brasileira que, ao viajar pelas regiões, reafirma a união nacional através da rima e do talento. Se manifesta em outras regiões do Brasil com variações locais, como a trova no Sul, com influência do violão e do acordeão, e a pajada, mais recitada e em décima espinela. Está presente no norte do Distrito Federal desde a construção da Capital Federal, com destaque para regiões como Planaltina e Sobradinho, ensinando aos candangos a graça do “ser pra preservar”.


Violeiros e cantadores como Osnir Soares, Chico de Assis e João Santana percorreram espaços por todo a região norte do Distrito Federal, apresentando estilos como Sextilhas, Motes de 7 e 10 sílabas, Décimas, Quadrão e Martelo Alagoano, além de distribuir livretos de literatura de cordel, arte de origem semelhante. Por justo mérito, desde 2021, o repente é reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Iphan, destacando sua relevância histórica e artística. Quem com sabedoria e beleza encanta traz consigo força que a todos levanta: amor.


Um dos maiores símbolos do influente poder da contaria é o projeto Cantoria, que há décadas reúne nomes como Geraldo Azevedo, Elomar, Vital Faria e Xangai para levar a música regional a palcos de todo o país. O projeto, fomentado pelo Fundo de Apoio à Cultura do DF, visa fortalecer a identidade cultural e aproximar comunidades de suas raízes, com cerca de 2 mil moradores beneficiados. Como diz o mestre Moraes Moreira: "o que é que une o Brasil de norte a sul com certeza? É a música e a língua portuguesa!"


Por muito oportuno, toma chegada Cego Aderaldo, um dos maiores expoentes da cantoria poética nordestina no século XX, transformando sua condição de cegueira e pobreza em uma poderosa expressão artística. Seu habilidoso talento é reconhecido em todo o Nordeste, chegando a ser comparado a figuras como Padre Cícero e Lampião, com quem compartilhou um histórico encontro em 1924 em Juazeiro. O "patriarca dos cantadores" tem sua memoria preservada na Casa de Saberes Cego Aderaldo, em Quixadá, onde a poesia popular e as tradições sertanejas são festejadas.


A Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho dos Tucuns, obra de Firmino Teixeira do Amaral (1916), é uma das mais emblemáticas cantorias do gênero, retratando um desafio entre dois cantadores, onde Aderaldo, apesar do preconceito por ser cego e forasteiro, vence com sua eloquência e bravura. O poema é um testemunho da cultura popular e dos conflitos sociais do sertão. Ainda que vencido, Zé Pretinho dos Tucuns permanece como um símbolo da tradição oral nordestina, representando tanto o mestre cantador quanto o arquétipo do "negro de fama" no imaginário popular.


Apesar de ser apresentado como um adversário temido - com uma reputação de vencer qualquer disputa -, Zé Pretinho é retratado como um homem de grande presença e autoridade na comunidade de Varzinha, onde a peleja ocorre. Ele é descrito como um homem de roupa branca, cavalo encapotado, e com uma viola enfeitada de fita, simbolizando seu status de mestre na arte do cordel. Zé Pretinho tem na humildade a sua grandeza: "sou seu subalterno, embora estranho, creio que apanho e não dou um caldo", admitindo assim a superioridade do Cego Aderaldo.


Além de cantador, Aderaldo foi visionário e empreendedor: foi um dos primeiros a levar novidades tecnológicas para o interior, atuando como exibidor de cinema itinerante na década de 1930 e utilizando gramofones para apresentar discos ao povo sertanejo. Adotou e educou 26 crianças, garantindo-lhes educação formal e formação musical. Com eles, o Cego organizou uma orquestra familiar, manifestando sua visão humanitária e compromisso com o desenvolvimento social através da arte. Em vida, levou a cantoria às grandes capitais, onde era saudado como um herói nacional.


Inventivo, o Cego Aderaldo foi um dos primeiros cantadores a ganhar notoriedade nacional, levando a cantoria de improviso para grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. Ele participou da inauguração da primeira emissora de TV no Brasil. Admirado por intelectuais como Rachel de Queiroz, sua trajetória inspirou gerações de artistas, incluindo Luiz Gonzaga. Inusitado, ele tirou o baião da viola, orquestrando-o e influenciando grandes artistas como Luiz Gonzaga, que usando a sanfona, o triângulo e a zabumba, levou a dança e a cultura nordestina a todo o Brasil.


Notabilizado pela Assembleia Legislativa do Estado (Alece), que estabeleceu o ‘Dia do Cantador’ no Ceará, em homenagem ao poeta caririense Cego Aderaldo. A data escolhida faz referência ao dia do nascimento de Cego Aderaldo, em 24 de junho de 1878, no Crato. O projeto visa incentivar atividades culturais na comemoração, como apresentações musicais, leituras de poesia, exposições de arte e oficinas de criação literária. Além de Aderaldo, o projeto destaca outros poetas populares cearenses, como Patativa do Assaré, Geraldo Amâncio, Dideus Sales e Sávio Pinheiro.


Imortal, Aderaldo Ferreira de Araújo, vive nas memórias daqueles que o viram atuar, daqueles que declamam suas poesias, daqueles que, como ele, compõem e declamam, mantendo vida a secular tradição da viola, de todos os que ouvirão seu gramofone e tiveram a grata alegria de serem incluídos por ele no mundo das artes e do conhecimento. Aderaldo não apenas "viu" o mundo através de sua sensibilidade poética, ele ensinou gerações a enxergar a riqueza da identidade sertaneja ao incentivar a cultura, a inventividade e o compartilhamento do conhecimento entre as gerações.


Irrefutavelmente, a cantoria de viola é uma das formas mais loquazes (expressivas e eloquentes) de comunicação popular no Nordeste brasileiro, pois utiliza a poesia improvisada e a música para transmitir saberes, emoções, críticas sociais e narrativas orais com grande agilidade e profundidade. Esse "veículo" combina a habilidade técnica dos repentistas com a tradição oral. Ela transforma o cotidiano, o improviso e a métrica rigorosa em uma ferramenta poderosa de comunicação preservação de identidade e de contação da História, ao passo que a escreve.


Cativante, a cantoria, especialmente o repente e a viola no Nordeste brasileiro, é um poderoso instrumento de inclusão e coesão social ao valorizar a cultura popular, dar voz a comunidades marginalizadas e fortalecer vínculos comunitários. Através da improvisação, a cantoria une gerações, resgata a identidade sertaneja e transforma o sofrimento em arte, promovendo o sentimento de pertencimento e o diálogo social. Ela cria espaços de convivência - festivais, feiras e festas - onde diferentes gerações e segmentos da sociedade trocam saberes, experienciações e ensejam a harmonia social.


Buscando a métrica perfeita, a cantoria finda por atuar na transformação social ao nutrir o imaginário popular, divulgar a cultura nordestina e oferecer um espaço de reflexão crítica, fortalecendo a identidade coletiva e o bem-estar social. Através de versos improvisados, os poetas abordam questões locais, sátiras políticas e as dificuldades da vida sertaneja, permitindo o engajamento comunitário. O repente funciona como um sistema artístico-comunicacional que dá voz ao povo e promove o desenvolvimento de ética e valores. Se música apascenta as feras, também, aprimora o homem.


A música coletiva e a cantoria semeiam o sentimento de pertencimento, permitindo que indivíduos se reconheçam em narrativas comuns. Práticas como o canto coral ou as duplas de repentistas ensinam valores fundamentais como respeito mútuo, disciplina, escuta ativa e a compreensão de papéis interdependentes dentro de uma sociedade. Em contextos de vulnerabilidade, projetos de musicalização e cantoria são ferramentas de cidadania, a exemplo do Cego Aderaldo, oferecendo novos horizontes de expressão emocional e cultural, enquanto formam os construtores do amanhã.


Maranguape, Ceará, 03 de Março de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira ACELP nº 3

segunda-feira, 2 de março de 2026

GOVERNAR É SER-SE FELIZ NA FELICIDADE DO OUTRO

 

A relação entre Justiça e Governança está profundamente ligada à produção de frutos positivos para a sociedade, como transparência, eficiência, confiança e equidade. A boa governança, com foco não somente transparência, porém, sempre motivada a prestar contas (accountability), gera ambientes mais confiáveis, facilitando investimentos e diminuindo riscos.

 

Quando a governança é pautada na ética e na justiça, ela fortalece o estado de direito e a proteção dos direitos humanos, impactando positivamente a sociedade civil e a gestão pública. O fruto direto da justiça é a paz, resultando em tranquilidade e confiança duradouras para a sociedade. Como declarado em Isaías 32:17: “o fruto da justiça será repouso e segurança para sempre”.

 

A justiça, como virtude política das instituições, busca o equilíbrio e a justa medida, combatendo as iniquidades geradas pelo mercado e fortalecendo o bem-estar coletivo. Para Vladimir Passos de Freitas, a governança pública atende à descrença da população no sistema de governo e à necessidade de modernização da administração pública, promovendo uma Justiça mais participativa.

 

Resolutamente, justiça e governança não são apenas mecanismos administrativos, mas, fontes de transformação social e moral, focadas no compromisso real com o bem comum. Exemplo isto, o Programa Justiça 4.0, fruto de parceria entre o CNJ e o PNUD, promove soluções digitais colaborativas, que elevam a produtividade, celeridade, gestão e transparência dos processos judiciais.

 

Há ainda os implementos inaugurados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e tribunais como o TJDFT, que aplicam princípios de governança para melhorar a prestação jurisdicional. A implementação de regras de conformidade (compliance) assegura que a justiça não seja, meramente, uma decisão teórica, mas, fundamentalmente, um serviço público eficiente e ético.

 

Historicamente, o "fruto da justiça" é associado à harmonia coletiva. Para Aristóteles, a justiça frutifica quando se torna um hábito (virtude) que equilibra as relações entre os indivíduos, evitando excessos e carências. Segundo ele, a justiça é uma disposição interior formada pelo hábito e pela prática, que permite a realização plena do ser humano na comunidade política (pólis).

 

No pensamento aristotélico, a justiça é a virtude completa e sempre voltada para o outro e para o bem comum.  Ela se manifesta no meio-termo entre dois extremos – excesso e falta – porém, com uma especificidade: regular as relações humanas, assegurando equilíbrio nas trocas e nas distribuições. Esse equilíbrio se manifesta tanto no âmbito individual, quanto no coletivo.

 

Notadamente, a troca é a base das interações, desde relações pessoais a transações comerciais, ancorada em conceitos éticos, jurídicos e sistêmicos, frequentemente descrito como a busca pela harmonia e justiça social. Segundo Bert Hellinger, as Ordens do Amor – Lei do Pertencimento, da Hierarquia e da Correspondência – regem as relações humanas, visando a harmonia.

 

Incontestavelmente, a regulação harmoniosa das relações humanas exige um processo contínuo de avaliação do equilíbrio (comutativo e distributivo), garantindo que as trocas sejam justas e que a distribuição de recursos considere a dignidade e o mérito dos envolvidos. A construção de um legado coletivo através do melhor uso - e atuação – dos espaços de poder sustenta a representatividade. 

 

Da prática contínua de ações justas, sob a tutela da prudência (phrónesis), emerge o indivíduo como um cidadão virtuoso, capaz de contribuir para a estabilidade e harmonia da polis, enquanto, seu esmero e proficiência a representam.  Nele, a justiça frutifica quando se torna um hábito ético que sustenta a vida em comum, tornando-se o alicerce da convivência política e social.

 

Não basta diversidade na base; a representatividade foca em ter vozes diversas em posições que possuem poder para mudar e moldar a cultura organizacional. Acolhedoramente, ela é a materialização da inclusão, promovendo um ambiente de trabalho – ou não – mais justo, onde a diversidade é uma prática diária e não simplesmente um conceito que aguarda emprego.

 

Um líder representativo traz autenticidade e empatia, conectando-se com as vivências do time e servindo de exemplo positivo. A representatividade ocorre quando a liderança reflete a diversidade dos colaboradores e da sociedade. O líder atua como o reflexo, a voz e o exemplo de um grupo ou organização – o padrão de comportamento da equipe – seu agir valida as normas.


O real propósito da liderança representativa é servir aos interesses coletivos, garantindo que a equipe tenha as ferramentas e o suporte necessários. O líder atua como um porta-voz que defende as metas e o bem-estar dos seus liderados perante outras instâncias. Quando o grupo vê alguém "como eles" em posições de poder, aumenta-se o sentimento de pertencimento e motivação.

 

A representatividade é um dever ético e social, que segue além da presença física para garantir que grupos historicamente hipossuficientes – negros, mulheres, pessoas com deficiência – ocupem o lugar que lhes compete. É um mecanismo de justiça que combate preconceitos, fortalece a autoestima, promove a igualdade de oportunidades e assegura a diversidade de perspectivas.

 

Não se trata meramente de números, mas, sobre garantir que diferentes vozes e vivências moldem a sociedade, as empresas e as famílias, combatendo machismo, racismo e outras formas de segregação – dissipando, assim, tiranias, preconceitos e erros – como modus sustentador do direito à justiça, do melhor para a pátria e da felicidade humana. A ordem e o progresso disso dependem.

 

A representatividade como dever cívico transforma o "estar lá" em poder de mudança, fortalecendo a democracia e a justiça social para um futuro mais equitativo. Ela questiona esse mérito quando ele ignora disparidades de oportunidades, pois, a meritocracia tradicional pode se tornar um mecanismo conservador que perpetua privilégios (como o "privilégio branco" e "mérito negro").


Fervoroso é o debate que trata da relação entre mérito e representatividade, pois, cativa nosso olhar para a sociedade moderna, especialmente em espaços de poder, no mercado de trabalho e nas instituições públicas. O ponto de fricção ocorre quando políticas de representatividade (como as cotas) são vistas por alguns como uma ameaça ao mérito, ainda que haja possível conciliação.

 

Defensores da representatividade argumentam que o mérito só é justo se todos tiverem as mesmas oportunidades básicas. Sem diversidade, o "mérito" pode ser apenas um reflexo de quem teve mais acesso a recursos. Neste tocante, a representatividade na liderança é defendida como uma forma de trazer diferentes visões de mundo, o que melhora o desempenho das organizações.

 

Como um dever cívico, a representatividade deixa de ser meramente uma pauta de identidade e passa a ser compreendida como um robusto pilar de sustentação da própria democracia e da coesão social – onde há exclusão social, o sistema não representa todos os cidadãos. Para que o poder exercido em nome do povo seja legítimo, ele precisa refletir a composição real desse povo.

 

A cidadania é o equilíbrio entre direitos e deveres. Exercê-la plenamente exige que o cidadão se veja nas instâncias de decisão. O reconhecimento da diversidade é essencial para o desenvolvimento da sociedade e das próprias organizações, pois, minora substancialmente distanciamento entre "dirigentes e dirigidos", o que fortalece o engajamento cívico e a confiança nas instituições.


Entender a representatividade como dever significa que instituições (públicas e privadas) têm a obrigação ética de promover espaços plurais. Isso não é apenas uma "escolha" da gestão, mas, um compromisso com a justiça e a eficiência social, uma vez que ambientes diversos tendem a ser mais criativos e inovadores. Envolve a presença e a valorização de indivíduos que refletem a diversidade da sociedade em posições de notória influência.

 

Tratar a representatividade como um dever cívico é reconhecer que uma democracia robusta exige que todos os cidadãos não apenas tenham o direito de votar, mas, que tenham garantida a possibilidade real de serem ouvidos e de ocuparem espaços de poder. Uma governança representativa espelha seus governados naquilo que faz em seu nome na construção de convívio justo e próspero.

 

Maranguape, Ceará, 02 de Março de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9


domingo, 1 de março de 2026

UM NOVO CICLO EMERGE NO HORIZONTE

Nascida aos 19 de Janeiro de 2019, a Academia Cearense de Literatura Popular veicula-se entre o povo para cumprir em seu nome ser a guardiã dos seus constructos literários - contos, lendas, mitos, provérbios, ditos populares, adivinhas, romanceiros, quadras, cantigas e poesia de cordel, entre outros rutilantes gêneros – para tanto difundindo-os, estimulando literatos a produzir mais e sempre melhor e, claramente, preserva a língua materna com meio primaz de comunicação.


A literatura popular é um conjunto de formas de arte verbal criadas pelo povo, muitas vezes de forma anônima, que expressam os valores, tradições, crenças, anseios e imaginário coletivo de uma comunidade. Por oportuno, destaco que o termo é polissêmico e pode gerar equívocos, pois, não se refere apenas à qualidade ou simplicidade da obra, mas sim, à origem social, ao processo de criação e ao modus de circulação, que são os vetores desta identidade cultural brasileira.


Proativa, a literatura popular se adapta, (re)cria e responde às transformações sociais, como demonstra a evolução da poesia de cordel no Brasil, que passou a abordar temas políticos e sociais com maior intensidade. Em uma perspectiva romântico-socialista, o termo "popular" refere-se à classe social basilar, e a literatura popular passa a ter um papel pedagógico, visando a libertação da ignorância, do medo e da injustiça, promovendo não só a (re)novação social, mas também, a coesão social.


Diferentemente da ABL, que se concentra na literatura erudita e em figuras reconhecidas da cultura nacional, a Academia Cearense de Literatura Popular destaca a criatividade popular, a oralidade e a participação coletiva, a partir de agências que incitam o engajamento dos confrades que a compõem dando-lhes enlevo e notoriedade na ambiência social em que desenvolvem suas atividades. Envolve valorizar o saber popular e a diversidade linguística do país.


Exemplando-se na Academia Brasileira de Literatura de Cordel é uma bem-sucedida iniciativa que amplia o alcance da ABL para a literatura popular, criada em 1978, com a missão valorizar e renovar o gênero cordel, que historicamente é produzido por artistas populares com baixo nível educacional formal, a Academia Cearense de Literatura Popular tem em seu quadro social cordelistas formados e preocupados com a revalorização do gênero, que dão ao cordel novo contexto didático e artístico.


Desde o século XVII arraigado nas tradições orais, o Cordel se consolida como uma forma de poesia popular acessível, transmitida por meio de folhetos impressos com xilogravuras, vendidos em feiras e mercados - daí o nome "cordel", referente às cordas usadas para pendurá-los. Seu impacto vai além do entretenimento: a literatura de cordel combate o analfabetismo, ensina história e valores cívicos e serve como ferramenta pedagógica poderosa, especialmente onde há escassa escolarização formal.


Dotado de uma linguagem coloquial auspiciosa cadenciando seu ritmo acelerado, onde reina o humor, a sátira e a crítica social, o cordel manifesta textos envolventes e acessíveis, promovendo a leitura e a reflexão crítica que inspiram ordem e o progresso. Cativante, o cordel influencia fortemente a música popular brasileira, o teatro, a literatura contemporânea e até as redes sociais, onde novos cordelistas travam desafios virtuais ao passo que desbravam fronteiras levando ao mundo sua arte.


Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN (em 2018) e valorizada por escritores como Carlos Drummond de Andrade, a literatura de cordel é, segundo ele, "uma das manifestações mais puras do espírito inventivo, do senso de humor e da capacidade crítica do povo brasileiro". Não é a toa que a Academia Cearense de Literatura Popular tem no cordel sua mais robusta coluna a sustentar a proficiente casa do saber popular que constrói bravamente nestes seis anos de sua existência.


Guardiã da brasilidade e brava defensora da língua materna, a Academia Cearense de Literatura Popular tem no folclore seu mais digno parceiro graças a sua habilidade de contar a História de uma nação preservando ao saberes ancestrais e de fortalecer o senso de pertencimento que faz coesa sociedade na realizações dos propósitos benfazejos à coletividade. O folclore atua como um pilar na construção social e intelectual do ser humano, conectando o indivíduo às suas origens.


Longe de ser apenas uma "reminiscência do passado", o folclore é continuamente ressignificado na arte contemporânea e em discussões modernas. O ensino do folclore nas escolas é considerado fundamental para uma "educação para a vida”, o que responsabiliza com a mesma intensidade com que estimula a Academia Cearense de Literatura Popular a cumprir com proeminente galhardia de preservar, disseminar e, também, guardar a memoria cultural do povo brasileiro. O futuro do Brasil, disto depende.


Guardiã da memória do povo, a Academia Cearense de Literatura Popular tem na trova um dos principais veículos da poesia espontânea, do senso de humor, da sabedoria popular e da identidade nacional, portanto, reconhece seu papel fundamental na cultura popular brasileira e o difunde a partir de oficinas e concursos, incentivando a criação de trovas entre jovens e consolidando a poesia popular na educação, por sua característica de fácil memorização, criação e compartilhamento.


A trova é uma linguagem popular que transcende gerações. Como afirma Jorge Amado, a trova é "a criação literária mais popular, que fala mais diretamente ao coração do povo". Em um mundo cada vez mais digital e acelerado, a trova resiste como símbolo de resistência cultural, mantendo viva a tradição da oralidade, da emoção e da rima no cotidiano brasileiro. A trova é a alma do povo em quatro versos que carregam a sensibilidade e a criatividade do povo, especialmente em regiões interioranas.


No entanto, antenada no mundo digital, a Academia Cearense de Literatura Popular abraça o microconto como arguto companheiro nesta jornada cultura iniciada há seis anos, pois, ele é uma forma eficaz de expressão literária que combina concisão e densidade, permitindo que narrativas impactantes sejam contadas em poucas palavras - muitas vezes em uma única frase ou linha. Essa brevidade estimula a imaginação, chama a preencher lacunas e a interpretar significados - a leitura torna-se uma experiência ativa.


Autores como Dalton Trevisan, pioneiro no Brasil com o livro Ah, é? (1994), e escritores contemporâneos como Adriano Salvi e Verônica Stigger, contribuem para consolidar o gênero como um espaço de reflexão social, crítica e criatividade. A popularização do microconto também é impulsionada por iniciativas como o Prêmio MicroConto de Ouro, que busca ampliar a produção e a leitura desse gênero, ideia já absorvida e oportunizada pela Academia Cearense de Literatura Popular.


Comunicador loquaz, o microconto dialoga com as mudanças na forma como as pessoas consomem conteúdo - com leituras diagonais, em tempo reduzido - e reflete temas atuais, como a influência da tecnologia, a condição humana contemporânea e as desigualdades sociais. Desta forma, cativantemente, ele se torna não apenas uma forma literária, mas efusivamente, um espelho da sociedade moderna, acessível, provocativo e profundamente conectado à cultura popular.


Neste primeiro de março de 2026, vivendo há seis anos e um mês e 10 dias, a Academia Cearense de Literatura Popular inicia um novo ciclo de vida sob a gestão do Confrade Raimundo Carlos Alves Pereira, cuja expertise de vida transcende vivacidade e equilíbrio, vetores indispensável às mãos diligentes que dever fazer da Literatura Popular a expressão viva das experiências cotidianas, dos costumes, crenças e valores das comunidades regionais e populares, como no Nordeste do Brasil.


Democratizar é uma necessidade imprescindível em quaisquer aspectos do viver humano. E o Presidente Raimundo Carlos Alves Pereira, a exemplo do que propõem autores como Rildo Cosson e Jacklaine de Almeida Silva, compreende que os constructos literários populares usados nas escolas não apenas democratiza o acesso à leitura, mas também, fortalece o senso de pertencimento e a crítica social, ao mostrar como a linguagem regional e os temas cotidianos podem revelar profundas questões sociais e políticas.


Nesta agência repousa o sucesso da gestão do Presidente Raimundo Carlos Alves Pereira, colher e acolher o veio cultural do povo, aprimorá-lo e devolvê-lo ao povo numa simbiose perfeita onde a construção social é exequida harmoniosa e coesamente ao sabor da inovação e da inventividade que o fluído compartilhamento de conhecimento e experiências é capaz de patrocinar. Segundo ele, conhecimento é tudo, porém, provido de coração torna-se o “Poder que faz”.


Maranguape, Ceará, 01 de Março de 2026


ACADEMIA CEARENSE DE LITERATURA POPULAR
Secretaria
Bruno Bezerra de Macedo


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