segunda-feira, 2 de março de 2026

GOVERNAR É SER-SE FELIZ NA FELICIDADE DO OUTRO

 

A relação entre Justiça e Governança está profundamente ligada à produção de frutos positivos para a sociedade, como transparência, eficiência, confiança e equidade. A boa governança, com foco não somente transparência, porém, sempre motivada a prestar contas (accountability), gera ambientes mais confiáveis, facilitando investimentos e diminuindo riscos.

 

Quando a governança é pautada na ética e na justiça, ela fortalece o estado de direito e a proteção dos direitos humanos, impactando positivamente a sociedade civil e a gestão pública. O fruto direto da justiça é a paz, resultando em tranquilidade e confiança duradouras para a sociedade. Como declarado em Isaías 32:17: “o fruto da justiça será repouso e segurança para sempre”.

 

A justiça, como virtude política das instituições, busca o equilíbrio e a justa medida, combatendo as iniquidades geradas pelo mercado e fortalecendo o bem-estar coletivo. Para Vladimir Passos de Freitas, a governança pública atende à descrença da população no sistema de governo e à necessidade de modernização da administração pública, promovendo uma Justiça mais participativa.

 

Resolutamente, justiça e governança não são apenas mecanismos administrativos, mas, fontes de transformação social e moral, focadas no compromisso real com o bem comum. Exemplo isto, o Programa Justiça 4.0, fruto de parceria entre o CNJ e o PNUD, promove soluções digitais colaborativas, que elevam a produtividade, celeridade, gestão e transparência dos processos judiciais.

 

Há ainda os implementos inaugurados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e tribunais como o TJDFT, que aplicam princípios de governança para melhorar a prestação jurisdicional. A implementação de regras de conformidade (compliance) assegura que a justiça não seja, meramente, uma decisão teórica, mas, fundamentalmente, um serviço público eficiente e ético.

 

Historicamente, o "fruto da justiça" é associado à harmonia coletiva. Para Aristóteles, a justiça frutifica quando se torna um hábito (virtude) que equilibra as relações entre os indivíduos, evitando excessos e carências. Segundo ele, a justiça é uma disposição interior formada pelo hábito e pela prática, que permite a realização plena do ser humano na comunidade política (pólis).

 

No pensamento aristotélico, a justiça é a virtude completa e sempre voltada para o outro e para o bem comum.  Ela se manifesta no meio-termo entre dois extremos – excesso e falta – porém, com uma especificidade: regular as relações humanas, assegurando equilíbrio nas trocas e nas distribuições. Esse equilíbrio se manifesta tanto no âmbito individual, quanto no coletivo.

 

Notadamente, a troca é a base das interações, desde relações pessoais a transações comerciais, ancorada em conceitos éticos, jurídicos e sistêmicos, frequentemente descrito como a busca pela harmonia e justiça social. Segundo Bert Hellinger, as Ordens do Amor – Lei do Pertencimento, da Hierarquia e da Correspondência – regem as relações humanas, visando a harmonia.

 

Incontestavelmente, a regulação harmoniosa das relações humanas exige um processo contínuo de avaliação do equilíbrio (comutativo e distributivo), garantindo que as trocas sejam justas e que a distribuição de recursos considere a dignidade e o mérito dos envolvidos. A construção de um legado coletivo através do melhor uso - e atuação – dos espaços de poder sustenta a representatividade. 

 

Da prática contínua de ações justas, sob a tutela da prudência (phrónesis), emerge o indivíduo como um cidadão virtuoso, capaz de contribuir para a estabilidade e harmonia da polis, enquanto, seu esmero e proficiência a representam.  Nele, a justiça frutifica quando se torna um hábito ético que sustenta a vida em comum, tornando-se o alicerce da convivência política e social.

 

Não basta diversidade na base; a representatividade foca em ter vozes diversas em posições que possuem poder para mudar e moldar a cultura organizacional. Acolhedoramente, ela é a materialização da inclusão, promovendo um ambiente de trabalho – ou não – mais justo, onde a diversidade é uma prática diária e não simplesmente um conceito que aguarda emprego.

 

Um líder representativo traz autenticidade e empatia, conectando-se com as vivências do time e servindo de exemplo positivo. A representatividade ocorre quando a liderança reflete a diversidade dos colaboradores e da sociedade. O líder atua como o reflexo, a voz e o exemplo de um grupo ou organização – o padrão de comportamento da equipe – seu agir valida as normas.


O real propósito da liderança representativa é servir aos interesses coletivos, garantindo que a equipe tenha as ferramentas e o suporte necessários. O líder atua como um porta-voz que defende as metas e o bem-estar dos seus liderados perante outras instâncias. Quando o grupo vê alguém "como eles" em posições de poder, aumenta-se o sentimento de pertencimento e motivação.

 

A representatividade é um dever ético e social, que segue além da presença física para garantir que grupos historicamente hipossuficientes – negros, mulheres, pessoas com deficiência – ocupem o lugar que lhes compete. É um mecanismo de justiça que combate preconceitos, fortalece a autoestima, promove a igualdade de oportunidades e assegura a diversidade de perspectivas.

 

Não se trata meramente de números, mas, sobre garantir que diferentes vozes e vivências moldem a sociedade, as empresas e as famílias, combatendo machismo, racismo e outras formas de segregação – dissipando, assim, tiranias, preconceitos e erros – como modus sustentador do direito à justiça, do melhor para a pátria e da felicidade humana. A ordem e o progresso disso dependem.

 

A representatividade como dever cívico transforma o "estar lá" em poder de mudança, fortalecendo a democracia e a justiça social para um futuro mais equitativo. Ela questiona esse mérito quando ele ignora disparidades de oportunidades, pois, a meritocracia tradicional pode se tornar um mecanismo conservador que perpetua privilégios (como o "privilégio branco" e "mérito negro").


Fervoroso é o debate que trata da relação entre mérito e representatividade, pois, cativa nosso olhar para a sociedade moderna, especialmente em espaços de poder, no mercado de trabalho e nas instituições públicas. O ponto de fricção ocorre quando políticas de representatividade (como as cotas) são vistas por alguns como uma ameaça ao mérito, ainda que haja possível conciliação.

 

Defensores da representatividade argumentam que o mérito só é justo se todos tiverem as mesmas oportunidades básicas. Sem diversidade, o "mérito" pode ser apenas um reflexo de quem teve mais acesso a recursos. Neste tocante, a representatividade na liderança é defendida como uma forma de trazer diferentes visões de mundo, o que melhora o desempenho das organizações.

 

Como um dever cívico, a representatividade deixa de ser meramente uma pauta de identidade e passa a ser compreendida como um robusto pilar de sustentação da própria democracia e da coesão social – onde há exclusão social, o sistema não representa todos os cidadãos. Para que o poder exercido em nome do povo seja legítimo, ele precisa refletir a composição real desse povo.

 

A cidadania é o equilíbrio entre direitos e deveres. Exercê-la plenamente exige que o cidadão se veja nas instâncias de decisão. O reconhecimento da diversidade é essencial para o desenvolvimento da sociedade e das próprias organizações, pois, minora substancialmente distanciamento entre "dirigentes e dirigidos", o que fortalece o engajamento cívico e a confiança nas instituições.


Entender a representatividade como dever significa que instituições (públicas e privadas) têm a obrigação ética de promover espaços plurais. Isso não é apenas uma "escolha" da gestão, mas, um compromisso com a justiça e a eficiência social, uma vez que ambientes diversos tendem a ser mais criativos e inovadores. Envolve a presença e a valorização de indivíduos que refletem a diversidade da sociedade em posições de notória influência.

 

Tratar a representatividade como um dever cívico é reconhecer que uma democracia robusta exige que todos os cidadãos não apenas tenham o direito de votar, mas, que tenham garantida a possibilidade real de serem ouvidos e de ocuparem espaços de poder. Uma governança representativa espelha seus governados naquilo que faz em seu nome na construção de convívio justo e próspero.

 

Maranguape, Ceará, 02 de Março de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9


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