terça-feira, 3 de março de 2026

CANTAR CONSTRÓI O AMANHÃ

 

A cantoria, especificamente a nordestina, é um espetáculo poético-musical de improviso, onde poetas (cantadores) enfrentam-se ao som da viola. Baseia-se na tradição oral, versos improvisados, métrica e rimas rigorosas (como a sextilha ou o martelo), originada no interior do Nordeste brasileiro no século XIX. O conceito central da cantoria reside no duelo poético improvisado, em que um cantador inicia com uma estrofe e o outro responde, mantendo rigor na métrica (predominando versos heptassílabos e decassílabos) e na rima perfeita.


A prática envolve não somente técnica, mas, principalmente, dom criativo, sensibilidade poética e conhecimento profundo das tradições orais. Trata-se de uma manifestação cultural rica e vibrante, que combina além da oralidade, música e poesia, onde os participantes criam versos em rimas de forma espontânea, geralmente acompanhados por instrumentos típicos como a viola de 10 cordas (na afinação nordestina), símbolo da música popular e do repente, de influência ibérica, ou a sanfona. É uma estética da cultura que conecta o passado ao presente.


A cantoria é uma herança cultural transmitida de geração em geração, focada na vivência, na emoção e na sabedoria popular, afastada dos modismos urbanos. A essência da cantoria, indiscutivelmente, é o repente, cuja inventividade manifesta instantaneamente sua arte sobre quaisquer temas sugeridos pelo público ou predefinidos. O cantador é um intérprete da brasilidade, que louva a terra, o amor e o cotidiano, com foco na emoção e na mensagem, mais do que na técnica vocal perfeita. A cantoria canta a vida e a inspira a evoluir ao som do progresso que faz.


A cantoria de viola, profundamente arraigada no âmago do nordestino, une o Brasil de norte a sul como uma das expressões mais autênticas da identidade popular. Com o improviso, rimas e violeiros viajantes, a arte perpetua tradições orais e conecta o baião ao repente, sendo reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Um legado iniciado no século XIX, tendo a região da Serra do Teixeira (PB) como um de seus marcos iniciais. Hoje, é considerado um dos pilares da identidade cultural brasileira, influenciando gêneros modernos como o Rap e o Cordel.


Imprescindível ao Brasil, a cantoria não é simplesmente música, mas, um documento vivo da tradição oral brasileira que, ao viajar pelas regiões, reafirma a união nacional através da rima e do talento. Se manifesta em outras regiões do Brasil com variações locais, como a trova no Sul, com influência do violão e do acordeão, e a pajada, mais recitada e em décima espinela. Está presente no norte do Distrito Federal desde a construção da Capital Federal, com destaque para regiões como Planaltina e Sobradinho, ensinando aos candangos a graça do “ser pra preservar”.


Violeiros e cantadores como Osnir Soares, Chico de Assis e João Santana percorreram espaços por todo a região norte do Distrito Federal, apresentando estilos como Sextilhas, Motes de 7 e 10 sílabas, Décimas, Quadrão e Martelo Alagoano, além de distribuir livretos de literatura de cordel, arte de origem semelhante. Por justo mérito, desde 2021, o repente é reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Iphan, destacando sua relevância histórica e artística. Quem com sabedoria e beleza encanta traz consigo força que a todos levanta: amor.


Um dos maiores símbolos do influente poder da contaria é o projeto Cantoria, que há décadas reúne nomes como Geraldo Azevedo, Elomar, Vital Faria e Xangai para levar a música regional a palcos de todo o país. O projeto, fomentado pelo Fundo de Apoio à Cultura do DF, visa fortalecer a identidade cultural e aproximar comunidades de suas raízes, com cerca de 2 mil moradores beneficiados. Como diz o mestre Moraes Moreira: "o que é que une o Brasil de norte a sul com certeza? É a música e a língua portuguesa!"


Por muito oportuno, toma chegada Cego Aderaldo, um dos maiores expoentes da cantoria poética nordestina no século XX, transformando sua condição de cegueira e pobreza em uma poderosa expressão artística. Seu habilidoso talento é reconhecido em todo o Nordeste, chegando a ser comparado a figuras como Padre Cícero e Lampião, com quem compartilhou um histórico encontro em 1924 em Juazeiro. O "patriarca dos cantadores" tem sua memoria preservada na Casa de Saberes Cego Aderaldo, em Quixadá, onde a poesia popular e as tradições sertanejas são festejadas.


A Peleja de Cego Aderaldo com Zé Pretinho dos Tucuns, obra de Firmino Teixeira do Amaral (1916), é uma das mais emblemáticas cantorias do gênero, retratando um desafio entre dois cantadores, onde Aderaldo, apesar do preconceito por ser cego e forasteiro, vence com sua eloquência e bravura. O poema é um testemunho da cultura popular e dos conflitos sociais do sertão. Ainda que vencido, Zé Pretinho dos Tucuns permanece como um símbolo da tradição oral nordestina, representando tanto o mestre cantador quanto o arquétipo do "negro de fama" no imaginário popular.


Apesar de ser apresentado como um adversário temido - com uma reputação de vencer qualquer disputa -, Zé Pretinho é retratado como um homem de grande presença e autoridade na comunidade de Varzinha, onde a peleja ocorre. Ele é descrito como um homem de roupa branca, cavalo encapotado, e com uma viola enfeitada de fita, simbolizando seu status de mestre na arte do cordel. Zé Pretinho tem na humildade a sua grandeza: "sou seu subalterno, embora estranho, creio que apanho e não dou um caldo", admitindo assim a superioridade do Cego Aderaldo.


Além de cantador, Aderaldo foi visionário e empreendedor: foi um dos primeiros a levar novidades tecnológicas para o interior, atuando como exibidor de cinema itinerante na década de 1930 e utilizando gramofones para apresentar discos ao povo sertanejo. Adotou e educou 26 crianças, garantindo-lhes educação formal e formação musical. Com eles, o Cego organizou uma orquestra familiar, manifestando sua visão humanitária e compromisso com o desenvolvimento social através da arte. Em vida, levou a cantoria às grandes capitais, onde era saudado como um herói nacional.


Inventivo, o Cego Aderaldo foi um dos primeiros cantadores a ganhar notoriedade nacional, levando a cantoria de improviso para grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. Ele participou da inauguração da primeira emissora de TV no Brasil. Admirado por intelectuais como Rachel de Queiroz, sua trajetória inspirou gerações de artistas, incluindo Luiz Gonzaga. Inusitado, ele tirou o baião da viola, orquestrando-o e influenciando grandes artistas como Luiz Gonzaga, que usando a sanfona, o triângulo e a zabumba, levou a dança e a cultura nordestina a todo o Brasil.


Notabilizado pela Assembleia Legislativa do Estado (Alece), que estabeleceu o ‘Dia do Cantador’ no Ceará, em homenagem ao poeta caririense Cego Aderaldo. A data escolhida faz referência ao dia do nascimento de Cego Aderaldo, em 24 de junho de 1878, no Crato. O projeto visa incentivar atividades culturais na comemoração, como apresentações musicais, leituras de poesia, exposições de arte e oficinas de criação literária. Além de Aderaldo, o projeto destaca outros poetas populares cearenses, como Patativa do Assaré, Geraldo Amâncio, Dideus Sales e Sávio Pinheiro.


Imortal, Aderaldo Ferreira de Araújo, vive nas memórias daqueles que o viram atuar, daqueles que declamam suas poesias, daqueles que, como ele, compõem e declamam, mantendo vida a secular tradição da viola, de todos os que ouvirão seu gramofone e tiveram a grata alegria de serem incluídos por ele no mundo das artes e do conhecimento. Aderaldo não apenas "viu" o mundo através de sua sensibilidade poética, ele ensinou gerações a enxergar a riqueza da identidade sertaneja ao incentivar a cultura, a inventividade e o compartilhamento do conhecimento entre as gerações.


Irrefutavelmente, a cantoria de viola é uma das formas mais loquazes (expressivas e eloquentes) de comunicação popular no Nordeste brasileiro, pois utiliza a poesia improvisada e a música para transmitir saberes, emoções, críticas sociais e narrativas orais com grande agilidade e profundidade. Esse "veículo" combina a habilidade técnica dos repentistas com a tradição oral. Ela transforma o cotidiano, o improviso e a métrica rigorosa em uma ferramenta poderosa de comunicação preservação de identidade e de contação da História, ao passo que a escreve.


Cativante, a cantoria, especialmente o repente e a viola no Nordeste brasileiro, é um poderoso instrumento de inclusão e coesão social ao valorizar a cultura popular, dar voz a comunidades marginalizadas e fortalecer vínculos comunitários. Através da improvisação, a cantoria une gerações, resgata a identidade sertaneja e transforma o sofrimento em arte, promovendo o sentimento de pertencimento e o diálogo social. Ela cria espaços de convivência - festivais, feiras e festas - onde diferentes gerações e segmentos da sociedade trocam saberes, experienciações e ensejam a harmonia social.


Buscando a métrica perfeita, a cantoria finda por atuar na transformação social ao nutrir o imaginário popular, divulgar a cultura nordestina e oferecer um espaço de reflexão crítica, fortalecendo a identidade coletiva e o bem-estar social. Através de versos improvisados, os poetas abordam questões locais, sátiras políticas e as dificuldades da vida sertaneja, permitindo o engajamento comunitário. O repente funciona como um sistema artístico-comunicacional que dá voz ao povo e promove o desenvolvimento de ética e valores. Se música apascenta as feras, também, aprimora o homem.


A música coletiva e a cantoria semeiam o sentimento de pertencimento, permitindo que indivíduos se reconheçam em narrativas comuns. Práticas como o canto coral ou as duplas de repentistas ensinam valores fundamentais como respeito mútuo, disciplina, escuta ativa e a compreensão de papéis interdependentes dentro de uma sociedade. Em contextos de vulnerabilidade, projetos de musicalização e cantoria são ferramentas de cidadania, a exemplo do Cego Aderaldo, oferecendo novos horizontes de expressão emocional e cultural, enquanto formam os construtores do amanhã.


Maranguape, Ceará, 03 de Março de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira ACELP nº 3

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