sábado, 24 de outubro de 2026

A VERDADE NÃO SE CURVA À OPINIÃO

 

Entre o certo e o errado há o ponto de vista. Verdades existem muitas, mas uma supera todas: a verdadeira. Afirma Tiago — filho do trovão, assim chamado por Cristo — que “da mesma boca procedem bênção e maldição.” (Tiago 3:10). Vejo nisso que nossas projeções da realidade quase nunca se aproximam da realidade irrefutável, estabelecida sob os princípios universais que a tudo regem para o bem do progresso. Falamos como se fôssemos donos da verdade, quando mal conseguimos enxergar além dos limites de nossa própria janela.

 

Alinhando-me, em parte, aos sofistas da Grécia Antiga, especialmente a Protágoras, que afirmava ser o homem a medida de todas as coisas, pergunto: que medida emprega o homem destes tempos, quando meias verdades norteiam os passos da humanidade? Segundo Mateus, filho de Alfeu, “a boca fala do que está cheio o coração”. (Mateus 12:34). Criamos verdades convenientes, ajustadas aos nossos desejos e interesses, e depois as apresentamos como se fossem leis universais. O egocentrismo vigente corrompe o coletivo, pois transforma a convivência em disputa e a opinião particular em sentença definitiva.

 

Não é difícil perceber que, quando a conveniência ocupa o lugar da consciência, os fatos passam a ser tratados como obstáculos, e não como referências. Aceitamos aquilo que nos favorece, recusamos o que nos contraria e, nesse movimento, pouco a pouco, deixamos de procurar a verdade para defender a versão que melhor nos acomoda. A mentira nem sempre chega vestida de falsidade evidente; por vezes, apresenta-se fragmentada, adornada por argumentos plausíveis e sustentada por uma parcela de realidade. É assim que a meia verdade conquista espaço e confunde quem não examina com cuidado.

 

Preceitua Platão que aquilo que vemos no mundo sensível pode ser apenas sombra, projeção imperfeita de uma realidade mais elevada. A Verdade Verdadeira, na leitura platônica, relaciona-se ao mundo inteligível, iluminado pela ideia do Bem. Compreender essa distinção exige reconhecer que aquilo que percebemos não esgota aquilo que existe. O olhar humano é limitado, condicionado pela experiência, pela educação, pelos afetos e pelos interesses. Por isso, a humildade intelectual não diminui ninguém: ao contrário, abre caminho para que a razão avance para além das aparências e se aproxime do que é justo.

 

Envolve essa compreensão aceitar que o espírito deve prevalecer sobre a matéria, não como desprezo ao mundo concreto, mas como princípio orientador de nossas escolhas. Quando os valores superiores conduzem os desejos, a ordem pode florescer e a convivência encontra melhores condições para se harmonizar. Quando ocorre o inverso, os interesses imediatos passam a governar a consciência, e tudo se submete à vantagem particular. A evolução humana não se mede apenas pelo que acumulamos, construímos ou dominamos, mas também pela capacidade de disciplinar vontades, reconhecer limites e agir em favor de uma ordem que não se encerra em nós.

 

Como analisou Immanuel Kant, o ser humano pode ser compreendido entre a condição natural, submetida a inclinações, desejos e temores, e a condição racional, capaz de reconhecer deveres e formular princípios morais. Somos atravessados por impulsos que nos chamam à satisfação imediata, mas também possuímos a possibilidade de perguntar se nossas ações poderiam valer como regra para todos. Nesse conflito, entre o apetite e o dever, manifesta-se uma parte essencial da experiência moral. A bênção e a maldição de que fala Tiago podem ser lidas, simbolicamente, como expressões das escolhas que fazemos nesse campo de tensão.

 

Nosso erro não está em possuir um ponto de vista, pois somos finitos e observamos o mundo a partir de lugares particulares. O equívoco começa quando confundimos nossa pequena projeção da realidade com a própria Realidade Superior. Ter opinião é inevitável; torná-la intocável é uma escolha. A razão amadurece quando admite a possibilidade de estar enganada, escuta argumentos contrários e submete suas conclusões ao exame. Quem se julga incapaz de errar já não procura aprender: procura apenas confirmar a imagem que construiu de si mesmo.

 

Ao projetarmos nossos interesses sobre o mundo, tentamos, muitas vezes, forçar a realidade a adaptar-se a nós, em vez de moldarmos nossa conduta aos princípios que reconhecemos como justos. Existe uma realidade objetiva que não depende inteiramente de nossa aprovação. Não conseguir capturá-la em sua totalidade não significa que ela não exista; significa, antes, que nossa razão é limitada e necessita de constante aperfeiçoamento. A consciência dessa limitação deveria tornar-nos mais prudentes no julgamento e mais responsáveis no uso da palavra. Entretanto, com frequência, a certeza cresce justamente onde o conhecimento é menor.

 

Quando a parcialidade reina, a neutralidade se torna suspeita, a justiça perde sua medida e a isenção cede lugar ao interesse. Julgamos com rigor os erros alheios e encontramos justificativas generosas para os nossos. Exigimos transparência de quem nos contraria, mas pedimos compreensão quando somos nós os questionados. Dessa assimetria nascem muitos conflitos, porque a régua que usamos para medir o outro raramente é a mesma que aplicamos a nós. A justiça, porém, não pode ser instrumento de conveniência: se muda conforme o nome, o grupo ou a vantagem envolvida, já deixou de cumprir sua finalidade.

 

A palavra, nesse contexto, revela tanto quanto esconde. Pode esclarecer, reconciliar e orientar; pode também ferir, manipular e condenar. Mesmo advertidos por Tiago, que “a língua, porém, ninguém consegue domar. É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero” (Tiago 3:8), persistimos em acreditar que basta falar com convicção para estarmos certos. Mas a força da voz não prova a verdade do que se diz. A eloquência pode servir à sabedoria ou à fraude, assim como o silêncio pode expressar prudência ou omissão. O valor moral da palavra depende também da intenção que a move.

 

Não basta, portanto, perguntar se aquilo que dizemos é agradável aos nossos ouvidos; é necessário examinar se corresponde aos fatos, se respeita a dignidade humana e se pode ser sustentado diante de uma consciência honesta. Antes de reproduzir uma acusação, convém investigar. Antes de condenar, convém compreender. Antes de responder com ira, convém conceder à razão o tempo de organizar o pensamento. Esse cuidado não representa fraqueza nem indecisão. É disciplina interior, exercício que impede a língua de transformar a primeira impressão em veredito e o ressentimento em suposta verdade.

 

A sabedoria filosófica oferece justamente esse exercício de purificação do olhar. Filosofar não é ornamentar o discurso com nomes ilustres, tampouco colecionar ideias para vencer discussões. É aprender a perguntar, reconhecer contradições, rever certezas e aceitar que a busca pode exigir a renúncia a convicções antigas. Sócrates fez da consciência da própria ignorância um ponto de partida para o conhecimento. Essa atitude permanece atual: quem reconhece que não sabe tudo conserva aberta a porta do aprendizado; quem se declara proprietário da verdade fecha essa porta e transforma o pensamento em dogma.

 

A busca da verdade exige, ainda, separar o fato da interpretação, a evidência da suspeita e a convicção da prova. Duas pessoas podem testemunhar o mesmo acontecimento e atribuir-lhe sentidos diferentes, pois cada uma o observa a partir de sua história. Isso não significa que todas as interpretações sejam igualmente corretas. Significa que precisamos confrontá-las com os acontecimentos, ouvir outras perspectivas e reconhecer os limites das informações disponíveis. O respeito às diferenças não obriga a renunciar ao discernimento; antes, convida-nos a exercê-lo sem arrogância, com método, honestidade e disposição para corrigir o próprio entendimento.

 

Também na vida coletiva pagamos caro quando a opinião se sobrepõe aos princípios. Famílias se dividem, amizades se desfazem e instituições perdem credibilidade porque muitos preferem vencer a conversa a compreender o problema. A sociedade não se fortalece quando todos repetem a mesma ideia, mas quando o desacordo é tratado com responsabilidade e submetido a critérios que ultrapassam a conveniência de cada parte. O bem comum requer que a liberdade de pensar caminhe junto à obrigação de responder pelas consequências do que se afirma e do que se faz.

 

A verdadeira retidão começa, pois, no exame de nós mesmos. É cômodo apontar a falsidade alheia; mais difícil é descobrir as distorções que protegemos dentro de nossa própria consciência. Quantas vezes chamamos de princípio aquilo que é preferência, de coragem aquilo que é teimosia, de sinceridade aquilo que é crueldade? A autocrítica não nos pede que abandonemos toda certeza, mas que a submetamos à prova da coerência. Se defendemos a justiça, devemos praticá-la quando ela nos desfavorece; se exaltamos a verdade, precisamos acolhê-la mesmo quando desmancha a narrativa que nos era confortável.

 

É nesse esforço contínuo que a moral deixa de ser discurso e se torna conduta. Não há grandeza em proclamar virtudes que não encontram correspondência nas ações cotidianas. A palavra promete, mas o comportamento testemunha. A coerência entre o que pensamos, dizemos e fazemos é uma das medidas mais exigentes do caráter, porque nos impede de esconder nossas contradições atrás de frases bem construídas. A verdade que defendemos para o mundo deve começar por nos interrogar. Caso contrário, converte-se em instrumento de cobrança alheia e perde sua força como caminho de transformação pessoal.

 

 

Talvez jamais alcancemos, em nossa condição humana, a compreensão integral de tudo o que existe. Essa limitação, entretanto, não nos autoriza ao relativismo conveniente nem à indiferença diante do erro. Ao contrário, impõe-nos o dever de procurar com seriedade, corrigir com humildade e agir com responsabilidade. A impossibilidade de saber tudo não elimina a diferença entre o verdadeiro e o falso, entre o justo e o injusto. Apenas nos recorda que a aproximação da verdade exige trabalho permanente, vigilância sobre os próprios interesses e respeito aos princípios que desejamos ver reconhecidos por todos.

 

A advertência de Tiago permanece, assim, atual e necessária. Da mesma boca podem sair bênção e maldição, porque a linguagem carrega a marca das escolhas que fazemos e do mundo interior que cultivamos. Se desejamos que nossas palavras abençoem, precisamos cuidar do coração, educar o pensamento e submeter os impulsos à consciência. Não se trata de esperar uma perfeição impossível, mas de assumir o compromisso de melhorar. Cada palavra pode ser ocasião de esclarecimento ou de confusão; cada julgamento pode aproximar-nos da justiça ou aprofundar a parcialidade que afirmamos combater.

 

A Verdade, com “V” maiúsculo, não depende da opinião humana para existir. Nossas interpretações podem mudar, nossas certezas podem ruir e nossos conhecimentos podem ser ampliados, mas a realidade não se transforma apenas porque preferimos descrevê-la de outra maneira. Por isso, a sabedoria consiste menos em proclamar que estamos certos do que em trabalhar para merecer a confiança de nossas próprias afirmações. Entre o certo e o errado pode haver divergência de perspectiva; entre a aparência e a verdade, porém, há uma distância que somente a investigação honesta, a consciência moral e a humildade ajudam a vencer.

 

Que aprendamos, portanto, a falar menos para impor e mais para esclarecer; menos para ferir e mais para construir; menos para defender vaidades e mais para servir ao que é justo. Que a filosofia nos ensine a questionar nossas certezas, que a razão nos ajude a examinar os fatos e que a espiritualidade nos recorde a responsabilidade de nossas escolhas. A busca talvez não nos entregue todas as respostas, mas pode tornar-nos mais dignos das perguntas que fazemos. Afinal, não é a posse proclamada da verdade que revela o sábio: é a disposição permanente de procurá-la e de viver segundo aquilo que, com honestidade, conseguimos reconhecer como verdadeiro.

 

Maranguape, Ceará, 24 de Outubro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo,

O Matuto do Carrasco


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A PAZ DE QUEM NADA SENTE

 

Não remoer, nem murmurar, pode ser uma técnica a desenvolver por quem deseja preservar a serenidade diante das contrariedades da vida. Entretanto, essa atitude assume sentidos distintos: pode nascer do autodomínio e da maturidade, mas também esconder um cinismo que transforma a indiferença em abrigo. Não me refiro aos Cínicos da filosofia grega, que contestavam convenções sociais em busca de uma vida coerente com a virtude e a liberdade interior. Refiro-me ao cínico contemporâneo que apenas observa, sorri e se esquiva; aquele que, mesmo podendo contribuir, prefere não se comprometer com a vida, com o tempo ou com o próprio crescimento. Sua tranquilidade não decorre necessariamente de sabedoria: pode ser apenas consequência de não se deixar tocar por nada que exija responsabilidade.

 

A diferença é fundamental. O silêncio de quem refletiu pode ser prudência; o de quem teme agir pode ser omissão. Não alimentar ressentimentos é saudável, mas fingir que nada importa é outra coisa. A filosofia estoica ensina a reconhecer o que depende de nós e a não entregar o governo da vida a acontecimentos fora de nosso controle. Isso não significa eliminar sentimentos, desprezar a dor alheia ou abandonar o dever moral. Significa examinar as impressões e escolher uma resposta consciente. A serenidade autêntica não exige que deixemos de sentir; exige que não sejamos governados cegamente por tudo o que sentimos. A indiferença, quando nos afasta de qualquer compromisso, torna-se uma prisão confortável.

 

Pessoas assim parecem viver melhor porque, aparentemente, nada sentem. Nelas, empatia, compartilhamento e amor — por si mesmas e, menos ainda, pelo mundo — parecem ocupar pouco espaço. Como pouco se envolvem, pouco se decepcionam; como pouco esperam, raramente se frustram. Instala-se uma paz deformada: a paz de quem não se importa com nada, muito menos com alguém. Há uma riqueza aparente nessa condição, sobretudo quando a sensibilidade é confundida com fraqueza e o distanciamento, com superioridade. Mas não sofrer porque se aprendeu a enfrentar a dor é muito diferente de não sofrer porque se decidiu não amar, não participar ou não reconhecer a existência do outro.

 

A psicologia ajuda a compreender que nem toda ausência de sofrimento indica equilíbrio emocional. Às vezes, o indivíduo aprende a reconhecer as próprias emoções e a responder proporcionalmente às circunstâncias. Em outras ocasiões, evita o desconforto por meio da negação, da racionalização ou do afastamento afetivo. Esses mecanismos podem aliviar momentaneamente, sem resolver o conflito que os originou. A pessoa parece imperturbável enquanto se recusa a examinar o que sente. A maturidade, porém, não consiste em abolir a vulnerabilidade, mas em reconhecê-la sem permitir que ela determine todas as escolhas. Quem se conhece não precisa fingir que nunca se fere; aprende a cuidar da ferida sem fazer dela o centro da existência.

 

Vivemos dias líquidos, para empregar a conhecida imagem de Zygmunt Bauman, marcados pela fragilidade dos vínculos, pela velocidade das mudanças e pela substituição frequente de desejos e relações. Os prazeres tornam-se passageiros como uma dose de ópio: suspendem por instantes a inquietação e prometem uma satisfação que logo exige renovação. A experiência perde profundidade quando tudo precisa ser imediato e substituível. As horas passam, e valor e desvalor parecem desautorizar-se mutuamente, compondo o espetáculo deste século e milênio que ajudamos a formar por nossas ações e omissões. A máxima latina sic transit gloria mundi — assim passa a glória do mundo — manifesta-se velozmente numa cultura em que a visibilidade pode ser fabricada e consumida em poucas horas.

 

Os algoritmos que organizam parte da experiência digital não determinam sozinhos o comportamento humano, mas participam da disputa pela atenção. Conteúdos que provocam indignação, fascínio ou aprovação imediata podem circular mais do que reflexões que exigem tempo. A popularidade passa a ser confundida com mérito; a exposição, com importância; a reação instantânea, com pensamento. Nesse ambiente, a imagem projetada pode receber mais cuidado do que a pessoa que somos. A sociologia permite observar que o individualismo também é estimulado por estruturas que premiam a competição, a autopromoção e a busca incessante por reconhecimento. Quando cada pessoa trata a outra como concorrente ou instrumento, a solidariedade parece custosa e a indiferença, eficiente.

 

A felicidade, entretanto, não é um estado imóvel nem uma euforia permanente. Sua intensidade oscila com as circunstâncias, as relações, as expectativas e a maneira como interpretamos o que acontece. Há nos cínicos uma alegria deformada, patrocinada por um ego tão exacerbado que não lhes permite reconhecer os próprios erros. Quem se considera sempre certo pode imaginar-se sempre vitorioso; se nunca admite falhas, evita a experiência consciente da frustração. Contudo, essa vitória é frágil, pois depende da recusa em confrontar a realidade. Para proteger a imagem que construiu de si, o indivíduo pode transferir a culpa, desqualificar quem o contradiz ou reinterpretar os acontecimentos a seu favor. O alívio obtido não equivale a crescimento: preserva o orgulho no instante, mas impede a aprendizagem que nasce do reconhecimento dos limites.

 

Um deslumbramento sine qua non parece manter essas pessoas cativas de uma autoimagem que encobre a essência do que há de mais belo em ser humano. A expressão latina significa, em rigor, “condição indispensável”; aqui, a ideia é a de um fascínio persistente pela própria aparência moral, social ou intelectual, como se a imagem idealizada fosse condição para continuar a sentir-se superior. A pessoa deixa de perguntar quem é e passa a cuidar apenas de como deseja ser percebida. O espelho substitui a consciência, e a aprovação externa toma o lugar do exame interior. A filosofia, desde a antiga recomendação de conhecer a si mesmo, alerta para o risco de uma vida que não se submete à reflexão. Sem esse exame, a vaidade pode vestir-se de convicção, a arrogância de competência e a incapacidade de escutar de independência.

 

A psicologia permite compreender como a autoimagem se torna defensiva. Quando alguém associa o próprio valor à ideia de estar sempre certo, admitir um erro pode parecer uma ameaça à identidade, não uma oportunidade de aprendizagem. Então surgem justificativas, transferência de culpa, desprezo pela crítica e resistência a qualquer evidência que contradiga a narrativa pessoal. O ego, nesse caso, não é simplesmente autoestima: é uma estrutura rígida que exige confirmação constante. A autoestima saudável suporta limites e contradições; a vaidade defensiva precisa negar ambos. A primeira favorece o crescimento, enquanto a segunda condena a pessoa a repetir os mesmos equívocos, atribuindo sempre aos outros a responsabilidade por seus resultados.

 

Celeradamente desumanas, pessoas assim podem povoar a humanidade sem contribuir para o seu amadurecimento. O problema deixa de ser apenas individual quando esses comportamentos se reproduzem nas famílias, nos ambientes de trabalho, na vida pública e nas instituições. A sociologia ajuda a perceber que instituições não adoecem apenas por grandes crises: também se fragilizam quando a responsabilidade cede lugar à conveniência, o diálogo à disputa de vaidades e o compromisso coletivo à busca de prestígio pessoal. Tradições que sustentaram comunidades por gerações podem perder seu sentido quando seus símbolos são preservados, mas os valores que lhes davam vida são abandonados. Mantém-se a forma, esvazia-se o conteúdo. A instituição continua de pé, porém já não cumpre plenamente a função humana que justificava sua existência.

 

Isso não significa que toda tradição seja justa, nem que toda instituição deva permanecer imune à crítica. Tradições vivas precisam ser examinadas, renovadas e, quando necessário, corrigidas. O que as sustenta não é a repetição cega, mas a capacidade de transmitir valores que favoreçam a dignidade, a responsabilidade e a convivência. O mesmo vale para a humanidade: não basta celebrar a palavra fraternidade, justiça ou solidariedade; é preciso fazê-las aparecer na conduta. O cinismo prospera quando as palavras permanecem grandiosas, mas as ações se tornam pequenas. Nesse cenário, o exemplo pessoal tem força especial, porque revela a distância — ou a coerência — entre aquilo que se proclama e aquilo que se pratica.

 

Também é necessário distinguir a crítica legítima da murmuração estéril. Denunciar uma injustiça ou contestar uma decisão pode ser indispensável à transformação social. A murmuração torna-se improdutiva quando repete o descontentamento sem compreender suas causas ou avaliar possibilidades de ação. Da mesma forma, não remoer uma ofensa não significa aceitar a injustiça. É possível abandonar o ressentimento e exigir reparação; perdoar e impedir que o dano se repita; preservar a serenidade sem renunciar à responsabilidade. O silêncio pode ser sábio quando evita uma provocação vazia, mas torna-se cumplicidade quando protege aquilo que deveria ser questionado.

 

A verdadeira liberdade não consiste em permanecer desobrigado de tudo, mas em escolher conscientemente os compromissos que dão sentido à existência. Não podemos resolver todos os problemas nem responder a cada provocação. Reconhecer limites é prudência; usá-los como justificativa para nunca agir é omissão. A vida ética se manifesta nas grandes decisões e nos gestos discretos: reconhecer um erro, reparar um dano, oferecer atenção, cumprir uma palavra e contribuir quando seria mais cômodo permanecer à margem. A coerência entre o que professamos e o que praticamos é testemunho mais confiável do caráter do que qualquer discurso sobre virtude.

 

Talvez o desafio de nosso tempo não seja aprender a sentir menos, mas sentir com discernimento. A sensibilidade sem reflexão pode conduzir à impulsividade; a razão sem humanidade pode converter-se em cálculo indiferente. Precisamos de ambas para compreender o sofrimento sem nos destruirmos, defender convicções sem intolerância e aceitar a transitoriedade sem desprezar o que merece cuidado. Saber que a glória passa deveria ensinar humildade, não inutilidade. Saber que os vínculos podem terminar não torna o amor dispensável. A brevidade da vida não diminui o valor dos gestos que a tornam mais justa e digna.

 

No fim, a pergunta decisiva não é se atravessamos a existência sem frustrações, mas o que fazemos com elas. Podemos transformar a dor em ressentimento ou compreensão; o erro, em defesa orgulhosa ou aprendizagem; a liberdade, em isolamento ou responsabilidade. Não remoer e não murmurar podem expressar conquista interior, desde que não sejam pretextos para a indiferença. A paz de quem não se importa com nada protege-nos do mundo à custa de nos afastar dele. A paz que nasce do discernimento permite-nos habitá-lo sem perder a integridade. Quando os aplausos se extinguirem e as aparências perderem o brilho, talvez reste uma pergunta: que diferença fizemos na vida daqueles que cruzaram nosso caminho? A glória passa, mas a transitoriedade não nos condena à irrelevância. Enquanto houver tempo, podemos escolher ser presença de compreensão, dignidade e esperança, em vez de mais uma expressão da indiferença que criticamos.

 

Maranguape, Ceará, 22 de Outubro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo,

O Matuto do Carrasco


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A ÉTICA DA SEMEADURA

 

Entre a espiga de trigo e a corrente d’água – manifestações descritas pelo termo Shibboleth – viceja o labor do semeador que escolhe a melhor semente, o modus operandi mais apropriado para plantá-la e cultivar seu crescimento desde plântula até a robusta árvore de copa larga, boa sombra e dulcíssimos frutos que logo chega no melhor tempo para acolher e saciar os anseios de muitos. Não dispensando, claro, o fluxo d’água perene para que este esmero se realize a contento.

 

Shibboleth embora seja a palavra-chave que separa o "nós" do "eles", o idêntico do diferente, determinando quem vive e quem morre na margem do rio e assume uma subversão filosófica genial: deixa de ser uma barreira de discriminação e passa a delimitar um entre-lugar de criação. Entre a rigidez da espiga colhida (o factual, o dado) e a fluidez do rio (o devir, o tempo), estabelece-se o espaço da práxis humana. Transforma-se de um símbolo de segregação em um horizonte de possibilidades.

 

O labor do semeador encarna a perfeita harmonia entre dois conceitos gregos fundamentais. Primeiro, Manifesta-se no modus operandi, na escolha racional da semente e no método de plantio. É a razão instrumental colocada a serviço da vida. E segundo, é a força intrínseca da plântula que busca o ser, o mistério do crescimento que o homem não pode fabricar, apenas assistir e proteger. O semeador não domina a natureza tiranicamente; ele a decifra e coopera com ela.

 

Há aqui uma ética do cuidado (próxima ao conceito de Sorge em Heidegger). O agir humano legítimo é aquele que potencializa o ser do outro, permitindo que a plântula cumpra sua própria essência até se tornar uma árvore de copa larga. Corrobora com o conceito de que uma andorinha só não faz verão – que estabelece a certeza de que evoluir e progredir requer mergulhar com abnegação e coragem na interdependência que conduz a tudo criado em seu rio.

 

Essa evolução da plântula até a árvore que gera "dulcíssimos frutos" evoca a teleologia aristotélica: tudo se move em direção ao seu fim mais nobre (a sua enteléquia). A semente carrega a potência de ser uma árvore; a árvore madura e o fruto representam o ato (a realização do seu telos ou fim). O fim da árvore não é acumular para si, mas a generosidade ontológica de doar sombra e alimento para "saciar os anseios de muitos". A realização do ser culmina na comunidade (a Polis).

 

Fitar o "fluxo d'água perene" abre a compreensão da dimensão do tempo e da impermanência (o rio de Heráclito). A técnica mais refinada (o esmero) e a melhor semente permanecem estéreis se isoladas do fluxo contínuo da vida. A água é a contingência necessária, a Graça, ou as condições históricas que alimentam o esforço humano. O esforço humano (o esmero) precisa do contexto histórico e da oportunidade (a água) para realizar seu potencial, sem a qual tudo resseca.

 

Não basta possuir sementes de qualidade, conhecer os métodos de cultivo ou desejar uma colheita abundante. É necessário compreender o terreno, reconhecer as estações, respeitar os limites da natureza e aceitar que cada etapa exige seu tempo. A impaciência pode destruir aquilo que a dedicação começou a construir. A precipitação, por sua vez, pode comprometer o desenvolvimento de uma árvore que, se respeitada em seu ritmo, ofereceria frutos por muitos anos. A sabedoria reside discernir quando agir, quando esperar e quando intervir para proteger o que está em crescimento.

 

Essa lição ultrapassa os limites da agricultura e alcança a formação humana. Educar, orientar, liderar e transmitir conhecimentos são modalidades do mesmo trabalho de semeadura. O educador não pode exigir que todos floresçam simultaneamente, assim como o mestre não deve pretender que seus discípulos reproduzam mecanicamente suas próprias convicções. Cabe-lhe oferecer instrumentos, cultivar o discernimento, despertar a curiosidade e criar condições para que cada consciência encontre o próprio caminho. A verdadeira mestria que se mede pela qualidade daqueles que aprendem a pensar, escolher e agir com responsabilidade.

 

Neste influxo, nenhuma organização alcança consistência apenas pela imponência de seus símbolos, pela antiguidade de suas tradições ou pela solenidade de seus discursos. Sua grandeza manifesta-se, sobretudo, na capacidade de transformar valores proclamados em atitudes concretas, de acolher diferenças sem abandonar princípios e de fazer do conhecimento uma ferramenta de aperfeiçoamento coletivo. Quando deixar de inspirar ações e passar a servir apenas à distinção entre os que pertencem e os que são excluídos, a espiga perde sua capacidade de alimentar e o rio deixa de aproximar suas margens.

 

É nesse ponto que Shibboleth recupera sua força simbólica e nos convida a uma reflexão sobre as fronteiras que erguemos entre os seres humanos. As diferenças existem, as identidades possuem valor e os princípios precisam ser reconhecidos; contudo, nada disso justifica converter a diversidade em instrumento de humilhação ou a pertença em certificado de superioridade. A palavra que historicamente serviu para identificar e separar pode, sob uma consciência renovada, tornar-se convite à compreensão dos códigos, das experiências e das circunstâncias que constituem cada indivíduo. Distinguir não precisa significar desprezar, assim como reconhecer o outro não exige abdicar da própria identidade.

 

O semeador que compreende essa verdade não escolhe suas sementes para construir um jardim fechado, inacessível aos demais. Planta para que a vida se multiplique, para que a sombra acolha quem necessita de descanso e para que os frutos alimentem até mesmo aqueles cujas mãos não participaram diretamente do cultivo. Sua obra possui uma dimensão que ultrapassa a recompensa imediata, porque ele reconhece que o valor de uma realização também se encontra nos benefícios que ela continuará proporcionando quando seu autor já não estiver presente. Há, nessa atitude, uma forma elevada de permanência: viver não apenas para deixar marcas, mas para deixar condições favoráveis à continuidade da vida.

 

Entretanto, nenhuma árvore permanece vigorosa se suas raízes forem esquecidas. A generosidade não elimina a necessidade de cuidado, e a abundância não dispensa a responsabilidade de preservar as fontes que a tornam possível. É preciso proteger o solo, manter o curso das águas e evitar que a busca desmedida por resultados destrua os fundamentos da própria prosperidade. A sociedade que consome sem renovar, que exige sem contribuir e que colhe sem replantar compromete o futuro em nome de uma satisfação passageira. A verdadeira evolução requer reciprocidade: receber da existência, oferecer à coletividade e conservar para as gerações que ainda encontrarão seu lugar à margem do mesmo rio.

 

Entre a espiga e a água, portanto, encontra-se o ser humano em sua condição mais autêntica: limitado pelas circunstâncias, mas capaz de agir sobre elas; herdeiro de um passado, mas responsável por construir o futuro; portador de potencialidades, mas dependente de condições que favoreçam seu desenvolvimento. Não escolhemos todas as características do terreno em que nascemos, nem controlamos a correnteza que atravessa nossa existência. Podemos, contudo, aprimorar nossas escolhas, aperfeiçoar nossos métodos e contribuir para que o ambiente comum seja menos árido e mais fecundo.

 

Eis a grande lição do semeador: a excelência não consiste em dominar todas as forças da natureza, mas em compreender a relação entre aquilo que depende de nós e aquilo que precisamos aprender a respeitar. A semente representa a possibilidade; o trabalho, a responsabilidade; a água, a continuidade; a árvore, a realização; e os frutos, a dimensão social de uma existência que alcançou sua maturidade. Quando esses elementos se harmonizam, o esforço individual deixa de ser uma atividade isolada e passa a integrar uma obra maior, cujo alcance se estende para além dos limites de uma única vida.

 

Que saibamos, pois, escolher boas sementes, cultivar com inteligência e perseverança e preservar as águas que alimentam nossos projetos. Que não transformemos nossas diferenças em barreiras intransponíveis, nem nossos conhecimentos em instrumentos de vaidade. Acima de tudo, que tenhamos a generosidade de compreender que a grandeza de uma árvore não se revela somente em sua altura, mas também na sombra que oferece e nos frutos que compartilha.

 

Afinal, o verdadeiro sentido da semeadura não está apenas em fazer germinar uma semente, mas em contribuir para que a vida encontre condições de florescer, multiplicar-se e beneficiar a coletividade. Entre a espiga de trigo e a corrente d’água, entre a permanência dos princípios e a transformação do tempo, constrói-se a arquitetura de uma existência fecunda: aquela que reconhece no próprio crescimento não um privilégio a ser ostentado, mas uma responsabilidade a ser exercida em favor de todos.

 

Maranguape, Ceará, 21 de Outubro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo,

O Matuto do Carrasco.


terça-feira, 20 de outubro de 2026

O CARÁTER COMO TESTEMUNHA DA VERDADE

 


A vida humana é atravessada, diariamente, por uma questão essencial: quem somos de verdade e quem desejamos parecer aos olhos dos outros? Entre o ser e o parecer existe uma distância que nem sempre se revela à primeira vista. Há pessoas que constroem a própria imagem com discursos grandiosos, gestos calculados e demonstrações exteriores de importância. Outras, silenciosamente, edificam sua trajetória por meio do trabalho, da coerência e da responsabilidade. A diferença entre elas não reside no brilho que exibem, mas na substância que sustenta suas atitudes.

 

A aparência, por si só, não é necessariamente um defeito. Cuidar da apresentação, procurar reconhecimento e desejar realizar algo significativo fazem parte da experiência humana. O problema começa quando a imagem deixa de ser expressão da realidade e passa a substituí-la. Nesse momento, o indivíduo empenha mais energia em convencer os outros de suas qualidades do que em desenvolvê-las. A reputação torna-se um cenário, e a vida, uma encenação permanente, na qual cada gesto é calculado para receber aplausos, mesmo que não exista, por trás dele, mérito suficiente para justificá-los.

 

Quem vive preso à aparência depende continuamente da aprovação alheia. Precisa ser admirado, citado, elogiado e reconhecido; teme que o silêncio dos outros revele a fragilidade de sua construção. Por isso, frequentemente promete mais do que pode cumprir, assume compromissos que não pretende honrar e transforma palavras em instrumentos de sedução. Entretanto, nenhuma fachada permanece intacta para sempre. O tempo, as dificuldades e as circunstâncias imprevistas submetem cada pessoa à prova da realidade. Quando chega a hora de agir, o discurso sem fundamento perde força, e a inconsistência aparece.

 

É nesse ponto que a consciência assume papel decisivo. Ter consciência significa examinar os próprios atos, reconhecer limites, distinguir o justo do conveniente e compreender que cada escolha produz consequências. A pessoa consciente não precisa proclamar continuamente sua retidão; procura demonstrá-la na maneira como trata os semelhantes, cumpre os deveres e enfrenta as próprias falhas. Não se considera perfeita, mas aceita a responsabilidade de melhorar. Sua dignidade não nasce da ausência de erros, e sim da disposição de reconhecê-los, repará-los e aprender com eles.

 

O verdadeiro valor humano não pode ser medido apenas pelos títulos acumulados, pelos bens possuídos ou pela posição ocupada. Essas conquistas podem resultar de esforço legítimo e ter sua importância, mas não substituem o caráter. Uma pessoa pode desfrutar de prestígio e, ainda assim, faltar-lhe generosidade; pode falar em honestidade e agir com deslealdade; pode defender princípios em público e abandoná-los quando lhe oferecem vantagens particulares. O caráter revela-se, sobretudo, quando ninguém está observando, quando a escolha correta custa alguma coisa e quando seria fácil obter benefício por meio de uma atitude duvidosa.

 

Em contraste com quem se limita a parecer, há aqueles que fazem acontecer. São pessoas que compreendem que realizações consistentes exigem tempo, disciplina, paciência e coragem. Nem sempre dispõem de recursos abundantes ou recebem reconhecimento imediato. Muitas vezes avançam sem aplausos, enfrentam obstáculos que outros desconhecem e recomeçam depois de cada dificuldade. Suas mãos podem carregar as marcas do trabalho, e sua história pode ser feita de renúncias que não aparecem nas fotografias. Ainda assim, cada passo honesto acrescenta solidez àquilo que constroem.

 

A firmeza moral dessas pessoas não significa rigidez cega nem incapacidade de rever opiniões. Significa possuir princípios que orientam as decisões, sem permitir que o interesse imediato determine todas as escolhas. Quem age com integridade sabe que nem toda oportunidade merece ser aproveitada e que nem todo ganho representa uma vitória. Há vantagens que custam a paz de espírito, negócios que comprometem a honra e aplausos que exigem o abandono da própria consciência. Recusar esses caminhos pode parecer, aos olhos de alguns, uma perda; na verdade, é preservar aquilo que nenhum dinheiro consegue comprar: a dignidade.

 

A diferença entre o discurso e a ação torna-se ainda mais evidente nos momentos difíceis. É relativamente simples defender a solidariedade quando nada nos é exigido, falar de justiça quando não somos contrariados ou proclamar lealdade quando ela não implica sacrifício. O teste verdadeiro surge quando ajudar alguém exige tempo, quando reconhecer um erro ameaça o orgulho ou quando cumprir a palavra traz algum prejuízo. Nessas horas, as convicções deixam de ser frases bonitas e passam a revelar sua autenticidade. A virtude ganha corpo quando se transforma em comportamento.

 

Também é necessário compreender que a ação não se resume a grandes feitos. A honestidade cotidiana, o respeito à palavra empenhada, a pontualidade, a escuta atenta, o cumprimento das obrigações e a consideração pelos mais vulneráveis são expressões concretas de caráter. Pequenas atitudes, repetidas ao longo dos dias, formam hábitos; os hábitos, por sua vez, desenham a personalidade e influenciam o ambiente ao redor. A grandeza de alguém pode estar menos em um acontecimento extraordinário do que na maneira constante com que realiza o que lhe cabe.

 

Adiar indefinidamente o que sabemos ser necessário é outra forma de afastar o ser do fazer. Há sonhos que permanecem apenas como intenções porque falta disposição para iniciar o trabalho. Há pedidos de desculpas que nunca são pronunciados, projetos que não saem do papel e mudanças que são prometidas sempre para amanhã. A intenção tem seu valor, pois pode indicar o rumo desejado; contudo, sem decisão e esforço, permanece incompleta. O tempo não realiza por nós aquilo que depende de nossa iniciativa. Cada dia oferece oportunidades, mas também consome uma parcela irreversível da existência.

 

Isso não significa que toda ação produza imediatamente o resultado esperado. Existem esforços que demoram a florescer, projetos que precisam ser corrigidos e caminhos que exigem novas tentativas. A diferença está na disposição de aprender e perseverar, sem confundir persistência com teimosia. Quem constrói de verdade avalia os resultados, escuta críticas fundamentadas e ajusta a rota quando necessário. Não precisa fingir que sabe tudo, porque entende que o conhecimento é uma obra inacabada. Sua segurança não depende de parecer infalível, mas de estar comprometido com a busca sincera por soluções melhores.

 

No convívio social, a valorização excessiva das aparências pode inverter os critérios pelos quais julgamos as pessoas. A eloquência pode ser confundida com sabedoria; a ostentação, com prosperidade; a autoridade, com competência; e a popularidade, com bondade. Por isso, convém observar além da superfície. Como alguém trata quem não lhe pode oferecer vantagens? Mantém a palavra quando o cumprimento se torna inconveniente? Assume os próprios erros ou procura sempre um culpado? Seus atos confirmam aquilo que proclama? Perguntas como essas ajudam a distinguir a imagem cuidadosamente produzida da realidade moral que se manifesta nas escolhas.

 

A reflexão também precisa voltar-se para dentro. É confortável identificar nos outros a vaidade, a incoerência e o fingimento; mais difícil é reconhecer as ocasiões em que nós mesmos procuramos parecer melhores do que somos. Todos estamos sujeitos à contradição entre os valores que defendemos e as atitudes que praticamos. A maturidade começa quando deixamos de usar a crítica como esconderijo e passamos a empregá-la como instrumento de aperfeiçoamento pessoal. Em vez de gastar toda a energia julgando o mundo, podemos perguntar o que nossas próprias ações estão acrescentando a ele.

 

Ser autêntico não é expor indiscriminadamente cada pensamento, tampouco agir sem considerar as consequências. É procurar harmonia entre aquilo em que acreditamos, aquilo que dizemos e aquilo que fazemos. Essa coerência não se alcança de uma vez por todas: exige vigilância, humildade e renovação diária. Haverá momentos de fraqueza, escolhas mal avaliadas e palavras das quais nos arrependeremos. O essencial será não transformar a falha em morada permanente. A consciência chama à responsabilidade, e a responsabilidade oferece a possibilidade de recomeçar com mais lucidez.

 

No fim, o confronto entre o ser e o parecer não se resolve pela quantidade de palavras pronunciadas, mas pela qualidade das ações realizadas. A aparência pode conquistar atenção por algum tempo, porém é a consistência que sustenta a confiança. O fingimento depende de manutenção constante; a integridade, ao contrário, cria raízes na prática cotidiana. Quem trabalha com honestidade talvez não seja sempre o mais celebrado, mas deixa marcas reais na vida das pessoas e nas obras que entrega. Sua contribuição não precisa de exageros, pois encontra confirmação nos resultados e na memória daqueles que foram beneficiados.

 

Que cada um de nós procure, portanto, reduzir a distância entre os princípios que anuncia e a vida que efetivamente conduz. Que a palavra seja compromisso, que a intenção encontre coragem para se tornar ação e que o reconhecimento, quando vier, seja consequência do mérito, não substituto dele. A verdadeira grandeza não consiste em parecer extraordinário, mas em cumprir com dignidade aquilo que nos compete. Afinal, o caráter não se ergue sobre promessas vazias: constrói-se com trabalho, consciência, firmeza moral e convicção. Entre o ser e o parecer, é a verdade vivida que permanece.

 

Maranguape, Ceará, 20 de outubro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo,
O Matuto do Carrasco


domingo, 18 de outubro de 2026

ENTRE O MALHO E O CINZEL: A ARTE DE LAPIDAR A ALMA SOB A LUZ DA CONSCIÊNCIA

 

Há dias não escrevo, não por vontade, mas, desorganização do tempo. Temos tempo para tudo, então, dizer que é não escrevi por falta de tempo é uma deformação na consciência. Consciência é um vetor de máxima gravidade, do qual ninguém deve afastar-se. E mesmo aqueles, que distraindo-se, dela se afastaram que se dão conta do erro correm aos braços da consciência com a mesma avidez de um filho em busca do colo materno.

 

Isso me lembra da régua de 24 polegadas com a qual meço o tempo e defino o que fazer, quando fazer e como fazer sob os auspícios da mestria do tempo. Quando acompanhada do compasso – a quem concordamos entregar-lhe o vigor de nossas individualidades em troca da aprazível efervescência do compartir harmônico e homogêneo vivido no coletivo – a régua materializa a excelsitude do sagrado nas horas que ela gere.

 

Ancorados no esquadro – que esquadrinha o viver nos reinos terrenos (ou da matéria) em busca da correção das ações, a justiça e a imparcialidade simbolizado pelo ângulo reto (90º) – o compasso vê-se realizado na exata medida do respeito dedicado às suas imputações e na disciplina que as fazem cumpridas a bem dos resultados previamente estimados e legitimados pela régua que determina a cada agir o momento oportuno.

 

Agir requer inteligência que garante a excelente exequibilidade dos intentos e a exuberante beleza dos resultados. Isso traz à minha mente a argúcia do cinzel – digno representante da razão, da clareza de ideias e da capacidade de direcionar o pensamento com precisão – e a imponência do malho – augusto manifestante da força da vontade que faz realizados os intentos, as mudanças e a evolução nos reinos terrenos e no universo.

 

Sozinho, o cinzel é inútil, pois, prescinde da energia do malho para atuar. Essa dualidade mostra que a força ainda que descomunal, sem a inteligência para guiá-la, apenas destrói, enquanto a inteligência sem força nada realiza, pois, falta-lhe o animus movendi. Neste influxo, assim como o cinzel precisa ser afiado com frequência para não perder o corte, o ser humano deve revisar e aprimorar constantemente seus conhecimentos e atitudes.

 

Carece o homem ter a alavanca à mão nessa jornada em busca de si, pois, se o que busca não for achado primeiramente nele, não será achado em lugar algum. A alavanca tem o condão especialíssimo de mover entulhos que obstam o caminho, de derrubar paredes e muros que impedem a melhor visão do horizonte e, também, de remover as torpezas mais pesadas em nossos corações e as ignorâncias mais robustas em nossas mentes.

 

Sem a abnegada atividade da alavanca não se pode usar com exata perfeição nenhum dos equipos implantados no homem para que este cumpra sua missão de bem-fazer à humanidade, tão pouco conseguirá ele construir um lar seguro para habitar com bem-estar e em harmonia com os seus amados, muito menos o homem manifestará suas habilidades como edificador social, pois, nada se faz em meio à escombros que desordem produz.

 

Neste diapasão, somente os guiados pela consciência – que é o elo mais elegantemente eficaz com os auspícios superiores da Criação – usam com precisão exemplar as tecnologias da régua de 24 polegadas, do compasso, do esquadro, do malho, do cinzel e da alavanca a bem do coletivo em geral, pois, é cônscio deve manter e cumprir a interdependência que há entre todas as coisas, pois, sem essa força motriz tudo se dissocia.

 

Ninguém edifica sozinho, ninguém evolui isoladamente e ninguém alcança a plenitude ignorando a importância dos que caminham ao seu lado. Somos partículas de uma mesma arquitetura universal, pedras de uma construção cuja magnitude ultrapassa os limites da nossa compreensão. Envolve responsabilidade, pois, na grande oficina da Criação, nenhuma ação é absolutamente indiferente aos destinos da coletividade.

 

Cada gesto, por menor que pareça, repercute na estrutura do todo, assim como a retirada de uma pedra pode comprometer a estabilidade de um edifício inteiro. Nem todas as paredes precisam ser derrubadas, nem todos os caminhos precisam ser percorridos, nem todas as palavras precisam ser pronunciadas. Ao homem compete aprender a distinguir o que lhe compete transformar daquilo que lhe cabe compreender e respeitar.

 

A sabedoria consiste em reconhecer a oportunidade de cada movimento, a conveniência de cada silêncio e a legitimidade de cada intervenção. Eis a régua ensinando a medida, o esquadro reclamando a retidão e o compasso recordando que a liberdade individual encontra sua expressão mais elevada quando não invade o espaço sagrado da liberdade alheia. Todavia, isto não impele acomodar-se diante das imperfeições que nos cercam.

 

Há momentos em que a consciência exige coragem para romper com velhos hábitos, abandonar convicções equivocadas e enfrentar verdades que preferiríamos manter escondidas nos subterrâneos da alma. Nesses instantes, o malho deve reunir a energia necessária para impulsionar a mudança, enquanto o cinzel, orientado pela inteligência, identifica o ponto exato em que o golpe deve incidir com precisão.

 

A força sem discernimento pode ferir aquilo que deveria restaurar; a coragem sem prudência pode converter a legítima transformação em desastrosa precipitação. É justamente nessa hora que a alavanca interior se revela indispensável, porque há obstáculos que não se encontram nas circunstâncias, mas, nas estruturas que edificamos dentro de nós. Com precisão robótica age a alavanca desobstruindo o necessário.

 

O orgulho, a vaidade, a intolerância, a inveja e o apego desmedido às próprias razões constituem entulhos que dificultam a passagem da luz. Removê-los requer humildade para reconhecer as próprias limitações e grandeza para admitir que também erramos. Não existe lapidação verdadeira quando o homem se considera acabado, nem há aprimoramento possível quando a soberba lhe convence de que já alcançou a perfeição.

 

A pedra bruta somente aceita o trabalho daquele que reconhece a necessidade de ser trabalhado. Nessa perspectiva, o tempo assume uma dimensão ainda mais significativa, pois, não se limita à sucessão das horas inscritas no mostrador dos relógios. A régua de 24 polegadas não nos oferece apenas uma referência para distribuir tarefas, mas uma advertência acerca da finitude de nossa passagem terrena.

 

Há um tempo para aprender, outro para ensinar; um tempo para plantar, outro para colher; um tempo para falar, outro para silenciar; um tempo para avançar e outro para recuar, a fim de compreender melhor a direção a seguir. Cada hora desperdiçada em disputas estéreis é uma oportunidade subtraída à construção do bem, e cada instante empregado com sabedoria pode converter-se em fundamento de realizações duradouras.

 

Entretanto, administrar o tempo não significa transformar a existência numa sequência mecânica de obrigações, como se o homem fosse mero instrumento de uma engrenagem insensível. O trabalho precisa conviver com o repouso, a disciplina com a espontaneidade, o compromisso com a contemplação e a produtividade com o afeto. Não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive.

 

É necessário ouvir o silêncio, admirar a natureza, acolher os amigos e compartilhar a mesa com aqueles torna nossa jornada mais significativa. Afinal, de que serviria construir templos grandiosos se, ao término da obra, descobríssemos ter negligenciado os corações que deveriam encontrar abrigo sob suas colunas? É mister primevo conferir às horas um propósito digno, sem permitir que a busca por resultados nos afaste das razões pelas quais vivemos.

 

Assim também compreendo a importância do coletivo, esse espaço de convivência no qual nossas diferenças deixam de ser necessariamente motivos de afastamento e passam a representar possibilidades de enriquecimento mútuo. O compasso delimita, mas também harmoniza; o esquadro corrige, mas também orienta; a régua estabelece limites, mas igualmente oferece referências para o crescimento.

 

Cada indivíduo traz consigo experiências, talentos e imperfeições que, quando submetidos à disciplina da fraternidade, podem contribuir para uma obra maior. Não se exige que todos pensem da mesma maneira, mas que aprendam a discordar sem desrespeitar, a corrigir sem humilhar e a cooperar sem pretender submeter os demais à tirania das próprias convicções. A harmonia é filha da inteligência.

 

É nesse ambiente que a consciência assume sua condição de orientadora suprema das ferramentas simbólicas e das capacidades humanas. Sem ela, a inteligência pode tornar-se artifício para enganar, a força pode converter-se em instrumento de opressão, a disciplina pode degenerar em obediência cega e o conhecimento pode alimentar a vaidade em vez de servir à humanidade.

 

A consciência, porém, recorda-nos que o valor de uma realização não se mede exclusivamente pela grandeza aparente de seus resultados, mas também pela legitimidade dos meios empregados para alcançá-los. Construir não é suficiente: importa saber o que construímos, para quem construímos e quais consequências nossa obra produzirá na vida daqueles que dela se aproximarem.

 

Por isso, a edificação do templo interior não pode ser dissociada da edificação do mundo exterior. A retidão que proclamamos deve manifestar-se nas pequenas decisões cotidianas; a fraternidade que defendemos deve alcançar aqueles que não podem nos oferecer vantagens; a justiça que exigimos dos outros deve encontrar morada em nossos próprios julgamentos, pois, como julgamos também seremos julgados.

 

Não basta conhecer os instrumentos, exibir seus símbolos ou discorrer sobre a nobreza de seus significados. É preciso incorporá-los à conduta, fazendo da régua a medida dos compromissos, do compasso o equilíbrio das relações, do esquadro a retidão dos atos, do malho a determinação para realizar, do cinzel a inteligência que aperfeiçoa e da alavanca a coragem de remover tudo aquilo que impede o progresso.

 

Somente assim o conhecimento abandona a condição de ornamento intelectual e se transforma em sabedoria vivida. Por fim, retorno ao ponto de partida: há dias não escrevo, não por vontade, mas, pela desorganização do tempo. Talvez esta reflexão seja, ela própria, uma forma de reencontrar a régua que, por alguns instantes, deixei de consultar com a devida atenção. A régua é uma maviosa companhia em todas as horas.

 

Escrever também é edificar, porque as palavras, quando nascidas da consciência e trabalhadas pela inteligência, podem remover entulhos, abrir horizontes e aproximar corações. Que eu saiba, portanto, distribuir melhor minhas horas, afiar continuamente meu cinzel, manejar com prudência meu malho e conservar a alavanca sempre disponível para vencer as resistências que me afastam daquilo que devo ser.

 

Afinal, a grande obra não consiste em acumular ferramentas, proclamar virtudes ou ostentar conhecimentos, mas em empregá-los, com humildade e perseverança, na construção de uma existência justa, útil e fraterna. E que, ao final da jornada, quando o tempo recolher seus instrumentos e a matéria devolver à terra aquilo que dela recebeu, permaneça como legado não a imponência das pedras que erguemos, mas a luz que fomos capazes de acender na consciência dos homens e o bem que deixamos florescer no coração da humanidade.

 

Maranguape, Ceará, 17 de Outubro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo,

O Matuto do Carrasco

A VERDADE NÃO SE CURVA À OPINIÃO

  Entre o certo e o errado há o ponto de vista. Verdades existem muitas, mas uma supera todas: a verdadeira. Afirma Tiago — filho do trovão,...