Entre o certo e o errado há o ponto de vista. Verdades
existem muitas, mas uma supera todas: a verdadeira. Afirma Tiago — filho do
trovão, assim chamado por Cristo — que “da mesma boca procedem bênção e
maldição.” (Tiago 3:10). Vejo nisso que nossas projeções da realidade quase
nunca se aproximam da realidade irrefutável, estabelecida sob os princípios
universais que a tudo regem para o bem do progresso. Falamos como se fôssemos
donos da verdade, quando mal conseguimos enxergar além dos limites de nossa
própria janela.
Alinhando-me, em parte, aos sofistas da Grécia Antiga,
especialmente a Protágoras, que afirmava ser o homem a medida de todas as
coisas, pergunto: que medida emprega o homem destes tempos, quando meias
verdades norteiam os passos da humanidade? Segundo Mateus, filho de Alfeu, “a
boca fala do que está cheio o coração”. (Mateus 12:34). Criamos verdades
convenientes, ajustadas aos nossos desejos e interesses, e depois as
apresentamos como se fossem leis universais. O egocentrismo vigente corrompe o
coletivo, pois transforma a convivência em disputa e a opinião particular em
sentença definitiva.
Não é difícil perceber que, quando a conveniência
ocupa o lugar da consciência, os fatos passam a ser tratados como obstáculos, e
não como referências. Aceitamos aquilo que nos favorece, recusamos o que nos
contraria e, nesse movimento, pouco a pouco, deixamos de procurar a verdade
para defender a versão que melhor nos acomoda. A mentira nem sempre chega
vestida de falsidade evidente; por vezes, apresenta-se fragmentada, adornada
por argumentos plausíveis e sustentada por uma parcela de realidade. É assim que
a meia verdade conquista espaço e confunde quem não examina com cuidado.
Preceitua Platão que aquilo que vemos no mundo
sensível pode ser apenas sombra, projeção imperfeita de uma realidade mais
elevada. A Verdade Verdadeira, na leitura platônica, relaciona-se ao mundo
inteligível, iluminado pela ideia do Bem. Compreender essa distinção exige
reconhecer que aquilo que percebemos não esgota aquilo que existe. O olhar
humano é limitado, condicionado pela experiência, pela educação, pelos afetos e
pelos interesses. Por isso, a humildade intelectual não diminui ninguém: ao
contrário, abre caminho para que a razão avance para além das aparências e se
aproxime do que é justo.
Envolve essa compreensão aceitar que o espírito deve
prevalecer sobre a matéria, não como desprezo ao mundo concreto, mas como
princípio orientador de nossas escolhas. Quando os valores superiores conduzem
os desejos, a ordem pode florescer e a convivência encontra melhores condições
para se harmonizar. Quando ocorre o inverso, os interesses imediatos passam a
governar a consciência, e tudo se submete à vantagem particular. A evolução
humana não se mede apenas pelo que acumulamos, construímos ou dominamos, mas
também pela capacidade de disciplinar vontades, reconhecer limites e agir em
favor de uma ordem que não se encerra em nós.
Como analisou Immanuel Kant, o ser humano pode ser
compreendido entre a condição natural, submetida a inclinações, desejos e
temores, e a condição racional, capaz de reconhecer deveres e formular
princípios morais. Somos atravessados por impulsos que nos chamam à satisfação
imediata, mas também possuímos a possibilidade de perguntar se nossas ações
poderiam valer como regra para todos. Nesse conflito, entre o apetite e o
dever, manifesta-se uma parte essencial da experiência moral. A bênção e a
maldição de que fala Tiago podem ser lidas, simbolicamente, como expressões das
escolhas que fazemos nesse campo de tensão.
Nosso erro não está em possuir um ponto de vista, pois
somos finitos e observamos o mundo a partir de lugares particulares. O equívoco
começa quando confundimos nossa pequena projeção da realidade com a própria
Realidade Superior. Ter opinião é inevitável; torná-la intocável é uma escolha.
A razão amadurece quando admite a possibilidade de estar enganada, escuta
argumentos contrários e submete suas conclusões ao exame. Quem se julga incapaz
de errar já não procura aprender: procura apenas confirmar a imagem que
construiu de si mesmo.
Ao projetarmos nossos interesses sobre o mundo,
tentamos, muitas vezes, forçar a realidade a adaptar-se a nós, em vez de
moldarmos nossa conduta aos princípios que reconhecemos como justos. Existe uma
realidade objetiva que não depende inteiramente de nossa aprovação. Não
conseguir capturá-la em sua totalidade não significa que ela não exista;
significa, antes, que nossa razão é limitada e necessita de constante
aperfeiçoamento. A consciência dessa limitação deveria tornar-nos mais
prudentes no julgamento e mais responsáveis no uso da palavra. Entretanto, com
frequência, a certeza cresce justamente onde o conhecimento é menor.
Quando a parcialidade reina, a neutralidade se torna
suspeita, a justiça perde sua medida e a isenção cede lugar ao interesse.
Julgamos com rigor os erros alheios e encontramos justificativas generosas para
os nossos. Exigimos transparência de quem nos contraria, mas pedimos
compreensão quando somos nós os questionados. Dessa assimetria nascem muitos
conflitos, porque a régua que usamos para medir o outro raramente é a mesma que
aplicamos a nós. A justiça, porém, não pode ser instrumento de conveniência: se
muda conforme o nome, o grupo ou a vantagem envolvida, já deixou de cumprir sua
finalidade.
A palavra, nesse contexto, revela tanto quanto
esconde. Pode esclarecer, reconciliar e orientar; pode também ferir, manipular
e condenar. Mesmo advertidos por Tiago, que “a língua, porém, ninguém consegue
domar. É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero” (Tiago 3:8),
persistimos em acreditar que basta falar com convicção para estarmos certos.
Mas a força da voz não prova a verdade do que se diz. A eloquência pode servir
à sabedoria ou à fraude, assim como o silêncio pode expressar prudência ou omissão.
O valor moral da palavra depende também da intenção que a move.
Não basta, portanto, perguntar se aquilo que dizemos é
agradável aos nossos ouvidos; é necessário examinar se corresponde aos fatos,
se respeita a dignidade humana e se pode ser sustentado diante de uma
consciência honesta. Antes de reproduzir uma acusação, convém investigar. Antes
de condenar, convém compreender. Antes de responder com ira, convém conceder à
razão o tempo de organizar o pensamento. Esse cuidado não representa fraqueza
nem indecisão. É disciplina interior, exercício que impede a língua de transformar
a primeira impressão em veredito e o ressentimento em suposta verdade.
A sabedoria filosófica oferece justamente esse
exercício de purificação do olhar. Filosofar não é ornamentar o discurso com
nomes ilustres, tampouco colecionar ideias para vencer discussões. É aprender a
perguntar, reconhecer contradições, rever certezas e aceitar que a busca pode
exigir a renúncia a convicções antigas. Sócrates fez da consciência da própria
ignorância um ponto de partida para o conhecimento. Essa atitude permanece
atual: quem reconhece que não sabe tudo conserva aberta a porta do aprendizado;
quem se declara proprietário da verdade fecha essa porta e transforma o
pensamento em dogma.
A busca da verdade exige, ainda, separar o fato da
interpretação, a evidência da suspeita e a convicção da prova. Duas pessoas
podem testemunhar o mesmo acontecimento e atribuir-lhe sentidos diferentes,
pois cada uma o observa a partir de sua história. Isso não significa que todas
as interpretações sejam igualmente corretas. Significa que precisamos
confrontá-las com os acontecimentos, ouvir outras perspectivas e reconhecer os
limites das informações disponíveis. O respeito às diferenças não obriga a renunciar
ao discernimento; antes, convida-nos a exercê-lo sem arrogância, com método,
honestidade e disposição para corrigir o próprio entendimento.
Também na vida coletiva pagamos caro quando a opinião
se sobrepõe aos princípios. Famílias se dividem, amizades se desfazem e
instituições perdem credibilidade porque muitos preferem vencer a conversa a
compreender o problema. A sociedade não se fortalece quando todos repetem a
mesma ideia, mas quando o desacordo é tratado com responsabilidade e submetido
a critérios que ultrapassam a conveniência de cada parte. O bem comum requer
que a liberdade de pensar caminhe junto à obrigação de responder pelas consequências
do que se afirma e do que se faz.
A verdadeira retidão começa, pois, no exame de nós
mesmos. É cômodo apontar a falsidade alheia; mais difícil é descobrir as
distorções que protegemos dentro de nossa própria consciência. Quantas vezes
chamamos de princípio aquilo que é preferência, de coragem aquilo que é
teimosia, de sinceridade aquilo que é crueldade? A autocrítica não nos pede que
abandonemos toda certeza, mas que a submetamos à prova da coerência. Se
defendemos a justiça, devemos praticá-la quando ela nos desfavorece; se
exaltamos a verdade, precisamos acolhê-la mesmo quando desmancha a narrativa
que nos era confortável.
É nesse esforço contínuo que a moral deixa de ser
discurso e se torna conduta. Não há grandeza em proclamar virtudes que não
encontram correspondência nas ações cotidianas. A palavra promete, mas o
comportamento testemunha. A coerência entre o que pensamos, dizemos e fazemos é
uma das medidas mais exigentes do caráter, porque nos impede de esconder nossas
contradições atrás de frases bem construídas. A verdade que defendemos para o
mundo deve começar por nos interrogar. Caso contrário, converte-se em instrumento
de cobrança alheia e perde sua força como caminho de transformação pessoal.
Talvez jamais alcancemos, em nossa condição humana, a
compreensão integral de tudo o que existe. Essa limitação, entretanto, não nos
autoriza ao relativismo conveniente nem à indiferença diante do erro. Ao
contrário, impõe-nos o dever de procurar com seriedade, corrigir com humildade
e agir com responsabilidade. A impossibilidade de saber tudo não elimina a
diferença entre o verdadeiro e o falso, entre o justo e o injusto. Apenas nos
recorda que a aproximação da verdade exige trabalho permanente, vigilância
sobre os próprios interesses e respeito aos princípios que desejamos ver
reconhecidos por todos.
A advertência de Tiago permanece, assim, atual e
necessária. Da mesma boca podem sair bênção e maldição, porque a linguagem
carrega a marca das escolhas que fazemos e do mundo interior que cultivamos. Se
desejamos que nossas palavras abençoem, precisamos cuidar do coração, educar o
pensamento e submeter os impulsos à consciência. Não se trata de esperar uma
perfeição impossível, mas de assumir o compromisso de melhorar. Cada palavra
pode ser ocasião de esclarecimento ou de confusão; cada julgamento pode aproximar-nos
da justiça ou aprofundar a parcialidade que afirmamos combater.
A Verdade, com “V” maiúsculo, não depende da opinião
humana para existir. Nossas interpretações podem mudar, nossas certezas podem
ruir e nossos conhecimentos podem ser ampliados, mas a realidade não se
transforma apenas porque preferimos descrevê-la de outra maneira. Por isso, a
sabedoria consiste menos em proclamar que estamos certos do que em trabalhar
para merecer a confiança de nossas próprias afirmações. Entre o certo e o
errado pode haver divergência de perspectiva; entre a aparência e a verdade,
porém, há uma distância que somente a investigação honesta, a consciência moral
e a humildade ajudam a vencer.
Que aprendamos, portanto, a falar menos para impor e
mais para esclarecer; menos para ferir e mais para construir; menos para
defender vaidades e mais para servir ao que é justo. Que a filosofia nos ensine
a questionar nossas certezas, que a razão nos ajude a examinar os fatos e que a
espiritualidade nos recorde a responsabilidade de nossas escolhas. A busca
talvez não nos entregue todas as respostas, mas pode tornar-nos mais dignos das
perguntas que fazemos. Afinal, não é a posse proclamada da verdade que revela o
sábio: é a disposição permanente de procurá-la e de viver segundo aquilo que,
com honestidade, conseguimos reconhecer como verdadeiro.
Maranguape, Ceará, 24 de Outubro de 2026
Bruno Bezerra de Macedo,
O Matuto do Carrasco




