Não remoer, nem murmurar, pode ser uma técnica a
desenvolver por quem deseja preservar a serenidade diante das contrariedades da
vida. Entretanto, essa atitude assume sentidos distintos: pode nascer do
autodomínio e da maturidade, mas também esconder um cinismo que transforma a
indiferença em abrigo. Não me refiro aos Cínicos da filosofia grega, que
contestavam convenções sociais em busca de uma vida coerente com a virtude e a
liberdade interior. Refiro-me ao cínico contemporâneo que apenas observa, sorri
e se esquiva; aquele que, mesmo podendo contribuir, prefere não se comprometer
com a vida, com o tempo ou com o próprio crescimento. Sua tranquilidade não
decorre necessariamente de sabedoria: pode ser apenas consequência de não se
deixar tocar por nada que exija responsabilidade.
A diferença é fundamental. O silêncio de quem refletiu
pode ser prudência; o de quem teme agir pode ser omissão. Não alimentar
ressentimentos é saudável, mas fingir que nada importa é outra coisa. A
filosofia estoica ensina a reconhecer o que depende de nós e a não entregar o
governo da vida a acontecimentos fora de nosso controle. Isso não significa
eliminar sentimentos, desprezar a dor alheia ou abandonar o dever moral.
Significa examinar as impressões e escolher uma resposta consciente. A
serenidade autêntica não exige que deixemos de sentir; exige que não sejamos
governados cegamente por tudo o que sentimos. A indiferença, quando nos afasta
de qualquer compromisso, torna-se uma prisão confortável.
Pessoas assim parecem viver melhor porque,
aparentemente, nada sentem. Nelas, empatia, compartilhamento e amor — por si
mesmas e, menos ainda, pelo mundo — parecem ocupar pouco espaço. Como pouco se
envolvem, pouco se decepcionam; como pouco esperam, raramente se frustram.
Instala-se uma paz deformada: a paz de quem não se importa com nada, muito
menos com alguém. Há uma riqueza aparente nessa condição, sobretudo quando a
sensibilidade é confundida com fraqueza e o distanciamento, com superioridade.
Mas não sofrer porque se aprendeu a enfrentar a dor é muito diferente de não
sofrer porque se decidiu não amar, não participar ou não reconhecer a
existência do outro.
A psicologia ajuda a compreender que nem toda ausência
de sofrimento indica equilíbrio emocional. Às vezes, o indivíduo aprende a
reconhecer as próprias emoções e a responder proporcionalmente às
circunstâncias. Em outras ocasiões, evita o desconforto por meio da negação, da
racionalização ou do afastamento afetivo. Esses mecanismos podem aliviar
momentaneamente, sem resolver o conflito que os originou. A pessoa parece
imperturbável enquanto se recusa a examinar o que sente. A maturidade, porém,
não consiste em abolir a vulnerabilidade, mas em reconhecê-la sem permitir que
ela determine todas as escolhas. Quem se conhece não precisa fingir que nunca
se fere; aprende a cuidar da ferida sem fazer dela o centro da existência.
Vivemos dias líquidos, para empregar a conhecida
imagem de Zygmunt Bauman, marcados pela fragilidade dos vínculos, pela
velocidade das mudanças e pela substituição frequente de desejos e relações. Os
prazeres tornam-se passageiros como uma dose de ópio: suspendem por instantes a
inquietação e prometem uma satisfação que logo exige renovação. A experiência
perde profundidade quando tudo precisa ser imediato e substituível. As horas
passam, e valor e desvalor parecem desautorizar-se mutuamente, compondo o espetáculo
deste século e milênio que ajudamos a formar por nossas ações e omissões. A
máxima latina sic transit gloria mundi
— assim passa a glória do mundo — manifesta-se velozmente numa cultura em que a
visibilidade pode ser fabricada e consumida em poucas horas.
Os algoritmos que organizam parte da experiência
digital não determinam sozinhos o comportamento humano, mas participam da
disputa pela atenção. Conteúdos que provocam indignação, fascínio ou aprovação
imediata podem circular mais do que reflexões que exigem tempo. A popularidade
passa a ser confundida com mérito; a exposição, com importância; a reação
instantânea, com pensamento. Nesse ambiente, a imagem projetada pode receber
mais cuidado do que a pessoa que somos. A sociologia permite observar que o individualismo
também é estimulado por estruturas que premiam a competição, a autopromoção e a
busca incessante por reconhecimento. Quando cada pessoa trata a outra como
concorrente ou instrumento, a solidariedade parece custosa e a indiferença,
eficiente.
A felicidade, entretanto, não é um estado imóvel nem
uma euforia permanente. Sua intensidade oscila com as circunstâncias, as
relações, as expectativas e a maneira como interpretamos o que acontece. Há nos
cínicos uma alegria deformada, patrocinada por um ego tão exacerbado que não
lhes permite reconhecer os próprios erros. Quem se considera sempre certo pode
imaginar-se sempre vitorioso; se nunca admite falhas, evita a experiência
consciente da frustração. Contudo, essa vitória é frágil, pois depende da recusa
em confrontar a realidade. Para proteger a imagem que construiu de si, o
indivíduo pode transferir a culpa, desqualificar quem o contradiz ou
reinterpretar os acontecimentos a seu favor. O alívio obtido não equivale a
crescimento: preserva o orgulho no instante, mas impede a aprendizagem que
nasce do reconhecimento dos limites.
Um deslumbramento sine
qua non parece manter essas pessoas cativas de uma autoimagem que encobre a
essência do que há de mais belo em ser humano. A expressão latina significa, em
rigor, “condição indispensável”; aqui, a ideia é a de um fascínio persistente
pela própria aparência moral, social ou intelectual, como se a imagem
idealizada fosse condição para continuar a sentir-se superior. A pessoa deixa
de perguntar quem é e passa a cuidar apenas de como deseja ser percebida. O
espelho substitui a consciência, e a aprovação externa toma o lugar do exame
interior. A filosofia, desde a antiga recomendação de conhecer a si mesmo,
alerta para o risco de uma vida que não se submete à reflexão. Sem esse exame,
a vaidade pode vestir-se de convicção, a arrogância de competência e a
incapacidade de escutar de independência.
A psicologia permite compreender como a autoimagem se
torna defensiva. Quando alguém associa o próprio valor à ideia de estar sempre
certo, admitir um erro pode parecer uma ameaça à identidade, não uma
oportunidade de aprendizagem. Então surgem justificativas, transferência de
culpa, desprezo pela crítica e resistência a qualquer evidência que contradiga
a narrativa pessoal. O ego, nesse caso, não é simplesmente autoestima: é uma
estrutura rígida que exige confirmação constante. A autoestima saudável suporta
limites e contradições; a vaidade defensiva precisa negar ambos. A primeira
favorece o crescimento, enquanto a segunda condena a pessoa a repetir os mesmos
equívocos, atribuindo sempre aos outros a responsabilidade por seus resultados.
Celeradamente desumanas, pessoas assim podem povoar a
humanidade sem contribuir para o seu amadurecimento. O problema deixa de ser
apenas individual quando esses comportamentos se reproduzem nas famílias, nos
ambientes de trabalho, na vida pública e nas instituições. A sociologia ajuda a
perceber que instituições não adoecem apenas por grandes crises: também se
fragilizam quando a responsabilidade cede lugar à conveniência, o diálogo à
disputa de vaidades e o compromisso coletivo à busca de prestígio pessoal.
Tradições que sustentaram comunidades por gerações podem perder seu sentido
quando seus símbolos são preservados, mas os valores que lhes davam vida são
abandonados. Mantém-se a forma, esvazia-se o conteúdo. A instituição continua
de pé, porém já não cumpre plenamente a função humana que justificava sua
existência.
Isso não significa que toda tradição seja justa, nem
que toda instituição deva permanecer imune à crítica. Tradições vivas precisam
ser examinadas, renovadas e, quando necessário, corrigidas. O que as sustenta
não é a repetição cega, mas a capacidade de transmitir valores que favoreçam a
dignidade, a responsabilidade e a convivência. O mesmo vale para a humanidade:
não basta celebrar a palavra fraternidade, justiça ou solidariedade; é preciso
fazê-las aparecer na conduta. O cinismo prospera quando as palavras permanecem
grandiosas, mas as ações se tornam pequenas. Nesse cenário, o exemplo pessoal
tem força especial, porque revela a distância — ou a coerência — entre aquilo
que se proclama e aquilo que se pratica.
Também é necessário distinguir a crítica legítima da
murmuração estéril. Denunciar uma injustiça ou contestar uma decisão pode ser
indispensável à transformação social. A murmuração torna-se improdutiva quando
repete o descontentamento sem compreender suas causas ou avaliar possibilidades
de ação. Da mesma forma, não remoer uma ofensa não significa aceitar a
injustiça. É possível abandonar o ressentimento e exigir reparação; perdoar e
impedir que o dano se repita; preservar a serenidade sem renunciar à responsabilidade.
O silêncio pode ser sábio quando evita uma provocação vazia, mas torna-se
cumplicidade quando protege aquilo que deveria ser questionado.
A verdadeira liberdade não consiste em permanecer
desobrigado de tudo, mas em escolher conscientemente os compromissos que dão
sentido à existência. Não podemos resolver todos os problemas nem responder a
cada provocação. Reconhecer limites é prudência; usá-los como justificativa
para nunca agir é omissão. A vida ética se manifesta nas grandes decisões e nos
gestos discretos: reconhecer um erro, reparar um dano, oferecer atenção,
cumprir uma palavra e contribuir quando seria mais cômodo permanecer à margem.
A coerência entre o que professamos e o que praticamos é testemunho mais
confiável do caráter do que qualquer discurso sobre virtude.
Talvez o desafio de nosso tempo não seja aprender a
sentir menos, mas sentir com discernimento. A sensibilidade sem reflexão pode
conduzir à impulsividade; a razão sem humanidade pode converter-se em cálculo
indiferente. Precisamos de ambas para compreender o sofrimento sem nos
destruirmos, defender convicções sem intolerância e aceitar a transitoriedade
sem desprezar o que merece cuidado. Saber que a glória passa deveria ensinar
humildade, não inutilidade. Saber que os vínculos podem terminar não torna o amor
dispensável. A brevidade da vida não diminui o valor dos gestos que a tornam
mais justa e digna.
No fim, a pergunta decisiva não é se atravessamos a
existência sem frustrações, mas o que fazemos com elas. Podemos transformar a
dor em ressentimento ou compreensão; o erro, em defesa orgulhosa ou
aprendizagem; a liberdade, em isolamento ou responsabilidade. Não remoer e não
murmurar podem expressar conquista interior, desde que não sejam pretextos para
a indiferença. A paz de quem não se importa com nada protege-nos do mundo à
custa de nos afastar dele. A paz que nasce do discernimento permite-nos habitá-lo
sem perder a integridade. Quando os aplausos se extinguirem e as aparências
perderem o brilho, talvez reste uma pergunta: que diferença fizemos na vida
daqueles que cruzaram nosso caminho? A glória passa, mas a transitoriedade não
nos condena à irrelevância. Enquanto houver tempo, podemos escolher ser
presença de compreensão, dignidade e esperança, em vez de mais uma expressão da
indiferença que criticamos.
Maranguape,
Ceará, 22 de Outubro de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo,
O
Matuto do Carrasco

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