quinta-feira, 22 de outubro de 2026

A PAZ DE QUEM NADA SENTE

 

Não remoer, nem murmurar, pode ser uma técnica a desenvolver por quem deseja preservar a serenidade diante das contrariedades da vida. Entretanto, essa atitude assume sentidos distintos: pode nascer do autodomínio e da maturidade, mas também esconder um cinismo que transforma a indiferença em abrigo. Não me refiro aos Cínicos da filosofia grega, que contestavam convenções sociais em busca de uma vida coerente com a virtude e a liberdade interior. Refiro-me ao cínico contemporâneo que apenas observa, sorri e se esquiva; aquele que, mesmo podendo contribuir, prefere não se comprometer com a vida, com o tempo ou com o próprio crescimento. Sua tranquilidade não decorre necessariamente de sabedoria: pode ser apenas consequência de não se deixar tocar por nada que exija responsabilidade.

 

A diferença é fundamental. O silêncio de quem refletiu pode ser prudência; o de quem teme agir pode ser omissão. Não alimentar ressentimentos é saudável, mas fingir que nada importa é outra coisa. A filosofia estoica ensina a reconhecer o que depende de nós e a não entregar o governo da vida a acontecimentos fora de nosso controle. Isso não significa eliminar sentimentos, desprezar a dor alheia ou abandonar o dever moral. Significa examinar as impressões e escolher uma resposta consciente. A serenidade autêntica não exige que deixemos de sentir; exige que não sejamos governados cegamente por tudo o que sentimos. A indiferença, quando nos afasta de qualquer compromisso, torna-se uma prisão confortável.

 

Pessoas assim parecem viver melhor porque, aparentemente, nada sentem. Nelas, empatia, compartilhamento e amor — por si mesmas e, menos ainda, pelo mundo — parecem ocupar pouco espaço. Como pouco se envolvem, pouco se decepcionam; como pouco esperam, raramente se frustram. Instala-se uma paz deformada: a paz de quem não se importa com nada, muito menos com alguém. Há uma riqueza aparente nessa condição, sobretudo quando a sensibilidade é confundida com fraqueza e o distanciamento, com superioridade. Mas não sofrer porque se aprendeu a enfrentar a dor é muito diferente de não sofrer porque se decidiu não amar, não participar ou não reconhecer a existência do outro.

 

A psicologia ajuda a compreender que nem toda ausência de sofrimento indica equilíbrio emocional. Às vezes, o indivíduo aprende a reconhecer as próprias emoções e a responder proporcionalmente às circunstâncias. Em outras ocasiões, evita o desconforto por meio da negação, da racionalização ou do afastamento afetivo. Esses mecanismos podem aliviar momentaneamente, sem resolver o conflito que os originou. A pessoa parece imperturbável enquanto se recusa a examinar o que sente. A maturidade, porém, não consiste em abolir a vulnerabilidade, mas em reconhecê-la sem permitir que ela determine todas as escolhas. Quem se conhece não precisa fingir que nunca se fere; aprende a cuidar da ferida sem fazer dela o centro da existência.

 

Vivemos dias líquidos, para empregar a conhecida imagem de Zygmunt Bauman, marcados pela fragilidade dos vínculos, pela velocidade das mudanças e pela substituição frequente de desejos e relações. Os prazeres tornam-se passageiros como uma dose de ópio: suspendem por instantes a inquietação e prometem uma satisfação que logo exige renovação. A experiência perde profundidade quando tudo precisa ser imediato e substituível. As horas passam, e valor e desvalor parecem desautorizar-se mutuamente, compondo o espetáculo deste século e milênio que ajudamos a formar por nossas ações e omissões. A máxima latina sic transit gloria mundi — assim passa a glória do mundo — manifesta-se velozmente numa cultura em que a visibilidade pode ser fabricada e consumida em poucas horas.

 

Os algoritmos que organizam parte da experiência digital não determinam sozinhos o comportamento humano, mas participam da disputa pela atenção. Conteúdos que provocam indignação, fascínio ou aprovação imediata podem circular mais do que reflexões que exigem tempo. A popularidade passa a ser confundida com mérito; a exposição, com importância; a reação instantânea, com pensamento. Nesse ambiente, a imagem projetada pode receber mais cuidado do que a pessoa que somos. A sociologia permite observar que o individualismo também é estimulado por estruturas que premiam a competição, a autopromoção e a busca incessante por reconhecimento. Quando cada pessoa trata a outra como concorrente ou instrumento, a solidariedade parece custosa e a indiferença, eficiente.

 

A felicidade, entretanto, não é um estado imóvel nem uma euforia permanente. Sua intensidade oscila com as circunstâncias, as relações, as expectativas e a maneira como interpretamos o que acontece. Há nos cínicos uma alegria deformada, patrocinada por um ego tão exacerbado que não lhes permite reconhecer os próprios erros. Quem se considera sempre certo pode imaginar-se sempre vitorioso; se nunca admite falhas, evita a experiência consciente da frustração. Contudo, essa vitória é frágil, pois depende da recusa em confrontar a realidade. Para proteger a imagem que construiu de si, o indivíduo pode transferir a culpa, desqualificar quem o contradiz ou reinterpretar os acontecimentos a seu favor. O alívio obtido não equivale a crescimento: preserva o orgulho no instante, mas impede a aprendizagem que nasce do reconhecimento dos limites.

 

Um deslumbramento sine qua non parece manter essas pessoas cativas de uma autoimagem que encobre a essência do que há de mais belo em ser humano. A expressão latina significa, em rigor, “condição indispensável”; aqui, a ideia é a de um fascínio persistente pela própria aparência moral, social ou intelectual, como se a imagem idealizada fosse condição para continuar a sentir-se superior. A pessoa deixa de perguntar quem é e passa a cuidar apenas de como deseja ser percebida. O espelho substitui a consciência, e a aprovação externa toma o lugar do exame interior. A filosofia, desde a antiga recomendação de conhecer a si mesmo, alerta para o risco de uma vida que não se submete à reflexão. Sem esse exame, a vaidade pode vestir-se de convicção, a arrogância de competência e a incapacidade de escutar de independência.

 

A psicologia permite compreender como a autoimagem se torna defensiva. Quando alguém associa o próprio valor à ideia de estar sempre certo, admitir um erro pode parecer uma ameaça à identidade, não uma oportunidade de aprendizagem. Então surgem justificativas, transferência de culpa, desprezo pela crítica e resistência a qualquer evidência que contradiga a narrativa pessoal. O ego, nesse caso, não é simplesmente autoestima: é uma estrutura rígida que exige confirmação constante. A autoestima saudável suporta limites e contradições; a vaidade defensiva precisa negar ambos. A primeira favorece o crescimento, enquanto a segunda condena a pessoa a repetir os mesmos equívocos, atribuindo sempre aos outros a responsabilidade por seus resultados.

 

Celeradamente desumanas, pessoas assim podem povoar a humanidade sem contribuir para o seu amadurecimento. O problema deixa de ser apenas individual quando esses comportamentos se reproduzem nas famílias, nos ambientes de trabalho, na vida pública e nas instituições. A sociologia ajuda a perceber que instituições não adoecem apenas por grandes crises: também se fragilizam quando a responsabilidade cede lugar à conveniência, o diálogo à disputa de vaidades e o compromisso coletivo à busca de prestígio pessoal. Tradições que sustentaram comunidades por gerações podem perder seu sentido quando seus símbolos são preservados, mas os valores que lhes davam vida são abandonados. Mantém-se a forma, esvazia-se o conteúdo. A instituição continua de pé, porém já não cumpre plenamente a função humana que justificava sua existência.

 

Isso não significa que toda tradição seja justa, nem que toda instituição deva permanecer imune à crítica. Tradições vivas precisam ser examinadas, renovadas e, quando necessário, corrigidas. O que as sustenta não é a repetição cega, mas a capacidade de transmitir valores que favoreçam a dignidade, a responsabilidade e a convivência. O mesmo vale para a humanidade: não basta celebrar a palavra fraternidade, justiça ou solidariedade; é preciso fazê-las aparecer na conduta. O cinismo prospera quando as palavras permanecem grandiosas, mas as ações se tornam pequenas. Nesse cenário, o exemplo pessoal tem força especial, porque revela a distância — ou a coerência — entre aquilo que se proclama e aquilo que se pratica.

 

Também é necessário distinguir a crítica legítima da murmuração estéril. Denunciar uma injustiça ou contestar uma decisão pode ser indispensável à transformação social. A murmuração torna-se improdutiva quando repete o descontentamento sem compreender suas causas ou avaliar possibilidades de ação. Da mesma forma, não remoer uma ofensa não significa aceitar a injustiça. É possível abandonar o ressentimento e exigir reparação; perdoar e impedir que o dano se repita; preservar a serenidade sem renunciar à responsabilidade. O silêncio pode ser sábio quando evita uma provocação vazia, mas torna-se cumplicidade quando protege aquilo que deveria ser questionado.

 

A verdadeira liberdade não consiste em permanecer desobrigado de tudo, mas em escolher conscientemente os compromissos que dão sentido à existência. Não podemos resolver todos os problemas nem responder a cada provocação. Reconhecer limites é prudência; usá-los como justificativa para nunca agir é omissão. A vida ética se manifesta nas grandes decisões e nos gestos discretos: reconhecer um erro, reparar um dano, oferecer atenção, cumprir uma palavra e contribuir quando seria mais cômodo permanecer à margem. A coerência entre o que professamos e o que praticamos é testemunho mais confiável do caráter do que qualquer discurso sobre virtude.

 

Talvez o desafio de nosso tempo não seja aprender a sentir menos, mas sentir com discernimento. A sensibilidade sem reflexão pode conduzir à impulsividade; a razão sem humanidade pode converter-se em cálculo indiferente. Precisamos de ambas para compreender o sofrimento sem nos destruirmos, defender convicções sem intolerância e aceitar a transitoriedade sem desprezar o que merece cuidado. Saber que a glória passa deveria ensinar humildade, não inutilidade. Saber que os vínculos podem terminar não torna o amor dispensável. A brevidade da vida não diminui o valor dos gestos que a tornam mais justa e digna.

 

No fim, a pergunta decisiva não é se atravessamos a existência sem frustrações, mas o que fazemos com elas. Podemos transformar a dor em ressentimento ou compreensão; o erro, em defesa orgulhosa ou aprendizagem; a liberdade, em isolamento ou responsabilidade. Não remoer e não murmurar podem expressar conquista interior, desde que não sejam pretextos para a indiferença. A paz de quem não se importa com nada protege-nos do mundo à custa de nos afastar dele. A paz que nasce do discernimento permite-nos habitá-lo sem perder a integridade. Quando os aplausos se extinguirem e as aparências perderem o brilho, talvez reste uma pergunta: que diferença fizemos na vida daqueles que cruzaram nosso caminho? A glória passa, mas a transitoriedade não nos condena à irrelevância. Enquanto houver tempo, podemos escolher ser presença de compreensão, dignidade e esperança, em vez de mais uma expressão da indiferença que criticamos.

 

Maranguape, Ceará, 22 de Outubro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo,

O Matuto do Carrasco


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