Há
dias não escrevo, não por vontade, mas, desorganização do tempo. Temos tempo para
tudo, então, dizer que é não escrevi por falta de tempo é uma deformação na
consciência. Consciência é um vetor de máxima gravidade, do qual ninguém deve
afastar-se. E mesmo aqueles, que distraindo-se, dela se afastaram que se dão
conta do erro correm aos braços da consciência com a mesma avidez de um filho
em busca do colo materno.
Isso
me lembra da régua de 24 polegadas com a qual meço o tempo e defino o que fazer,
quando fazer e como fazer sob os auspícios da mestria do tempo. Quando acompanhada
do compasso – a quem concordamos entregar-lhe o vigor de nossas individualidades
em troca da aprazível efervescência do compartir harmônico e homogêneo vivido
no coletivo – a régua materializa a excelsitude do sagrado nas horas que ela
gere.
Ancorados
no esquadro – que esquadrinha o viver nos reinos terrenos (ou da matéria) em busca
da correção das ações, a justiça e a imparcialidade simbolizado pelo ângulo
reto (90º) – o compasso vê-se realizado na exata medida do respeito dedicado às
suas imputações e na disciplina que as fazem cumpridas a bem dos resultados
previamente estimados e legitimados pela régua que determina a cada agir o
momento oportuno.
Agir
requer inteligência que garante a excelente exequibilidade dos intentos e a
exuberante beleza dos resultados. Isso traz à minha mente a argúcia do cinzel –
digno representante da razão, da clareza de ideias e da capacidade de
direcionar o pensamento com precisão – e a imponência do malho – augusto manifestante
da força da vontade que faz realizados os intentos, as mudanças e a evolução nos
reinos terrenos e no universo.
Sozinho,
o cinzel é inútil, pois, prescinde da energia do malho para atuar. Essa
dualidade mostra que a força ainda que descomunal, sem a inteligência para
guiá-la, apenas destrói, enquanto a inteligência sem força nada realiza, pois,
falta-lhe o animus movendi. Neste influxo, assim como o cinzel precisa ser
afiado com frequência para não perder o corte, o ser humano deve revisar e
aprimorar constantemente seus conhecimentos e atitudes.
Carece
o homem ter a alavanca à mão nessa jornada em busca de si, pois, se o que busca
não for achado primeiramente nele, não será achado em lugar algum. A alavanca tem
o condão especialíssimo de mover entulhos que obstam o caminho, de derrubar
paredes e muros que impedem a melhor visão do horizonte e, também, de remover
as torpezas mais pesadas em nossos corações e as ignorâncias mais robustas em nossas
mentes.
Sem
a abnegada atividade da alavanca não se pode usar com exata perfeição nenhum
dos equipos implantados no homem para que este cumpra sua missão de bem-fazer à
humanidade, tão pouco conseguirá ele construir um lar seguro para habitar com bem-estar
e em harmonia com os seus amados, muito menos o homem manifestará suas
habilidades como edificador social, pois, nada se faz em meio à escombros que
desordem produz.
Neste
diapasão, somente os guiados pela consciência – que é o elo mais elegantemente
eficaz com os auspícios superiores da Criação – usam com precisão exemplar as
tecnologias da régua de 24 polegadas, do compasso, do esquadro, do malho, do cinzel
e da alavanca a bem do coletivo em geral, pois, é cônscio deve manter e cumprir
a interdependência que há entre todas as coisas, pois, sem essa força motriz
tudo se dissocia.
Ninguém
edifica sozinho, ninguém evolui isoladamente e ninguém alcança a plenitude
ignorando a importância dos que caminham ao seu lado. Somos partículas de uma
mesma arquitetura universal, pedras de uma construção cuja magnitude ultrapassa
os limites da nossa compreensão. Envolve responsabilidade, pois, na grande
oficina da Criação, nenhuma ação é absolutamente indiferente aos destinos da
coletividade.
Cada
gesto, por menor que pareça, repercute na estrutura do todo, assim como a
retirada de uma pedra pode comprometer a estabilidade de um edifício inteiro. Nem
todas as paredes precisam ser derrubadas, nem todos os caminhos precisam ser
percorridos, nem todas as palavras precisam ser pronunciadas. Ao homem compete aprender
a distinguir o que lhe compete transformar daquilo que lhe cabe compreender e
respeitar.
A
sabedoria consiste em reconhecer a oportunidade de cada movimento, a
conveniência de cada silêncio e a legitimidade de cada intervenção. Eis a régua
ensinando a medida, o esquadro reclamando a retidão e o compasso recordando que
a liberdade individual encontra sua expressão mais elevada quando não invade o
espaço sagrado da liberdade alheia. Todavia, isto não impele acomodar-se diante
das imperfeições que nos cercam.
Há
momentos em que a consciência exige coragem para romper com velhos hábitos,
abandonar convicções equivocadas e enfrentar verdades que preferiríamos manter
escondidas nos subterrâneos da alma. Nesses instantes, o malho deve reunir a
energia necessária para impulsionar a mudança, enquanto o cinzel, orientado
pela inteligência, identifica o ponto exato em que o golpe deve incidir com
precisão.
A
força sem discernimento pode ferir aquilo que deveria restaurar; a coragem sem
prudência pode converter a legítima transformação em desastrosa precipitação. É
justamente nessa hora que a alavanca interior se revela indispensável, porque
há obstáculos que não se encontram nas circunstâncias, mas, nas estruturas que
edificamos dentro de nós. Com precisão robótica age a alavanca desobstruindo o
necessário.
O
orgulho, a vaidade, a intolerância, a inveja e o apego desmedido às próprias
razões constituem entulhos que dificultam a passagem da luz. Removê-los requer
humildade para reconhecer as próprias limitações e grandeza para admitir que
também erramos. Não existe lapidação verdadeira quando o homem se considera
acabado, nem há aprimoramento possível quando a soberba lhe convence de que já
alcançou a perfeição.
A
pedra bruta somente aceita o trabalho daquele que reconhece a necessidade de
ser trabalhado. Nessa perspectiva, o tempo assume uma dimensão ainda mais
significativa, pois, não se limita à sucessão das horas inscritas no mostrador
dos relógios. A régua de 24 polegadas não nos oferece apenas uma referência
para distribuir tarefas, mas uma advertência acerca da finitude de nossa
passagem terrena.
Há
um tempo para aprender, outro para ensinar; um tempo para plantar, outro para
colher; um tempo para falar, outro para silenciar; um tempo para avançar e
outro para recuar, a fim de compreender melhor a direção a seguir. Cada hora
desperdiçada em disputas estéreis é uma oportunidade subtraída à construção do
bem, e cada instante empregado com sabedoria pode converter-se em fundamento de
realizações duradouras.
Entretanto,
administrar o tempo não significa transformar a existência numa sequência
mecânica de obrigações, como se o homem fosse mero instrumento de uma
engrenagem insensível. O trabalho precisa conviver com o repouso, a disciplina
com a espontaneidade, o compromisso com a contemplação e a produtividade com o
afeto. Não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto
vive.
É
necessário ouvir o silêncio, admirar a natureza, acolher os amigos e
compartilhar a mesa com aqueles torna nossa jornada mais significativa. Afinal,
de que serviria construir templos grandiosos se, ao término da obra,
descobríssemos ter negligenciado os corações que deveriam encontrar abrigo sob
suas colunas? É mister primevo conferir às horas um propósito digno, sem
permitir que a busca por resultados nos afaste das razões pelas quais vivemos.
Assim
também compreendo a importância do coletivo, esse espaço de convivência no qual
nossas diferenças deixam de ser necessariamente motivos de afastamento e passam
a representar possibilidades de enriquecimento mútuo. O compasso delimita, mas
também harmoniza; o esquadro corrige, mas também orienta; a régua estabelece
limites, mas igualmente oferece referências para o crescimento.
Cada
indivíduo traz consigo experiências, talentos e imperfeições que, quando
submetidos à disciplina da fraternidade, podem contribuir para uma obra maior.
Não se exige que todos pensem da mesma maneira, mas que aprendam a discordar
sem desrespeitar, a corrigir sem humilhar e a cooperar sem pretender submeter
os demais à tirania das próprias convicções. A harmonia é filha da
inteligência.
É
nesse ambiente que a consciência assume sua condição de orientadora suprema das
ferramentas simbólicas e das capacidades humanas. Sem ela, a inteligência pode
tornar-se artifício para enganar, a força pode converter-se em instrumento de
opressão, a disciplina pode degenerar em obediência cega e o conhecimento pode
alimentar a vaidade em vez de servir à humanidade.
A
consciência, porém, recorda-nos que o valor de uma realização não se mede
exclusivamente pela grandeza aparente de seus resultados, mas também pela
legitimidade dos meios empregados para alcançá-los. Construir não é suficiente:
importa saber o que construímos, para quem construímos e quais consequências
nossa obra produzirá na vida daqueles que dela se aproximarem.
Por
isso, a edificação do templo interior não pode ser dissociada da edificação do
mundo exterior. A retidão que proclamamos deve manifestar-se nas pequenas
decisões cotidianas; a fraternidade que defendemos deve alcançar aqueles que
não podem nos oferecer vantagens; a justiça que exigimos dos outros deve
encontrar morada em nossos próprios julgamentos, pois, como julgamos também
seremos julgados.
Não
basta conhecer os instrumentos, exibir seus símbolos ou discorrer sobre a
nobreza de seus significados. É preciso incorporá-los à conduta, fazendo da
régua a medida dos compromissos, do compasso o equilíbrio das relações, do
esquadro a retidão dos atos, do malho a determinação para realizar, do cinzel a
inteligência que aperfeiçoa e da alavanca a coragem de remover tudo aquilo que
impede o progresso.
Somente
assim o conhecimento abandona a condição de ornamento intelectual e se
transforma em sabedoria vivida. Por fim, retorno ao ponto de partida: há dias
não escrevo, não por vontade, mas, pela desorganização do tempo. Talvez esta
reflexão seja, ela própria, uma forma de reencontrar a régua que, por alguns
instantes, deixei de consultar com a devida atenção. A régua é uma maviosa
companhia em todas as horas.
Escrever
também é edificar, porque as palavras, quando nascidas da consciência e
trabalhadas pela inteligência, podem remover entulhos, abrir horizontes e
aproximar corações. Que eu saiba, portanto, distribuir melhor minhas horas,
afiar continuamente meu cinzel, manejar com prudência meu malho e conservar a
alavanca sempre disponível para vencer as resistências que me afastam daquilo
que devo ser.
Afinal,
a grande obra não consiste em acumular ferramentas, proclamar virtudes ou
ostentar conhecimentos, mas em empregá-los, com humildade e perseverança, na
construção de uma existência justa, útil e fraterna. E que, ao final da
jornada, quando o tempo recolher seus instrumentos e a matéria devolver à terra
aquilo que dela recebeu, permaneça como legado não a imponência das pedras que
erguemos, mas a luz que fomos capazes de acender na consciência dos homens e o
bem que deixamos florescer no coração da humanidade.
Maranguape,
Ceará, 17 de Outubro de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo,
O
Matuto do Carrasco

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