I —
UMA TERRA QUE ENSINA A SER FORTE
Há lugares que
ultrapassam a condição de simples pontos inscritos no mapa. Tornam-se, pela
força da memória, da cultura e das pessoas que os habitam, verdadeiros
territórios da alma. Riacho do Sangue é apresentado aqui por mim exatamente sob
essa perspectiva: não apenas como um lugar geográfico, mas como uma expressão
viva de coragem, determinação e pertencimento. Ali, a história parece caminhar
ao lado do povo, e cada geração recebe das anteriores uma espécie de
compromisso silencioso: conservar a dignidade, honrar os que vieram antes e
continuar construindo, com trabalho e caráter, o futuro.
Quando afirmo que o Riacho
do Sangue é “lugar de povo valente”, não se trata de uma exaltação vazia. A
valentia, nesse contexto, nasce da capacidade de enfrentar as circunstâncias
sem permitir que as dificuldades determinem o destino. É uma coragem que não
precisa de alarde. Ela se manifesta no cotidiano, na disposição para trabalhar,
na fidelidade às próprias raízes, na capacidade de permanecer de pé quando a
vida impõe seus desafios.
Sintetizo essa
disposição em duas palavras essenciais: determinação e coragem. A primeira
oferece direção; a segunda fornece ânimo para prosseguir. Uma sem a outra seria
insuficiente. A determinação pode indicar o caminho, mas, sem coragem, não há
força para percorrê-lo. A coragem pode impulsionar, mas, sem determinação,
corre o risco de transformar-se em entusiasmo passageiro. Juntas, entretanto,
constituem uma energia capaz de animar a viagem da existência.
Essa imagem da viagem
é particularmente significativa. Viver é deslocar-se continuamente entre aquilo
que fomos, aquilo que somos e aquilo que desejamos ser. Nenhum povo chega ao
futuro sem carregar consigo as marcas do passado. Por isso, a verdadeira grandeza
de uma comunidade não está apenas nas obras materiais que constrói, mas também
nos valores que consegue transmitir.
Riacho do Sangue
surge, assim, como uma dessas paisagens humanas em que a identidade coletiva se
forma pela soma de muitas histórias individuais. Cada família, cada homem e
cada mulher acrescenta uma página à narrativa comum. E, quando o tempo
transforma os acontecimentos em memória, são justamente os exemplos de caráter
que permanecem como referência para aqueles que chegam depois.
Este ensaio não pretende apenas falar de uma localidade. Pretende refletir
sobre o que faz uma terra ser verdadeiramente importante para quem a conhece e
ama. Uma terra se torna inesquecível quando possui pessoas que lhe conferem
significado. São elas que transformam ruas em lembranças, nomes em referências,
famílias em raízes e acontecimentos em patrimônio afetivo.
II —
NOMES QUE SE TORNAM MEMÓRIA
É nesse território de
memória que introduzo os Cavalcanti e os Bezerra de Menezes. A menção a esses
nomes não parece cumprir uma função meramente genealógica, porém, representa,
antes, a compreensão de que a história de uma comunidade é construída por
pessoas concretas, cujas vidas se tornam exemplos e cujos gestos continuam
reverberando depois que o tempo passa.
Ao dizer: “é gente da
gente”, manifesto a existência de uma filosofia de pertencimento. O outro deixa
de ser apenas alguém conhecido e passa a ser reconhecido como parte de uma
história comum. É uma maneira simples e profunda de dizer que os valores de uma
pessoa também podem pertencer à comunidade que a viu nascer, crescer, agir e
deixar sua marca.
As famílias, nesse
sentido, funcionam como árvores. Possuem raízes profundas, atravessam estações,
suportam ventos e oferecem sombra às gerações que chegam. Um nome de família
pode carregar consigo não apenas parentesco, mas também, reputação,
responsabilidade e memória. Quando evoco os Cavalcanti e os Bezerra de Menezes,
de certa maneira, acendo pequenas lâmpadas no caminho da lembrança.
Entre essas
referências, destaca-se Bezerra de Menezes, cuja presença é associada à
capacidade de afastar aquilo que corrompe o espírito. A imagem do “matador de
energia ruim” possui força simbólica. Assim, transformo essa personagem, tão
conhecida em solo brasileiro, em uma espécie de sentinela moral, alguém diante
de quem a mentira, a calúnia e o mal perdem espaço.
A metáfora ultrapassa
a pessoa homenageada e alcança uma questão universal. Todos os tempos precisam
de homens e mulheres capazes de combater as formas invisíveis da destruição
humana. Há males que não chegam com estrondo. Instalam-se pela palavra maldosa,
pela intriga, pela falsidade, pela inveja e pela disposição de diminuir o
outro. Contra essas forças, não basta possuir conhecimento. É preciso possuir
caráter.
Quando digo que “mentira
e calúnia dele foge”, retrato uma imagem de integridade. O homem virtuoso não
precisa perseguir a verdade com violência; sua própria conduta torna a mentira
incompatível com sua presença. O caráter, quando realmente consolidado,
funciona como uma muralha silenciosa.
É significativo também
a associação dessa figura ao bem utilizando a palavra “baldaquim”. A imagem de
um baldaquim remete a uma cobertura nobre, uma proteção elevada. O bem,
portanto, não aparece apenas como uma escolha individual, mas como algo que
abriga, protege e dignifica. Ser instrumento do bem é oferecer aos outros uma
espécie de teto moral sob o qual possam encontrar segurança, confiança e
esperança.
Essa concepção é
especialmente importante em uma época em que a palavra se tornou veloz, mas,
nem sempre responsável. A calúnia pode atravessar distâncias em segundos; a
mentira pode alcançar multidões antes que a verdade tenha tempo de se explicar.
Por isso, preservar a dignidade da palavra é também uma forma contemporânea de
coragem.
O legado de um homem
não se mede somente pelo que acumulou, pelos títulos que recebeu ou pela
posição que ocupou. Mede-se pela qualidade das pessoas que ajudou a formar e
pela quantidade de bem que deixou espalhado pelo caminho.
III —
A FIDALGUIA QUE NASCE DAS LETRAS
A homenagem ganha uma
profundidade ainda maior, pois, Bezerra de Menezes é apresentado como “coluna
de inefável valia”, sustentando sua fidalguia e sendo reconhecido como “Homem
de Letras Ilustre”. Essas expressões desvelam algo muito importante: a verdadeira
fidalguia não é apenas herança de nome, posição ou tradição. É uma qualidade
construída pela cultura, pelo caráter e pelo serviço que se presta aos outros.
A coluna é uma das
imagens mais poderosas da arquitetura. Ela sustenta. Permanece firme quando
outras estruturas dependem dela. Ao chamar alguém de coluna de valor inefável,
o poeta reconhece nessa pessoa uma capacidade de sustentação que ultrapassa o
âmbito individual. Trata-se de alguém cuja presença ajuda a manter de pé
valores, memórias, ideias e vínculos humanos.
Essa imagem também
permite pensar na educação. Uma sociedade sem colunas de conhecimento corre o
risco de perder a própria direção. O conhecimento não serve apenas para
aumentar aquilo que sabemos; ele deve melhorar aquilo que somos. A literatura,
a filosofia, a história e as demais formas de expressão intelectual ampliam a
capacidade humana de compreender o mundo e, principalmente, de compreender a si
mesma.
Por isso, ser um
“Homem de Letras” é mais do que escrever bem. É reconhecer na palavra uma
responsabilidade. Quem domina a palavra pode construir pontes ou levantar
muros; pode esclarecer ou confundir; pode reconciliar ou dividir. A escrita,
quando colocada a serviço da dignidade humana, torna-se instrumento de
transformação.
Afirma ainda que a
“mestria” está sempre presente, ensinando “a gente a ser gente”. Essa talvez
seja uma das ideias mais belas em busca de contemplação e de realização.
Afinal, de que serve todo conhecimento se ele não nos torna mais humanos?
Ser gente, nesse
sentido, não significa simplesmente possuir a condição biológica de ser humano.
Significa aprender a respeitar, compreender, perdoar, servir, acolher,
reconhecer limites e assumir responsabilidades. Significa compreender que
inteligência sem humanidade pode tornar-se instrumento de arrogância, enquanto
conhecimento acompanhado de amor pode converter-se em sabedoria.
A verdadeira mestria,
portanto, não é aquela que cria discípulos dependentes, mas aquela que ensina
os outros a caminhar. Um mestre autêntico não monopoliza a luz. Ele acende
luzes. Seu ensinamento continua existindo mesmo quando sua voz já não está presente,
porque aquilo que transmitiu passa a viver dentro daqueles que aprenderam.
É nessa perspectiva
que o amor aparece como luz: “tendo o amor como luz, aclara o caminhar que
conduz.” A imagem é simples e extraordinariamente profunda. Caminhar exige
direção, mas também, iluminação. Há momentos em que a estrada da vida se torna
incerta e os olhos não conseguem enxergar muito adiante. Nesses momentos, o
amor funciona como claridade.
Não se trata de um
amor sentimental e desprovido de responsabilidade. É o amor que educa, que
corrige sem humilhar, que orienta sem dominar, que acolhe sem alimentar o erro.
É um amor maduro, capaz de unir firmeza e ternura.
Quando conhecimento e
amor caminham juntos, nasce uma forma superior de sabedoria. O conhecimento
oferece instrumentos; o amor decide para que utilizá-los. A inteligência mostra
possibilidades; a consciência escolhe aquelas que preservam a dignidade humana.
A cultura amplia os horizontes; a fraternidade impede que esses horizontes
sejam utilizados contra os outros.
IV —
O LEGADO QUE CONTINUA CAMINHANDO
Compreendemos, pois,
que Riacho do Sangue é mais do que cenário. É símbolo. Representa a terra que
guarda seus filhos, a memória que preserva seus nomes e a tradição que
transmite valores. A homenagem aos homens citados transforma-se, então, em uma
reflexão sobre todos aqueles que deixam atrás de si um caminho melhor do que
encontraram.
Todo legado verdadeiro
possui essa característica: continua agindo depois de seu autor. Uma palavra
pode ser lembrada décadas depois. Um ensinamento pode orientar alguém que
sequer conheceu pessoalmente aquele que o proferiu. Um gesto de bondade pode
desencadear outros gestos. Uma vida íntegra pode tornar-se referência para uma
família inteira.
É por isso que a
memória é uma responsabilidade. Lembrar não significa simplesmente olhar para
trás com nostalgia. Significa reconhecer aquilo que merece ser preservado e
transmiti-lo ao futuro. Uma comunidade que esquece seus exemplos corre o risco
de perder seus parâmetros. Uma comunidade que conhece sua história pode
caminhar com mais segurança, porque sabe de onde veio e quais valores deseja
levar adiante.
Estes meus escritos
nascem justamente desse encontro entre território e memória. Ao datá-lo em
Riacho do Sangue, em 02 de outubro de 2026, não apenas registro o lugar e o
tempo de sua criação, fixo uma espécie de instante afetivo. É como se dissesse
ao futuro: aqui estive, aqui contemplei, aqui reconheci valores que considero
dignos de permanecer.
Ao assinar como “O
Matuto do Carrasco” acrescento a esta composição uma identidade própria. Há
nela a força da simplicidade, da ligação com a terra e da observação humana. O
matuto não é aquele que conhece pouco; é, muitas vezes, aquele que aprendeu a
observar muito. Conhece o tempo pela mudança do céu, a chuva pelos sinais da
terra, a amizade pela presença e o caráter pelas atitudes.
Este olhar oportuniza
a compreensão de que a grandeza de uma pessoa não está necessariamente no ruído
que produz, mas, na serenidade com que sustenta aquilo em que acredita. Os
verdadeiros homens de valor não precisam transformar a própria virtude em
espetáculo. Seus atos falam por eles.
Riacho do Sangue, neste
influxo, transforma-se em metáfora da própria vida. Todos nós carregamos um
riacho interior, por onde correm lembranças, afetos, dores, esperanças e
ensinamentos. O que fazemos com essa corrente determina muito daquilo que
deixaremos para os que vierem depois. Podemos permitir que ela carregue
ressentimentos e amarguras, ou podemos fazê-la transportar aquilo que há de
melhor em nós.
O grande ensinamento aqui
está, portanto, na conjugação de três forças: coragem para enfrentar o caminho,
conhecimento para compreendê-lo e amor para torná-lo digno de ser percorrido. A
coragem mantém o homem de pé; o conhecimento abre seus olhos; o amor orienta
seus passos.
Quando essas três
dimensões se encontram, a vida deixa de ser apenas passagem e começa a
tornar-se legado.
Talvez seja essa a
maior homenagem que se possa prestar a uma terra e aos seus filhos: reconhecer
que sua importância não reside apenas no lugar onde estão, mas, naquilo que
ensinaram a quem passou por suas vidas. Riacho do Sangue permanece, assim, como
uma paisagem de memória e como um convite à continuidade.
Que as novas gerações
possam olhar para seus antepassados não apenas com orgulho, mas principalmente,
com responsabilidade. Que recebam a coragem sem perder a ternura; o
conhecimento sem abandonar a humildade; a tradição sem fechar as portas ao
novo; e, sobretudo, que compreendam que o verdadeiro valor de uma existência
está no bem que ela consegue deixar depois de si.
Porque os lugares
passam a viver eternamente quando seus filhos transformam memória em exemplo.
E os homens tornam-se
verdadeiramente imortais quando aquilo que ensinaram continua iluminando o
caminho de quem vem depois.
Riacho do Sangue, 02 de Outubro de 2026
Bruno Bezerra de Macedo,
O Matuto do Carrasco.

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