Um
dia haverá em que o correto sairá das masmorras para receber seu aplauso e
reconhecimento. Um dia haverá em que aquilo que se fala se manifestará
integralmente nos feitos e efeitos. Um dia haverá em que o ofendido será
reconhecido com a glória da justiça. Quando isso ocorrer, o tempo de vivaz
prosperidade alcançará a humanidade, e a alegria será plena em todo o
ecossistema Terra.
Ainda
que utópico este pensamento e o sentimento nele incluso, ele manifesta um profundo
de otimismo como enfrentamento a hipocrisia arraigada neste dias inglórios, estabelecendo
a esperança da emergência de uma era de verdade e harmonia universal. É a
realização plena do imperativo categórico de Kant, onde a máxima de uma ação
individual se torna uma lei universal de integridade absoluta.
Reverbera
nele a filosofia da história de Hegel, que vê o tempo como um processo de
evolução da autoconsciência humana. O sofrimento passado não é em vão; ele é o
motor que conduz a humanidade em direção à liberdade e à emancipação final. A
dor atua como o proficiente buril, que usado por artesãos sábios (o tempo e a vida) aplaina as arestas do caráter (orgulho e as ingenuidades da personalidade
humana).
Esse
"polimento", embora doloroso, blinda psicologicamente, permitindo o livre transito
por ambientes hostis sem ser corrompido ou destruído por eles. Sofremos para
evoluir, expandir nossa consciência e nos tornarmos aptos a resistir às
adversidades do mundo. A humanidade só desperta para si mesma e para o seu
potencial de emancipação após confrontar e superar as suas próprias tragédias.
Polido
e rutilante (resiliência e a sabedoria), o caráter aprimorado viceja a promessa
de "alegria plena em todo o ecossistema Terra" expandindo a ética
humana tradicional para uma ética planetária (similar ao conceito de Noosfera
de Teilhard de Chardin ou à Hipótese Gaia). A justiça humana deixa de ser um
evento isolado e passa a ser a chave para a harmonia com a própria natureza.
Ecoa
diretamente a tradição do estoicismo – para quem a justiça é justeza ao cosmos:
o homem, sendo racional, deve viver conforme a lei da natureza, e a justiça
deixa de ser mera relação externa dentro do Estado para se tornar uma relação
viva entre o ser humano e a ordem que o conserva – notabilizando a
visão jusnaturalista e cósmica, em que ser justo é, antes de
tudo, harmonizar-se com a ordem da natureza.
Envolve
alinhar a própria vida aos fluxos, ritmos e leis que regem o universo e o meio
ambiente, reconhecendo que o ser humano faz parte de um sistema interconectado.
Requer contemplar a interdependência que rege tudo no entorno, pois, feitos e
efeitos diários geram impacto direto na comunidade e nos demais seres vivos, demonstrando
que não há separação real entre o homem e o ecossistema.
Neste
influxo, a justiça não se encerra na resolução de conflitos pontuais, mas, se
torna o princípio que alinha a conduta humana à própria natureza – o que, no
direito contemporâneo, se reflete em correntes como a justiça ambiental e os
novos paradigmas de uma justiça "ecologizada", que superam o
antropocentrismo utilitarista. Uma justiça sentida como equilíbrio universal,
afirma Rousseau.
Essa
percepção da justiça como equilíbrio universal transcende a aplicação estrita
de normas legais, sendo compreendida como um princípio cósmico, ético e
espiritual que visa harmonizar as relações humanas e naturais. Evoco por justo
mérito a Deusa Ma'at – no Egito antigo – para que sua luz vinda do oriente desobscureça
o ocidente com suas primícias: a verdade, o equilíbrio, a ordem e a moralidade.
A Pesagem
do Coração, no julgamento dos mortos, denota a relevância de Ma’at no panteão
das divindade egípcias. O coração do falecido era pesado contra a pena da ave
Bennu (pássaro que simboliza a ressureição) para determinar se a alma
alcançaria a vida após a morte. O faraó, como filho de Rá, tinha a
responsabilidade de manter e fazer cumprir o ritual de Ma’at na Terra, e os
juízes usavam seu emblema nas vestes.
No
direito, a justiça, em sentido lato ou universal, é associada à equidade,
que permite ao juiz adaptar a regra geral às circunstâncias específicas do caso
concreto para alcançar um resultado justo. A equidade não se opõe à
lei, mas, a complementa, buscando a "lei justa" quando a aplicação
literal da norma resultaria em injustiça, alinhando-se ao "sentido do
justo concreto" e à igualdade proporcional.
Noutras
muitas tradições, a justiça é uma lei natural ou divina que mantém a
ordem do universo, onde cada ação gera uma reação proporcional (como no
conceito de carma no Hinduísmo e Budismo). Elas preceituam que a
justiça e o equilíbrio são indissociáveis, ancorando outras virtudes como
temperança e felicidade e buscando a estabilidade sustentável das relações,
indo além do rigorismo legalista.
Nessa
perspectiva, a justiça não é uma construção jurídica humana (o "rigorismo
legalista"), sendo entendida como fruto das ações alinhadas à harmonia. A
ideia central é que a justiça é restaurativa e equilibradora, não meramente
punitiva, buscando a estabilidade sustentável das relações. É a participação
consciente na harmonia do cosmos, contribuindo para um mundo mais justo,
equilibrado e iluminado.
Neste
toar, logo virá o dia em que a palavra deixará de ser moeda trocada no ar e se
tornará pedra fundadora. Aquele que disse "isto não é justo" e foi
engolido pela indiferença e pelo escárnio verá, enfim, que a frase não morreu –
apenas esperou. E o que se manifestará nos feitos não será meramente réplica da
intenção, mas, a concretização dela, com o peso exato de quem
a sustentou em silêncio.
Breve
chega o dia em que o que foi sepultado sob camadas de silêncio e conveniência
romperá a terra como raiz que encontra a luz. As masmorras não serão demolidas;
serão reveladas, para que se veja o que nelas se guardava e por quem foi
guardado. E o que sairá delas não pedirá permissão: trará consigo o peso de
quem o carrega, e o aplauso que lhe for dado será o mínimo que a história deve.
Emergirá
o dia em que o ofendido não precisará provar que foi ofendido. O reconhecimento
virá como reconhecimento: nome, lugar, glória. Não a glória do vencedor, mas a
glória da justiça – aquela que não aplaude quem vence, e sim quem merecia ter
sido visto. E esse reconhecimento não será ato de caridade; será correção da
conta. Manifestará com um abraço a real justiça esperada daqueles juraram ser
irmãos.
Ocorrendo
isto, a prosperidade não será apenas econômica. Será vivaz – no
sentido antigo da palavra: cheia de vida, em movimento, em crescimento. A
humanidade a alcançará não como prêmio, mas, como consequência: quem vive em
justiça não pode ser estéril. E a alegria, que hoje é racionada, será plena –
não porque o sofrimento tenha sido apagado, mas porque o sentido dele terá sido
devolvido.
Neste
dia, o ecossistema Terra inteiro sentirá. Porque a alegria de um ser que
finalmente é visto não se contém nele. Vaza para o solo, para o ar, para a
água. A Terra não é palco; é testemunha. Um ser visto não é um ato que termina
nos olhos de quem olha. É uma semente. E toda semente, uma vez plantada em chão
testemunha, vira raiz, vira galho, vira sombra que outrem um dia vai buscar.
Maranguape,
Ceará, 26 de Agosto de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– Portador do CRP/MTE nº 0005168/CE
Associado
à ACI - Associação Cearense de Imprensa
Associado
à ACEJ – Associação Cearense de Jornalistas

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