quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O MELHOR MUNDO É ARQUITETURA DAQUELES QUE MANTÊM SUAS MENTES INFANTES

 

Nada é mais augurioso do que o viver familiar e, quando a família é imensa, cada encontro – parcial ou total – com seus membros é um instante de ratificação de saberes e valores cultivados e, também, de cocriação de perspectivas tão incontáveis quanto diversas a implementar em nossas vidas a bem de nós mesmos e do mundo que nos acolhe amoravelmente.

 

Ontem (05/08), gozei do privilégio de ser calidamente recebido em casa de um dos mais proeminentes irmãos coerguidores das colunas mestras de nossa Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceara, onde percebemos que o melhor mundo é arquitetura daqueles que mantém suas mentes infantes, pois, nelas reina a sinceridade que somente os puros esbanjam.

 

Não se trata de um pensamento vão, tampouco de um enaltecimento inócuo e absurdo à imaturidade, mas do enlevo pertinente à inventividade nascida da efervescência absorvente das mentes infantes neste breve lapso temporal da vida humana onde à verdade não se põe mordaças e o ato de "fazer de novo" para reinventar o mundo é premissa real e constante.

 

Maria Montessori reforça que a criança por possuir uma "mente absorvente", onde o ambiente não é apenas um cenário, mas, um agente ativo que molda a própria estrutura psíquica e neural, suas impressões das realidades nela "encarnam", formando sua "carne mental". Preservar a pureza e da criatividade típicas da infância é vetor da renovação do mundo.

 

Longe de romantizar a imaturidade biológica, exalto a "mente enativa" capaz de arquitetar realidades mais autênticas, fundamentadas na pureza dos sentimentos e na liberdade cognitiva. Uma mente assim remete a um modo de conhecer e estar no mundo que não se baseia unicamente na representação lógica formal, mas, na ação e na experiência direta.

 

Manter a "mente infante" significa preservar a capacidade de aliança jubilosa entre conhecimento e vida, o que permite lidar com o entorno de maneira inovadora, onde a crença e a imaginação acrescentam uma composição pictórica aos conceitos, libertando o pensamento da rigidez adulta, onde o arquitetar é mais proeminente do que o resultado final, pois, (r)evoluciona.

 

Nesse "breve lapso temporal", a criança opera através de uma lógica que presenteifica o passado e antecipa o futuro ("então eu era..."), criando um modus onde o erro e a confusão são reavaliados como potência de um outro modo de sentir. As "visões do pensamento" denotam singularidades e confusões não como falhas, mas, como princípios para pensar um outro lugar.

 

O "melhor mundo" surge, portanto, dessa capacidade de dissociar com a ininterrupção opressora da história adulta, utilizando a fracionamento e o jogo como ferramentas de construção de sentido. Uma "pureza dos sentimentos” que requer a intensidade e autenticidade da experiência infantil, livre dos filtros cínicos ou utilitários da maturidade convencional.

 

É um estado onde a ação sobre o mundo não é arbitrária, mas carregada de uma plasticidade que permite ver novas composições na realidade, transformando a percepção do tempo e do espaço em algo vivo e mutável. Esta arquitetura de um mundo melhor é construída por aqueles que conseguem acessar essa inventividade nascida da efervescência mental infante.

 

Percebo um eco que reverbera virilmente o pensamento de Friedrich Nietzsche, especialmente em sua alegoria das "Três Metamorfoses" em Assim Falou Zaratustra, onde a criança representa o espírito criador que diz "sim" à vida. Para Nietzsche, a criança simboliza o esquecimento libertador, um novo começo e um jogo criador que roda sobre si mesmo, perenemente.

 

Resolutamente, manter a mente infante é, portanto, exercer a vontade de potência na sua forma mais elevada: a capacidade de inovar valores e arquitetar um mundo baseado na afirmação da vida e na leveza dos sentimentos. Afirma Oscar Niemeyer que, "o mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar".

 

A infância deixa de ser apenas uma etapa de preparação para a vida adulta (o "ainda-não") para se tornar o modelo de uma existência plena, onde a criação aflora através do esquecimento do peso opressor do passado. Emergindo uma engenhosa arquitetura que prioriza a transformação social e a solidariedade humana em vez da estrutura em si, fulcrada na humanidade.

 

O filósofo francês Gaston Bachelard, em sua obra A Poética do Espaço, defende que a infância permanece em nós como uma dimensão "poeticamente útil". Para ele, habitar verdadeiramente significa recuperar a capacidade de sonhar os espaços como uma criança, onde cada canto, sótão ou caverna é um universo de segurança, de inventividade e de compartilhamento.

 

Um mundo arquitetado por mentes brilhantemente infantes, que mantêm essa conectividade é um mundo de acolhimento radical, onde as ambiências não são meros contêineres funcionais, mas, "ninhos" que abrigam a intimidade e o devaneio.  A arquitetura, nesse sentido, torna-se uma mediação entre o mundo exterior e a nossa vida interior mais autêntica.

 

Desenhado a partir de princípios assim tão cativantes, o mundo viceja em constante (re)invenção, onde a impermanência e a criatividade são valorizadas acima da rigidez e da eficiência pura, sob o projetar auspicioso de “mentes infantes” que exercem um ato arquitetônico puro: uma trajetória não linear, onde o cocriar é mais profícuo, pois, fomenta o despertar de consciências.

 

Um "melhor mundo" que não é aquele construído pela razão instrumental adulta, mas, aquele tecido a partir da capacidade infantil de imaginar, brincar e se maravilhar. É uma arquitetura da possibilidade, do acolhimento e da liberdade estética, tendo por fito primaz a igualdade que une a humanidade sob o teto da fraternidade onde o desenvolvimento é rei e a inclusão é rainha consorte.

 

Somente uma “mente infante”, sob a tutela de um coração bem formado, percebe que os atos de brincar e de imaginar deixam de ser atividades secundárias para se tornarem os alicerces de um mundo marcado pela fraternidade e igualdade, onde a liberdade e o acolhimento surgem quando se valoriza a capacidade infantil de se maravilhar e de construir convívios felizes.

 

Um convívio feliz como este que nos oportuniza este galante irmão como quem estive ontem, onde o abraço é a semente do pertencimento; o compartilhar é certeza que caminhamos desde a infância do mundo a construir, conforme a arquitetura da “mente infante” em nós, os laços inquebrantáveis de amizade e infância vivo, independentemente dos destinos que assumamos.

 

Maranguape, Ceará, 06 de Agosto de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


Um comentário:

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