Neste
início do século XX a burguesia local, enriquecida principalmente pelo comércio
do algodão, buscava se distanciar dos costumes rurais e interioranos e a
capital da Terra da Luz, Fortaleza, via ir-se ao longe o aspecto de província
isolada enquanto reformas estéticas e urbanas profundas, sob a viril influência
europeia (principalmente francesa), atendiam aos ímpetos que burguesia local, enriquecida
principalmente pelo comércio do algodão, emergindo palacetes, chalés e o uso de
ferro fundido importado da Europa.
Pulsava
no coração de Fortaleza – a Praça do Ferreira, onde se concentravam os
principais bancos, jornais, hotéis, cafés e o comércio de luxo – o desejo de ser-se
a Paris Alencarina, ainda que lidando com o crescimento desordenado e o impacto
social das secas, e a cidade passava por intervenções para alinhar o espaço
público aos padrões higienistas e estéticos europeus. Surgiram os cafés, as praças
remodeladas (como a Praça do Ferreira), os teatros (como o Teatro José de
Alencar) e os primeiros bondes.
Numa
frenética assunção da identidade europeia, Fortaleza, respirava a Belle Époque,
influenciada por Paris que era o modelo global de civilização, cultura e
sofisticação urbana naqueles dias. Uso de termos em francês no cotidiano e
cafés que imitavam os boulevards parisienses e sob o abrasador calor nordestino,
os cearenses adotaram a moda francesa – ternos pesados, cartolas, espartilhos e
longos vestidos de veludo – comercializados em estabelecimentos de luxo, como a
"Maison Art-Nouveau".
Essa
modernização foi excludente. À medida que o centro da cidade se
"afrancesava", a periferia sofria com a falta de saneamento básico. Ao
passo que o centro ganhava iluminação, calçamento e notoriedade, as populações
mais pobres foram empurradas para as periferias. Esse projeto de civilidade
mascarava as profundas desigualdades sociais e as constantes crises de seca no
interior do estado – que traziam milhares de sertanejos famintos para os
arredores da capital moderna – evidenciavam o contraste.
Nestes
tempos vivem os novos lisos e os novo ricos, manifestando o forte contraste
comportamental e financeiro na cultura brasileira atual, associando gírias
regionais e conceitos socioeconômicos bem definidos. O novo rico identifica a pessoa
que acumulou fortuna recentemente, dentro da sua própria geração, em vez de
herdá-la. Já o novo liso, na gíria popular (especialmente no Norte e Nordeste)
retrata aquele que mantém as aparências de uma vida confortável (influenciado
pelo estilo de vida dos novos ricos), embora endividado.
São
espécies humanas atemporais, ou seja, vicejam em todas as gerações deste a mais
tenra idade do homem. Os novos ricos, por exemplo, reportam acintosamente os
preços, datas e locais de suas aquisições, pois, sua ascenção financeira ainda
é recente. Tanto os novos ricos, quanto os novos lisos, buscam validação social
imediata por meio de marcas de luxo com logotipos gigantescos e visíveis.
Indiscretos, escancaram suas conquistas, viagens caras e bens materiais inescrupulosamente
em quaisquer meios de anunciação.
Neste
influxo, nasce Jarder Moreira de Carvalho um dos intelectuais mais combativos
do Nordeste no século XX, que habilmente transformou a realidade do sertão e as
desigualdades das classes urbanas em matéria-prima artística de contestação.
Era 29 de dezembro de 1901, vigia o solstício natalino quando Quixadá – do tupi
Quichaitá, pedra da ponta encurvada – referenciou seu rebento mais ilustre, filho
do Ferroviário Francisco Adolfo de Carvalho e da Cândida Senhora Rita Moreira
de Carvalho.
Do
Pai, Senhor Adolfo, Jader recebera as primeiras letras no Ateneu Quixadaense,
quando discente daquela casa formadora de futuros. Aos 10 anos de idade (1911),
acompanhando seus pais, rumou para a capital da Terra da Luz, Fortaleza, em
busca de ocupação digna e salário justo. Em Fortaleza, estudou no Liceu do
Ceará, onde, anos mais tarde, foi professor, inspetor regional e catedrático. Em
1917, em Iguatú (do Tupi-Guarani, que significa “Água Boa”), Jader desvelou seu
fértil e augurioso veio literário.
A
tipografia do farmacêutico Arnoud, arrendada pelo Senhor Adolfo, servira bem a
Jader, que passou a imprimir um semanário com escritos seus e com sonetos de Olavo
Bilac. Aos 21 anos (1922) ele já destacava dentre os novos escritores
cearenses. Com o livro “O canto novo da raça” (1927), publicado em conjunto com
Franklin Nascimento, Sidney Neto e Mozart Firmeza, inaugura o movimento
modernista cearense. Jader inova a literatura com o "romance de
classe média", que traz denúncias sociais e retratos realistas do sertão e
da cidade.
A
poesia de Jader motivada pela paisagem sertaneja é memorialista. Nela ele
expressava as belezas e dificuldades da vida no sertão. Desde cedo acompanhou a
saída de trabalhadores rurais para a cidade em busca de uma vida melhor, os
crimes políticos da época, as brigas pela terra e a miséria que a população
mais pobre sofria. Na sua infância passou fome e muitas dificuldades,
vivenciando a seca de 1915. Como afirma Cid Carvalho: “tudo que meu pai vivia
de alguma forma estava presente nas obras dele”.
Engajado
politicamente, Jader, como jornalista, ajudou a fundar o jornal de cunho
socialista “A Esquerda” em 1928. Realizando um antigo sonho, aos 46 anos, ele
funda o jornal “Diário do Povo”, a partir do qual defendia os desvalidos da
fortuna e ardorosamente discorria sobre tudo quando lhe angustiava a alma. Como
afirma Gilvan Rocha, “a personalidade do Jáder era a coragem, física e
intelectual. Ele se dispunha a desafiar, por conta da verdade que ele supunha
defender. Ele desafiava os mais poderosos”.
Jader
se expressa como um grande homem, dado aos diálogos e apaixonado por tudo a que
se dedicou. Pai de sete filhos, casado com a cronista de destaque e ativista
política Margarida de Saboya, foi preso político na ditadura do Estado Novo,
lutou contra as injustiças das terras no norte do país e deixou como legado
suas letras e sua coragem. Coragem de vencer as paixões ignóbeis que a vaidade
humana alimenta e de ser homem esculpido pela humildade capaz de fazê-lo saber-se
quem ele é e o que veio ao mundo fazer.
Jader
é um nordestino que, em sua meritória realeza, define-se com o menor de seus
pares, como o faz neste trecho EM LOUVOR DE QUIXERAMOBIM da Obra Terra Bárbara:
“Não
quero gravata. Não me tragam o relógio de pulso. Quero o gibão, quero as
perneiras. Quero o chapéu de couro. Quem vai a Quixeramobim não é o professor,
o bacharel, o jornalista Jader de Carvalho.
Quem
vai é o neto de vaqueiro, o menino que não esqueceu o pátio das fazendas.
Quem
vai é o rapaz que, longe do mato, longe do Banabuiú, punha o ouvido na areia da
capital e ouvia (ah, como ele ouvia!) o tropel de certo poldro “Andorinha,” o
mugido da vaca “Esperança”.
Quixeramobim,
fala do coronel Jucá!
Fala
de Antônio Conselheiro!
Conta-me
a História do infeliz Luciano e da formosa Joana Batista Barreira.”
Com
Terra Bárbara (1965), exaltando a identidade cearense, a caatinga e figuras
históricas como Lampião e Padre Cícero, Jader recebeu o Prêmio Olavo Bilac em
1966, perpetuando a notoriedade que lhe alcançara o romance “Aldeota” (1963),
sua obra prima, considerada o "grande romance" da literatura cearense
do século XX. O livro mistura ficção e jornalismo para denunciar a origem
ilícita das fortunas da elite de Fortaleza, sendo hoje uma obra de culto e
recentemente reeditada pela Editora UFC.
Jáder
Moreira de Carvalho, incontestavelmente, é uma figura central na cultura
cearense do século XX, destacado como um dos maiores intelectuais e precursores
do Modernismo no Ceará. Jornalista militante, romancista de cunho social e
poeta telúrico de grande sensibilidade, além de advogado, professor e ativista
de esquerda, ele eleito Príncipe dos Poetas Cearenses, com o apoio de
instituições culturais do Ceará após a morte do poeta Cruz Filho, em 1974.
A
condecoração de Príncipe dos Poetas Cearenses foi criada originalmente em 1924
pelo jornalista Demócrito Rocha. O objetivo é homenagear o melhor escritor
dentre os poetas vivos do estado. Diferente da primeira eleição na década de
1920 (que ocorreu por voto popular enviado a revistas da época), a escolha de Jader
em 1974 deu-se por consenso e aclamação no meio intelectual cearense. Seu
"principado" contou historicamente com o respaldo e validação de
órgãos como a Academia Cearense de Letras (da qual ele era membro efetivo), dentre
outras agremiações literárias locais.
Membro
da Academia Cearense de Letras (1930), Jader ocupou a cadeira número 14, cujo
patrono é Capistrano de Abreu. Detentor da Medalha da Abolição (1982), a mais
alta condecoração concedida pelo Ceará em reconhecimento à relevância histórica
e cultural, Jader permanece atual por diagnosticar mazelas sociais, hierarquias
persistentes e a confusão entre público e privado na formação da sociedade
cearense, mantendo-se como referência obrigatória para entender a história
cultural e política do Ceará.
Perpetuando
o já consolidado legado de Jader Moreira de Carvalho como educador, o governo
cearense batizou uma instituição de ensino público em Fortaleza como EEM
Professor Jáder Moreira de Carvalho. A Universidade Estadual do Ceará realiza anualmente a
semana cultural Sertão-Poesia: Uma Homenagem a Jader de Carvalho. E a Secretaria
de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará promove premiações culturais
batizadas de Prêmio Jader de Carvalho de Literatura para fomentar a escrita e a
leitura no Ceará.
Maranguape,
Ceará, 11 de Julho de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– ACI nº 1789
Jornalista
– CRP/MTE nº 0005168/CE
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