Nas
primeiras horas deste Dia Internacional da Amizade (30/07) fui saravado por um Irmão
querido, daqueles cujas atitudes e gestos o fazem muito bem-amado por todos
aqueles que em sua órbita habitam. Saravá, nascido no Brasil a partir da
adaptação fonética da palavra portuguesa "salvar" na fala de
africanos escravizados falantes de línguas bantas. O termo funciona como uma
interjeição de saudação equivalente a "salve!" ou "viva”.
O
termo surgiu do modo como os negros escravizados pronunciavam a palavra
"salvar" ao saudar alguém ou desejar o bem. Devido ao padrão silábico
das línguas bantas, a pronúncia passou de "salvar" para
"salavá" e, por fim, para "saravá" através de um processo
de adaptação sonora. Utilizado para saudar orixás, entidades, guias espirituais
e irmãos de fé, significando um desejo de luz, paz e proteção, formaliza o axé.
Axé
é uma palavra puramente africana (àṣẹ),
trazida pelos povos iorubás, que representa a própria energia cosmológica que
manifesta as coisas. Manifesta a energia vital, o poder divino e/ou bênção. É
algo que se transmite, acumula ou deseja a alguém (como dizer "muita
luz" ou "vá com Deus"). Dizer "Saravá!", na
verdade, é desejar que o axé (a energia positiva e a força dos orixás e
guias) alcance o destino e/ou destinatário deste bom augúrio.
Confirmando
a sinergia que há entre tudo que há criado, cujo elo perfeito é o amor que de
nós transcende rumo ao Todo, evoco Salomão que diz “em todo o tempo ama o amigo
por que nas difíceis horas chega o irmão” (provérbios 17:17), pois, um amigo
comum pode estar presente apenas nos momentos bons, mas o amigo verdadeiro se
mantém leal e se torna tão próximo quanto um irmão de sangue quando os tempos
difíceis (a angústia ou adversidade) aparecem.
Séculos
adiante, radicando este salomônico ensinamento, o Mestre Jesus – tetraneto de Salomão
– foi determinante no Sermão da Montanha ampliando o axé do amor: “amem os seus
inimigos, façam o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam e orem
por aqueles que os maltratam” (Lucas 6:27-28). Assim, estabeleceu um landmark universal
de paz, perdão e transformação espiritual do qual ninguém se esquiva, nem evita
o cumprimento.
Corroborando
com as sólidas tradições arraigadas à humanidade ao longo das eras, não somente
cultuando-as, mas, principalmente, as mantendo in voga e em prática constante, por
volta de 610 d.C., o Profeta Muhammad, no Alcorão Sagrado, diz: Salam Alaikum!
E o Mundo Árabe reponde: Alaikum Salam! Uma poderosa saudação manifestando o axé:
“que a paz esteja com você". Ao qual respondo: contigo também.
Embora
seja amplamente difundida no Islã como uma saudação universal entre muçulmanos,
o uso do “Salam Alaikum” antecede o surgimento da religião islâmica e, também,
é empregada por falantes de árabe de outras crenças. O termo possui raízes
linguísticas em idiomas semíticos antigos, com parentesco direto na expressão
hebraica Shalom Aleichem e no aramaico, afinal, árabes e judeus, tem em Abraão
o mesmo tronco ancestral.
Associada
a paz, a segurança, a integridade e a tranquilidade, Cristãos que
falam árabe no Oriente Médio usam "Salam Alaikum" no dia a dia como
qualquer outra pessoa da região. Na missa ou cultos cristãos, o equivalente
exato é "A paz esteja convosco", dito pelo padre ou pastor. A
expressão deu origem à palavra aportuguesada salamaleque, que
popularmente descreve um cumprimento exagerado ou cheio de mesuras.
No
entanto, não importa a palavra usada para expressar o amor que manifesta progresso,
felicidade e evolução entre os homens, já que, o relevante mesmo é amar a tudo
e a todos com mesma intensidade com que o axé energiza a interdependência que
há entre todas as coisas criadas e seu Criador. Como afirma Paulo de Tarso, “sem
amor nada seria” (1 Coríntios 13:2). Amar é hábito constante daqueles que decididamente
acendem a luz do outro.
Uma
missão honrada e respeitável é esta de acender a luz de outrem, cuja recompensa
é ser o primeiro a se beneficiar de sua claridade, afirma o escritor britânico
G. K. Chesterton. O ato de fazer o bem ilumina intensamente o coração do
benfeitor, trazendo-lhe benefícios incalculáveis de força, vigor, dignidade e
sabedoria, além de criar uma conexão com a Consciência Divina. Incontestavelmente,
recebemos o que praticamos perenemente.
Ao
dizer “há mais felicidade em dar do que em receber” (atos 20:35), o Mestre Jesus
ensina não somente a Paulo de Tarso, mas, através dele a toda a humanidade que ato
de “dar” imitamos a natureza generosa de Deus, que se fez pobre, na forma do
Cristo, para nos enriquecer. A palavra grega makarion, presente nos paulinos
escritos, indica uma bem-aventurança ou alegria profunda e espiritual colhida a
cada doar da melhor saudação.
A
mais digna das saudações, por vezes, não encontra a exata palavra que a
expresse, porém, como transcendência da pureza d’alma e da mente mais
conscienciosa, é sentida em todo o universo já no seu primeiro sonido no
coração bem formado dos homens. O melhor pensamento e/ou a melhor palavra sobre
alguém e/ou sobre algo tem o magnânimo condão de transformar realidade, além,
de cocriar caminhos de feliz evolução.
Assim,
fortalecido pelo melhor saravá neste momento em que reverenciamos a amizade, que
tem no amigo seu fundamento existencial, externo vivaz gratidão pela existência
de todos aqueles que, resolutamente, resolveram ser amigos de outrem. Essa decisão
é um divisor de águas universal, já que, cada feito no exercício deste bem-querer
ao próximo gera uma distinção que os fará eternamente reconhecidos como manifestantes
do amor: Irmãos!
Maranguape,
Ceará, 30 de Julho de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– ACI nº 1789
Jornalista
– CRP/MTE nº 0005168/CE

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