quinta-feira, 30 de julho de 2026

SARAVÁ!

 

Nas primeiras horas deste Dia Internacional da Amizade (30/07) fui saravado por um Irmão querido, daqueles cujas atitudes e gestos o fazem muito bem-amado por todos aqueles que em sua órbita habitam. Saravá, nascido no Brasil a partir da adaptação fonética da palavra portuguesa "salvar" na fala de africanos escravizados falantes de línguas bantas. O termo funciona como uma interjeição de saudação equivalente a "salve!" ou "viva”.

 

O termo surgiu do modo como os negros escravizados pronunciavam a palavra "salvar" ao saudar alguém ou desejar o bem. Devido ao padrão silábico das línguas bantas, a pronúncia passou de "salvar" para "salavá" e, por fim, para "saravá" através de um processo de adaptação sonora. Utilizado para saudar orixás, entidades, guias espirituais e irmãos de fé, significando um desejo de luz, paz e proteção, formaliza o axé.

 

Axé é uma palavra puramente africana (àṣẹ), trazida pelos povos iorubás, que representa a própria energia cosmológica que manifesta as coisas. Manifesta a energia vital, o poder divino e/ou bênção. É algo que se transmite, acumula ou deseja a alguém (como dizer "muita luz" ou "vá com Deus"). Dizer "Saravá!", na verdade, é desejar que o axé (a energia positiva e a força dos orixás e guias) alcance o destino e/ou destinatário deste bom augúrio.

 

Confirmando a sinergia que há entre tudo que há criado, cujo elo perfeito é o amor que de nós transcende rumo ao Todo, evoco Salomão que diz “em todo o tempo ama o amigo por que nas difíceis horas chega o irmão” (provérbios 17:17), pois, um amigo comum pode estar presente apenas nos momentos bons, mas o amigo verdadeiro se mantém leal e se torna tão próximo quanto um irmão de sangue quando os tempos difíceis (a angústia ou adversidade) aparecem.

 

Séculos adiante, radicando este salomônico ensinamento, o Mestre Jesus – tetraneto de Salomão – foi determinante no Sermão da Montanha ampliando o axé do amor: “amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam, abençoem os que os amaldiçoam e orem por aqueles que os maltratam” (Lucas 6:27-28). Assim, estabeleceu um landmark universal de paz, perdão e transformação espiritual do qual ninguém se esquiva, nem evita o cumprimento.

 

Corroborando com as sólidas tradições arraigadas à humanidade ao longo das eras, não somente cultuando-as, mas, principalmente, as mantendo in voga e em prática constante, por volta de 610 d.C., o Profeta Muhammad, no Alcorão Sagrado, diz: Salam Alaikum! E o Mundo Árabe reponde: Alaikum Salam! Uma poderosa saudação manifestando o axé: “que a paz esteja com você". Ao qual respondo: contigo também.

 

Embora seja amplamente difundida no Islã como uma saudação universal entre muçulmanos, o uso do “Salam Alaikum” antecede o surgimento da religião islâmica e, também, é empregada por falantes de árabe de outras crenças. O termo possui raízes linguísticas em idiomas semíticos antigos, com parentesco direto na expressão hebraica Shalom Aleichem e no aramaico, afinal, árabes e judeus, tem em Abraão o mesmo tronco ancestral.

 

Associada a paz, a segurança, a integridade e a tranquilidade, Cristãos que falam árabe no Oriente Médio usam "Salam Alaikum" no dia a dia como qualquer outra pessoa da região. Na missa ou cultos cristãos, o equivalente exato é "A paz esteja convosco", dito pelo padre ou pastor. A expressão deu origem à palavra aportuguesada salamaleque, que popularmente descreve um cumprimento exagerado ou cheio de mesuras.

 

No entanto, não importa a palavra usada para expressar o amor que manifesta progresso, felicidade e evolução entre os homens, já que, o relevante mesmo é amar a tudo e a todos com mesma intensidade com que o axé energiza a interdependência que há entre todas as coisas criadas e seu Criador. Como afirma Paulo de Tarso, “sem amor nada seria” (1 Coríntios 13:2). Amar é hábito constante daqueles que decididamente acendem a luz do outro.

 

Uma missão honrada e respeitável é esta de acender a luz de outrem, cuja recompensa é ser o primeiro a se beneficiar de sua claridade, afirma o escritor britânico G. K. Chesterton. O ato de fazer o bem ilumina intensamente o coração do benfeitor, trazendo-lhe benefícios incalculáveis de força, vigor, dignidade e sabedoria, além de criar uma conexão com a Consciência Divina. Incontestavelmente, recebemos o que praticamos perenemente.

 

Ao dizer “há mais felicidade em dar do que em receber” (atos 20:35), o Mestre Jesus ensina não somente a Paulo de Tarso, mas, através dele a toda a humanidade que ato de “dar” imitamos a natureza generosa de Deus, que se fez pobre, na forma do Cristo, para nos enriquecer. A palavra grega makarion, presente nos paulinos escritos, indica uma bem-aventurança ou alegria profunda e espiritual colhida a cada doar da melhor saudação.

 

A mais digna das saudações, por vezes, não encontra a exata palavra que a expresse, porém, como transcendência da pureza d’alma e da mente mais conscienciosa, é sentida em todo o universo já no seu primeiro sonido no coração bem formado dos homens. O melhor pensamento e/ou a melhor palavra sobre alguém e/ou sobre algo tem o magnânimo condão de transformar realidade, além, de cocriar caminhos de feliz evolução.

 

Assim, fortalecido pelo melhor saravá neste momento em que reverenciamos a amizade, que tem no amigo seu fundamento existencial, externo vivaz gratidão pela existência de todos aqueles que, resolutamente, resolveram ser amigos de outrem. Essa decisão é um divisor de águas universal, já que, cada feito no exercício deste bem-querer ao próximo gera uma distinção que os fará eternamente reconhecidos como manifestantes do amor: Irmãos!

 

Maranguape, Ceará, 30 de Julho de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


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