segunda-feira, 27 de julho de 2026

O QUE VALE A PALAVRA?

 

Acordei hoje, como sempre, com muitos pensamentos, em especial para a esta última semana de julho de 2026, e um deles berra aos meus ouvidos: “posso até não concordar com o que dizes, mas, defenderei com honra e coragem o direito de interlocução de todos”. Um pensamento que, inicialmente, abre caminhos como vetor de ajuste de retidão, pois, embora estas palavras sejam atribuídas a Voltaire há muito mais de duas décadas, em verdade, sua autoria inequívoca é da biografa Evelyn Beatrice Hall, sob o pseudônimo de S.G. Tallentyre, em seu livro de 1906, The Friends of Voltaire. É inspirador começar o dia com tal clareza sobre a importância do diálogo e da tolerância, pois, são as bases da alteridade esperada de nós.

 

Essa distinção histórica reforça que a defesa da liberdade de expressão é um valor construído e transmitido por quem observa e valoriza a postura intelectual, servindo como um "vetor de ajuste de retidão"; retidão que tem se tornado coisa cada vez mais rara, como também, raro tem se feito o senso de oportunidade, manifestando no mundo ceticismo – filho primogênito da crise de confiança nas relações e nas instituições. A falta de palavra desvaloriza os acordos básicos da convivência humana. A integridade passou a ser vista por muitos como um obstáculo, não como virtude. Portanto, lembrar que a multidisciplinaridade e o diálogo com o oposto são formas de engrandecimento pessoal fundamentais para o feliz estabelecimento do convívio harmonioso nas sociedades.

 

Não se pode esquecer que a humanidade há tempos tem perdido o senso de oportunidade e. ele, coadjuva e alimenta portentosamente este ciclo vicioso de desconfiança geral, onde intervenções despropositadas em momentos inadequados geram ruído e afastamento. Uma "ditadura invisível" de interesses ocultos que se apropriam dos recursos e da capacidade de pensamento próprio. Segundo a encíclica Fratelli tutti, esse cenário é agravado por aqueles que "passam pelo caminho olhando para o outro lado", criando um ambiente de impunidade e desqualificação permanente. A hipocrisia de quem julga manter a pureza crítica, mas vive do sistema, gera desencanto, impede a solidariedade e consolidada este status quo de contagiosa desconfiança que ameaça a humanidade.

 

Manipular é a palavra mágica a animar os feitos nestes dias inglórios onde a obscurescência se mostra disposta a distorcer, a conflitar e a manipular opiniões, além de explorar a natureza, princípios éticos e de sustentabilidade, o que contribui para a instabilidade e a indiferença global, tendo como formidável alavanca as inovações tecnológicas no modus communicandi, que não encontra limites de espaço, levando e trazendo informações – boas, proveitosas etc. e/ou más, inapropriadas, etc. –  numa velocidade quase tão rápida quanto a do pensamento, podendo assim, erguer ou ruir preceitos num piscar de olhos, como também, incitar a paz e/ou a guerra.

 

A bem da humanidade e de todos que em seu colo acha muito mais do que aconchego, a solidariedade, que jamais será unicamente um sentimento, mas sim, uma prática que, exercida habitualmente, reconstrói o tecido social através de ações concretas que validam a confiança. Enquanto a desconfiança se sustenta em uma "falsa segurança" baseada no isolamento e na defesa contra ameaças externas imaginadas ou exacerbadas, a solidariedade oferece uma paz real e duradoura, a solidariedade demonstra, in vitae, que o outro não é um inimigo em potencial, mas, com toda certeza, um aliado na construção do bem comum. Ao garantir "terra, teto e trabalho" – por exemplo – através da cooperação, elimina-se a raiz material da insegurança que gera o medo

 

A desconfiança viça e prolifera onde há anonimato e fragmentação. A solidariedade, navegando contra o influxo das horas destas horas amargas, cria redes de apoio mútuo que transformam indivíduos isolados em comunidades robustas (ou perenemente fortalecidas) pelo elevado senso de pertencimento que fazem eflorescer.  Quando as pessoas experimentam o apoio concreto em momentos de crise (como em comitês de combate à fome ou ações de vizinhança, do colégios, das academias, dentre outros incontáveis exemplos), desenvolve-se fidelizador senso de pertencimento.  A certeza de que "haverá alguém para contar" nos momentos difíceis reduz a necessidade defensiva de desconfiar de todos. A solidariedade é o antídoto para o tirânico medo de ser “nós”.

 

Como tudo na vida, a mudança chega com a ressignificação dos atos e fatos, sempre priorizando o mais feliz para o coletivo, considerando que “há mais felicidade em dar do que em receber” (Atos 20:35). A chave ideal é não saber quem está próximo e servil a me levantar quando cair, a me ajudar quando preciso for, ao contrário, ela se nos apresenta quando nos dispomos ao cumprimento da missão de sermos o próximo de alguém e a servir amorosa e incondicionalmente àqueles que orbitam em torno de nós. Intervir de forma solidária, mesmo quando inadequado ou arriscado aos olhos do cinismo, quebra a inércia da indiferença. Esse gesto valida a humanidade compartilhada, e sempre (re)humanizadora, com a mesma efusividade que expõe a hipocrisia de quem julga manter a pureza crítica sem agir. A solidariedade exige vulnerabilidade e risco, elementos que a desconfiança tenta eliminar, embora sejam elementos imprescindíveis para a confiança genuína.

  

Essa confiança – autêntica em níveis ótimos – não se restaura apenas em grandes gestos, ao contrário, é fruto dulcíssimo das pequenas ações empreendidas a bem do coletivo, sob o lume do sufragar o mal com o bem (Romanos 12:21), ou seja, fazer o bem sem olhar a quem: ajudar um vizinho, cumprir prazos, oferecer apoio discreto. Esses atos acumulam "crédito social" e enfraquecem a narrativa de que "todos estão apenas buscando seu próprio interesse". A capacidade de ouvir zelosamente – portanto, sem julgamentos, e em pleno exercício da alteridade que desejamos a nosso favor – e de validar os sentimentos do outro desfaz polarizações. A empatia cognitiva e emocional amplia a percepção das motivações alheias, retirando a "máscara" de ameaça que a desconfiança projeta. Tudo isto em prol do desenvolvimento da aceitação das vulnerabilidades como base para cocriadora dos laços autênticos da interdependência que de mãos dadas solidariamente estabelecemos.

 

Conscienciosamente, uma interdependência saudável reconhece que as vulnerabilidades são entrelaçadas com dimensões físicas, sociais e psicológicas. Ao compartilhar medos e inseguranças com quem confiamos, os indivíduos constroem relações duradouras baseadas na autenticidade, superando a superficialidade e fomentando o apoio mútuo necessário para enfrentar o desamparo originário. Em vez de sinalizar fraqueza, ela robustece a empatia, a confiança e a resolução de conflitos, criando um ambiente de compreensão mútua essencial para conexões autênticas. Conexão envolve diálogo e, este, somente auroresce o bem e a felicidades quando os níveis de retidão estiverem excelentes. Excelência adornada de confiança, alimentada pela alteridade e capacitada pelo amor a arquitetar novos destinos para os homens sob a égide da liberdade ser e falar. Uma liberdade ancorada na augusta igualdade que é princípio sustentador da “palavra” verdadeiramente justa; palavra que beneficia a todos equanimemente com a retidão com que ela honra aquele que a manifesta a bem do respeito que deve a si próprio e a todos os seus pares.

 

Maranguape, Ceará, 27 de Julho de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE


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