A
História de Acaraú começou com a ocupação dos índios Tremembés, que habitavam
originalmente a foz do Rio Acaraú. Akaracu (ou Acaracu) é um termo de origem
tupi que significa, em sua interpretação histórica mais aceita, "Rio das
Garças". Ele representa a grafia antiga da palavra que hoje conhecemos
como Acaraú. A variação fonética e de escrita (Akaracu para Acaraú)
ocorreu devido à forma como os colonizadores portugueses ouviam e tentavam
registrar a forte aspiração final da língua indígena.
Os
linguistas e historiadores, como apontado pelo Instituto do Ceará, dividem a
etimologia do termo em Rio das Garças, emergindo da junção de Acará (garça) e
Hu ou 'y (água/rio) é a versão que defende a forte aspiração da letra
"h" em Hu gerou o som de "cu" pelos portugueses (Acará-hu →
Acaracu). Já Ninho das Garças é a versão defendida pelo auspicioso escritor José de
Alencar, sugere a fusão de Acará (garça) com Có (buraco, esconderijo ou ninho).
Os
Tremembés, conhecidos por serem exímios pescadores e navegadores, ocuparam
grande parte do litoral cearense. A foz do Rio Acaraú fornecia alimento
abundante e facilidade de locomoção para o grupo. O local funcionava como ponto
de ancoragem de embarcações, o Porto dos Barcos de Akaracu. O povoado
começou a se consolidar ao redor do Rio Acaraú, servindo como ponto de apoio
para viajantes e escoamento de mercadorias.
No
início do século XVII, expedições portuguesas começaram a explorar a região
para combater invasores estrangeiros (como franceses) e colonizar as terras. Famílias
fugindo dos conflitos holandeses em Pernambuco migraram para o local. Esse
fluxo iniciou a criação de gado e a produção de charque na região. Devido às
fazendas de gado e ao fácil acesso ao sal, ganhou o nome de Oficinas. A seca
extrema que dizimou o rebanho local no final do século XVIII e o povoado focou
na pesca e passou a se chamar Barra do Akaracu.
Naqueles
dias finais do Século XVIII a região pertencia ao distrito de Sobral. Somente
em 31 de julho de 1849, através da Lei Provincial nº 480, Acaraú foi
desmembrada de Sobral e elevada à categoria de vila com o nome de Vila do
Acaracu. O local foi instalado como município alguns anos depois, em
5 de fevereiro de 1851 e, posteriormente, teve sua grafia simplificada e
oficializada para Acaraú na década de 1880. Hoje é reconhecida com a “Terra da
Lagosta”.
A
pesca artesanal e industrial e a carcinicultura (criação de camarão) ditam o
ritmo da economia local. O PIB municipal gira em torno de R$ 1,3 bilhão,
sustentado pelo equilíbrio entre o setor de comércio e serviços (30,4%),
indústria (27,8%) e agropecuária (14%). O município expandiu fortemente sua
matriz econômica com a instalação de grandes parques eólicos em sua faixa
litorânea. A movimentação turística cresce por integrar a Rota das Emoções e
abrigar praias famosas na região, dentre elas: Arpoeiras, Barrinha e Arana.
Neste
rincão augurioso nasce no dia 14 de setembro de 1868 o segundo filho do Professor
Gil Tomás Lourenço e de sua mui digna consorte, Dona Francisca Laurinda da
Frota, o infante Antônio Thomaz Lourenço, conforme assentado no Livro de Registro
de Nascidos Vivos de Acaraú. Thomaz, cujo nome homenageia seu avô paterno, foi
batizado no dia 23 de outubro do ano em que nascera pelo Padre Antônio Xavier
de Castro, vigário local, tendo por padrinhos Alexandre da Frota de Maria e Angélica
Francisca de Maria Veras.
O
casal Gil Tomás Lourenço e Francisca Laurinda da Frota teve ainda: Maria Elvira
da Frota nascida em 3 de setembro de 1867 e falecida em 29 de dezembro de 1955,
em sua cidade natal, com 88 anos; Francisco Thomaz Lourenço nascido em 1880 e
falecido em 19 de agosto de 1952, no Rio de Janeiro, além dos natimortos: Ana Bemvinda da Frota (1870); Anna Laurinda
da Frota (1874); Alexandre Lourenço (1875); José Tomás da Frota (1875); Maria
Julia da Frota (1878) e João Tomaz Lourenço (1879).
Contrariando
os dados da Estatística Geral do Império Brasileiro de 1870 que escancaravam
que 88,46% da população livre do Ceará era analfabeta, a maior taxa entre todas
as províncias do país, o infante Thomaz já dava mostras do que veio à Terra
fazer, destacado dentre o discentes do padre Antônio Xavier Maria de Castro, que
impulsionava a união entre a catequese, a moral religiosa e a alfabetização
básica dos poucos meninos que frequentavam as aulas, pois, este privilégio abraçava apenas aos filhos homens da elite vigente.
Em
Acaraú, esse índice era ainda mais aviltante, pois, a educação não era vista
como um direito universal, mas como um mecanismo de distinção social. O acesso
às primeiras letras servia principalmente para validar o "censo
literário", já que a legislação imperial proibia o voto de analfabeto. Focava
na leitura, escrita, operações básicas de matemática e no sistema de pesos e
medidas do Império. O acesso das meninas à educação formal em Acaraú era nulo e/ou
restrito a prendas domésticas e costura no ambiente familiares.
Não
existiam grupos escolares ou colégios estruturados na área urbana de Acaraú. O
ensino público resumia-se a "cadeiras isoladas" de primeiras letras,
onde um único professor nomeado pelo governo provincial dava aulas (geralmente
em sua própria residência) para turmas masculinas. A educação não era vista
como um direito universal, mas como um mecanismo de distinção social. Acaraú
refletia o cenário de extrema precariedade, elitismo e abandono institucional
que caracterizava a Província do Ceará naqueles dias.
As
poucas famílias abastadas da região (ligadas à pecuária e ao comércio
portuário) não utilizavam o precário sistema público local. Os filhos da elite
da Zona Norte eram enviados para estudar no Seminário de Sobral ou em colégios
tradicionais de Fortaleza e Recife, como aconteceu aos filhos do Arguto Mestre Gil
Tomás Lourenço e da Alvissareira Dona Francisca Laurinda da Frota que cursaram
latim e francês em Sobral e logo foram concluir seus estudos no Seminário de
Fortaleza, no qual Thomaz fora ordenado Padre (1891).
Tendo
feito voto de pobreza, Thomaz passou praticamente toda a sua vida em paróquias
do interior, levando vida altruísta e distante das vaidades humanas, dedicado à
missão de levar o cristianismo aos corações humanos, “escrevendo versos e
cuidando dos passarinhos”, como afirma Raimundo Girão. A importância de Thomaz para
literatura reside, primordialmente, em sua maestria no gênero do soneto,
classificando-o entre os maiores sonetistas do Brasil e o fazendo vetor de
inspiração para a cultura cearense.
A
obra de Thomaz, composta por dezenas de sonetos, destaca-se por unir
o romantismo e o simbolismo à forma parnasiana, mantendo
independência em relação a movimentos literários específicos. Com mais de cem
sonetos espalhados por várias publicações, Thomaz, estampa a sua obra dispersa
através do jornal A República (1901), e não mais parou de construir seu legado.
Não por vaidade vã, mas por constatar o bem que faziam aos seus contemporâneos –
admiradores e amigos – que buscavam em seus sonetos adorno para a vida.
Por
justo mérito, Thomaz foi eleito vencedor de um concurso idealizado por
Demócrito Rocha com o fito de saber quem era o Príncipe dos Poetas Cearenses. Tal
realização coube à revista Ceará Ilustrado em 1924/1925, de quem ele recebeu o título
de “Príncipe dos Poetas Cearenses”, mesmo sem ter publicado livros em vida. Thomaz
foi membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico
e Etnográfico do Ceará, deixando um legado cultural que homenageia cidades e
instituições no Ceará.
Thomaz, como as garças (acara), cujos voos graciosos lhe ensinaram a escrita galharda e a inventividade presentes em seus sonetos que adornam de augusta beleza o cenário cultural cearense, ascendeu ao céu no dia 16 de julho de 1941 e foi sepultado conforme pedira: “"Quero ainda que meu corpo seja enterrado sem esquife, e que a pedra da sepultura seja reposta no mesmo plano ficando debaixo do chão, e que não se ponha em tempo algum, sobre ela, nome, data, inscrição ou qualquer sinal exterior que a faça lembrada".
Humildemente
compromissado com o voto de pobreza que fizera em sua ordenação, Thomaz, que mesmo
pedindo em testamento que seus poemas nunca fossem reunidos em livro, sua obra
foi preservada por amigos e publicada em jornais e antologias nacionais,
garantindo sua imortalidade literária que inspira as gerações que a leem. O
escritor – e seu sobrinho-neto – Dinorá Tomás Ramos registrou parte da
trajetória de Thomaz, e de seus sonetos, no livro Padre Antônio Tomás, Príncipe
dos Poetas Cearenses.
A
homenagem mais visível a Thomaz na capital da Terra da Luz, Fortaleza, é
a Avenida Padre Antônio Tomás, localizada no nobre bairro da Aldeota.
Esta é uma das vias mais importantes e movimentadas de Fortaleza, garantindo
que o nome do poeta seja diariamente lembrado por milhares de
pessoas. A avenida abriga instituições de ensino, comércio e
serviços, consolidando o legado do "Príncipe dos Poetas" no mapa
urbano da cidade, como uma marco de abnegação e coragem a serviço da cultura de
seu povo.
Em
Acaraú, cidade onde nascera e servira como vigário por décadas, o poeta é
homenageado com o nome do CEJA Padre Antônio Tomás (Centro de Educação de
Jovens e Adultos), situada na Praça Coronel José Filomeno, no centro da cidade,
perpetuando seu nome no âmbito educacional, alinhado à sua vida dedicada ao
ensino e à igreja. Thomaz é membro fundador da segunda fase da Academia Cearense
de Letras, ocupando a cadeira nº 40. A Academia Cearense de Literatura Popular imortaliza Thomaz como patrono da cadeira nº 21.
Maranguape,
Ceará, 09 de Julho de 2026
Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco
Jornalista
– ACI nº 1789
Jornalista
– CRP/MTE nº 0005168/CE
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