segunda-feira, 13 de julho de 2026

COM SONETOS, REPENTES E/OU CORDÉIS A POESIA FAZ-SE HISTÓRIA

 

Catalizadora das energias universais que tão habilidosamente condensa em palavras, a poesia tem por primícia-mor a capacidade de transmutação: das dores emerge belezas, faz loquaz os silêncios e cocria universos inteiros onde a lógica comum não alcança, permitindo-nos enxergar a profundidade da própria existência.

 

Caprichosa, a poesia torna-se ponte para o excelso ao expressar através de símbolos e metáforas o invisível, o amor e a angústia experienciadas neste mundo dual onde o material clama pelo espiritual com a mesma intensidade que lhe permite dar-lhe vida e manifestação às mais audazes e auspiciosas experienciações humanas.

 

Portentosa, a poesia tem o condão de sacralizar o trivial realizando a mais auguriosa alquimia cotidiana. O vento ao assanhar cabelos, que leva o calor embora; o gotejar da chuva cujo som embala os melhores sonhos; o café que dá xícara viaja pela pradaria anunciando a todos que lhes aguarda para o ato de comer juntos, etc.; tudo ela faz idílico.

 

Libertadora, a poesia tem a graça da catarse emocional, sendo espelho ótimo no qual vê-se refletido o “Eu” mais íntimo dos homens, seus mais ardentes sentires – desejos e o afeto, desde a mais inata inspiração artística e o amor até a força motivadora que transforma (boa) vontade em ação na vida diária, nesta identifica que inclusive cura.

 

Audaciosa, a poesia, ancorada na inventividade que lhe glorifica e eterniza, transcende as regras rígidas da linguagem numa busca incessante pela alma de todas as coisas, que interdependentes em suas agências, dão-lhe a matéria-prima mais augusta e fértil para suas inusitadas manifestações, sejam estas musicais, visuais ou minimalistas.

 

A força inclusiva da poesia se manifesta de forma prática em nossa sociedade dando poder aos Slams e ao Saraus que democratizam a palavra e concedem voz a quem historicamente foi silenciado servido de palco para jovens debaterem racismo, machismo, homofobia e desigualdade social. A oralidade substitui o academicismo excludente.

 

Evolucionista, a poesia fomenta a escrita a custo “quase” zero – por vezes – ao exigir tão somente papel, caneta ou a própria voz, ruindo assim as coibições econômicas que limitam o acesso a outros tipos de arte, transformando a expressão artística em atos de resistência acessível a todos, de inclusão e de emancipação social.

 

Ao dotar a leitura de forma viva e afetiva, a poesia aproxima pessoas que estavam distantes dos livros, que passam a melhor perceber sua realidade nos versos que a retratam, deixando o periférico ou minoritário – onde é meramente espectador – para assumir o protagonismo de sua própria história, escrevendo-a com agires próprios.

 

Historicamente, a poesia social brasileira utiliza o verso como megafone para denunciar desigualdades, desde Castro Alves no século XIX até os movimentos contemporâneos, atuando como recurso para a construção de identidades e o desenvolvimento da autonomia criativa de jovens em situação de vulnerabilidade.

 

Marcada pelo engajamento político, a poesia social brasileira teve seu auge no Romantismo com poetas de lavra fértil como Sousândrade, na Geração de 30 do Modernismo, com Carlos Drummond de Andrade e na resistência contra a Ditadura Militar, com Ferreira Gullar, sempre a denunciar desigualdades e opressões.

 

Neste influxo, o soneto fez formidável modus denunciador e habilidoso crítico social, além de cativante agregador político. O "Poeta dos Escravos" – Antônio Frederico de Castro Alves –, com sonetos esculpia imagens grandiosas e retóricas que inflamavam as multidões contra a escravidão e em favor da liberdade.

 

O "Dante Negro" – João da Cruz e Sousa – reconhecido como o primeiro e o principal expoente do simbolismo no Brasil, com o soneto alcançou arguta mestria. Seu veio literário, além do misticismo e da galante estética simbolista, carrega um forte impacto social ao vivenciar a marginalização racial na recém-proclamada República.

 

Poetas como Glauco Mattoso, subverteram a rigidez do soneto para abordar a realidade política e a opressão de classes e utilizaram a forma clássica para falar sobre a realidade urbana, prisões e fetiches, e sonetos marginais e de protesto retrataram a Ditadura Militar e o período de redemocratização com excelente nível de engajamento político.

 

Ainda que diferente do soneto, que é uma estrutura poética fixa e escrita com 14 versos e métrica rigorosa, o repente caracterizado pela criação instantânea de estrofes, seguindo regras de métrica, rima e coerência temática, nele se inspira erguendo-se como uma forma viva de crônica social que anuncia as carências do nordeste.

 

Poesia social, o repente, e as cantorias que o manifestam, abordam temas do cotidiano, a seca, as injustiças sociais, a saudade e a vida dos trabalhadores, dando voz aos anseios da comunidades. O repente documenta a história oral e a identidade do povo nordestino de geração em geração se reconhecido com o Patrimônio Cultural Brasileiro.

 

Os gêneros mais comuns são o galope, o martelo agalopado e o mourão, que indo além do improviso, atuam como o "jornal do sertão". Em duplas, os cantadores utilizam a viola e regras rígidas de métrica e rima para narrar fatos recentes, crimes, política, secas, festas e comportamentos sociais, formando a opinião pública local.

 

O martelo agalopado, uma das formas mais difíceis e prestigiosas, constitui-se de estrofes de dez versos (décimas) com métrica decassílaba (10 sílabas poéticas), seguindo o esquema de rimas ABBAACCDDC. Exigindo grande habilidade do repentista para manter a coerência e a rima sob essa estrutura rígida.

 

O galope à beira-mar, criado pelo repentista cearense Zé Pretinho, também utiliza a décima, mas com versos hendecassílabos (11 sílabas).  Inusita-se com um ritmo mais acelerado, que imita o galope de um cavalo, e pela exigência temática de que o último verso termine com a palavra "mar" (ou a frase "galope na beira do mar").

 

O mourão, por ser um diálogo direto e conciso, diferente dos anteriores que usam décimas, tradicionalmente utiliza estrofes de cinco versos (quintilhas) ou seis, onde os cantadores se alternam frequentemente, às vezes verso a verso, num "desafio natural", focado na objetividade e na resposta rápida ao adversário.

 

Assim como a Literatura de Cordel, o repente cumpriu e cumpre um papel vital de comunicação em regiões onde a imprensa escrita demorava a chegar ou não tinha capilaridade.  Seus duelos com acompanhamento da viola cria o espetáculo que atrai a comunidade, facilitando as anunciações e o melhor discernimento dos fatos aludidos.

 

Versáteis qual camaleões, o cordel adaptou a herança europeia dos poetas populares para narrar histórias locais, enquanto o soneto erudito influenciou a métrica e a sofisticação da poesia sertaneja. Sonetos e cordéis compartilham a mesma essência rítmica e rimada, expressando esplendidamente de sentimentos e críticas sociais.

 

Poetas populares, como os cearenses Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo – e Antônio Gonçalves da Silva – Patativa do Assaré –, transitavam com efusiva galharia entre o cordel e o soneto, provando que a poesia do sertão dialoga com formas clássicas, unir o rigor formal europeu com as temáticas regionais e o linguajar do povo.

 

Ao desconstruir a sintaxe, utilizar metáforas e aproximar-se da música, a poesia transmite sensações profundas que ultrapassam qualquer barreira geográfica ou de vocabulário, traduzindo a essência da experiência humana. Ao unir sensibilidade e arte, ela conecta pessoas de diferentes culturas e épocas.

 

Transcendendo as barreiras da linguagem lógica e cotidiana, a poesia se estabelece como uma comunicadora universal. Enquanto a comunicação comum busca a clareza imediata e a informação, a linguagem poética privilegia a evocação. A poesia não é meramente um exercício literário, mas uma forma de estar no mundo.

 

Irrefutavelmente, a verdadeira poesia transforma vivências puramente pessoais em sentimentos universais. Autores de diferentes origens conseguem ecoar o que há de mais íntimo no ser humano – uma verdade sobre a vida, a morte, o amor ou a solidão – ressoando com o leitor independentemente de onde ele esteja.

 

Autores como Conceição Evaristo demonstram como o poema pode denunciar opressões e fortalecer identidades, transformando a experiência individual em um eco coletivo de resistência e empatia, fulcrando pertencimento e identidade. A poesia preserva culturas, incita reflexões sociais, fomenta o diálogo e semeia a paz entre os povos.

 

Datas como o Dia Mundial da Poesia e o Dia Nacional da Poesia lembram da importância de preservar a poesia e de garantir a pluralidade de vozes na sociedade. Seu poder de unir pessoas através da arte é celebrado globalmente e reforçado por instituições culturais. A poesia é pilar fundamental para o desenvolvimento da humanidade.

 

Maranguape, Ceará, 13 de Julho de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789 

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE

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