quarta-feira, 12 de novembro de 2025

MAÇONARIA E FAMÍLIA

 

Família acima de tudo manifesta um forte senso de lealdade e prioridade para com os membros da família. O filósofo de Estagira diz-nos que o homem é um "animal social" por natureza e incapaz de sobreviver e prosperar sozinho. Essa condição não se trata de escolha, mas sim, da natureza humana, que é carente e necessita da interação com os semelhantes para se tornar completa, pois, é crucial para o desenvolvimento humano, que tem na felicidade seu lume mais atraente. A felicidade (eudaimonia) só é possível na convivência com os outros, por meio da interação social, da linguagem e da vida em comunidade (a pólis). Enfatiza a importância dos relacionamentos familiares e o apoio mútuo que culturas e indivíduos dão à instituição familiar.

 

Compreendendo Aristóteles, Jean Jaques Rousseau o supera em sua percepção ao afirmar que o homem é um ser social por natureza, mas a sociedade corrompe sua bondade inata, pois, o homem natural vive em isolamento, guiado apenas por instintos como alimentação e repouso, e é capaz de compaixão. Porém, a sociedade, especialmente com o surgimento da propriedade privada, introduz a desigualdade, a vaidade, a competição e a corrupção, levando o homem a perder sua liberdade e bondade originais, contrariando sua essência, cabendo, portanto, à família o fundamental papel na formação moral e na educação das crianças.

 

Rousseau, percebia a família, especialmente no contexto rural de sua obra Júlia, ou A Nova Heloísa, como um refúgio moral e um local para a formação de cidadãos virtuosos, contrastando com a artificialidade e a depravação da vida urbana, que na desvairada busca pelo bem-estar alimenta todas as vaidades do homem, ou seja, a procura incessante e, por vezes, irracional ou exagerada pelo bem-estar pessoal, paradoxalmente, é a raiz de manifestações de vaidade e egoísmo humano. Sem moderação ou autoconsciência, esse bem-estar obcecadamente desvia o homem para a exaltação do ego, focando-o mais em parecer bem ou feliz para os outros do que em um contentamento interior genuíno: feliz o homem, tudo que o orbita viceja alegria e contentamento.

 

Quando a cabeça não pensa o corpo padece, ouvi sempre! Contaminado pela vileza arraigada a si pelo egocentrismo protuberante, não há como retornar ao homem natural contemplado por Aristóteles, cuja excelência moral e intelectual frutificava da semeadura de hábitos virtuosos e do uso da razão como lume o bem supremo e a felicidade. Porém, é plenamente factível construir uma sociedade melhor, ancorada num pacto entre os indivíduos altruístas e decididos que criam uma infraestrutura sociopolítica onde o interesse coletivo de todos os cidadãos, resgatando, assim, a bondade natural dos homens, além de garantir-lhes a liberdade civil e a igualdade, pois, propiciam ordem a sociedade. Descobrindo, todos, “que não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive. (Eclesiastes 3:12)

 

O homem é, indiscutivelmente, um ser gregário porque tem uma necessidade intrínseca de viver em sociedade e de se relacionar com outros indivíduos. Essa natureza o leva a formar e participar de diferentes grupos sociais, buscando a satisfação de suas necessidades e o desenvolvimento de sua identidade individual e coletiva, à qual passou a chamar de família no micro polo, pois, a família é o primeiro e principal grupo social que molda ambas as identidades, estabelecida pela excelsitude do modus vivendi, onde o exemplo é o foco central, assim,em tudo seja você mesmo um exemplo para eles, fazendo boas obras”. (Tito 2:7). E, no marco polo, denominou-a humanidade, que celebrada o contrato social sobre o qual se ergue e com qual se distancia barbárie, da autotutela dos direitos e da vileza, ao passo que cria a esfera pública e a igualdade política, retificando, ratificando e radicando na proporção de aprimora o modelo inicial para as relações sociais inaugurado pela família, cuja docência promove o amor e o respeito mútuo como vetor do feliz convívio dos humanos.

 

“Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne” (Gênesis 2:24), evoluindo, progredindo e crescendo sempre a família humana: a humanidade. Notoriamente glorificada por seus feitos e efeitos como a primeira e mais importante instituição social, a família se responsabiliza em ser a célula mater da humanidade, onde os valores éticos e morais são forjados para sustentar o homem social. Agência de socialização primaz na vida de um indivíduo, exercendo uma influência social fundamental e duradoura na formação de sua identidade, valores, comportamentos e habilidades de convivência, a família indaga sempre: diga-me com quem tu andas e eu te direi quem tu és? Pois, é possível inferir a personalidade de alguém ao observar as amizades e companhias que a pessoa acolhe, já que essas relações moldam hábitos, opiniões e até a linguagem. "Será sábio o que com sábios caminha, mas se embrutece quem anda com os tolos" (Provérbios 13:20).

 

O costume de casa vai à praça, aqui evoca a importância de manter sempre in voga a conduta e valores corretos, pois, a educação aprendida em família, independentemente de estar em casa ou fora dela, é a educação que se manifesta no dia a dia. A família proporciona um senso de pertencimento e segurança basilar para o indivíduo, sendo um "porto seguro" que o protege e ampara em momentos de necessidade. Afinal “se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente”. (1 Timóteo 5:8) A família é insubstituível como o primeiro e mais influente espaço de inclusão, fornecendo as ferramentas e o apoio essenciais para a integração plena do indivíduo na comunidade. Neste influxo, declara Paulo de Tarso: “o marido é a cabeça da esposa, assim como Cristo é o cabeça da Igreja, que é o seu Corpo” (Efésios 5:23) estabelecendo a família como o, incontestável, microcosmo onde se inicia a socialização, ao passo que a sociedade é o macrocosmo que oferece o contexto e os recursos para que a família cumpra sua função vital, impulsiona o desenvolvimento de todos os seus membros.

 

Ao incutir valores como responsabilidade, empatia e ética, a família contribui para a formação de cidadãos conscientes e participativos, essenciais para a saúde de uma democracia e para o progresso da comunidade, onde a eficácia da inclusão social empreendida é ampliada quando a família trabalha em parceria com outras instituições e distintos grupos sociais, cujas funções e estrutura impactam significativamente o desenvolvimento e o progresso dos grupos sociais que erigem a sociedade. A Maçonaria, por exemplo, entende que uma pessoa que não está bem com sua família não pode pertencer plenamente à Ordem, pois a harmonia familiar é o mais robusto fundamento para a construção de um mundo mais fraterno e justo. A crença fundamental é que um homem que cumpre seus deveres para com sua família (esposa, filhos, pais) está mais apto a cumprir seus deveres para com sua comunidade, seu país e, consequentemente, sua Loja.

 

A solidez da base familiar é vista como um catalisador para o progresso individual do maçom, o que, consequentemente, fortalece a própria instituição e sua capacidade de impactar positivamente nas sociedades em que atua. Não é à toa que o maçom é escolhido no seio da sociedade com a qual interage, exatamente, por seus atos e resultados positivos a bem da pátria e da humanidade, praticados diuturnamente de sede da família, cujo exemplo desbrava as fronteiras do mundo. A ideia não é que a família seja uma condição para entrar na Maçonaria, mas sim que a dedicação e o compromisso familiar são vistos como pilares essenciais que sustentam e amplificam os ideais e o progresso da Maçonaria em um nível individual e coletivo. A estabilidade familiar proporciona o apoio emocional e a base segura que permitem ao maçom dedicar tempo e energia às atividades filantrópicas e de autoaperfeiçoamento que a ordem promove. 

 

O culto à família, considerada uma "pedra bruta" a ser trabalhada, é um aspecto essencial na jornada do maçom em direção ao autoaperfeiçoamento.  Acredita-se que um bom pai e um bom marido têm o caráter necessário para ser um bom maçom.  Ao fortalecer as famílias de seus membros, a Maçonaria acredita estar contribuindo indiretamente para o progresso da sociedade em geral, começando pelo núcleo social mais básico. Embora as sessões ritualísticas (trabalhos em Loja) sejam exclusivas para maçons, a instituição promove diversas atividades sociais e filantrópicas que incluem a participação de toda a família, conhecidas como "Família Maçônica". Apostando no futuro da família, a Maçonaria patrocina e incentiva a participação em organizações juvenis como a Ordem DeMolay (para meninos) e as Filhas de Jó (para meninas), que promovem valores semelhantes e atividades conjuntas. 

 

Cumprindo o que há estabelecido: “a ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei". (Romanos 13:8). Sob este auspício, a Maçonaria exorta a todas as sociedades, a partir de seus membros, a serem exemplos, participando de Projetos sociais e campanhas de solidariedade onde a família maçônica arrecada e distribui de doações, reforçando o senso de comunidade e auxílio ao próximo; de pertencimento a pleno amor. Amor que aperfeiçoa costumes... sem distinção de fronteiras, ao passo que enlaça mais e mais famílias neste benfazejo propósito de fazer feliz a humanidade. Uma família realizada contentemente é, claramente, uma semente de felicidade para a humanidade, pois, a humanidade se realizada no homem, assim como a maçonaria se realiza no maçom. Irrefutavelmente, a família se realiza na simbiose manifesta pelo homem e sua consorte, fortalecidos pela inequívoca convicção: família acima de tudo é um lábaro de satisfação e altruísmo para os homens, por ela humanizados, que constroem a humanidade.


2 comentários:

  1. Artigo excelente. Parabéns.

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  2. Muito bom, exercitar a mente com artigos bem elaborados.
    Isto me anima prosseguir as jornadas, em busca do crescimento moral e espiritual. Paz e bem!

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