Família
acima de tudo manifesta um forte senso de lealdade e prioridade para com os
membros da família. O filósofo de Estagira diz-nos que o homem é um
"animal social" por natureza e incapaz de sobreviver e prosperar
sozinho. Essa condição não se trata de escolha, mas sim, da natureza humana,
que é carente e necessita da interação com os semelhantes para se tornar
completa, pois, é crucial para o desenvolvimento humano, que tem na felicidade
seu lume mais atraente. A felicidade (eudaimonia) só é possível na convivência
com os outros, por meio da interação social, da linguagem e da vida em
comunidade (a pólis). Enfatiza a importância dos relacionamentos
familiares e o apoio mútuo que culturas e indivíduos dão à instituição
familiar.
Compreendendo
Aristóteles, Jean Jaques Rousseau o supera em sua percepção ao afirmar que o
homem é um ser social por natureza, mas a sociedade corrompe sua
bondade inata, pois, o homem natural vive em isolamento, guiado apenas por
instintos como alimentação e repouso, e é capaz de compaixão. Porém, a
sociedade, especialmente com o surgimento da propriedade privada, introduz a
desigualdade, a vaidade, a competição e a corrupção, levando o homem a perder
sua liberdade e bondade originais, contrariando sua essência, cabendo,
portanto, à família o fundamental papel na formação moral e na educação das
crianças.
Rousseau,
percebia a família, especialmente no contexto rural de sua obra Júlia, ou A
Nova Heloísa, como um refúgio moral e um local para a formação de cidadãos
virtuosos, contrastando com a artificialidade e a depravação da vida urbana, que
na desvairada busca pelo bem-estar alimenta todas as vaidades do homem, ou
seja, a procura incessante e, por vezes, irracional ou exagerada pelo bem-estar
pessoal, paradoxalmente, é a raiz de manifestações de vaidade e egoísmo humano.
Sem moderação ou autoconsciência, esse bem-estar obcecadamente desvia o homem
para a exaltação do ego, focando-o mais em parecer bem ou feliz para os outros
do que em um contentamento interior genuíno: feliz o homem, tudo que o orbita
viceja alegria e contentamento.
Quando
a cabeça não pensa o corpo padece, ouvi sempre! Contaminado pela vileza arraigada
a si pelo egocentrismo protuberante, não há como retornar ao homem natural
contemplado por Aristóteles, cuja excelência moral e intelectual frutificava
da semeadura de hábitos virtuosos e do uso da razão como lume o bem supremo e a
felicidade. Porém, é plenamente factível construir uma sociedade melhor,
ancorada num pacto entre os indivíduos altruístas e decididos que criam uma infraestrutura
sociopolítica onde o interesse coletivo de todos os cidadãos, resgatando,
assim, a bondade natural dos homens, além de garantir-lhes a liberdade
civil e a igualdade, pois, propiciam ordem a sociedade. Descobrindo, todos, “que
não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive.
(Eclesiastes 3:12)
O
homem é, indiscutivelmente, um ser gregário porque tem uma necessidade
intrínseca de viver em sociedade e de se relacionar com outros indivíduos. Essa
natureza o leva a formar e participar de diferentes grupos sociais, buscando a
satisfação de suas necessidades e o desenvolvimento de sua identidade
individual e coletiva, à qual passou a chamar de família no micro polo, pois, a
família é o primeiro e principal grupo social que molda ambas as identidades, estabelecida
pela excelsitude do modus vivendi, onde o exemplo é o foco central, assim,
“em tudo
seja você mesmo um exemplo para eles, fazendo boas obras”. (Tito 2:7). E, no marco
polo, denominou-a humanidade, que celebrada o contrato social sobre o qual se ergue
e com qual se distancia barbárie, da autotutela dos direitos e da vileza, ao
passo que cria a esfera pública e a igualdade política, retificando,
ratificando e radicando na proporção de aprimora o modelo inicial para as
relações sociais inaugurado pela família, cuja docência promove o amor e o
respeito mútuo como vetor do feliz convívio dos humanos.
“Por
essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se
tornarão uma só carne” (Gênesis 2:24), evoluindo, progredindo e crescendo
sempre a família humana: a humanidade. Notoriamente glorificada por seus feitos
e efeitos como a primeira e mais importante instituição social, a família se
responsabiliza em ser a célula mater da humanidade, onde os valores éticos e
morais são forjados para sustentar o homem social. Agência de
socialização primaz na vida de um indivíduo, exercendo uma influência
social fundamental e duradoura na formação de sua identidade, valores,
comportamentos e habilidades de convivência, a família indaga sempre: diga-me
com quem tu andas e eu te direi quem tu és? Pois, é possível inferir a
personalidade de alguém ao observar as amizades e companhias que a pessoa acolhe,
já que essas relações moldam hábitos, opiniões e até a linguagem. "Será
sábio o que com sábios caminha, mas se embrutece quem anda com os tolos"
(Provérbios 13:20).
O
costume de casa vai à praça, aqui evoca a importância de manter sempre in voga a
conduta e valores corretos, pois, a educação aprendida em família, independentemente
de estar em casa ou fora dela, é a educação que se manifesta no dia a dia. A
família proporciona um senso de pertencimento e segurança basilar para o
indivíduo, sendo um "porto seguro" que o protege e ampara em momentos
de necessidade. Afinal “se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente
dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente”. (1 Timóteo
5:8) A família é insubstituível como o primeiro e mais influente espaço de
inclusão, fornecendo as ferramentas e o apoio essenciais para a integração
plena do indivíduo na comunidade. Neste influxo, declara Paulo de Tarso:
“o marido é a cabeça da esposa, assim como Cristo é o cabeça da Igreja, que é o
seu Corpo” (Efésios 5:23) estabelecendo a família como o, incontestável, microcosmo
onde se inicia a socialização, ao passo que a sociedade é o macrocosmo que
oferece o contexto e os recursos para que a família cumpra sua função vital, impulsiona
o desenvolvimento de todos os seus membros.
Ao
incutir valores como responsabilidade, empatia e ética, a família contribui
para a formação de cidadãos conscientes e participativos, essenciais para a
saúde de uma democracia e para o progresso da comunidade, onde a eficácia da
inclusão social empreendida é ampliada quando a família trabalha em parceria
com outras instituições e distintos grupos sociais, cujas funções e estrutura
impactam significativamente o desenvolvimento e o progresso dos grupos sociais
que erigem a sociedade. A Maçonaria, por exemplo, entende que uma pessoa
que não está bem com sua família não pode pertencer plenamente à Ordem, pois a
harmonia familiar é o mais robusto fundamento para a construção de um mundo
mais fraterno e justo. A crença fundamental é que um homem que cumpre seus
deveres para com sua família (esposa, filhos, pais) está mais apto a cumprir
seus deveres para com sua comunidade, seu país e, consequentemente, sua Loja.
A
solidez da base familiar é vista como um catalisador para o progresso
individual do maçom, o que, consequentemente, fortalece a própria instituição e
sua capacidade de impactar positivamente nas sociedades em que atua. Não é à
toa que o maçom é escolhido no seio da sociedade com a qual interage,
exatamente, por seus atos e resultados positivos a bem da pátria e da
humanidade, praticados diuturnamente de sede da família, cujo exemplo desbrava
as fronteiras do mundo. A ideia não é que a família seja uma condição para
entrar na Maçonaria, mas sim que a dedicação e o compromisso familiar são
vistos como pilares essenciais que sustentam e amplificam os ideais e o
progresso da Maçonaria em um nível individual e coletivo. A estabilidade
familiar proporciona o apoio emocional e a base segura que permitem ao maçom
dedicar tempo e energia às atividades filantrópicas e de autoaperfeiçoamento
que a ordem promove.
O
culto à família, considerada uma "pedra bruta" a ser trabalhada, é um
aspecto essencial na jornada do maçom em direção ao autoaperfeiçoamento. Acredita-se que um bom pai e um bom marido
têm o caráter necessário para ser um bom maçom.
Ao fortalecer as famílias de seus membros, a Maçonaria acredita estar
contribuindo indiretamente para o progresso da sociedade em geral, começando
pelo núcleo social mais básico. Embora as sessões ritualísticas (trabalhos em
Loja) sejam exclusivas para maçons, a instituição promove diversas atividades
sociais e filantrópicas que incluem a participação de toda a família,
conhecidas como "Família Maçônica". Apostando no futuro da família, a
Maçonaria patrocina e incentiva a participação em organizações juvenis como a
Ordem DeMolay (para meninos) e as Filhas de Jó (para meninas), que promovem
valores semelhantes e atividades conjuntas.
Cumprindo
o que há estabelecido: “a ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que
vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei".
(Romanos 13:8). Sob este auspício, a Maçonaria exorta a todas as
sociedades, a partir de seus membros, a serem exemplos, participando de Projetos
sociais e campanhas de solidariedade onde a família maçônica arrecada e
distribui de doações, reforçando o senso de comunidade e auxílio ao próximo; de
pertencimento a pleno amor. Amor que aperfeiçoa costumes... sem distinção de
fronteiras, ao passo que enlaça mais e mais famílias neste benfazejo propósito
de fazer feliz a humanidade. Uma família realizada contentemente é, claramente,
uma semente de felicidade para a humanidade, pois, a humanidade se realizada no
homem, assim como a maçonaria se realiza no maçom. Irrefutavelmente, a família
se realiza na simbiose manifesta pelo homem e sua consorte, fortalecidos pela inequívoca
convicção: família acima de tudo é um lábaro de satisfação e altruísmo para os
homens, por ela humanizados, que constroem a humanidade.

Artigo excelente. Parabéns.
ResponderExcluirMuito bom, exercitar a mente com artigos bem elaborados.
ResponderExcluirIsto me anima prosseguir as jornadas, em busca do crescimento moral e espiritual. Paz e bem!