quarta-feira, 30 de setembro de 2026

VINTE E OITO MESES — O TEMPO QUE SE FAZ MEMÓRIA

 

O tempo constitui uma das experiências mais profundas da existência humana. Embora possa ser medido em dias, meses e anos, sua verdadeira dimensão não está na quantidade de unidades que conseguimos contar, mas naquilo que somos capazes de realizar enquanto ele passa. Há tempos que simplesmente transcendem os calendários porque deixam marcas, constroem caminhos, erguem pontes e se incorporam à memória daqueles que os vivem. Os vinte e oito meses de existência da Academia Internacional de Maçons Imortais – AIMI pertencem a essa espécie de tempo: aquele que não se limita a transcorrer, mas se transforma em obra pelas mãos, pelas ideias, pelas letras, pelas artes e pela disposição de seus confrades em servir.

 

Viver o tempo com propósito significa compreender que cada instante contém uma possibilidade de construção. O presente não é apenas uma passagem entre aquilo que já foi e aquilo que ainda virá; é o território em que o futuro começa a ser edificado. Por isso, contar os vinte e oito meses da AIMI não significa simplesmente registrar uma duração cronológica. Significa refletir sobre o que esse período produziu, sobre os valores afirmados, sobre as relações estabelecidas e sobre o legado que começa a se formar. O tempo, quando submetido à consciência e à intencionalidade, deixa de ser apenas sucessão para tornar-se matéria-prima da construção humana.

 

Essa compreensão ajuda a explicar a própria razão de existir da Academia. A AIMI nasceu de um sonho que procurou ultrapassar as fronteiras do possível: reunir homens dedicados às Artes e às Letras, aproximar saberes, estimular a produção cultural e criar uma ambiência na qual o pensamento pudesse circular livremente. A palavra, nesse contexto, não é mero instrumento de comunicação. É matéria de construção. Por meio dela, o homem interpreta o mundo, organiza suas experiências, transmite conhecimentos, preserva memórias e oferece às gerações futuras elementos para compreender e transformar a realidade.

 

Uma academia cultural não se justifica apenas pela quantidade de atividades que realiza, mas pela qualidade do diálogo que consegue estabelecer entre pessoas e conhecimentos. Sua grandeza está na capacidade de fazer convergir diferentes trajetórias em torno de um propósito comum. É precisamente nessa convergência que a AIMI encontra uma de suas características mais significativas. Seus confrades trazem diferentes formações, experiências, profissões, talentos e sensibilidades, mas encontram na cultura um território comum de encontro e compartilhamento.

 

A diversidade deixa, assim, de representar distância e passa a constituir possibilidade de enriquecimento mútuo. Há quem escreva, quem pesquise, quem ensine, quem componha, quem fotografe, quem pinte, quem esculpa, quem preserve e quem ofereça ao outro a experiência acumulada ao longo de sua caminhada. Cada contribuição possui valor próprio, mas adquire significado ainda maior quando colocada a serviço da coletividade. O conhecimento somente alcança sua plenitude quando repartido.

 

É nesse ponto que força, beleza e sabedoria assumem importância especial. Mais do que palavras de uma tradição simbólica, podem ser compreendidas como princípios de uma ação cultural. A força representa a capacidade de realizar, perseverar e sustentar um propósito diante das dificuldades. A beleza lembra que toda construção humana deve conservar sensibilidade, harmonia e capacidade de tocar o espírito. A sabedoria exige discernimento para distinguir o essencial do acessório e orientar a força e a beleza para uma finalidade elevada.

 

A força dá movimento ao sonho; a beleza confere sentido àquilo que se constrói; a sabedoria indica o caminho. Reunidas, essas dimensões constituem um princípio de ação capaz de transformar ideias em realizações e realizações em legado. A caminhada da AIMI pode ser compreendida sob essa perspectiva: não como simples acumulação de meses de existência, mas como processo de amadurecimento de uma proposta cultural que procura transformar conhecimento em fraternidade e fraternidade em serviço.

 

A cultura possui, nesse processo, uma função que ultrapassa o entretenimento. Ela modifica a maneira como o homem percebe a si mesmo, aos outros e ao mundo. Uma palavra pode provocar reflexão; um livro pode alterar uma visão de mundo; uma música pode despertar uma memória; uma pintura pode inaugurar um novo olhar; uma descoberta científica pode deslocar os limites do conhecimento. A arte e a ciência, quando colocadas a serviço do desenvolvimento humano, tornam-se instrumentos de transformação.

 

Por essa razão, a vocação da AIMI não se esgota em reuniões, publicações, revistas, coletâneas, bibliotecas, museus virtuais ou projetos culturais. Esses meios são instrumentos de uma finalidade mais ampla. O centro de toda ação cultural está no ser humano e em sua capacidade de aperfeiçoar-se. Preservar a língua, estimular a leitura, valorizar a produção artística, compartilhar conhecimentos e conservar a memória significa oferecer ao homem instrumentos para enxergar aquilo que antes não via, compreender aquilo que antes ignorava e questionar aquilo que aceitava sem reflexão.

 

A AIMI pode ser compreendida como uma casa intelectual sem paredes limitadoras. Sua dimensão virtual transforma a distância geográfica em possibilidade de proximidade, permitindo que diferentes experiências culturais se encontrem sem que precisem renunciar às suas identidades. Uma instituição que se projeta internacionalmente não pode pensar apenas em fronteiras; deve pensar em pontes: entre passado e futuro, entre ciência e arte, entre experiência e juventude, entre tradição e inovação, entre indivíduo e coletividade.

 

Essa perspectiva conduz à reflexão sobre a própria ideia de imortalidade. Ser imortal, no contexto de uma academia dedicada à cultura, não significa desconhecer a finitude humana. Significa compreender justamente o contrário: porque a existência individual é breve, torna-se necessário entregar ao tempo alguma coisa que possa sobreviver ao indivíduo. Um livro pode permanecer; uma música pode permanecer; uma pintura pode permanecer; uma descoberta pode permanecer; uma palavra pode permanecer; um exemplo pode permanecer. Também pode permanecer uma instituição que tenha sabido transformar a passagem de seus integrantes em memória coletiva.

 

A imortalidade, nesse sentido, não pertence ao corpo. Pertence àquilo que o homem é capaz de entregar ao tempo. Cada confrade que produz, compartilha ou preserva conhecimento deposita uma parcela de si na memória humana. O valor dessa contribuição não está necessariamente em sua dimensão ou notoriedade, mas em sua capacidade de alcançar alguém e produzir continuidade. Aquilo que hoje escrevemos poderá ser lido amanhã; aquilo que hoje ensinamos poderá ser aprendido por quem ainda não nasceu; aquilo que hoje preservamos poderá ajudar uma geração futura a compreender quem fomos.

 

É por isso que a cultura deve ser entendida como legado e não como ornamento. Ela não é luxo nem passatempo. É construção civilizatória. Uma sociedade que preserva sua memória, cultiva sua língua, estimula seus artistas, valoriza seus escritores e abre espaço para o pensamento está construindo condições para que as gerações seguintes recebam mais do que receberam as anteriores. A cultura torna-se, assim, uma forma elevada de responsabilidade perante o futuro.

 

Também a fraternidade ganha novo significado quando relacionada à cultura. Fraternidade não exige que todos pensem da mesma maneira; exige que aprendam a pensar juntos. Não elimina diferenças; oferece-lhes espaço para o diálogo. Não transforma a diversidade em obstáculo; reconhece nela uma fonte de riqueza. O verdadeiro encontro entre inteligências acontece quando cada uma consegue ampliar-se pelo contato com a outra.

 

Essa concepção é especialmente importante para uma instituição que reúne diferentes manifestações do conhecimento. O diálogo cultural exige humildade intelectual. Ninguém possui sozinho toda a verdade, assim como nenhuma experiência individual é suficiente para explicar a complexidade do mundo. Cada descoberta carrega alguma herança; cada obra possui alguma inspiração; cada pensamento dialoga com pensamentos anteriores. A humanidade avança por meio dessa cadeia de transmissão, recebendo um patrimônio, transformando-o e entregando-o às gerações seguintes.

 

É nessa cadeia que a AIMI procura inscrever sua presença. Seu desafio não consiste simplesmente em existir por muitos anos, mas em fazer com que cada ano de existência possua significado. A longevidade, por si só, não é garantia de grandeza. O que confere valor ao tempo institucional é a capacidade de convertê-lo em realização, memória, conhecimento e serviço. Por isso, alcançar vinte e oito meses deve ser compreendido menos como ponto de chegada e mais como responsabilidade renovada.

 

Continuar merecendo existir significa continuar produzindo, pensando, criando, preservando, dialogando e acolhendo. Significa manter aberta a estrada de mão dupla em que cada confrade oferece aquilo que sabe e recebe aquilo que o outro tem a ensinar. Significa compreender que o entusiasmo inicial precisa transformar-se em constância, pois as grandes obras não se sustentam apenas pela intensidade de seus começos, mas pela fidelidade cotidiana aos princípios que lhes deram origem.

 

Toda instituição possui aqueles que aparecem e aqueles que fazem acontecer. Os dois grupos são necessários, mas a obra coletiva pertence igualmente às mãos discretas que organizam, às mentes que planejam, aos corações que acreditam e aos que permanecem firmes quando a novidade se converte em responsabilidade. A verdadeira perenidade não se constrói com ruído ou vaidade. Constrói-se com constância, serviço e disposição para colocar o protagonismo individual a serviço de um propósito maior.

 

O futuro não está garantido. Outros meses virão, novos projetos nascerão, novas tecnologias modificarão os instrumentos de comunicação e novas linguagens transformarão as maneiras de produzir e compartilhar cultura. Essas mudanças exigirão capacidade de adaptação sem perda de identidade. A inovação será fecunda quando estiver a serviço da finalidade maior e não quando substituir os valores que sustentam a instituição.

 

Entre todas as transformações possíveis, permanecerá essencial aquilo que nenhuma tecnologia poderá substituir: o homem diante do homem, a inteligência diante da inteligência, o coração diante do coração e a vontade de fazer do conhecimento um instrumento de felicidade. A tecnologia pode ampliar o alcance de uma palavra, mas não pode determinar o valor humano dessa palavra. Pode aproximar geografias, mas não cria, por si mesma, fraternidade. Pode preservar documentos, mas não substitui a consciência daquele que reconhece a importância de preservá-los.

 

Por isso, os próximos meses da AIMI devem ser compreendidos como continuidade de um compromisso. Que suas letras continuem iluminando; que suas artes continuem encantando; que suas ciências continuem provocando reflexão; que sua memória continue preservando; que sua fraternidade continue aproximando; que sua força permaneça servindo; que sua beleza continue inspirando; e que sua sabedoria continue orientando.

 

Contar o tempo é uma maneira de medir a existência. Viver o tempo com propósito é outra coisa. É transformar dias em experiências, experiências em conhecimento, conhecimento em cultura, cultura em memória e memória em legado. Sob essa perspectiva, os verdadeiros vinte e oito meses da AIMI não estão apenas nos meses que ficaram para trás, mas naquilo que esses meses conseguiram projetar para diante.

 

A celebração, portanto, não deve ser apenas uma pausa para olhar o passado. Deve ser também exercício de consciência sobre o futuro. Celebrar é reconhecer o caminho percorrido, agradecer aqueles que o tornaram possível e renovar a disposição para continuar. É compreender que cada realização traz consigo uma nova responsabilidade e que todo legado verdadeiro exige continuidade.

 

A Academia Internacional de Maçons Imortais chega aos vinte e oito meses com uma obra ainda em construção. E talvez seja justamente essa a sua maior força: saber que nenhuma construção cultural se conclui definitivamente. Sempre haverá uma nova página a escrever, uma nova voz a ouvir, uma nova ideia a considerar, uma nova obra a preservar e uma nova geração a alcançar.

 

O futuro, nesse sentido, não deve ser esperado passivamente. Deve ser construído no presente. Cada confrade que escreve, pesquisa, ensina, cria, organiza, divulga ou preserva participa dessa construção. Cada palavra partilhada amplia o edifício. Cada gesto de fraternidade fortalece seus alicerces. Cada manifestação de cultura abre uma janela para o porvir.

 

Vinte e oito meses são, portanto, mais do que uma marca no calendário. São uma demonstração de que um sonho pode ganhar forma quando encontra pessoas dispostas a servi-lo. São memória, mas também compromisso. São celebração, mas também responsabilidade. São passado, presente e futuro reunidos no mesmo movimento.

 

Que a AIMI continue a transformar o tempo em memória, a memória em cultura e a cultura em instrumento de felicidade humana. Que seus confrades permaneçam unidos pela força de realizar, pela beleza de criar e pela sabedoria de servir. E que cada nova etapa seja compreendida não como simples passagem de tempo, mas como oportunidade de deixar no mundo algo que mereça permanecer.

 

Feliz vigésimo oitavo mês de existência, Academia Internacional de Maçons Imortais.

 

Que o Grande Arquiteto do Universo ilumine os caminhos daqueles que constroem esta obra, fortaleça suas mãos, inspire suas inteligências e faça de cada confrade um instrumento de cultura, fraternidade e progresso.

 

Maranguape, Ceará, 30 de setembro de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS – AIMI

Assessoria Especial da Presidência

Cléber Tomás Vianna

Diretoria de Comunicação Social

Bruno Bezerra de Macedo

QUANDO O MEDO SE SENTA À MESA

 

Há dias em que a gente acorda com a impressão de que o mundo resolveu fazer graça com a nossa cara. Não sei se é o mundo que anda assim ou se somos nós que, de tanto viver, acabamos descobrindo que a vida tem dessas coisas: para uns, ela chega carregada de augúrios; para outros, vem embrulhada em perjúrios. A mesma estrada que parece prometer flores a um pode oferecer pedras a outro. E, curiosamente, ambos seguem caminhando.

Eita mundo!

Não há quem consiga compreendê-lo por inteiro. Talvez porque o mundo não tenha sido feito para ser compreendido, mas, para ser vivido. Cada qual recebe seu quinhão de manhãs e noites, de chegadas e partidas, de alegrias e sustos. Uns carregam sonhos como quem leva uma vela acesa protegida do vento. Outros carregam preocupações como quem transporta um saco de pedras nas costas. Há ainda os que levam as duas coisas ao mesmo tempo, porque talvez seja exatamente disso que a existência seja feita: esperança e receio dividindo o mesmo espaço dentro da gente.

E, no meio de tudo, lá está ele.

O medo.

Esse sujeito estranho que não bate à porta. Entra.

Não pede licença. Senta-se.

E, quando a gente percebe, já está instalado na sala, de pernas cruzadas, olhando para nós com uma tranquilidade que chega a ser irritante.

O medo é engraçado.

Às vezes, realiza cedo aquilo que nem sequer aconteceu.

Antes de a vida dizer “não”, ele já nos convenceu de que não vai dar certo. Antes de a porta se fechar, ele já nos aconselhou a não tentar abri-la. Antes de o caminho apresentar qualquer dificuldade, ele constrói uma montanha inteira diante dos nossos olhos.

E o mais curioso é que o medo tem uma capacidade extraordinária de trabalhar com aquilo que não existe.

Ele fabrica futuros.

Constrói tragédias.

Ensaios de fracasso.

Despedidas antecipadas.

Perdas que nunca aconteceram.

Quedas que talvez jamais aconteçam.

O medo é um trabalhador incansável da imaginação.

E trabalha cedo.

Muito cedo.

Às vezes, antes mesmo de o sol nascer.

Há gente que perde a manhã inteira porque passou a madrugada conversando com um medo que sequer tinha acontecido.

É assim que ele age: determinado, silencioso e persistente.

Não se faz de rogado.

Age determinado!

Mas há uma coisa curiosa nesse personagem.

Ele parece muito valente quando está escondido.

No escuro, então, nem se fala.

No escuro, o medo ganha tamanho.

Uma sombra vira um monstro. Um ruído vira ameaça. Um silêncio vira presságio. Uma pequena dúvida transforma-se em sentença.

Mas acenda a luz.

Ah, meu amigo...

Sob a luz acesa, alguma coisa acontece.

O medo se encolhe.

Algo lhe tesa — retesa.

Ele já não parece tão poderoso.

É como se a claridade tivesse o dom de desmascará-lo.

Talvez por isso tanta gente tenha medo da luz. Não da luz do sol, evidentemente, mas daquela outra luz, mais incômoda, que ilumina aquilo que preferíamos manter escondido. A luz da consciência. A luz da verdade. A luz que nos obriga a olhar para dentro e reconhecer que, muitas vezes, o monstro que nos assustava tinha sido construído pelas nossas próprias sombras.

O medo gosta do escuro.

A coragem prefere a luz.

E talvez seja justamente por isso que uma não exista verdadeiramente sem a outra.

Já pensei que coragem fosse ausência de medo.

Hoje não penso mais assim.

Coragem, talvez, seja o contrário.

É sentir medo e continuar.

É tremer e seguir.

É duvidar e tentar.

É olhar para a estrada sabendo que ela pode ser difícil e, ainda assim, colocar o pé no primeiro passo.

Quem nunca sentiu medo talvez nunca tenha precisado ser corajoso.

Porque a coragem só aparece quando encontra alguma coisa que precisa ser enfrentada.

E aqui está uma das grandes ironias da existência: muitas vezes, aquilo que desejamos eliminar é justamente aquilo que nos prepara para aquilo que precisamos ser.

O medo, quando não nos domina, ensina.

Ensina prudência.

Ensina atenção.

Ensina humildade.

Ensina que não somos invencíveis.

Mas também ensina que não precisamos ser invencíveis para continuar.

Talvez seja essa a grande diferença entre o homem que se deixa governar pelo medo e aquele que aprende a conviver com ele.

Um se ajoelha diante do medo.

O outro o chama para sentar.

E é justamente aí que a conversa começa.

Há medos que precisam ser vencidos.

Outros precisam ser compreendidos.

Alguns precisam apenas ser colocados no seu devido lugar.

Porque o medo não deve ser senhor da casa.

Pode até ser hóspede.

Mas não pode receber as chaves.

Quando recebe as chaves, começa a mandar.

E o homem que entrega ao medo o governo da própria vida acaba vivendo uma existência que não escolheu.

Deixa de viajar porque tem medo do caminho.

Deixa de amar porque tem medo de perder.

Deixa de falar porque tem medo de ser incompreendido.

Deixa de tentar porque tem medo de fracassar.

Deixa de sonhar porque tem medo de acordar.

E assim, pouco a pouco, o medo vai transformando possibilidades em renúncias.

É uma maneira silenciosa de morrer antes da morte.

Conheço gente que passou a vida inteira esperando o momento certo.

Esperou tanto que o momento passou.

Esperou a ocasião perfeita.

Esperou ter certeza.

Esperou não sentir medo.

E a vida, que não costuma esperar por ninguém, foi passando pela janela.

Talvez a grande tragédia não seja fracassar.

Talvez seja nunca ter tentado.

Porque o fracasso, apesar de doloroso, pode nos ensinar alguma coisa.

A tentativa pode nos transformar.

A queda pode nos ensinar a levantar.

Mas a inércia nada ensina.

Quem não caminha não descobre a estrada.

Quem não abre a porta não sabe o que havia do outro lado.

Quem não pergunta permanece prisioneiro da própria dúvida.

E quem nunca enfrenta o medo jamais descobrirá do que é capaz.

É por isso que gosto tanto daquela ideia simples que apareceu quase naturalmente no meu poema:

O medo é pai da coragem.

Há uma verdade escondida nessa frase.

A coragem não nasce no conforto.

Ela nasce no enfrentamento.

Nasce quando alguma coisa dentro de nós diz “não vá” e outra, ainda pequena, responde “vou”.

Nasce quando o coração aperta, mas os pés continuam.

Nasce quando a voz treme, mas a palavra é pronunciada.

Nasce quando a noite parece longa, mas a gente acredita que haverá manhã.

Todo filho nos enfrenta bem.

E talvez seja essa a razão pela qual os nossos filhos, em tantos momentos, nos surpreendam.

Eles carregam algo de nós, mas não são nós.

Recebem nossa herança, mas constroem seus próprios caminhos.

Espelham de onde vêm, mas podem ir muito além de onde começamos.

Assim também acontece com a coragem.

Ela nasce do medo, mas não precisa permanecer parecida com ele.

Pode crescer.

Pode amadurecer.

Pode transformar-se em determinação.

Pode tornar-se serenidade.

Pode até chegar ao ponto em que já não sabemos se estamos sendo corajosos ou simplesmente fazendo aquilo que precisa ser feito.

Há pessoas que atravessam grandes tempestades sem discursos.

Não anunciam sua coragem.

Não fazem propaganda da resistência.

Apenas seguem.

Talvez essa seja a coragem mais bonita.

Aquela que não precisa ser vista.

Aquela que trabalha em silêncio.

Aquela que levanta cedo, prepara o café, enfrenta o dia, cumpre suas obrigações e volta para casa sem saber que, naquele mesmo dia, venceu batalhas que ninguém conheceu.

Há uma espécie de heroísmo escondido na vida comum.

O homem que permanece de pé depois de uma perda.

A mulher que recomeça depois de uma decepção.

O pai que continua trabalhando apesar do cansaço.

A mãe que sorri para o filho mesmo carregando suas próprias dores.

O velho que, depois de tantos invernos, ainda planta alguma coisa.

Todos eles sabem que a vida não oferece garantias.

Mesmo assim, continuam.

E talvez seja isso que o medo nunca consiga compreender.

O medo acredita que precisamos ter certeza para avançar.

A coragem sabe que avançamos justamente porque não temos certeza.

É impossível conhecer completamente o amanhã.

Podemos planejar, preparar, imaginar, mas jamais dominar o que ainda não aconteceu.

O futuro é um território sem mapas definitivos.

E talvez seja por isso que ele nos assuste tanto.

Mas também é por isso que ele é bonito.

Porque, se tudo estivesse determinado, não haveria surpresa.

Se todos os caminhos fossem conhecidos, não haveria descoberta.

Se todos os finais fossem antecipados, não haveria esperança.

O desconhecido assusta.

Mas o desconhecido também oferece possibilidade.

É nele que moram os sonhos.

É nele que se escondem os encontros que ainda não aconteceram.

As palavras que ainda não foram ditas.

As portas que ainda serão abertas.

Os lugares onde ainda iremos chegar.

Por isso, talvez seja necessário fazer as pazes com o amanhã.

Não precisamos amá-lo.

Não precisamos confiar cegamente nele.

Basta não fugir dele.

Há quem diga que o destino está escrito.

Outros acreditam que cada um constrói seu próprio caminho.

Talvez ambos tenham alguma razão.

Porque existem coisas que não escolhemos.

Não escolhemos onde nascemos.

Não escolhemos todas as circunstâncias que encontramos.

Não escolhemos as perdas, algumas doenças da vida, certos encontros, determinadas despedidas.

Mas escolhemos, muitas vezes, o que faremos com aquilo que nos aconteceu.

E essa escolha pode mudar tudo.

É aí que entram os sonhos.

Para uns, são fiéis desígnios.

Para outros, apenas desejos.

Mas, sejam desígnios ou sonhos, há algo de extraordinário em todos eles: apontam para algum lugar.

E quem tem um lugar para onde deseja ir encontra forças para atravessar o caminho.

Nem sempre chegamos exatamente onde imaginávamos.

Às vezes, a vida muda a rota.

Às vezes, aquilo que parecia perda era apenas mudança de direção.

Às vezes, uma porta fechada nos empurra para outra que jamais teríamos coragem de procurar.

É por isso que não gosto muito de chamar certas experiências de fracasso.

Há coisas que parecem fracasso enquanto acontecem e só muito depois revelam sua utilidade.

A vida tem dessas ironias.

O que ontem parecia fim pode amanhã parecer começo.

O que ontem doía pode amanhã ensinar.

O que ontem assustava pode amanhã ser lembrado com um sorriso.

E, quando olhamos para trás, percebemos que o medo passou.

Ele sempre passa.

Nenhum medo é eterno.

Nenhuma noite é eterna.

Nenhuma tempestade é eterna.

Mas é preciso atravessar.

E atravessar exige coragem.

Não aquela coragem de cinema, cheia de grandes gestos e discursos inflamados.

Falo da coragem miúda.

Aquela que cabe no bolso.

A coragem de levantar da cama.

De pedir perdão.

De dizer não.

De dizer sim.

De recomeçar.

De reconhecer um erro.

De abandonar um hábito.

De aceitar que algumas pessoas precisam seguir outros caminhos.

De continuar amando sem possuir.

De sonhar sem garantias.

De caminhar sem saber exatamente onde termina a estrada.

Talvez a vida seja isso.

Uma sucessão de pequenos enfrentamentos.

Um medo aqui.

Uma coragem ali.

Uma queda.

Um recomeço.

Uma dúvida.

Uma descoberta.

E, quando percebemos, já percorremos uma distância enorme.

É curioso pensar que o medo, aquele sujeito que tantas vezes tenta nos impedir de caminhar, pode acabar sendo justamente o responsável por nos ensinar a caminhar melhor.

Ele nos obriga a prestar atenção.

A conhecer nossos limites.

A reconhecer nossas fragilidades.

E, quando fazemos isso, descobrimos também nossas forças.

Talvez ninguém conheça verdadeiramente a própria coragem enquanto não for colocado diante de alguma coisa que o assuste.

É fácil ser valente quando tudo está bem.

Difícil é manter a esperança quando a paisagem muda.

Difícil é continuar acreditando quando a estrada desaparece.

Difícil é levantar quando o mundo parece dizer que permanecer no chão seria mais fácil.

Mas é justamente aí que alguma coisa dentro de nós se levanta.

Primeiro pequena.

Depois firme.

Depois determinada.

E descobrimos que havia dentro de nós uma força que o conforto jamais teria revelado.

O medo é pai da coragem.

Talvez seja.

E talvez seus filhos sejam mesmo destinados a enfrentá-lo.

Porque chega uma hora em que a coragem cresce tanto que olha para o pai e diz:

“Agora, quem manda sou eu.”

Não é uma guerra.

É amadurecimento.

O medo não precisa morrer.

Precisa apenas aprender o seu lugar.

Pode continuar sentado à mesa.

Pode até participar da sobremesa.

Mas não pode decidir o cardápio da nossa existência.

Há momentos em que ele permanecerá ali, quieto, observando.

Não tem problema.

Que fique.

Desde que não conduza nossos passos.

Porque viver é escolher caminhos.

E caminhos, por natureza, carregam riscos.

Não existem caminhos completamente seguros.

Até ficar parado é uma escolha e também tem seus riscos.

O tempo passa.

As oportunidades mudam.

As pessoas partem.

A juventude se transforma.

A vida segue.

Portanto, talvez seja melhor caminhar com algum medo do que permanecer parado esperando que ele desapareça.

Ele talvez nunca desapareça completamente.

Mas nós podemos crescer.

E, quando crescemos, o medo que antes parecia gigante começa a parecer apenas aquilo que sempre foi: uma sombra.

E sombra nenhuma sobrevive à luz.

No fim das contas, talvez o mundo seja mesmo essa grande mistura de augúrios e perjúrios, de sonhos e desilusões, de caminhos reais e possibilidades imaginadas.

Para uns, há desígnios.

Para outros, sonhos.

Para uns, fardos.

Para outros, asas.

Mas todos seguimos.

Todos temos nossos medos.

Todos carregamos alguma esperança.

Todos enfrentamos alguma coisa que ninguém mais consegue ver.

E todos, em algum momento, precisamos escolher entre permanecer sentados à mesa ou levantar.

Eu prefiro levantar.

Mesmo que o joelho trema.

Mesmo que o caminho seja comprido.

Mesmo que não haja certeza alguma.

Porque, no fundo, a vida não exige de nós que sejamos destemidos.

Exige apenas que não deixemos o medo decidir tudo.

E talvez seja essa a mais bonita lição que o medo pode nos dar.

Ele nos mostra onde dói.

A coragem nos ensina a tocar justamente ali.

Ele aponta o abismo.

A coragem procura a ponte.

Ele anuncia a noite.

A coragem acende a luz.

Ele diz: “Você não consegue.”

E a coragem, sem fazer alarde, responde:

“Vamos descobrir.”

E assim seguimos.

Um passo.

Depois outro.

Às vezes rápidos.

Às vezes vagarosos.

Às vezes carregando o mundo nas costas.

Às vezes leves como quem acabou de descobrir que não precisava carregar tanto.

Seguimos porque a vida não para.

Seguimos porque há caminhos esperando.

Seguimos porque existem sonhos que ainda não conhecemos.

Seguimos porque há encontros que ainda não aconteceram.

Seguimos porque, apesar de tudo, ainda há manhãs.

E enquanto houver manhãs, haverá possibilidade.

Talvez seja isso que faz deste mundo um lugar tão estranho e tão bonito.

Um mundo em que o medo pode sentar-se à mesa, mas a coragem ainda pode levantar-se.

Um mundo em que uns enxergam augúrios e outros perjúrios.

Um mundo em que alguns carregam fardos enquanto outros perseguem sonhos.

Um mundo em que cada qual interpreta a própria estrada conforme os olhos que possui.

Mas, no final, todos descobrimos a mesma coisa:

não há caminho sem incerteza.

Não há sonho sem risco.

Não há coragem sem medo.

E não há vida verdadeira sem a disposição de atravessar aquilo que nos assusta.

Eita mundo!

Tão contraditório.

Tão imprevisível.

Tão cheio de sombras e claridades.

Tão generoso e tão severo.

Tão capaz de nos ferir quanto de nos surpreender.

Talvez justamente por isso seja um mundo de prodígios.

Porque ainda conseguimos nascer depois de tantas despedidas.

Ainda conseguimos amar depois de tantas perdas.

Ainda conseguimos sonhar depois de tantos desencantos.

Ainda conseguimos levantar depois de tantas quedas.

E, sobretudo, ainda conseguimos olhar para o medo e dizer:

“Fique aí.

Eu vou.”

Maranguape, Ceará, 30 de Setembro de 2026

Bruno Bezerra de Macedo,

o Matuto do Carrasco.

A VERDADE NÃO SE CURVA À OPINIÃO

  Entre o certo e o errado há o ponto de vista. Verdades existem muitas, mas uma supera todas: a verdadeira. Afirma Tiago — filho do trovão,...