Há dias em que a
gente acorda com a impressão de que o mundo resolveu fazer graça com a nossa
cara. Não sei se é o mundo que anda assim ou se somos nós que, de tanto viver,
acabamos descobrindo que a vida tem dessas coisas: para uns, ela chega
carregada de augúrios; para outros, vem embrulhada em perjúrios. A mesma
estrada que parece prometer flores a um pode oferecer pedras a outro. E,
curiosamente, ambos seguem caminhando.
Eita mundo!
Não há quem
consiga compreendê-lo por inteiro. Talvez porque o mundo não tenha sido feito
para ser compreendido, mas, para ser vivido. Cada qual recebe seu quinhão de
manhãs e noites, de chegadas e partidas, de alegrias e sustos. Uns carregam
sonhos como quem leva uma vela acesa protegida do vento. Outros carregam
preocupações como quem transporta um saco de pedras nas costas. Há ainda os que
levam as duas coisas ao mesmo tempo, porque talvez seja exatamente disso que a
existência seja feita: esperança e receio dividindo o mesmo espaço dentro da
gente.
E, no meio de
tudo, lá está ele.
O medo.
Esse sujeito
estranho que não bate à porta. Entra.
Não pede licença.
Senta-se.
E, quando a gente
percebe, já está instalado na sala, de pernas cruzadas, olhando para nós com
uma tranquilidade que chega a ser irritante.
O medo é
engraçado.
Às vezes, realiza
cedo aquilo que nem sequer aconteceu.
Antes de a vida
dizer “não”, ele já nos convenceu de que não vai dar certo. Antes de a porta se
fechar, ele já nos aconselhou a não tentar abri-la. Antes de o caminho
apresentar qualquer dificuldade, ele constrói uma montanha inteira diante dos
nossos olhos.
E o mais curioso é
que o medo tem uma capacidade extraordinária de trabalhar com aquilo que não
existe.
Ele fabrica
futuros.
Constrói
tragédias.
Ensaios de
fracasso.
Despedidas
antecipadas.
Perdas que nunca
aconteceram.
Quedas que talvez
jamais aconteçam.
O medo é um
trabalhador incansável da imaginação.
E trabalha cedo.
Muito cedo.
Às vezes, antes
mesmo de o sol nascer.
Há gente que perde
a manhã inteira porque passou a madrugada conversando com um medo que sequer
tinha acontecido.
É assim que ele
age: determinado, silencioso e persistente.
Não se faz de
rogado.
Age determinado!
Mas há uma coisa
curiosa nesse personagem.
Ele parece muito
valente quando está escondido.
No escuro, então,
nem se fala.
No escuro, o medo
ganha tamanho.
Uma sombra vira um
monstro. Um ruído vira ameaça. Um silêncio vira presságio. Uma pequena dúvida
transforma-se em sentença.
Mas acenda a luz.
Ah, meu amigo...
Sob a luz acesa,
alguma coisa acontece.
O medo se encolhe.
Algo lhe tesa —
retesa.
Ele já não parece
tão poderoso.
É como se a
claridade tivesse o dom de desmascará-lo.
Talvez por isso
tanta gente tenha medo da luz. Não da luz do sol, evidentemente, mas daquela
outra luz, mais incômoda, que ilumina aquilo que preferíamos manter escondido.
A luz da consciência. A luz da verdade. A luz que nos obriga a olhar para
dentro e reconhecer que, muitas vezes, o monstro que nos assustava tinha sido
construído pelas nossas próprias sombras.
O medo gosta do
escuro.
A coragem prefere
a luz.
E talvez seja
justamente por isso que uma não exista verdadeiramente sem a outra.
Já pensei que
coragem fosse ausência de medo.
Hoje não penso
mais assim.
Coragem, talvez,
seja o contrário.
É sentir medo e
continuar.
É tremer e seguir.
É duvidar e
tentar.
É olhar para a
estrada sabendo que ela pode ser difícil e, ainda assim, colocar o pé no
primeiro passo.
Quem nunca sentiu
medo talvez nunca tenha precisado ser corajoso.
Porque a coragem
só aparece quando encontra alguma coisa que precisa ser enfrentada.
E aqui está uma
das grandes ironias da existência: muitas vezes, aquilo que desejamos eliminar
é justamente aquilo que nos prepara para aquilo que precisamos ser.
O medo, quando não
nos domina, ensina.
Ensina prudência.
Ensina atenção.
Ensina humildade.
Ensina que não
somos invencíveis.
Mas também ensina
que não precisamos ser invencíveis para continuar.
Talvez seja essa a
grande diferença entre o homem que se deixa governar pelo medo e aquele que
aprende a conviver com ele.
Um se ajoelha
diante do medo.
O outro o chama
para sentar.
E é justamente aí
que a conversa começa.
Há medos que
precisam ser vencidos.
Outros precisam
ser compreendidos.
Alguns precisam
apenas ser colocados no seu devido lugar.
Porque o medo não
deve ser senhor da casa.
Pode até ser
hóspede.
Mas não pode
receber as chaves.
Quando recebe as
chaves, começa a mandar.
E o homem que
entrega ao medo o governo da própria vida acaba vivendo uma existência que não
escolheu.
Deixa de viajar
porque tem medo do caminho.
Deixa de amar
porque tem medo de perder.
Deixa de falar
porque tem medo de ser incompreendido.
Deixa de tentar
porque tem medo de fracassar.
Deixa de sonhar
porque tem medo de acordar.
E assim, pouco a
pouco, o medo vai transformando possibilidades em renúncias.
É uma maneira
silenciosa de morrer antes da morte.
Conheço gente que
passou a vida inteira esperando o momento certo.
Esperou tanto que
o momento passou.
Esperou a ocasião
perfeita.
Esperou ter
certeza.
Esperou não sentir
medo.
E a vida, que não
costuma esperar por ninguém, foi passando pela janela.
Talvez a grande
tragédia não seja fracassar.
Talvez seja nunca
ter tentado.
Porque o fracasso,
apesar de doloroso, pode nos ensinar alguma coisa.
A tentativa pode
nos transformar.
A queda pode nos
ensinar a levantar.
Mas a inércia nada
ensina.
Quem não caminha
não descobre a estrada.
Quem não abre a
porta não sabe o que havia do outro lado.
Quem não pergunta
permanece prisioneiro da própria dúvida.
E quem nunca
enfrenta o medo jamais descobrirá do que é capaz.
É por isso que
gosto tanto daquela ideia simples que apareceu quase naturalmente no meu poema:
O medo é pai da
coragem.
Há uma verdade
escondida nessa frase.
A coragem não
nasce no conforto.
Ela nasce no
enfrentamento.
Nasce quando
alguma coisa dentro de nós diz “não vá” e outra, ainda pequena, responde “vou”.
Nasce quando o
coração aperta, mas os pés continuam.
Nasce quando a voz
treme, mas a palavra é pronunciada.
Nasce quando a
noite parece longa, mas a gente acredita que haverá manhã.
Todo filho nos
enfrenta bem.
E talvez seja essa
a razão pela qual os nossos filhos, em tantos momentos, nos surpreendam.
Eles carregam algo
de nós, mas não são nós.
Recebem nossa
herança, mas constroem seus próprios caminhos.
Espelham de onde
vêm, mas podem ir muito além de onde começamos.
Assim também
acontece com a coragem.
Ela nasce do medo,
mas não precisa permanecer parecida com ele.
Pode crescer.
Pode amadurecer.
Pode
transformar-se em determinação.
Pode tornar-se
serenidade.
Pode até chegar ao
ponto em que já não sabemos se estamos sendo corajosos ou simplesmente fazendo
aquilo que precisa ser feito.
Há pessoas que
atravessam grandes tempestades sem discursos.
Não anunciam sua
coragem.
Não fazem
propaganda da resistência.
Apenas seguem.
Talvez essa seja a
coragem mais bonita.
Aquela que não
precisa ser vista.
Aquela que
trabalha em silêncio.
Aquela que levanta
cedo, prepara o café, enfrenta o dia, cumpre suas obrigações e volta para casa
sem saber que, naquele mesmo dia, venceu batalhas que ninguém conheceu.
Há uma espécie de
heroísmo escondido na vida comum.
O homem que
permanece de pé depois de uma perda.
A mulher que
recomeça depois de uma decepção.
O pai que continua
trabalhando apesar do cansaço.
A mãe que sorri
para o filho mesmo carregando suas próprias dores.
O velho que,
depois de tantos invernos, ainda planta alguma coisa.
Todos eles sabem
que a vida não oferece garantias.
Mesmo assim,
continuam.
E talvez seja isso
que o medo nunca consiga compreender.
O medo acredita
que precisamos ter certeza para avançar.
A coragem sabe que
avançamos justamente porque não temos certeza.
É impossível
conhecer completamente o amanhã.
Podemos planejar,
preparar, imaginar, mas jamais dominar o que ainda não aconteceu.
O futuro é um
território sem mapas definitivos.
E talvez seja por
isso que ele nos assuste tanto.
Mas também é por
isso que ele é bonito.
Porque, se tudo
estivesse determinado, não haveria surpresa.
Se todos os
caminhos fossem conhecidos, não haveria descoberta.
Se todos os finais
fossem antecipados, não haveria esperança.
O desconhecido
assusta.
Mas o desconhecido
também oferece possibilidade.
É nele que moram
os sonhos.
É nele que se
escondem os encontros que ainda não aconteceram.
As palavras que
ainda não foram ditas.
As portas que
ainda serão abertas.
Os lugares onde
ainda iremos chegar.
Por isso, talvez
seja necessário fazer as pazes com o amanhã.
Não precisamos
amá-lo.
Não precisamos
confiar cegamente nele.
Basta não fugir
dele.
Há quem diga que o
destino está escrito.
Outros acreditam
que cada um constrói seu próprio caminho.
Talvez ambos
tenham alguma razão.
Porque existem
coisas que não escolhemos.
Não escolhemos
onde nascemos.
Não escolhemos
todas as circunstâncias que encontramos.
Não escolhemos as
perdas, algumas doenças da vida, certos encontros, determinadas despedidas.
Mas escolhemos,
muitas vezes, o que faremos com aquilo que nos aconteceu.
E essa escolha
pode mudar tudo.
É aí que entram os
sonhos.
Para uns, são
fiéis desígnios.
Para outros,
apenas desejos.
Mas, sejam
desígnios ou sonhos, há algo de extraordinário em todos eles: apontam para
algum lugar.
E quem tem um
lugar para onde deseja ir encontra forças para atravessar o caminho.
Nem sempre
chegamos exatamente onde imaginávamos.
Às vezes, a vida
muda a rota.
Às vezes, aquilo
que parecia perda era apenas mudança de direção.
Às vezes, uma
porta fechada nos empurra para outra que jamais teríamos coragem de procurar.
É por isso que não
gosto muito de chamar certas experiências de fracasso.
Há coisas que
parecem fracasso enquanto acontecem e só muito depois revelam sua utilidade.
A vida tem dessas
ironias.
O que ontem
parecia fim pode amanhã parecer começo.
O que ontem doía
pode amanhã ensinar.
O que ontem
assustava pode amanhã ser lembrado com um sorriso.
E, quando olhamos
para trás, percebemos que o medo passou.
Ele sempre passa.
Nenhum medo é
eterno.
Nenhuma noite é
eterna.
Nenhuma tempestade
é eterna.
Mas é preciso
atravessar.
E atravessar exige
coragem.
Não aquela coragem
de cinema, cheia de grandes gestos e discursos inflamados.
Falo da coragem
miúda.
Aquela que cabe no
bolso.
A coragem de
levantar da cama.
De pedir perdão.
De dizer não.
De dizer sim.
De recomeçar.
De reconhecer um
erro.
De abandonar um
hábito.
De aceitar que
algumas pessoas precisam seguir outros caminhos.
De continuar
amando sem possuir.
De sonhar sem
garantias.
De caminhar sem
saber exatamente onde termina a estrada.
Talvez a vida seja
isso.
Uma sucessão de
pequenos enfrentamentos.
Um medo aqui.
Uma coragem ali.
Uma queda.
Um recomeço.
Uma dúvida.
Uma descoberta.
E, quando
percebemos, já percorremos uma distância enorme.
É curioso pensar
que o medo, aquele sujeito que tantas vezes tenta nos impedir de caminhar, pode
acabar sendo justamente o responsável por nos ensinar a caminhar melhor.
Ele nos obriga a
prestar atenção.
A conhecer nossos
limites.
A reconhecer
nossas fragilidades.
E, quando fazemos
isso, descobrimos também nossas forças.
Talvez ninguém
conheça verdadeiramente a própria coragem enquanto não for colocado diante de
alguma coisa que o assuste.
É fácil ser
valente quando tudo está bem.
Difícil é manter a
esperança quando a paisagem muda.
Difícil é
continuar acreditando quando a estrada desaparece.
Difícil é levantar
quando o mundo parece dizer que permanecer no chão seria mais fácil.
Mas é justamente
aí que alguma coisa dentro de nós se levanta.
Primeiro pequena.
Depois firme.
Depois
determinada.
E descobrimos que
havia dentro de nós uma força que o conforto jamais teria revelado.
O medo é pai da
coragem.
Talvez seja.
E talvez seus
filhos sejam mesmo destinados a enfrentá-lo.
Porque chega uma
hora em que a coragem cresce tanto que olha para o pai e diz:
“Agora, quem manda
sou eu.”
Não é uma guerra.
É amadurecimento.
O medo não precisa
morrer.
Precisa apenas
aprender o seu lugar.
Pode continuar
sentado à mesa.
Pode até
participar da sobremesa.
Mas não pode
decidir o cardápio da nossa existência.
Há momentos em que
ele permanecerá ali, quieto, observando.
Não tem problema.
Que fique.
Desde que não
conduza nossos passos.
Porque viver é
escolher caminhos.
E caminhos, por
natureza, carregam riscos.
Não existem
caminhos completamente seguros.
Até ficar parado é
uma escolha e também tem seus riscos.
O tempo passa.
As oportunidades
mudam.
As pessoas partem.
A juventude se
transforma.
A vida segue.
Portanto, talvez
seja melhor caminhar com algum medo do que permanecer parado esperando que ele
desapareça.
Ele talvez nunca
desapareça completamente.
Mas nós podemos
crescer.
E, quando
crescemos, o medo que antes parecia gigante começa a parecer apenas aquilo que
sempre foi: uma sombra.
E sombra nenhuma
sobrevive à luz.
No fim das contas,
talvez o mundo seja mesmo essa grande mistura de augúrios e perjúrios, de
sonhos e desilusões, de caminhos reais e possibilidades imaginadas.
Para uns, há
desígnios.
Para outros,
sonhos.
Para uns, fardos.
Para outros, asas.
Mas todos
seguimos.
Todos temos nossos
medos.
Todos carregamos
alguma esperança.
Todos enfrentamos
alguma coisa que ninguém mais consegue ver.
E todos, em algum
momento, precisamos escolher entre permanecer sentados à mesa ou levantar.
Eu prefiro
levantar.
Mesmo que o joelho
trema.
Mesmo que o
caminho seja comprido.
Mesmo que não haja
certeza alguma.
Porque, no fundo,
a vida não exige de nós que sejamos destemidos.
Exige apenas que
não deixemos o medo decidir tudo.
E talvez seja essa
a mais bonita lição que o medo pode nos dar.
Ele nos mostra
onde dói.
A coragem nos
ensina a tocar justamente ali.
Ele aponta o
abismo.
A coragem procura
a ponte.
Ele anuncia a
noite.
A coragem acende a
luz.
Ele diz: “Você não
consegue.”
E a coragem, sem
fazer alarde, responde:
“Vamos descobrir.”
E assim seguimos.
Um passo.
Depois outro.
Às vezes rápidos.
Às vezes
vagarosos.
Às vezes
carregando o mundo nas costas.
Às vezes leves
como quem acabou de descobrir que não precisava carregar tanto.
Seguimos porque a
vida não para.
Seguimos porque há
caminhos esperando.
Seguimos porque
existem sonhos que ainda não conhecemos.
Seguimos porque há
encontros que ainda não aconteceram.
Seguimos porque,
apesar de tudo, ainda há manhãs.
E enquanto houver
manhãs, haverá possibilidade.
Talvez seja isso
que faz deste mundo um lugar tão estranho e tão bonito.
Um mundo em que o
medo pode sentar-se à mesa, mas a coragem ainda pode levantar-se.
Um mundo em que
uns enxergam augúrios e outros perjúrios.
Um mundo em que
alguns carregam fardos enquanto outros perseguem sonhos.
Um mundo em que
cada qual interpreta a própria estrada conforme os olhos que possui.
Mas, no final,
todos descobrimos a mesma coisa:
não há caminho sem
incerteza.
Não há sonho sem
risco.
Não há coragem sem
medo.
E não há vida
verdadeira sem a disposição de atravessar aquilo que nos assusta.
Eita mundo!
Tão contraditório.
Tão imprevisível.
Tão cheio de
sombras e claridades.
Tão generoso e tão
severo.
Tão capaz de nos
ferir quanto de nos surpreender.
Talvez justamente
por isso seja um mundo de prodígios.
Porque ainda
conseguimos nascer depois de tantas despedidas.
Ainda conseguimos
amar depois de tantas perdas.
Ainda conseguimos
sonhar depois de tantos desencantos.
Ainda conseguimos
levantar depois de tantas quedas.
E, sobretudo,
ainda conseguimos olhar para o medo e dizer:
“Fique aí.
Eu vou.”
Maranguape, Ceará, 30 de Setembro
de 2026
Bruno Bezerra de Macedo,
o Matuto do Carrasco.

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