Desistir é preciso quando a guerra
está ganha, pois, é desperdício de força continua a guerrear por guerrear. Mas,
também, é vital a desistência quando não mais jeito, como afirma o povo: se não
há jeito, remediado está! Concernente a isto, desistir é o mais alto grau de
responsabilidade em graciosa manifestação a bem dos melhores viver e convívio.
"O que não tem remédio,
remediado está" é amplamente documentado na tradição lusófona e aparece inclusive
em obras de Fernando Pessoa (no Arquivo Pessoa, classificado como
"preceito prático necessariamente insensato"). O adágio manifesta a
ideia de que, diante do inevitável, a resignação não é covardia, mas, lucidez –
aceitar o que foge ao nosso controle.
"Uma vez começada a
batalha, ainda que estejas ganhando, se continuares por muito tempo,
desanimarás as tuas tropas", como afirma Sun Tzu; o que robustece a noção hodierna
de que desistir é um ato de coragem, não de fraqueza, como discutem diversos
ensaístas brasileiros, como Juan Arias. "É o mais alto grau de
responsabilidade em graciosa manifestação".
A virtude não é apenas
"fazer a coisa certa", mas fazê-la no momento certo, na medida certa,
e cessá-la no momento certo, afirma Aristóteles. Continuar uma guerra já ganha é
errar por excesso. Neste fito, a desistência não é o oposto da coragem: é o seu
termo médio. Saber parar é saber o que está em jogo; não saber parar é, na
verdade, jogar contra si mesmo.
O provérbio "o que não tem
remédio, remediado está" traz uma lógica que a filosofia moderna costuma
tratar com desdém: a ideia de que a aceitação é a remediação. Porém, é
exatamente aí que o gesto se torna filosófico. Em Hegel, o espírito avança por
negação que se conserva: é aufgehoben – simultaneamente anulado,
preservado e elevado.
Desistir, nesse sentido, não é
apagar o que se fez; é transformar a luta em memória operante. A guerra perdida
deixa de ser um fardo e passa a ser uma condição. O "remediado está"
não é resignação passiva: é o momento em que o sujeito metaboliza a derrota e a
converte em terreno para o próximo movimento no tabuleiro eterno jogo de xadrez:
vida.
A desistência não é um ato
feio, não é um recuo vergonhoso, muito um corromper dos sãos princípios ético-morais,
longe disso, é um gesto de elegância, porque exige que o sujeito se coloque
diante do real sem a proteção da ilusão de que "ainda dá". É uma “graciosa
manifestação” de que a sobreposição do espírito sobre a matéria é a perfeição do
melhor coexistir.
Em Levinas, a responsabilidade
é, antes de tudo, responsabilidade pelo outro: o que eu faço com o meu esforço
afeta aqueles que estão comigo acalorados pela luta in curso. Continuar a
guerrear por guerrear é um ato de egoísmo temporal – eu consumo o tempo, a
energia e a vida dos outros para sustentar o meu orgulho desmedido e
desembestado.
Weber, em Política como
vocação, desenvolve o mesmo pensamento: o político responsável não é o que luta
até a morte, mas, o que sabe medir as consequências de cada ato sobre os que
dependem dele. Desistir, aqui, é um ato de justiça – não me devo a mim mesmo o
direito de arrastar os outros para uma guerra que já não tem sentido. Tão pouco
lutar por nada!
O "basta" é o ponto
exato em que o homem recupera a última liberdade - a escolha da atitude pessoal
diante de um conjunto de circunstâncias. Não é o fim do sofrimento, nem a
vitória sobre ele – é o instante em que, diante do imutável, se escolhe como
responder. Viktor Frankl chama isso de coragem: a dignidade com que se
enfrenta o que não se pode mudar.
A "graciosa
manifestação" é, então, o denominação desse momento em que a força se
converte em juízo: não mais a força de continuar, mas, a força de dizer basta.
E, como em toda dialética, é nesse "basta" que se manifesta a
integridade plena – inteira – não como vencedor, tão pouco como perdedor, mas, como
discernimento pleno que estabelece a coragem de agir.
O "basta" – o limite,
o ponto em que se diz "é o suficiente" – é o espaço onde a
integridade se revela em sua totalidade, além da dicotomia vencedor/perdedor.
Não se trata de triunfar, muito menos de ceder, mas, de um discernimento que,
ao perceber o limite, não paralisa: ele estabelece a coragem de agir com responsabilidade
sob a regência do respeito e da disciplina.
A coragem de persistir é a
coragem de quem ainda tem algo a provar. A coragem de desistir é a coragem de
quem já provou – e escolhe, mesmo assim, voltar a desejar a partir do que é, e
não do que prometeu. Adam Phillips em Sobre Desistir (2024) afirma que “a
desistência não é o oposto da ação” – envolve contemplar o próprio fim sem o
escudo-ilusão do “ainda dá”.
Filosoficamente, ecoa uma
postura que se aproxima do estoicismo (agir conforme o discernimento, não
conforme o resultado) e, também, de certas tradições contemplativas, onde o
"basta" é o momento de aceitação que libera a ação autêntica –
diferente da inércia do perdedor e diferente da agressividade do vencedor. Envolve
equilíbrio e serenidade.
O "basta" fez-se um
código ético: a integridade plena não é a coerência de um princípio fixo (que
seria, no fundo, a rigidez do vencedor), nem a adaptação fluida às
circunstâncias (que seria a passividade do perdedor). É a capacidade de discernir,
a cada momento, onde a ação cessa e onde recomeça – e de agir, nesse intervalo,
com inteira responsabilidade e prontidão.
O "basta" não é o fim
da ação. É o que permite que a ação seja ação – e não compulsão, nem fuga. A chave
winnicottiana: dizer "não" ao excesso, ao prolongamento compulsivo, à
onipotência de "sempre poder mais" – e, nesse "não", liberar
a ação verdadeira, não a parasitaria. O limite não é punição – é o
"não" que traz madureza e que cria a melhor autoimagem.
Portanto, o "basta"
que se manifesta na integridade plena é, então, o momento em que a pessoa não
se dissocia – não mente a si mesma para continuar agindo além do limite (falso autoimagem
winnicottiana), nem mente aos outros para evitar o conflito (passividade). Age
de um ponto de alinhamento entre emoção, pensamento e ação onde a ordem reina
contente.
Na prática, o "basta"
pleno se apresenta como o que a psicologia chama de função psíquica preservada:
a capacidade de tolerar a angústia do limite sem se desintegrar, sem reagir com
agressão ou fuga, e sem se paralisar. O "basta" durkheimiano é a
norma internalizada que modera o desejo: é o ponto em que não precisa mais do
resultado para agir – o "basta" é a condição que garante a autenticidade
da ação.
É o ponto em que em vez de se
entregar à ilimitação (que é a anomia), reconhece o limite imposto pela vida em
coletividade e, a partir dele, age. A consciência coletiva não é apenas um
conjunto de crenças compartilhadas – é o mecanismo pelo qual a sociedade impõe fronteiras
entre o desejável e o possível, entre a aspiração infinita e o limite social.
O "basta" é uma forma
de capital simbólico: saber quando parar é, nos campos, uma distinção que
separa o agente autêntico do que se deixa arrastar pela lógica do campo (o
"vencedor" que nunca para) ou pelo esgotamento (o "perdedor"
que para sem discernir). É um ato arendtiano por excelência: nada produz, nada
satisfaz – ele desvela o agente.
O "basta" é, neste
fito, um ato de natalidade: o vencedor continua o processo (mais, mais, mais); o
perdedor se submete a ele. O que diz "basta" interrompe – e, ao
interromper, inaugura, criar algo de novo. Por isso desisto e sigo os influxos
do tempo e do espaço que eflorescem o novo, em fervorosa ascenção à luz, que além
de fazer crescer a lavoura, alimenta o progresso dos homens e faz expandir todo
o universo.
Uma jornada que não se deve retardar,
muito menos recursar, pois, tal estagnação tem por recompensa ser “estátua de
sal” no meio do caminho do “basta”. O "basta", portanto, é o momento em
que o agente deixa de ser papel e se torna sujeito – não porque tenha vencido o
jogo, mas, porque redefiniu as regras do jogo em que estava. O basta é um ato
de regulação!
Maranguape, Ceará, 06 de Outubro de 2026
Bruno Bezerra de Macedo,
O Matuto do Carrasco.

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