sábado, 4 de julho de 2026

A PAZ ENVOLVE OLHAR VISIONÁRIO E ATITUDES JUSTAS

Na data de hoje (04/07) há exatos Hum Mil Cento e Noventa anos Benevetanos e Napolitanos assinavam o Pacto de Sicardo que celebrava a Paz entre o grego Ducado de Nápoles, incluindo suas cidades-estados satélites de Sorrento e Amalfi, representadas pelo bispo João IV e o Duque André II, e Sircado, Príncipe Lombardo de Benevento, pondo fim a uma guerra que já durava 20 anos. Pelo tratado, Sicardo reconheceu os direitos dos mercadores das três cidades de viajar por seus domínios, navegando livremente pelos rios Pátria, Volturno e Minturno.

 

Sicardo abriu a navegação fluvial em seus domínios a mercadores, responsales (enviados) e milícias (soldados) e, justo, aboliu a lex naufragii (lei do naufrágio) pela qual o proprietário de terras em cuja costa um navio naufragado ou sua carga naufragou era o possuidor dessa riqueza: “Se um navio naufragar por culpa [dos homens a bordo] os bens nele encontrados devem ser sejam devolvidos àquele a quem pertenceram e ainda pertencem". Esta medida, protegendo os direitos de propriedade das companhias de navegação e comerciantes, foi "muito avançada para estes tempos".

 

A mestria de Sicardo dissemina que a construção da paz vai muito além da simples ausência de conflitos ou da passividade. Como bem percebido, ela exige um olhar visionário – uma capacidade de enxergar além das diferenças imediatas e cultivar empatia, entendendo que amar significa respeitar sem buscar controlar – e atitudes justas, que se traduzem em ações pautadas pelo diálogo, tolerância, respeito à vida e defesa dos Direitos Humanos sob a rutilância da alteridade. Esse equilíbrio é essencial para transformar a ambiência que nos abraça e para garantir o florescimento humano.

 

Uma sociedade pacífica depende do fluxo de informações transparentes e do entendimento democrático, para assim construí-la faz mister robustecer dia a dia o pilar fundamental de ouvir para compreender, colocando-se no lugar do outro para enxergar as situações sob uma nova perspectivas. Cultuar a paz requer medir o sucesso não apenas por posses materiais, mas, principalmente, pelo bem-estar e pelo cultivo de uma mente serena e positivas, sabendo que a coragem para perdoar e a prática da generosidade são chaves essenciais para romper ciclos de ressentimento que obstam a paz.

 

A alteridade fulcra-se no reconhecimento da responsabilidade do Eu para com o Outro, desafiando a ontologia individualista e promovendo a convivência em sociedades plurais. Imbuindo todas as agências do homem na promoção da paz, ela concita à promoção da igualdade de gêneros, da tolerância religiosa, étnica e social e à luta contra o preconceito, sendo alicerce para a edificação de uma cultura de paz. A alteridade vai além da mera tolerância, que pode implicar dominação, exigindo uma ética da responsabilidade que reconhece a assimetria e a singularidade do outro.

 

A aplicação da alteridade visa à Justiça Social, onde o respeito à diferença e a equidade permitem o pleno desenvolvimento da dignidade humana e a superação do preconceito – transforma o respeito em leis, políticas públicas e ações afirmativas que protegem minorias – e do etnocentrismo – evita que usemos nossa própria cultura como única régua para julgar o comportamento alheio. Garante a distribuição de recursos e oportunidades considerando as necessidades reais de cada grupo, indo além da igualdade formal previstas na Constituição Federal e na Declaração de Direitos Humanos.

 

Como defende Emmanuel Lévinas, a ética é a filosofia primeira, nascendo no encontro face a face com o Outro, que se revela através do seu Rosto. Essa relação não é baseada no conhecimento ou na redução do diferente ao "Mesmo" (Totalidade), mas sim, no reconhecimento da Alteridade absoluta e transcendente do próximo. Este pensar potencializa a responsabilidade pelo Outro como o fundamento da existência ética, opondo-se a filosofias ocidentais centradas no "eu" ou no utilitarismo. Exige responder às necessidades do Outro de forma incondicional e infinita.

 

Diferente de animais ou objetos, que podem ter valor instrumental (serem meios para fins humanos), o ser humano tem um lugar especial na criação devido à sua capacidade racional e liberdade. Além disso, todo ser racional possui um valor absoluto (dignidade) e não um preço relativo. A pessoa é definida como autônoma, racional, livre e responsável, construindo sua identidade ao longo da vida, o que a torna singular, única e irrepetível, existindo como fim em si mesmo e jamais como um meio para um fim, sendo este conceito a coluna mestra da ética kantiana.

 

Sintetizando o núcleo da dignidade humana sob as perspectivas da antropologia filosófica, da ética e do direito, essa unicidade não se resume apenas à composição genética, que serve de base biológica, mas, abrange uma identidade ontológica e psicológica complexa. Diferente de outros seres, a pessoa não é estática; ela autoconstrói ao longo da vida através de suas escolhas e relações. Relacional e comunicativa, a pessoa edifica sua identidade social na interação com o outro e com o mundo, como afirma Karl Jaspers que vê nesta interatividade o sentido da existência humana.

 

Essa visão foi retomada e expandida pelo personalismo, especialmente por Emmanuel Mounier, que prenuncia que a pessoa é um absoluto, como uma efusiva resposta aos totalitarismos do século XX (como o nazismo e o marxismo), que reduziam o indivíduo a um instrumento da revolução, do Estado ou da raça. Segundo ele, o indivíduo nada tem de egocêntrico, mas sim, de ser integral, dotado de corpo e alma, capaz de transcendência, que vale por si mesma e nunca pode ser sacrificada por uma meta coletiva.

 

Incontestavelmente, embora a identidade ontológica – aquilo que o ser é em sua essência e dignidade – seja estável, a identidade psicológica e social está em constante reestruturação. O processo de tornar-se quem se é envolve a integração de componentes biológicos, históricos e relacionais. Crises de identidade podem ocorrer quando há uma falha nessa integração ou quando pressões externas tentam impor uma identidade falsa. Ainda assim, o núcleo da pessoa permanece como um bem inviolável, exigindo proteção contra qualquer forma de manipulação que negue sua unicidade.

 

Envolve rejeitar qualquer sistema que subordine o ser humano a ideologias, mercados ou tecnologias. Exige que as leis, as políticas públicas e as relações interpessoais sejam pautadas pelo respeito incondicional à vida e à liberdade de cada um. A verdadeira felicidade e realização humana preceituada estudos e reflexões filosóficas, não surgem do egoísmo ou da autoafirmação isolada, mas sim, da doação de si em relações autênticas, onde cada parte reconhece e acolhe a infinitude e a dignidade da outra – livres e únicos. Neste influxo, a existência plena se realiza e a paz abraça a todos por igual.

 

A igualdade é condição sine qua non para a efetivação da liberdade, especialmente no que tange aos direitos econômicos, sociais e culturais (que mitigam as desigualdades de fato), como presumiu Sicardo há mais de mil anos atrás. A igualdade é pilar fundamenta e condição prévia para uma sociedade justa, onde a dignidade humana é respeitada universalmente e a paz lastreia o progresso individual e coletivo na equidade como vistos no Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) da ONU de 1966.


Maranguape, Ceará, 04 de Julho de 2026 


Bruno Bezerra de Macedo, o Matuto do Carrasco

Jornalista – ACI nº 1789

Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE

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