segunda-feira, 18 de maio de 2026

A SAGA DO PRIMEIRO ESCRITOR CEARENSE

 

Homem de ascendência nobre, conhecido como Padre Mororó, agnome adotado em presença de Bárbara de Alencar, que reunia os Confederados do Equador, Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo, nasceu em Groaíras, então chamada de Riacho dos Guimarães em 24 de julho de 1774, Filho do Alferes Félix José de Sousa e Oliveira – Escrivão e Vereador da Câmara de Sobral – e de Teodósia Maria de Jesus Madeira.

Gonçalo teve como sobrenome registrado o de sua avó materna. A respeito de seu avô materno, diz o Barão de Studart: "Manuel de Matos Madeira, português, que para a antiquíssima povoação do Riacho dos Guimarães, próxima da vila de Caiçara (Sobral) já viera casado, rezando crônicas sertanejas que, conforme após a morte de Madeira, se verificou de papéis que este sempre subtraíra ao conhecimento dos mais íntimos, era o dito Madeira, que no Estado tem grande descendência, um alto titular da nobreza de Portugal, de nome diverso desse pelo qual se fazia tratar, e evadido da sua terra ante a mortal perseguição desenvolvida contra a sua família pelo Conde de Oeiras, poderosíssimo Ministro d'El-Rei Dom José.

Era primo-irmão do Padre Miguelinho e primo-tio de Tomás Pompeu de Sousa Brasil.

 

Depois de uma infância dedicada aos estudos da gramatica latina, aos 22 anos de idade, Gonçalo parte para o Pernambuco, onde matricula-se no Curso de Teologia do Egrégio Seminário de Olinda, vindo a se aprofundar em Ciências Físicas e Naturais, influenciado por seu Primo-Irmão Frei Miguelino, mergulhando nos ideais iluministas, que passam a nortear gloriosos momentos de sua vida, resignada e corajosamente vivida em prol da felicidade humana.​

 

Instalado no ano de 1800, sob a égide de D. Azeredo Coutinho, o Seminário de Olinda pregaria o iluminismo, caminhando pari passu ao lado da retórica e da Teologia. Dentre os lentes do Seminário, sobressaiam-se o Frei Joaquim do Amor Divino Caneca e os padres Roma e João Ribeiro Pessoa, tendo como vanguardeiros Miguel Joaquim de Almeida Castro (Frei Miguelino) Mons. Francisco Muniz Tavares e Luiz de Melo Mendonça. À instituição religiosa recorreram rapazes das mais diversas localizações, dentre essas, o Ceará. Diga-se que todos eles, como maçons, moviam-se sob a inspiração da Arte Real do Grande Arquiteto do Universo.​

 

Padre Mororó destacou-se como idealizador e signatário da histórica sessão de 9 de janeiro de 1824 da Câmara de Quixeramobim. Neste dia, reunidos clero, nobreza e povo, proclamou-se a Primeira República do Brasil, rompendo assim com a monarquia absolutista de D. Pedro I. O motivo daquela histórica sessão foi a grande traição cometida pelo imperador, que dissolveu, em novembro de 1823, a Assembleia Geral Legislativa e Constituinte que ele mesmo houvera instalado para escrever a primeira Constituição do Brasil, em maio do ano de 1823.

 

Segundo o Jornalista João Brígido, em trabalho publicado em 1889 na Revista do Instituto do Ceará, “a Câmara de Quixeramobim, naquela data, declarou a deposição do trono do Imperador e seus descendentes. Deliberou ainda que se curasse dos meios de substituir a forma de governo convidando as demais câmaras da província para cooperarem com a organização de uma república”.​

 

Tudo isso aconteceu em 1824, 65 anos antes da Proclamação da República “provisória” dos Estados Unidos do Brasil, em 1889, sete meses antes da Confederação do Equador, iniciada em 26 de agosto de 1824.​

 

Comandadas pelo groairense Padre Mororó – que, além de liderar, participar e subscrever aquela memorável ata, determinou que fossem enviadas deputações a outras Vilas para comunicar e conseguir adesão, como de fato sucedeu – as Câmaras das Vilas de Icó, Aracati e São Bernardo das Éguas aderiram de imediato à causa, reproduzindo e fortalecendo o movimento que daí se espalhou por toda a província do Nordeste.

O heroico movimento teve figuras ilustres dos cratenses: Bárbara de Alencar e seus filhos José Martiniano e Tristão Gonçalves, do groairense, Mororó, do sergipano de Santo Amaro da Brotas, de Pereira Filgueiras e tantos outros bravos e proeminentes conterrâneos. Todos escondidos por trás de alcunhas como: Alecrim, Anta, Araripe, Aroeira, Baraúna, Beija-flor, Bolão, Carapinima, Crueira, Ibiapina, Jaguaribe, Jucás, Manjericão, Mororó, Sucupiras, Oiticica.

E, mesmo cientes de que a luta poderia lhes trazer serias consequências, foram adiante, mesmo pagando com a vida.

 

Em 1824, eclodiu o movimento confederado sob a inspiração do então presidente de Pernambuco, Manuel de Carvalho Paes de Andrade, quando um plano de solidariedade foi firmado, alastrando-se entre as Províncias do Nordeste com a denominação de Confederação do Equador. Dentre os planos, estava o projeto de criação da “Tipografia Nacional”, o que oportunizou o Ceará instalar uma oficina de artes gráficas.​

 

A 1º de abril de 1824, circulou o primeiro número do Diário do Governo do Ceará, a maior importância histórica no governo do Presidente Pedro da Costa Barros. O Padre Mororó fora nomeado Redator da folha por ser “pessoa de instrução e conhecimentos”, como reporta documentos guardado pelo Arquivo Público Cearense. Durante alguns meses de circulação, veio à descoberta que a folha não passava de um órgão da propaganda republicana. Seu redator teve a prisão decretada ao lado de outros “celerados”.​

 

O Cronista Viriato Correia descreve com perfeição os últimos momentos de Padre Mororó: “Na praça em que vai haver a execução, a multidão é tanta que, a custo, as tropas conseguem abrir passagem. Mororó é colocado na coluna da morte. Um soldado traz a venda para lhe por nos olhos, mas, ele a rejeita afirmando desejar ver como isto é. Vem outro soldado para colocar-lhe sobre o coração a pequena roda de papel vermelho que vai servir de alvo, porém, Mororó, resignado, o detém dizendo não ser necessário, pois, ele mesmo faria o alvo cruzando as duas mãos sobre o peito. Destemido, ele grita para os praças: ´Camaradas, o alvo é este´. E num tom de riso, como se aquilo fosse brincadeira diz: ´e vejam lá! Tiro certeiro que não me deixem sofrer muito´.

 

Há 201 anos e 18 dias morria Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque Melo, o Padre Mororó. Morto a tiros de arcabuz no dia 30 de abril de 1825, numa execução ocorrida no Passeio Público, em Fortaleza, após ter sido preso e acusado de praticar três crimes: proclamar da República de Quixeramobim; secretariar o governo revolucionário de Tristão Gonçalves e redigir o “Diário do Governo”, o primeiro jornal do Estado do Ceará.Indubitavelmente, Padre Mororó (Gonçalo Inácio de Loyola Albuquerque e Mello) foi uma figura central na luta pela independência política e liberdade de imprensa no Brasil, sendo considerado um dos principais mártires da Confederação do Equador.

 

A importância histórica de Mororó resume-se a três pilares fundamentais: liderança Republicana no Ceará, manifestada na República do Quixeramobim, primaz do Brasil; lábaro de Resistência e Nacionalismo, estabelecido na adoção do nome Mororó (Pata Bovina), pois, nenhum ser é mais perseverante e fiel a seus propósitos do que os Bovinos. Após recusar a venda dos olhos e pedir um tiro certeiro, Mororó consolidou-o como um imortal símbolo de coragem e resistência contra a tirania imperial; e Legado Institucional: Sua memória é celebrada oficialmente no Ceará, onde 30 de abril é o Dia Estadual do Padre Mororó, instituindo-o como um marco na história do jornalismo cearense e da luta por uma república federativa no Nordeste brasileiro.

 

Dentre outro muitos feitos e efeitos protagonizados por Padre Mororó destaca-se os fato de ser ele o primaz escritor cearense, tendo publicado o primeiro livro impresso pela Typographia Real em 1818, contendo nele os discursos pronunciados na Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo de Fortaleza e na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Fortaleza do Nossa Senhora da Assunção do Ceará.

 

Atualmente, além do reconhecimento e exaltação feitos pelo Governo do Estado do Ceará, a partir de sua Assembleia Legislativa, Mororó é homenageado como patrono da Cadeira nº 10 da Academia Cearense de Letras e, coincidentemente, também é enaltecido como patrono da Cadeira nº 10 da Academia Cearense de Literatura Popular, como também, há projetos em tramitação para inscrever seu nome no Panteão dos Heróis Nacionais, reconhecendo seu papel na luta pela liberdade – principalmente a de imprensa – e pela justiça constitucional no Brasil.

 

Maranguape, Ceará, 18 de Maio de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Jornalista – ACI nº 1789
Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE

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