segunda-feira, 25 de maio de 2026

ENTRE O HUMOR E O HUMORISTA, A ALTERIDADE GUIA-LHES OS PASSOS

 

Nada é mais popular numa cultura do que o humor, pois, se plasma nas consciências como uma das chaves para a compreensão de culturas, religiões e costumes das sociedades, indispensável ao viver humano sadio. Através dos tempos, a maneira humana de sorrir efloresce encantadoramente num pari-passu continuo com os melhores costumes e com as mais argutas correntes do pensamento, coadjuvando a criação do sempre novo bem-estar.

 

“O humor tem algo de magnífico, dá mais do que recebe”, conceitua Émile-Auguste Chartier, quando em sua obra Propos sur le bonheur (1928) discorre sobre os mais diversos aspectos da felicidade e da vida cotidiana.  Diferente da tristeza ou do pessimismo, que tendem a isolar ou consumir energia, o bom humor é visto como uma força que enriquece tanto o indivíduo quanto seu entorno, irradiando benevolência e vitalidade.

 

Em cada época da história humana, o modus pensandi estabelece e rui paradigmas, e o humor anima a caminhada na seara da inventividade sociocultural. Manifestações culturais do humor retratam fidedignamente uma época, como é o faz, por exemplo, as comédias gregas de Plauto e as comédias de costumes do brasileiro Martins Pena. Afinal, o Humor (do latim humore, "líquido") é o estado de espírito de um indivíduo.

 

O bom humor jamais será passivo; pois, tem uma disposição de espírito que contribui para a felicidade onde quer fulcre suas agências, funcionando como um ato de doação emocional. Não se limita a contar piadas, já que manifesta uma atitude benevolente e otimista que fortalece vínculos sociais, reduz o estresse e promove o bem-estar físico e mental, como o aumento da endorfina e a diminuição dos níveis de cortisol.

 

Despretensioso, o bom humor é uma decisão consciente de enxergar o lado positivo das adversidades, diferentemente do mau humor, que também é descrito como uma escolha baseada na reclamação e insatisfação com as quais torna causticante qualquer ambiência por mais harmoniosa a que se destine ser. O bom humor é a inteligência emocional da qual resulta uma vida mais leve, saudável e conectada com as pessoas ao redor. 

 

O bom humor não ignora os desafios, pois, foca em aprimorar a forma como se relaciona com eles. O riso fortalece o sistema imunológico, melhora a circulação sanguínea, auxilia no controle da pressão arterial e acelera a recuperação de lesões. Pessoas altruístas e felizes não alimentam as estatísticas dos acometidos por doenças cardiorrespiratórias e/ou inflamatórias, evidenciando o papel protetor do bom humor no organismo.

 

A resiliência – capacidade de superar dificuldades – é profundamente potencializada pelo bom humor. O riso não é, meramente uma fuga e/ou distração, mas, uma forma de reapropriação emocional, permitindo uma visão mais ampla da realidade, onde aspectos positivos e negativos são reconhecidos.  O bom humor, portanto, atua como um "amortecedor emocional", reduzindo o impacto das crises sem negar sua existência.

 

Apesar de seus benefícios, o bom humor precisa ser equilibrado, já que, o exagero leva à positividade tóxica – quando a obrigação de estar sempre alegre suprime emoções legítimas, como tristeza ou frustração. Positividade tóxica não é simplesmente ser otimista, mas sim, negar a realidade emocional e pressionar a si mesmo e/ou aos outros a "pensar positivo", em nome de uma fachada de felicidade constante, independentemente do contexto.

 

O equilíbrio é a chave. A positividade saudável reconhece os desafios da vida, aceita a tristeza, valida o luto, permite o desabafo e estimula o crescimento a partir da dor. Portanto, o humor (bom ou mau) é adubo essencial ao cultivo do autoconhecimento, permitindo o desvelo de todo o espectro emocional, não como máscara, mas, como excelente aliado estimulando a reflexão e a análise detalhada de situações.

 

Revolucionário, mesmo em contextos líquidos, o humor mantém seu papel de desafio ao status quo e às estruturas de poder, democratizando o acesso à crítica social e permitindo que a indignação se transforme em ação crítica ou consciência coletiva, mesmo que de forma simbólica. É um lubrificante social em um ambiente onde os vínculos são temporários e superficiais, ajudando a sublimar a agressividade e administrar o cinismo cotidiano.

 

O riso serve como arma de resistência contra os regimes repressivos, como na ditadura militar brasileira, onde a sátira revelava verdades ocultas sob o véu da diversão, transformando o cotidiano e suas contradições em narrativas que equilibram. A imprensa moderna no século XIX institucionalizou o humor gráfico e verbal, enquanto a internet no século XXI permitiu a ascensão de novos formatos, como o stand-up e o humor de nicho.

 

A diversidade cultural e a representatividade trouxeram novas vozes ao palco, explorando temas como racismo e desigualdade, o que comprova efusivamente que a evolução do humor é um reflexo direto da evolução da sociedade. Assim, mais do que provocar risos, o humorista estimula o pensamento crítico e o engajamento com questões contemporâneas, usando o riso como uma ferramenta promover debates menos polarizados.

 

Indubitavelmente, espelho da evolução social, adequando-se a valores, tecnologias e estruturas políticas, o humor se torna mais inclusivo, evitando a ofensa a minorias, conforme dele exigem as sociedades em constante transformação. Equilibrando a crítica social com a responsabilidade ética, usa a comédia para conscientizar sem oprimir, equilibrando ironia, afeto e observação constrói uma crítica social inteligente e acessível.

 

Historicamente, uma das funções mais vitais do humorista é a de contestador. Através do humor, ele consegue abordar e criticar problemas da realidade cotidiana e estruturas sociais de uma forma que outros não podem, muitas vezes revelando verdades que a sociedade prefere ignorar. Na Itália, personagens como Arlequim, Polichinelo e Pantaleão se tornaram ícones reconhecidos por suas roupas e características distintas.

 

Psicólogos analíticos, como Carl Jung, veem no humorista a manifestação do inconsciente coletivo, um símbolo que ressoa profundamente na psique humana porque aborda temas universais como a tolice, a sabedoria e a complexidade de ser humano.  Operando à margem da sociedade, sua perspectiva de "fora" permite-lhe criticar o "dentro" sem ser totalmente destruído pelo sistema que desafia, nos lembrando que somente o riso é sério.

 

Progredir e evoluir, desde tempos imemoriais, tem feito do humorista exímio coadjuvante nos processos de inclusão, coesão e harmonização do homem nas comunidades em que este vive. Através do riso compartilhado, barreiras interpessoais são dissolvidas. Acolhendo a imperfeição, o humorista fez-se um elemento chave para a inclusão de indivíduos marginalizados, facilitando a interação e a harmonização das relações sociais. 

 

Em contextos de adversidade, como em campos de refugiados ou áreas de desastre, o humorista resgata a capacidade de sonhar e rir. Com o melhor humor, o humorista aborda tópicos difíceis, tabus ou fatos dolorosos de maneira indireta e mais palatável. Oferecendo um alívio temporário do sofrimento e, mais importante, lembrando às pessoas de sua força interior e resiliência, inspirando esperança e a capacidade de seguir em frente.

 

O humorista inspira a busca por significado e propósito, celebrando a capacidade do espírito humano de brilhar mesmo diante das dificuldades, pois, a verdadeira força não reside na ausência de fraqueza, mas sim, na nossa resposta a ela. O humor abre canais de comunicação onde a seriedade falharia, facilitando o diálogo em comunidades divididas ou em situações de crise, humanizando ambientes que, de outra forma, seriam frios ou impessoais.

 

Humoristas como Wellington Guilherme Cavalcanti Malta são lábaros que enfrentam a economia mundial irreverente com a graça do improviso que supera de longe o mais formidável planejamento prévio. Vencem as adversidades da vida com a sutileza de riso, que esperança e cura certificando a fé. Usam com a habilidade a alteridade, cuja mestria faz sucumbir tiranias, perfídias e torpes discernimentos sob a força do humor mais aprimorado.

 

Maranguape, Ceará, 25 de Maio de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Jornalista – ACI nº 1789
Jornalista – CRP/MTE nº 0005168/CE

Um comentário:

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