Perceber que o homem deve
ser homem o tempo todo, senão cessa a humanidade e o mundo se desumaniza
estabelece uma visão ética e existencial profunda, onde a mantença da essência
humana se realiza de forma contínua e, claramente, sob os auspícios da (auto)responsabilidade,
pois, "o tempo todo" implica uma vigilância constante sobre as
próprias ações.
Este fito vai além do
sentido de gênero (masculino) e alcança com exata proficuidade o sentido
genérico de “ser humano”. O que reverbera conceitos de que o ser
humano é um fim em si mesmo, devendo viver com propósito e moralidade, em vez
de se tornar um meio para fins de terceiros. Assim, manter-se humano
significa agir com empatia e consciência, assumindo as consequências de suas
escolhas.
É um apelo à
responsabilidade moral e à manutenção da dignidade humana, indicando que a
desumanização ocorre não vivemos sob a égide dos valores humanos mais
elevados. O que lembra que a filosofia heideggeriana discute que a
metafísica muitas vezes se prende apenas à aparência (ente) do
ser humano, esquecendo sua essência (o ser), contribuindo para uma forma de
desumanização.
Ao falhamos em agir com
humanidade em um único momento crítico, colocamos em xeque a nossa própria
essência. Quando renunciamos aos valores que definem nossa humanidade – como a
empatia, a consciência, a responsabilidade e a justiça – sobrando é apenas o
instinto ou a mecânica social. O mundo se desumaniza ao permitirmos
"exceções" à nossa própria humanidade.
A negação da plena
humanidade de outros e a redução de pessoas a objetos se manifesta quando o
homem falha em sua essência (seja por omissão, crueldade ou coisificação), o
mundo se torna desumanizado, o que gera alienação e desconexão. Isto me faz
entender que a veraz humanidade não é suprimir emoções, mas, reconhecê-las e agir
de forma ética e amorosa, exercendo-as.
Envolve, ainda, aceitá-las
sem julgamento, aprendendo a geri-las de forma construtiva, usando práticas
como dar nome aos sentimentos, expressar-se criativamente (arte, escrita), respirar
fundo para diminuir a ativação emocional, promovendo a inteligência emocional e
o autoconhecimento através da auto-observação para entender gatilhos e escolher
respostas mais adequadas.
As emoções são guias
valiosos, pois, sinalizam como estamos diante de situações. São úteis e trazem
informações sobre nossos desejos e limites, sem se deixar dominar ou reprimir. Cuidemo-nos,
pois, “a desumanização ocorre quando o pensamento crítico e a moralidade são
relegados– e nos tornamos reles engrenagens de sistemas, muitas vezes cruéis”,
assegura Hannah Arendt.
A moral não pode ser
"part-time". Se a ética é deixada de lado quando ninguém está olhando
ou quando a situação é difícil, ela nunca foi, de fato, um princípio, mas
apenas uma aparência. Seu objetivo é construir uma vida mais harmoniosa e
não eliminar as emoções, mas mudar a forma como nos relacionamos com elas e equilíbrio
alcançado cultivamos conexões humanizadas.
Conexões humanizadas valorizam
o "fator humano", priorizando acolhimento, escuta ativa e comunicação
clara para criar vínculos autênticos e de confiança. Promovem interações
baseadas na empatia, no respeito mútuo e na compreensão de que, por trás de
toda troca profissional ou pessoal, existem seres humanos com emoções,
histórias e necessidades únicas.
Humanizar conexões é
"tornar benévolo, afável e tratável" as relações, transformando
trocas frias em experiências significativas. Tais conexões humanizadas manifestam
interações ancoradas na autenticidade e vulnerabilidade, além da
empatia, priorizando o valor intrínseco das pessoas acima de resultados
transacionais ou métricas. O bem-estar do outro é relevante!
No ambiente corporativo,
este conceito é aplicado através do Human Experience (HX), que promove
o respeito ao ritmo e à dignidade humana. Organizações focadas em servir e
resolver problemas da humanidade, como a Maçonaria, tratam colaboradores,
fornecedores e clientes como pessoas, não como recursos; valorizam a colaboração
e respeito; e não, apenas, resultados financeiros.
A maçonaria não existe
por si mesma, mas, para servir à evolução do ser humano e ao coletivo
(humanidade). Ela ensina que, antes de ser um "irmão" ou um
"mestre", o indivíduo é um homem. Sem os atributos básicos da
humanidade – como empatia, ética e consciência social – os títulos e ritos
perdem o sentido. Sem foco na melhoria do ser humano a instituição perde seu
propósito.
Não resta dúvida que a Humanidade é
a matéria-prima e o objetivo final da Maçonaria. Sem o compromisso com o bem
comum e com os valores humanos, a ela seria apenas um clube social vazio de
propósito transformador. Não havendo humanidade no homem, a estrutura da Ordem
colapsaria, pois, não haveria base para a implementação e exercício da alteridade.
A falta de alteridade nas
relações sociais resulta em aumento de conflitos e exclusão, pois, sem essa
base de reconhecimento mútuo, a "Ordem" se transforma em mero caos ou
autoritarismo, pois, as normas sociais perdem o sentido ético e se sustentam
apenas pela força, tornando insustentável a convivência pacífica. Sem o
reconhecimento do outro, a estrutura social se desfaz.
A relação eu-outro é a
base da ética indispensável para qualquer contrato social ou sistema jurídico. Se
não há humanidade (entendida aqui como a capacidade inerente de empatia, ética
e reconhecimento mútuo), as leis perdem sua finalidade de promover o bem comum
e passam a ser ferramentas de dominação puramente técnica ou força bruta – meramente
mecânica ou coercitiva.
A Maçonaria depende da
expectativa de que as regras serão seguidas não apenas pelo medo da punição,
mas, pelo reconhecimento de sua necessidade para a convivência. A falta de
vínculos humanos genuínos dificulta a criação de um ambiente coeso, gerando uma
fragmentação social que prejudica tanto o indivíduo quanto a
coletividade. Não há a formação de um tecido social estável.
A falta de diálogo
facilita a criação de "bolhas", onde o isolamento impede a
compreensão de diferentes perspectivas, o que enfraquece os pilares da
sociedade. Contrapondo, a proximidade e a troca entre pessoas geram maior
colaboração e criatividade, sendo a interação social imprescindível para o
desenvolvimento de habilidades e adaptação a contextos sociais; para a
humanização.
A humanização não é um
estado natural ou automático, mas um processo contínuo, consciente e
coletivo de construção de sentidos, valores e atitudes que nos tornam
mais humanos, empáticos e benevolentes, portanto, carece do homem integral, que
busca viver em harmonia, autoconsciência e responsabilidade, indo além do
superficial para uma vida plena e com propósito.
Para o filósofo Jean
Gebser, o "homem integral" é o próximo estágio da consciência humana
(a consciência aperspectiva), pois, consegue integrar as estruturas
anteriores de consciência (arcaica, mágica, mítica e mental), transcendendo a
dualidade e a visão puramente racional do mundo. Ele concilia suas necessidades
biológicas e emocionais com sua realidade espiritual e ética.
Embora utilize o termo
"Integral", a abordagem de Ken Wilber foca na integração de
"AQAL" (Todos os Quadrantes, Todos os Níveis, Todas as Linhas, Todos
os Estados e Todos os Tipos) para descrever um ser humano que opera com uma
visão sistêmica e inclusiva da realidade. Este homem se opõe à visão
fragmentada que foca apenas no intelecto ou na produtividade biológica.
O homem integral é aquele
que constrói uma identidade sólida, defendendo que a realização
humana depende da não fragmentação, onde o indivíduo não nega sua
sombra, seus instintos ou sua espiritualidade, mas, os integra em uma personalidade
responsável, equilibrada, consciente e livre em sua interatividade com o mundo,
onde trabalha ativamente seu próprio aperfeiçoamento.
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