Religião é um
sistema de crenças, práticas, rituais e valores que conecta os seres humanos ao
sagrado ou divino, buscando sentido para a existência, oferecendo respostas
sobre a vida, a morte e o universo; e, claro, unindo as pessoas sob a égide de
comunidades morais através de símbolos, textos sagrados e doutrinas. Ela
organiza a experiência espiritual, fornece uma visão de mundo e influencia a
conduta individual e social.
A palavra
"religião" vem do latim religio, com duas principais etimologias
discutidas. Uma, defendida por Cícero (século I a.C.), relegere – reler,
examinar com atenção, ter respeito pelo sagrado. E a outra, proposta por Lactâncio
(século III d.C.) e difundida por Agostinho de Hipona, religare – religar,
reconectar –, refletindo o forte vínculo entre o ser humano e o divino. Agostinho,
via a religião como um elo entre mortais e Deus, um ato de "ligar
novamente”.
A "religião"
abrange tanto a prática cuidadosa do dever e respeito (de relegere)
quanto o ato de se religar a algo sagrado (de religare), refletindo
um modo de vida com foco no divino e nas obrigações para com ele, não apenas em
crenças e dogmas. Indiscutivelmente, não se trata somente de um conjunto
de dogmas, mas de modo de vida que integra a atenção
meticulosa às obrigações morais e rituais de conexão espiritual com o sagrado.
A relevância da
religião reside em seu papel fundamental na formação de identidade e
valores e propósito de vida, a partir dos quais promove a integração social e
influencia cultura e moralidade, além de atuar como motor de bem-estar, paz e
transformação social, através de redes de apoio e solidariedade que criam
uma ambiência vital para o estabelecimento do senso de pertencimento e da
coesão social que ela enseja.
Incontestavelmente, a
religião é uma força complexa que molda o ser humano e a sociedade, sendo uma
fonte de sentido, valores, apoio e cultura – as bases morais que orientam o
comportamento individual e as normas de convivência em diversas culturas –
embora, exija uma visão crítica de suas manifestações, pois, a secularização ainda
teima em avançar em algumas regiões. Ainda assim, a religião se mantém o elo
perfeito a unir o mundano ao sagrado.
Conscienciosamente,
afirmo que a religião molda o ser humano tanto para o bem quanto para o mal, o
que desvela a natureza dual da influência religiosa, atuando como uma força
poderosa que pode promover coesão social e ética, mas também, age virilmente na
gerar conflitos e fanatismo. Ou seja, a espiritualidade tanto pode ser uma
"força para o bem", oferecendo conforto e propósito, quanto pode ser
utilizada para justificar a crueldade e o ódio na história.
Potenciais construtoras
de valores, as religiões estruturaram o comportamento humano, incitando a
prática perene de virtudes como a solidariedade, justiça, paz e
fraternidade. Mais de 90% dos frequentadores assíduos de serviços
religiosos costumam fazer doações para caridade e quase 70% se envolvem em
voluntariado, constituindo um formidável e operativo "capital social"
religioso oportunizando a felicidade humana.
Indubitavelmente, a luz é
mãe das sombras metaforizo para ressaltar que a sombra é uma consequência
inevitável e um "produto" da luz, pois a sombra é a ausência
de luz criada quando um objeto bloqueia seus raios. Isto representa a
dualidade da vida, onde a luz (o bem, o conhecimento) está sempre ligada à
sombra (o mal, o desconhecido), sendo que uma não existe sem a outra, com a
intensidade da luz definindo o tamanho da sombra.
Neste influxo, práticas
religiosas mal-conduzidas provocam angústia, culpa excessiva e impactos
negativos na saúde mental. Além disso, a interpretação dogmática ou
"cega" enseja a utilização das religiões para manter estruturas de
poder, doutrinar e controlar o comportamento social, limitando a liberdade de
pensamento e, isto, leva à perversidade, crueldade e intolerância religiosa,
resultando em segregação e violência.
A religião atua como um
reflexo e, ao mesmo tempo, um modelador da cultura e da sociedade, podendo
tanto humanizar quanto desumanizar, dependendo do contexto e da forma como é
vivida ou imposta. Habilidosamente amplifica potencialmente a natureza
humana: elevando o espírito ao sacrifício pelo próximo ou sendo o pretexto para
as maiores atrocidades, dependendo da interpretação e do uso do poder
institucional.
Dispensando-me do (pré)julgamento,
percebo que "a melhor religião é aquela que faz uma pessoa melhor",
pois, reverbera a ideia amplamente compartilhada por duas figuras espirituais de
mestrias distintas, como o Dalai Lama e o teólogo Leonardo Boff, que convergem
o entendimento de que o valor da fé reside em sua capacidade de cultivar
virtudes como amor, compaixão, ética e humanidade, independentemente de rótulos
ou dogmas específicos.
Promover a crescimento
interior e fomentar atitudes positivas no dia a dia e o fito único daquele que
busca iluminar-se e, assim alcançar a religação com o sagrado de forma
inequívoca, indissolúvel e, portanto, plena. O essencial não é a religião em
si, mas, a transformação pessoal que ela inspira naqueles que a buscam,
tornando-os mais compassivos, sensíveis e (auto)responsáveis. A religação é um
ato de autorresponsabilidade plena.
A autorresponsabilidade
manifesta a mudança interior e, esta, se reflete nas atitudes diárias, no
tratamento dedicado aos outros e na forma como se vive os valores, sendo este
comportamento o verdadeiro indicador. A religião se manifesta em ações que te
aproximam do Sagrado ou do Infinito, como ser mais ético, humilde e amoroso com
o próximo e o mundo, com um só propósito a evolução humana, e não a
superioridade de uma crença sobre outra.
A evolução humana é
impulsionada pela superação do egoísmo e do orgulho, substituindo-os por ações
de serviço e amor, o que contribui para um mundo mais harmônico. Envolve evolução
espiritual e moral, onde o amor ao próximo é o cerne da conduta, refletindo o
encontro com o divino. A verdadeira religiosidade exige uma agência coerente
com princípios éticos, tais como honestidade, perdão e ajuda mútua, comuns a
diversas tradições.
Vendo por este foco, a
religião é uma ferramenta de transcendência e humanismo, fulcrada
na essência do comportamento humano em vez de dogmas institucionais, pois, quando
a prática religiosa prioriza a ética, a humildade e o amor, ela deixa de ser um
sistema de exclusão para se tornar um caminho de aperfeiçoamento moral. Portanto,
o valor da religião é aferido mediante os frutos por ela gerados na sociedade e
no caráter do indivíduo.
O que ressoa com o
conceito de Espiritualidade Laica ou com a Ética
Universal, que se ancora na compreensão de que valores morais e uma
sensação de conexão com algo maior (o cosmos, a humanidade, o sagrado) existir
sem a necessidade de dogmas, religiões organizadas ou crenças sobrenaturais.
Essa perspectiva encontra sinergia com a valorização da autonomia racional do
indivíduo, empatia e a busca por bem-estar coletivo.
Evoco a Maçonaria, que age
como uma ponte que une uma espiritualidade laica (não dogmática) a uma ética
universal. Ela se define como uma instituição essencialmente filosófica,
filantrópica e progressista, baseada na busca da verdade, na tolerância e na
fraternidade humana. Embora ela não seja uma religião, cultiva a espiritualidade,
exigindo de seus membros a crença em uma Força Superior, à qual denomina Grande
Arquiteto do Universo.
Em seu já longevo
caminhar pelo orbe terrestre a Maçonaria busca conciliar o aperfeiçoamento
moral individual com princípios que transcendem doutrinas religiosas
específicas, fundamenta-se na Ética Universal, na promoção e
perpetuação de valores que independem de raça, nacionalidade ou credo. A espiritualidade
laica lhe serve como motor interno de evolução e a ética
universal como guia de conduta para com o próximo e a sociedade.
Há incontestável uma relação
entre a religião, a maçonaria e a "iluminação do homem" e, esta, se
notabiliza na busca pelo aperfeiçoamento moral e espiritual. A iluminação,
nesse contexto, simboliza a busca pela Verdade, pelo (auto)conhecimento e o
desenvolvimento moral e espiritual do indivíduo, muitas vezes descrito como
"lapidar a si mesmo, pelos adeptos da Maçonaria, que os conduz a esta
prática, pois, somos o que habitualmente fazemos.
Unidos no propósito do (auto)aperfeiçoamento
moral, metaforicamente chamado de transformar a "pedra bruta" – o
homem comum com defeitos – em uma "pedra polida" – um homem melhor –
para o templo social, os adeptos da Maçonaria seguem rumo à “verdadeira luz” que
é por eles compreendida como o "fogo sagrado" no coração do homem que
o liga ao Grande Arquiteto do Universo, simbolizando o despertar da
consciência.
Ainda que na Maçonaria, a
"iluminação" tenha unicamente o sentido intelectual e moral ligado
ao Iluminismo, sua religiosidade é perceptível por um livro sagrado – geralmente
a Bíblia, mas pode ser o Alcorão ou a Torá, dependendo dos membros – sempre
aberto em seus templos, simbolizando a presença divina. Assim, ela aceita
homens de diversas fés e os incita o uso da alteridade, não somente quanto as religiões,
mas, como coluna mestra da harmonia.
Esta iluminação é o
despertar da sabedoria, a clareza mental e o entendimento profundo da
existência, vetores do equilíbrio que aplicado nas relações humanas, ancora o respeito
à diversidade e institui a cooperação com vetor da fraternidade a nos unir como
verdadeiros irmãos sob os auspícios do sagrado, pois, “toda a boa dádiva e todo
o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança,
nem sombra de variação. (Tiago 1:17)
(Re)ligados ao sagrado, lembrando,
sempre, que nenhum de nós avança em nossas lutas, empresas e/ou protagonismos
sem antes rogar os auspícios do Grande Arquiteto do Universo, CELEBREMOS hoje as
vitórias contra a Intolerância Religiosa já conquistadas, renovando o animus para
este combate que jamais cessa enquanto reinar a irascibilidade que desumaniza o
homem não assumir o lugar que lhe compete nas masmorras onde habitam vícios e
erros.
Neste “Dia das Religiões”, lembremos que a coesão social é o objetivo final alcançado através da virtude,
do respeito mútuo e da "harmonia sem uniformidade", que valoriza a
diversidade sob a egrégora do amor que é o “elo perfeito” garantidor da unidade
entre pessoas diferentes, permitindo a convivência pacífica e o perdão, sendo ele
o atributo que mais aproxima o ser humano da natureza do Sagrado.
Maranguape, Ceará, 21 de
Janeiro de 2026
ACADEMIA INTERNACIONAL DE
MAÇONS IMORTAIS
Diretoria de Comunicação
Social
Bruno Bezerra de Macedo
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