quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

UM TRIBUTO AOS GUERREIROS DO AMOR QUE É A (RE)LIGAÇÃO PERFEITA

 

Religião é um sistema de crenças, práticas, rituais e valores que conecta os seres humanos ao sagrado ou divino, buscando sentido para a existência, oferecendo respostas sobre a vida, a morte e o universo; e, claro, unindo as pessoas sob a égide de comunidades morais através de símbolos, textos sagrados e doutrinas. Ela organiza a experiência espiritual, fornece uma visão de mundo e influencia a conduta individual e social. 

 

A palavra "religião" vem do latim religio, com duas principais etimologias discutidas. Uma, defendida por Cícero (século I a.C.), relegere – reler, examinar com atenção, ter respeito pelo sagrado. E a outra, proposta por Lactâncio (século III d.C.) e difundida por Agostinho de Hipona, religare – religar, reconectar –, refletindo o forte vínculo entre o ser humano e o divino. Agostinho, via a religião como um elo entre mortais e Deus, um ato de "ligar novamente”. 

 

A "religião" abrange tanto a prática cuidadosa do dever e respeito (de relegere) quanto o ato de se religar a algo sagrado (de religare), refletindo um modo de vida com foco no divino e nas obrigações para com ele, não apenas em crenças e dogmas. Indiscutivelmente, não se trata somente de um conjunto de dogmas, mas de modo de vida que integra a atenção meticulosa às obrigações morais e rituais de conexão espiritual com o sagrado.

 

A relevância da religião reside em seu papel fundamental na formação de identidade e valores e propósito de vida, a partir dos quais promove a integração social e influencia cultura e moralidade, além de atuar como motor de bem-estar, paz e transformação social, através de redes de apoio e solidariedade que criam uma ambiência vital para o estabelecimento do senso de pertencimento e da coesão social que ela enseja.

 

Incontestavelmente, a religião é uma força complexa que molda o ser humano e a sociedade, sendo uma fonte de sentido, valores, apoio e cultura – as bases morais que orientam o comportamento individual e as normas de convivência em diversas culturas – embora, exija uma visão crítica de suas manifestações, pois, a secularização ainda teima em avançar em algumas regiões. Ainda assim, a religião se mantém o elo perfeito a unir o mundano ao sagrado.

 

Conscienciosamente, afirmo que a religião molda o ser humano tanto para o bem quanto para o mal, o que desvela a natureza dual da influência religiosa, atuando como uma força poderosa que pode promover coesão social e ética, mas também, age virilmente na gerar conflitos e fanatismo. Ou seja, a espiritualidade tanto pode ser uma "força para o bem", oferecendo conforto e propósito, quanto pode ser utilizada para justificar a crueldade e o ódio na história.

 

Potenciais construtoras de valores, as religiões estruturaram o comportamento humano, incitando a prática perene de virtudes como a solidariedade, justiça, paz e fraternidade.  Mais de 90% dos frequentadores assíduos de serviços religiosos costumam fazer doações para caridade e quase 70% se envolvem em voluntariado, constituindo um formidável e operativo "capital social" religioso oportunizando a felicidade humana.

 

Indubitavelmente, a luz é mãe das sombras metaforizo para ressaltar que a sombra é uma consequência inevitável e um "produto" da luz, pois a sombra é a ausência de luz criada quando um objeto bloqueia seus raios. Isto representa a dualidade da vida, onde a luz (o bem, o conhecimento) está sempre ligada à sombra (o mal, o desconhecido), sendo que uma não existe sem a outra, com a intensidade da luz definindo o tamanho da sombra.

 

Neste influxo, práticas religiosas mal-conduzidas provocam angústia, culpa excessiva e impactos negativos na saúde mental. Além disso, a interpretação dogmática ou "cega" enseja a utilização das religiões para manter estruturas de poder, doutrinar e controlar o comportamento social, limitando a liberdade de pensamento e, isto, leva à perversidade, crueldade e intolerância religiosa, resultando em segregação e violência.

 

A religião atua como um reflexo e, ao mesmo tempo, um modelador da cultura e da sociedade, podendo tanto humanizar quanto desumanizar, dependendo do contexto e da forma como é vivida ou imposta. Habilidosamente amplifica potencialmente a natureza humana: elevando o espírito ao sacrifício pelo próximo ou sendo o pretexto para as maiores atrocidades, dependendo da interpretação e do uso do poder institucional.

 

Dispensando-me do (pré)julgamento, percebo que "a melhor religião é aquela que faz uma pessoa melhor", pois, reverbera a ideia amplamente compartilhada por duas figuras espirituais de mestrias distintas, como o Dalai Lama e o teólogo Leonardo Boff, que convergem o entendimento de que o valor da fé reside em sua capacidade de cultivar virtudes como amor, compaixão, ética e humanidade, independentemente de rótulos ou dogmas específicos. 

 

Promover a crescimento interior e fomentar atitudes positivas no dia a dia e o fito único daquele que busca iluminar-se e, assim alcançar a religação com o sagrado de forma inequívoca, indissolúvel e, portanto, plena. O essencial não é a religião em si, mas, a transformação pessoal que ela inspira naqueles que a buscam, tornando-os mais compassivos, sensíveis e (auto)responsáveis. A religação é um ato de autorresponsabilidade plena.

 

A autorresponsabilidade manifesta a mudança interior e, esta, se reflete nas atitudes diárias, no tratamento dedicado aos outros e na forma como se vive os valores, sendo este comportamento o verdadeiro indicador. A religião se manifesta em ações que te aproximam do Sagrado ou do Infinito, como ser mais ético, humilde e amoroso com o próximo e o mundo, com um só propósito a evolução humana, e não a superioridade de uma crença sobre outra. 

 

A evolução humana é impulsionada pela superação do egoísmo e do orgulho, substituindo-os por ações de serviço e amor, o que contribui para um mundo mais harmônico. Envolve evolução espiritual e moral, onde o amor ao próximo é o cerne da conduta, refletindo o encontro com o divino. A verdadeira religiosidade exige uma agência coerente com princípios éticos, tais como honestidade, perdão e ajuda mútua, comuns a diversas tradições.

 

Vendo por este foco, a religião é uma ferramenta de transcendência e humanismo, fulcrada na essência do comportamento humano em vez de dogmas institucionais, pois, quando a prática religiosa prioriza a ética, a humildade e o amor, ela deixa de ser um sistema de exclusão para se tornar um caminho de aperfeiçoamento moral. Portanto, o valor da religião é aferido mediante os frutos por ela gerados na sociedade e no caráter do indivíduo.

 

O que ressoa com o conceito de Espiritualidade Laica ou com a Ética Universal, que se ancora na compreensão de que valores morais e uma sensação de conexão com algo maior (o cosmos, a humanidade, o sagrado) existir sem a necessidade de dogmas, religiões organizadas ou crenças sobrenaturais. Essa perspectiva encontra sinergia com a valorização da autonomia racional do indivíduo, empatia e a busca por bem-estar coletivo.

 

Evoco a Maçonaria, que age como uma ponte que une uma espiritualidade laica (não dogmática) a uma ética universal. Ela se define como uma instituição essencialmente filosófica, filantrópica e progressista, baseada na busca da verdade, na tolerância e na fraternidade humana. Embora ela não seja uma religião, cultiva a espiritualidade, exigindo de seus membros a crença em uma Força Superior, à qual denomina Grande Arquiteto do Universo.

 

Em seu já longevo caminhar pelo orbe terrestre a Maçonaria busca conciliar o aperfeiçoamento moral individual com princípios que transcendem doutrinas religiosas específicas, fundamenta-se na Ética Universal, na promoção e perpetuação de valores que independem de raça, nacionalidade ou credo. A espiritualidade laica lhe serve como motor interno de evolução e a ética universal como guia de conduta para com o próximo e a sociedade.

 

Há incontestável uma relação entre a religião, a maçonaria e a "iluminação do homem" e, esta, se notabiliza na busca pelo aperfeiçoamento moral e espiritual. A iluminação, nesse contexto, simboliza a busca pela Verdade, pelo (auto)conhecimento e o desenvolvimento moral e espiritual do indivíduo, muitas vezes descrito como "lapidar a si mesmo, pelos adeptos da Maçonaria, que os conduz a esta prática, pois, somos o que habitualmente fazemos.

 

Unidos no propósito do (auto)aperfeiçoamento moral, metaforicamente chamado de transformar a "pedra bruta" – o homem comum com defeitos – em uma "pedra polida" – um homem melhor – para o templo social, os adeptos da Maçonaria seguem rumo à “verdadeira luz” que é por eles compreendida como o "fogo sagrado" no coração do homem que o liga ao Grande Arquiteto do Universo, simbolizando o despertar da consciência.

 

Ainda que na Maçonaria, a "iluminação" tenha unicamente o sentido intelectual e moral ligado ao Iluminismo, sua religiosidade é perceptível por um livro sagrado – geralmente a Bíblia, mas pode ser o Alcorão ou a Torá, dependendo dos membros – sempre aberto em seus templos, simbolizando a presença divina. Assim, ela aceita homens de diversas fés e os incita o uso da alteridade, não somente quanto as religiões, mas, como coluna mestra da harmonia.

 

Esta iluminação é o despertar da sabedoria, a clareza mental e o entendimento profundo da existência, vetores do equilíbrio que aplicado nas relações humanas, ancora o respeito à diversidade e institui a cooperação com vetor da fraternidade a nos unir como verdadeiros irmãos sob os auspícios do sagrado, pois, “toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança, nem sombra de variação. (Tiago 1:17)

 

(Re)ligados ao sagrado, lembrando, sempre, que nenhum de nós avança em nossas lutas, empresas e/ou protagonismos sem antes rogar os auspícios do Grande Arquiteto do Universo, CELEBREMOS hoje as vitórias contra a Intolerância Religiosa já conquistadas, renovando o animus para este combate que jamais cessa enquanto reinar a irascibilidade que desumaniza o homem não assumir o lugar que lhe compete nas masmorras onde habitam vícios e erros.

 

Neste “Dia das Religiões”, lembremos que a coesão social é o objetivo final alcançado através da virtude, do respeito mútuo e da "harmonia sem uniformidade", que valoriza a diversidade sob a egrégora do amor que é o “elo perfeito” garantidor da unidade entre pessoas diferentes, permitindo a convivência pacífica e o perdão, sendo ele o atributo que mais aproxima o ser humano da natureza do Sagrado.

 

Maranguape, Ceará, 21 de Janeiro de 2026

 

ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

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