terça-feira, 20 de janeiro de 2026

SOIS OU NÃO SOIS, EIS A RAZÃO

 

Legitimidade é a característica, particularidade ou condição de quem está em conformidade com as leis morais (divina ou dos homens), com a justiça, com a razão etc. Do que é legítimo, ou seja, quando algo concorda com a razão ou com o que é considerado justo ou razoável, afirmam os melhores dicionários. Assim, “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”.  (Filipenses 4:8)

 

Carl Schmitt afirma que a legitimidade difere da legalidade, da relação do poder com a lei estabelecida, exigindo um padrão superior que permita considerar certas leis como injustas, tendo mais a ver com a conformidade relativamente ao direito do que com a conformidade face à lei. Sendo a legalidade um mero requisito do exercício do poder – a justificação deste – a legitimidade é o requisito da titularidade do poder, a sustentação deste título – trata da aceitação e do consenso sobre quem detém o poder.

  

Max Weber compreende a legitimidade como a crença na validade de um regime, fazendo com que a obediência venha da adesão e não só da força, transformando o poder em autoridade respeitada e consentida, sustentada por tipos ideais de dominação que fundamentam essa aceitação social: tradicional – fulcrado no costume; carismática – Fundamentada nas qualidades extraordinárias de um líder (ex: profetas, heróis) e a racional-legal – Ancorada na crença em regras, leis impessoais e na legalidade dos procedimentos.


A legitimidade é o que garante a estabilidade de um sistema de gestão – inclusive, político –, pois, faz com que os subordinados sintam o dever moral de obedecer, reduzindo a necessidade do uso da força física ou coação. Quando subordinados (sejam cidadãos no Estado, funcionários em uma empresa e/ou voluntários numa instituição secular como a Maçonaria) consideram o sistema legítimo, eles obedecem por acreditar que é o "certo" a fazer e, não apenas, por medo de punição. Respeito se cativa, jamais se impõe!

 

Segundo Ulysses Guimarães – Câmara dos Deputados em 19 de Agosto de 1987 – “a Maçonaria é um legítimo símbolo nacional, inspirador dos nossos ideais mais nobres, tradicional sentinela da liberdade e da serena altivez que a vimos cultivando perante os países do mundo. Conceituada a partir de uma das mais dignas profissões, a de pedreiro, há de sempre possuir trajetória invulgar, solidamente ligada aos destinos da raça humana. A evolução histórica desta instituição é um testemunho do quanto pode o ideal humano”.

 

Sob o olhar do Construtor Social, a legitimação ocorre no "nós", onde a preocupação ética com o outro se torna possível ao compreendê-lo como parte de nossa coletividade, não apenas como um indivíduo isolado. O outro é quem nos legitima, ao nos confirmar como seres válidos, com um mundo interno único e digno de respeito, o que é fundamental para o amor, o pertencimento e a construção de relações saudáveis, contrapondo o individualismo egoísta.

 

Esse visão incita nossa capacidade de ver o outro como "legítimo outro na convivência", o que é fundamental para amar e construir relações genuínas, onde não se tenta mudar o outro, mas se permite que ele seja. Aceitação do outro nos torna pertencidos ao grupo social que formamos. Portanto, o outro é essencial para nossa legitimação porque nos oferece o espelho e o reconhecimento que nos confirmam como seres humanos completos e valiosos, fortalecendo nossa identidade e nosso lugar no mundo que, assim, nos pertence.

 

Sob o fito do reconhecimento do ser, o outro não somente nos vê, ele aceita nosso mundo interno, nossas escolhas e comportamentos – mesmo que diferentes dos dele, sem reduzi-los aos seus erros ou inconsistências – e nos valida em nossa singularidade, ajudando a solidificar quem somos, especialmente em momentos de dúvida. Essa legitimação emerge como um ato de humanidade, construindo uma base de apoio e confiança mútua, contrapondo a cultura que muitas vezes valoriza o apagar ou competir com o outro.

 

Embora a autonomia seja importante, e não sendo redundante afirmar, nós nos tornamos "alguém" através do olhar e da resposta que recebemos do mundo ao nosso redor, ou seja, nossa identidade é construída socialmente. Segundo filósofos como Hegel, a consciência de si depende do reconhecimento do outro. Só passamos a ter plena noção de quem somos quando somos "vistos" e validados por outra consciência. Isso reverbera um conceito fundamental da filosofia e da psicologia social: a intersubjetividade.

 

Entendida como a compreensão mútua e compartilhada entre duas ou mais consciências ou sujeitos, a intersubjetividade eflui das interações e da comunicação para formar significados e experiências comuns, indo além da subjetividade individual e criando um espaço de entendimento recíproco, como o diálogo Eu-Tu, fundamental na filosofia, psicologia e ciências sociais para entender a relação humana e a construção de sentido,  transformando experiências individuais em conhecimento e cultura compartilhados.

 

Na tecnologia e nas ciências sociais, a intersubjetividade refere-se à colaboração e troca de conhecimento facilitadas pelas interações digitais, formando uma base de compreensão compartilhada. Na filosofia, ela é explorada por pensadores como Husserl e Stein, segundo os quais, a empatia (Einfühlung) é o conceito-chave que permite ultrapassar o solipsismo (o eu isolado), reconhecendo o "Outro" não como um objeto, mas, como outro sujeito com sua própria vivência espiritual. 

 

A legitimação pelo outro nos traz a sensação de pertencimento. Ser ignorado ou "invisibilizado" é uma das formas mais profundas de sofrimento humano, pois, retira essa validação da nossa existência, o que nos faz perceber que os papéis que desempenhamos (filho, profissional, amigo, irmão) só existem na relação com as outras pessoas. O sociólogo Charles Cooley chamava isso de "eu especular": a ideia de que usamos o julgamento e a percepção dos outros como um espelho para entender nossa própria imagem e valor.

 

James Clear – Hábitos Atômicos – preceitua que cada ação que realizamos é como um "voto" para o tipo de pessoa que queremos ser. Por exemplo, arrumar a cama todo dia legitima a identidade de uma pessoa organizada. Ou seja, nossa identidade –"eu" autêntico – não é definida apenas pelo que pensamos ou desejamos, mas, pelas ações que repetimos consistentemente no dia a dia, que moldam nossa personalidade. Por oportuno, ressalto que 40% das nossas ações diárias são habituais, funcionando de forma automática.

 

Nossos hábitos atuais são uma reflexão direta de sua identidade atual, agindo como evidência interna de quem você acredita ser. Assim, o legitimo Maçom é aquele que estuda com frequência e conhece o significado dos símbolos de seu próprio rito; que é assíduo na loja à qual é filiado, arcando e cumprindo com todas as obrigações assumidas com sua potência maçônica; que reflete na própria família os ensinamentos adquiridos nas lojas que frequenta; e que é um exemplo de vida e de compostura diante da sociedade.

 

Segundo Ruy Nogueira, “não é Maçom quem quer. Não é por alguém se proclamar maçom regular que efetivamente o é. Ser maçom regular é difícil. Ninguém é obrigado a ser Maçom regular. Mas, quem o quiser ser tem de seguir e praticar os Princípios da Regularidade - e fazê-lo de forma inequívoca, de forma a que os demais maçons regulares reconheçam que assim é!” Se mantemos o hábito de cumprir promessas (mesmo as pequenas), construímos uma identidade de alguém confiável e íntegro.

 

Indubitavelmente, nosso cérebro observa nosso comportamento (hábitos) para concluir quem somos. Eles fornecem ao cérebro evidências concretas de nossa realidade, o que acaba imprimindo nossa autoimagem.  Nossos hábitos são a materialização dos nossos valores, portanto, a legitimidade ("assinatura") de nossa moralidade e de nossos objetivos de vida.  A legitimidade vem da coerência entre o discurso e a prática, assim construímos nossa autoconfiança e credibilidade que inspiramos nos outros e no mundo.  

Um comentário:

  1. Ser maçom é ato administrativo ( gostaria que não fosse, aí o texto estaria dentro do contexto)
    Os princípios institucional faz com quer ( o que gostaríamos que fosse não é)
    Hora o que consiste aceitação de um novo adpto? Se não atoas administrativo, comesa com um formulário de adesão, logo...
    Segui o rito administrativo.
    ( Não entrarei nós detalhes)

    Aprovado ( exige do neófito pagamento financeiro antecipado)
    Não existe meritocracia ( a não ser da parte do padrinho)

    Ao cumprir o ritual de iniciação o neófito confirmado como um novo maçom por meio do que o mesmo recebe no ato cerimonial.
    Portando esse meio de reconhecimento ele está habilitado a se fazer reconhece por àquele que vivência a mesma vivência.

    S.'.M.'.?

    Se o indivíduo não passou pelo processo administrativo e cerimonial e não terá a resposta, mas se ele vivenciou a resposta é imediata.

    A resposta é pragmática não deixa brecha para especulação.
    M.'.I.'.C.'.T.'.M.'.R.'.

    Ele tá afirmando que é maçom para o outro maçom, se ele não tivesse tal vivência não teria a resposta e logo não é maçom.

    Assim somente um maçom tem o deve de reconhece o outro, por isso que a resposta é M.'.I.'., etc ....

    Se você não for meu irmão, logo não tem o deve de me reconhecer, mas se é têm...

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