Nasceu o mestre, pois, o
discípulo está pronto. É tempo! Pleno de saberes galgados no mais distante
setentrião, onde a mui pouca luz acende a luz interior que aclara a obscurescência
do tempo, da geografia d’alma e da vida intermundos, o jovem mestre
autoconheceu-se proficuamente e passa a provar seus conhecimentos pondo-os em
prática para que sejam seu mais exuberante legado de exemplos a serviço da
humanização do homem. A humanização do homem ocorre através do autoconhecimento
que faz despertados e desenvolvidos a empatia, o respeito, a dignidade
e a consideração pelas necessidades físicas e emocionais em maviosa sinergia
com os outros. Essas práticas se manifestam em diversos contextos da vida
diária, desde interações pessoais até políticas públicas. A humanização
traduz-se em tratar o outro como gostaríamos de ser tratados, com
consideração, respeito e dignidade em todas as interações e sistemas sociais.
Sob o sol que arde sobre
os mares do sul em sua cíclica jornada pelos trópicos de câncer ("portal
dos homens", que representa a descida da alma do reino celestial e o
início da vida humana no plano material) e de capricórnio (“portal do deuses” que
representa o retorno ao reino espiritual ou divino, a morte e a transição para
planos de existência superiores), segue o jovem mestre em busca do zênite, onde
não há sombras, nem dúvidas, radicando na vida as certezas das artes liberais que
lhe são conhecidas desde seu íntimo. As Sete Artes Liberais formam um
currículo tradicional que remonta à Grécia Antiga e foi central na educação
medieval, visando cultivar um cidadão livre e bem-educado. Elas são divididas
em duas áreas principais: o Trivium e o Quadrivium. O
Trivium foca nas artes da linguagem e da comunicação: gramática, lógica (ou dialética)
e retórica. Dominá-lo era considerado fundamental para o aprendizado das
artes do Quadrivium, que a seu tempo, foca nas artes relacionadas
à matemática e à estrutura do universo: aritmética, geometria, música e
astronomia. O Quadrivium é o caminho aprendido pelo jovem mestre para
entender o cosmos e a realidade metafísica.
A perfeita compreensão dos
movimentos cósmicos e das primícias da metafísica requer do jovem mestre uma integração
de conhecimentos da ciência e da filosofia, especificamente das áreas
de cosmologia, física, matemática e metafísica/ontologia. Envolve preciso
conhecimento tanto das leis físicas que em sua regência do cosmos oportuniza otimização
constante da operação de todos os sentidos enquanto conversores dos estímulos
do mundo material em sinais neurais, quanto dos princípios filosóficos que
questionam a própria natureza da existência para se ter uma compreensão
completa. Além da visão, audição, paladar, olfato e tato, a neurociência e a
terapia ocupacional reconhecem pelo menos mais três sentidos cruciais para a
nossa interação com o ambiente: a propriocepção, a interocepção e o sistema
vestibular.
A visão opera de acordo
com as leis da ótica, que descrevem como a luz (radiação eletromagnética)
viaja, é refletida e refratada. Os fotorreceptores nos olhos convertem a
energia luminosa em sinais elétricos. Ver bem patrocina o discernir ótimo,
pois, o ato de discernir (capacidade de avaliar, julgar e distinguir com
clareza o certo do errado, o bom do ruim) tem um foco ou
um objetivo (alvejar significa apontar para um alvo). Esse
objetivo é a busca pela verdade, pela clareza ou pela compreensão profunda das
situações. O discernimento ajuda o jovem mestre a navegar o presente com maior “argutia”,
enquanto a visão mais aprimorada o inspira e direciona o caminho para o seu
mais augurioso futuro.
A audição, por sua vez,
depende das leis da acústica e da mecânica. Ondas sonoras (vibrações
físicas do ar) movem o tímpano e os ossículos do ouvido, que por sua vez
estimulam células sensoriais. Ouvir bem é a base para que o jovem mestre
alcance a compreensão da língua em sua totalidade, o que, por
sua vez, aprimora a clareza e a precisão de sua escrita. Ao ouvir com atenção,
absorvemos novas palavras, estruturas sintáticas e expressões idiomáticas. Isso
expande nosso repertório linguístico, permitindo uma escrita mais rica e
diversificada. A audição é um treinamento contínuo para a
mente, que refina nossa compreensão do mundo e da linguagem, fornecendo as
ferramentas e a inspiração necessárias não somente para uma escrita excelente,
mas, principalmente, para um discurso loquazmente cativante e convincente.
O tato e a propriocepção
baseiam-se na mecânica clássica, especificamente nas forças de contato
(pressão) e movimento. Receptores na pele e nos músculos são mecanorreceptores,
sensíveis à deformação física. A integração eficaz do processamento
tátil-proprioceptivo estabelece um elo sólido entre o corpo e a mente. Uma
melhor percepção do corpo contribui para uma melhor capacidade de gerenciar o
estresse e as emoções sob pressão. O desenvolvimento do tato e da
propriocepção é imprescindível para a formação de um esquema corporal saudável,
que por sua vez sustenta o desenvolvimento da inteligência emocional,
permitindo que jovem mestre compreenda melhor a si mesmos e regulem suas
interações com o mundo. É-lhe uma ferramenta potente de autorregulação
do comportamento e conforto, ajudando a modular as respostas
emocionais.
O jovem mestre aprendeu
que o sistema olfatório está diretamente conectado ao sistema límbico, a região
do cérebro responsável pelas emoções, memória e motivação. O Olfato e Paladar são
sentidos químicos. Eles funcionam através de reações físico-químicas entre
moléculas específicas (odorantes e saborosas) e receptores sensoriais, seguindo
princípios de ligação molecular e difusão. Pesquisas sugerem que os cheiros
(incluindo feromônios e o odor corporal natural, que é único para cada
indivíduo) influenciam a forma como percebemos visualmente e julgamos as
emoções de outras pessoas, mesmo que inconscientemente. Isso afeta a atração, a
confiança e a formação de laços. A partilha de alimentos, por sua vez, é um dos
rituais sociais mais universais e importantes, os africanos a chama de Kuta. As
experiências sensoriais de sabor e aroma durante as refeições compartilhadas
fortalecem os laços sociais, promovem a união familiar e a coesão cultural.
O jovem mestre percebe
que a estimulação vestibular é crucial para o desenvolvimento físico, emocional
e cognitivo, construindo as bases da a integração sensorial, o que pode
influenciar a capacidade da autorregulação emocional e de interação com outras
pessoas, promovendo a coesão em ambiências sociais. Um sistema vestibular
saudável contribui para a segurança física, bem-estar emocional e
funções cognitivas que são pré-requisitos para uma interação humana
eficaz e uma coesão social robusta. A união familiar e a coesão cultural
requerem um delicado equilíbrio entre a preservação das tradições e a adaptação
às realidades modernas. Esse equilíbrio envolve a comunicação aberta entre
gerações, a valorização das raízes e, ao mesmo tempo, a abertura a novas
perspectivas e influências externas. Atingir esse equilíbrio é um processo
contínuo que exige flexibilidade, empatia e um esforço consciente para garantir
que todos os membros da família se sintam valorizados e conectados, tanto às
suas raízes quanto ao mundo em constante mudança.
Valendo-se da disciplina mental que exerce sobre si, a partir do estudo rigoroso das artes liberais e dos oito
sentidos que lhe exige foco, raciocínio lógico e perseverança, o jovem mestre
alcança o objetivo do estudo (a verdade, a clareza intelectual) é comparado à
luz do sol. Alcançar essa clareza requer esforço, mesmo no "ponto mais
quente" do desafio intelectual, onde a intensidade da verdade ou do
conhecimento é difícil de suportar ou assimilar imediatamente, como olhar
diretamente para o sol em vivaz canícula do meio-dia. Mesmo assim, quando o
aprendizado se torna difícil, desafiador ou parece "ofuscante" pela
sua complexidade, o estudante das artes liberais deve perseverar. A educação
liberal busca a formação completa do indivíduo, preparando-o para lidar com
todas as fases e dificuldades da vida e do conhecimento, inclusive aquelas que,
metaforicamente, ofuscam a visão. A disciplina intelectual fortalece a mente e
o espírito contra as tentações da indolência, ao passo que, as artes liberais
oferecem ao jovem mestre um caminho ótimo para a compreensão mais profunda do
mundo, de Deus e de si mesmo, proporcionando um propósito que transcendia o
desconforto físico ou a apatia momentânea. Ao contrário de um treinamento
técnico, as artes liberais promovem a formação humana integral, capacitando o jovem
mestre a pensar criticamente e a se comunicar eficazmente, habilidades
essenciais para a vida espiritual e material.
Cônscio de seu dever como
construtor novo tempo que auroresce no horizonte, o jovem mestre sabe que deve
ser exemplo de homem virtuoso é aquele que age com retidão, honestidade e
integridade, que demonstrava bondade, prudência e justiça. visto como um modelo
de homem de palavra, que honrava seus compromissos, sendo um exemplo de conduta
moral para sua família e comunidade. Diligente, homem de letras, ou
seja, um indivíduo erudito, culto e envolvido em atividades literárias,
como a escrita profissional, o estudo da linguística e da literatura, ou a
filosofia. Do qual se espera que demonstre grande conhecimento e uma dedicação
profunda ao mundo das palavras e das ideias. Um intelectual que reflete
sobre a sociedade, a política e a condição humana. Que analisa o mundo ao seu
redor e que contribui para o debate público com opiniões ponderadas e bem
fundamentadas. O mestre assim nasce para ser o discípulo que supera seu mestre.
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