quarta-feira, 1 de abril de 2026

A MENTIRA NOSSA DE CADA DIA TEM SEU DIA DE FESTEJAR

 

Hoje (01-04) comemoramos o “Dia da Mentira”, ressaltando que longe de ser, meramente, uma falha de caráter, mentir é uma estratégia evolutiva de sobrevivência que permite aos seres humanos administrar relações sociais complexas, evitar conflitos e proteger a própria imagem ou a de outros. A ciência aponta que a mentira é um comportamento inerente à natureza humana, presente desde os primórdios, e que sua ausência poderia levar ao colapso das interações sociais e à dificuldade de adaptação em grupo.


Mentir, claramente, envolve um esforço cognitivo intenso, envolvendo áreas do cérebro responsáveis pela tomada de decisão e emoção (córtex pré-frontal e amígdala). Estudos sugerem que mentir pode se tornar um hábito que dessensibiliza o cérebro à culpa, tornando o comportamento mais fácil com a repetição. Muitas mentiras são contadas para obter vantagens financeiras, sociais ou de atenção e reconhecimento. Pessoas controladoras – narcisistas, vitimistas, etc –, por exemplo, utilizam a mentira para conduzir situações e para manterem-se no poder.


Historicamente, a dissimulação permitiu aos nossos antepassados conseguir parceiros, exercer liderança, fugir de predadores ou manter o respeito do grupo, sendo tão natural quanto comer ou se reproduzir. Especialistas dizem-na essencial para boa convivência entre as pessoas, contrariando a honestidade absoluta e sem filtros que pode ser prejudicial à estabilidade das relações interpessoais. Como uma espécie de "cola social" ou filtro de diplomacia, pequenas mentiras – “mentiras brancas” – evitam conflitos desnecessários e magoas.


Desde os gregos, a verdade (alétheia) é entendida como desvelamento – o ato de tirar o véu do que estava oculto. Já a mentira, segundo Hesíodo, é uma faculdade das Musas: "Sabemos muitas mentiras dizer semelhantes a coisas autênticas, / E sabemos, quando queremos, verdades proclamar." Isso mostra que, desde cedo, a mentira foi reconhecida como intencional e estratégica, muitas vezes usada para manipular percepções. Esse esforço contínuo para sustentar o falso transforma a mentira em um fardo psicológico e moral.


Como um “escudo psicológico”, a mentira esconde personalidades fragilizadas, ao passo que estabelece uma segurança emocional e uma sensação de atratividade. Indubitavelmente, mentir para si mesmo (autoengano) é imprescindível para uma autoestima saudável, servindo como mecanismo de defesa para tornar a vida mais suportável e lidar com situações traumáticas ou difíceis. Embora considerada um ato negativo e antiético por muitos, a "mentira branca" é vista por especialistas como um "lubrificante" social necessário.


Desde cedo, o cérebro pode associar a mentira à segurança ao perceber que a verdade pode levar à rejeição, vergonha ou castigo. Embora seja uma ferramenta social vital, a mentira torna-se patológica quando se transforma em mitomania, onde o ato de mentir deixa de ter um propósito claro e passa a ser compulsivo, geralmente associado a problemas de autoestima ou transtornos de personalidade. Contraponto a “mentira branca”, a mentira para fins egoístas é portentosamente prejudicial a longo prazo, oportunizando terríveis psicopatias.


A mentira é um traço central e predominante da psicopatia, sendo meticulosamente utilizada não apenas como ferramenta de manipulação, mas como um instrumento de trabalho sistemático que permite ao indivíduo reorganizar sua realidade e exercer poder sobre os outros – tratados como meros ferramentas para fins inescrupulosos. Ao contrário da mentira circunstancial, o psicopata mente com neutralidade, calma e mantendo um olhar firme e sem constrangimento, manifestando um orgulhoso prazer, isento de culpas, remorsos e/ou ansiedades.


Cumpre observar que a mentira patológica manifestas duas dinâmicas: a primeira, para coibir realidades devastadoras e a segunda, para criar uma sensação de superioridade e controle, onde o psicopata manipula a realidade a seu favor, adaptando fatos às suas necessidades narcisísticas. Descritos como mentirosos contumazes e habilidosos, os narcisistas são capazes de misturar verdades em suas narrativas para aumentar a credibilidade e até simular emoções falsas, como lágrimas, para enganar até mesmo profissionais experientes.


Ancorada numa disfunção no sistema límbico (sistema emocional), que resulta em total falta de empatia e insensibilidade aos sentimentos alheios, a mentira do psicopata faz parte de sua realidade psíquica, permitindo que ele acredite na própria falsidade como sendo mais verdadeira que a realidade objetiva. Especialistas como Paul Ekman indicam que, apesar de extremamente habilidosos, os psicopatas podem revelar sinais através de micro expressões faciais, que são difíceis de controlar, mas exigem treinamento para detecção.


Coisa fenomenal, desvelar uma mentira, pois, "porque não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz" (Lucas 8:17). Além de lembrar que Deus vê todas as coisas, incluindo ações ocultas, garantindo que a justiça prevalecerá no final, trazendo à luz as obras ocultas nas trevas, é motivo de imensa folia trazer alguém de volta ao eixo da fidalguia, onde a ética e honestidade equilibram-se na condução dos dias na incessante busca pela felicidade do melhor convívio entre os homens.


Desvelar uma mentira é, acima de tudo, um ato de libertação. A mentira exige manutenção constante e uma memória impecável; já a verdade apenas é. Quando ela vem à luz, ela não apenas esclarece os fatos, mas também, expõe o caráter e restaura a realidade. Não existe verdade sem sal, tão pouco mentira sem mel, tudo é influxo da eterna luta entre a luz e a escuridão, do bem contra o mal, aninam a humanidade em seu caminhar evolutivo e inspiram a escrita dos homens letras em todas as eras. Da excelência de seus escritos depente o norte do mundo.


Agostinho de Hipona, em Sobre a Mentira, define-a como "um dizer com a vontade de dizer algo falso", enfatizando a intencionalidade e o desejo de enganar. Para ele, não há justificativa moral para a mentira, mesmo em casos de proteção, pois compromete a pureza da alma. Séculos depois, Kant reforçaria essa visão ao afirmar que mentir é negar a própria humanidade, pois corrompe a função essencial da linguagem: comunicar pensamentos com fidelidade. Ainda assim, há quem tenha a mentira como benéfica – aquela dita por compaixão, para poupar alguém de sofrimento.


Agostinho, por exemplo, já enfrentou essa ideia de beneficidade, rejeitando mentiras mesmo para proteger a castidade ou a vida. No entanto, pensadores como Benjamin Constant argumentaram que a obrigação de dizer a verdade não pode ser absoluta se implicar danos graves. Fernando Pessoa, em uma perspectiva estética, vai além: para ele, a mentira é a linguagem ideal da alma, pois permite comunicar o incomunicável. Ao "perverter a verdadeira natureza" de uma emoção, o artista a torna universal. Assim, mentir pode ser um ato de empatia, não de traição.


Portanto, a percepção de que “tudo é influxo da eterna luta entre a luz e a escuridão, do bem contra o mal" – captura o cerne da questão. A mentira e a verdade não são apenas conceitos epistemológicos, mas, forças morais em conflito constante. Essa luta anima a humanidade em seu caminhar evolutivo e inspira a escrita, a arte, a política e a ética em todas as eras. Desvelar uma mentira é mais que um ato intelectual: é um gesto de coragem, de justiça, de libertação e até uma alegria vibrante, comparada ao espírito de uma celebração popular.


Motivo de felicidade e/ou de tristeza, quais seja o foco que lhe dermos, a mentira, tanto quanto a verdade, constrói os homens e, estes a humanidade. Na literatura, por exemplo, ela é permite a construção de narradores não confiáveis, o desenvolvimento de enredos picarescos e a manipulação da percepção do leitor, indo além da verdade documental para iluminar aspectos profundos da natureza humana. A mentira é uma ferramenta narrativa essencial, funcionando como um mecanismo de criação de suspense, exploração psicológica e crítica social.


A literatura usa a mentira para inventar possibilidades, agindo como um "vidro fosco" que ilumina a realidade melhor do que fatos objetivos. Pode surgir como exagero, fingimento, auto engano ou omissão, sendo uma forma de arte (o "mentiroso lírico") e não apenas uma falha moral. No Brasil, o malandro (como em Macunaíma ou Memórias de um Sargento de Milícias) utiliza a mentira para enfrentar uma sociedade hostil, um reflexo do pícaro europeu. Nelson Rodrigues, em “A Mentira explora a hipocrisia da classe média”, a vê como uma arma de conflito familiar. E nós, através desta arte, nela achamos nossa identidade.


A mentira social – vista na astúcia de Leonardo Pataca ou de Lazarillo de Tormes – serve para crítica social, ascensão ou sobrevivência, já a mentira literária é definida pela transparência: o leitor sabe que é ficção, o que permite ao autor criar "mundos possíveis" sem intenção de enganar. A mentira literária é um engano artístico que consola, diverte e frequentemente revela verdades profundas através da invenção. Autores como Carson McCullers utilizam-na para atender o que comunicação exige a distorção da verdade íntima para ser compreendida coletivamente.


Inventiva, a literatura criou mentirosos imortais que se tornaram símbolos culturais: Pinóquio, famoso pelo nariz que cresce, que faz emergir o "Paradoxo do Mentiroso" – o que acontece se ele disser "meu nariz vai crescer agora"? –; Bento Santiago – Dom Casmurro), obra que consagra Machado de Assis como “narrador não confiável”, onde aonde a mentira (ou a suspeita dela) reconstrói toda a percepção da realidade do leitor –; o Barão de Münchhausen personagem criado por Rudolf Erich Raspe, é o arquétipo do mentiroso extravagante que conta histórias impossíveis.


A figura literária é ancora-se na pessoa real de Hieronymus Karl Friedrich Freiherr von Münchhausen (1720–1797), um nobre alemão e militar que serviu ao Império Russo e ficou famoso por suas narrativas exageradas e fantásticas sobre suas experiências militares. Raspe, em Narrativa das Maravilhosas Viagens e Campanhas do Barão de Münchhausen na Rússia (1785), criou uma sátira cômica e social, transformando o barão num contador de historia que realizava feitos impossíveis, como, por exemplo, voar sobre um rio em uma bala de canhão e viajar à lua.


Viajar à lua, antes de ser coisa de lunático, é primazia dos filósofos, cujos pensamentos mais audazes não tiveram outra vontade além de contribuir para o progresso da humanidade. Em diálogos como Hípias Menor, Sócrates discute se a capacidade de mentir e manipular a realidade pode ser algo positivo ou uma habilidade técnica superior. Diferente do erro, a mentira tem intenção deliberada de enganar. Sobre isto reflete Michel de Montaigne, que o o maior inimigo da verdade não é a mentira em si, mas a ilusão de que já conhecemos a verdade absoluta.


Afora tudo dito, a verdade real neste momento é o Dia da Mentira, e devemos festejá-la. A data popularizou-se na França no século XVI, quando a mudança do Ano Novo (de abril para janeiro) transformou quem resistia à alteração em "bobos" alvo de brincadeiras. Alguns historiadores associam esta tradição ao festival romano em honra à deusa Cibele, que também celebrava o equinócio com brincadeiras. A Dia da Mentira serve como uma desculpa para brincadeiras inofensivas e trotes leves, promovendo o humor e a leveza sem intenção de causar dano físico ou emocional.


A tradição chegou ao Brasil em 1828, com o jornal mineiro "A Mentira" anunciando falsamente a morte de D. Pedro I. Isto lembra que em tempos de rápida circulação de informações digitais, a data também destaca a necessidade de cuidado com notícias falsas e a distinção entre brincadeira e desinformação prejudicial. Hoje, o Dia da Mentira é um dia para "pregar peças", compartilhar notícias falsas engraçadas e engajar o público com anúncios fictícios, com o objetivo de gerar risadas, não desinformação. É momento de testarmos a criatividade e de sermos felizes.


Maranguape, Ceará, 01 de Abril de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Maria Aurélia Abreu Braga
Cadeira ACLA nº 18


Nenhum comentário:

Postar um comentário

CORRESPONDER

  Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu no...