domingo, 22 de março de 2026

QUE BEM FAÇO EU AO MUNDO SENDO COMO SOU?

 

Não importa o tenebroso tamanho da escuridão: ódio, vaidade, usura, etc., quando a boa vontade de ser correto, mínima que seja no universo, brilha inspiradoramente, pois, mesmo no cenário mais hostil, um único ato de retidão rompe a hegemonia do caos. É a ideia de que a luz não luta contra a escuridão; ela simplesmente a desloca pela sua mera presença. No fim, a boa vontade funciona como uma bússola moral: não importa quão perdido o mundo pareça, ela mantém o Norte visível.


Sendo isto algo tão inefável, quanto inegável, Múcio Leão, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, expressa com profundidade a força da boa vontade diante das sombras do mundo. Reconhecendo-se o "nada" que é, afirma com veraz firmeza que, mesmo sendo obscuro, exalta-se na glorificação dos que merecem. Essa postura é exemplificada pela lenda do jogral de Nossa Senhora: um homem humilde, que, com seus saltos cheios de amor, oferece um culto sincero à Virgem.


A lenda conta a história de um jovem chamado Buckhard, filho de uma família de malabaristas e cantores itinerantes, que se torna padre. Durante a visita de Nossa Senhora ao convento com o Menino Jesus nos braços, cada monge tenta homenagear a Virgem com suas habilidades: um exibe pinturas, outro traz uma Bíblia manuscrita, um terceiro recita nomes de santos. No fim da fila, o jovem padre, humilde e sem grandes conhecimentos, sente-se incapaz de oferecer algo significativo.


Em um gesto de fé e simplicidade, ele começa a fazer malabarismos com laranjas – a única arte que domina. Foi nesse momento que o Menino Jesus sorriu e bateu palmas, e Nossa Senhora, emocionada, estendeu os braços para ele, permitindo que segurasse o Menino. A lenda, segundo Leão, mostra que o trabalho dos humildes tem beleza e valor desde que tenha sinceridade. Assim, mesmo diante de "ódio, vaidade, usura", a boa vontade mínima, quando inspiradora, transcende o tenebroso tamanho da escuridão.


Claramente, a lenda ilustra a ideia de que o valor de um presente não está na sua grandeza, mas na sinceridade do coração. O "presente invisível" – a humildade, a fé e a autenticidade – é o que mais importa diante de Deus. Apesar de não ser um fato histórico ou bíblico, a história é amplamente usada em reflexões religiosas, especialmente durante o período natalino, para ensinar sobre a importância da simplicidade, da vocação e do amor incondicional: tripé da fraternidade universal.


Um luzeiro assim, inspirado no na sabedoria transcendente do tetravô do Mestre Jesus, Salomão que preceitua em Eclesiastes 3:12: “não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive”, manifesta-se nesta lenda e em outras versões como a de Anatole France, com um personagem chamado Barnabé, que faz malabarismos em louvor a Nossa Senhora, reforçando o tema de que a arte e o talento, quando oferecidos com amor, são verdadeiras formas de adoração.


Essa visão é virilmente robustecida por outras passagens bíblicas, como Gálatas 6:10, que incentiva a fazer o bem a todos, especialmente aos da família da fé, enquanto se tem oportunidade. Também Eclesiastes 9:10 concita-nos aproveitar o tempo presente, dizendo: “Tudo quanto vier à mão para realizar, faze-o com o melhor das tuas forças, porquanto para o Sheol, a sepultura” – para onde iremos todos indiscutivelmente –, “não há atividade, trabalho, reflexão, planos, conhecimento, saber, nem nada.”


Destacar efusivamente devemos que o homem aproveite o fruto de seu trabalho, comendo, bebendo e desfrutando da vida, pois essa é a sua recompensa nesta vida. A sabedoria não reside unicamente em fazer o bem, mas, em alegrar-se com o trabalho e o que dele se produza, reconhecendo que o porvir, após a morte, é desconhecido, embora encantadoramente inusitado, inventivo e novel, já que é a plântula semeada por nós em Terra. Isto exige que escolhamos bem as sementes que plantamos.


Ao semearmos bondade, amor e obediência ao que há preestabelecido – seja mundano e/ou sagrado –, incontestavelmente segaremos paz, prosperidade e proeminência, tanto nesta vida, quanto na porvir. No entanto, quando semeamos egoísmo, desobediência ou pecado (vícios, erros, amoralidades e imoralidades), a colheita será fartamente corrupção, desesperanças, infortúnios e julgamento, nesta mundo da matéria e muito mais virilmente na pátria após o véu.


Certo é que o legado de um homem ecoa pela eternidade, como preceitua Marcus Aurelius Antoninus Augustus. Não importa se negativo, tenebroso e/ demeritório, tão pouco se positivo, luzidio e/ou notabilizador, o legado segue adiante exemplando, cativando e arrastando multidões de seguidos que vibram em sua frequência, recebendo, repetindo e difundindo: multiplicando seus feitos e efeitos. Portanto, viver com propósito, praticar o bem e desfrutar da vida é, sempre a melhor escolha: é um dom de Deus.


O que me faz recordar de um avidador francês que em sua inventividade chama-nos à responsabilidade. Antoine de Saint-Exupery, ao afirmar “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, concita-nos à consciência coletiva e à reciprocidade, lembrando que, ao envolver alguém com nosso carinho, tornamo-nos responsáveis por sua felicidade e bem-estar. É um convite à humildade, ao cuidado, à verdadeira conexão humana e ao construir juntos um mundo humanamente justo.


A raposa, personagem central da fábula, explica ao pequeno príncipe que o tempo e o afeto dados a alguém tornam esse alguém único e indispensável. Assim, não se trata apenas de conquistar, mas, primordialmente, de assumir o compromisso de ser fiel e presente – seja em relacionamentos pessoais, políticos ou mesmo em compromissos morais com a sociedade, que para o bem e progresso de todos deve, resolutamente, ser mais inclusiva e ética, onde o "ser" é mais importante que o "ter".


É imprescindível viver e manifestar a humildade como alicerce para uma verdadeira conexão humana, pois, ela nos permite reconhecer nossas limitações, ouvir sem julgar e valorizar o outro como parte de um todo maior. Ao cultivá-la, abrimos espaço para a empatia, a gratidão e o serviço, essenciais para construir relações autênticas, construtivas e comunitárias. A humildade jamais será fraqueza, pois, é potencialmente a força que nos conecta ao outro e ao propósito maior: amar incondicionalmente.


Portentosamente, o cuidado - entendido como sentimento profundo, responsabilidade e atenção aos outros - é o que torna a humildade ativa e transformadora. Como destacado em reflexões filosóficas, o cuidado é anterior ao pensamento racional e é o que realmente nos torna humanos: ele nos conecta com o sofrimento, a alegria e a fragilidade do outro. Essa empatia, fruto mais conscienciosa alteridade, é o fertilizante ótimo que alimenta o senso de pertencimento que irmana os povos.


Ancorados um no outro, humildade e cuidado são, indubitavelmente, um emergente chamado à construção de um mundo humanamente justo. Requer que deixemos de lado o ego, a soberba, a busca por validação e avassaladora vaidade, e nos alinhemos a uma mentalidade de serviço, como exemplificado em Cristo. Ao viver com a "mente de Cristo", como em Filipenses 2:5, assumimos a responsabilidade de promover a unidade, a justiça e o respeito mútuo em todas as esferas da vida.


Ao escolhermos a retidão ainda que numa ambiência corrompida, deixamos de mais um no vale dos comuns e assumimos o lugar que no compete como “ponto de referência”. Numa única agência falimos a ilusão – a exaurimos de todas as suas forças – de que “todo mundo é assim ou de que "não há saída", devolvendo aos outros o peso da própria escolha e práticas dela decorrentes. A virtude não precisa de maioria para ser verdadeira; ela só precisa existir para provar que o caos não é absoluto.


Reverbera nisto o valor da vontade moral, que segundo Kent é o único elemento ilimitadamente bom e fundamento da moralidade. Sua valorização não depende das consequências de uma ação, mas do motivo puro – agir por dever, por respeito à lei moral, e não por inclinações egoístas ou desejos pessoais. A vontade moral é, portanto, aquela que age conforme o imperativo categórico, independentemente de resultados ou interesses particulares.


Rutila aqui a lucidez que nos capacita a ver com clareza a realidade, especialmente as estruturas de poder, manipulação e conformismo que nos margeiam e tentam sucumbir nossa vontade. Filósofos como Gilles Deleuze destacam que o controle moderno não se dá por força, mas, por captura do desejo, tornando os indivíduos conformes sem que percebam. A lucidez é, neste olhar, o primeiro passo para a crítica e para a autonomia do pensamento, distinguindo o que é imposto do que é escolhido.


Robustece assim a resistência como ato de liberdade ética e política fazendo enfrentamento ao conformismo – a aceitação passiva de situações injustas ou desfavoráveis, promovidas por sistemas que silenciam o pensamento crítico. Questionar, se posicionar, romper com a inércia é resistir à repressão do desejo e da consciência. Não se trata de rebelião por rebeldia, mas de reivindicação de um mundo possível, onde a felicidade e a justiça não são meros sonhos, mas ações concretas.


Como diz a música dos Novos Baianos: "Vou mostrando como sou e vou sendo como posso / Jogando meu corpo no mundo". Ao participarmos do mundo nele aspergindo nossa essência, não apenas vive-se mais e plenamente, como também, fervorosamente transformamos tudo em nossa órbita o malhete da boa vontade e o cinzel do amor. Cada gesto de autenticidade – uma palavra sincera, um gesto de compaixão, um trabalho feito com paixão – contribui para um ambiente mais humano e verdadeiro.


Ao não se adaptar apenas para agradar, mostramos que existem outras formas de ser, vivendo com liberdade e coragem. A transparência de nossos atos, convida os outros a serem, também, translúcidos, pois, assim fortalecemos relacionamentos baseados na verdade. A singularidade da visão, da sensitividade e da agência geram uma contagiante energia que somente o abraçar de propósitos comuns – como a promoção da felicidade humana – pode manifestar. Eis a bússola da vida plena.


Maranguape, Ceará, 22 de Março de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira ACELP3


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