segunda-feira, 30 de março de 2026

MORIVALDE CALVET FAGUNDES – UMA VIDA DEDICADA À CULTURA

A década de 1910 marcou a vida gaúcha com intensos conflitos sociais e trabalhistas, caracterizados por uma das maiores ondas de greves da história do estado, onde operários enfrentavam condições de trabalho precárias, salários baixos e jornadas exaustivas de até 15 horas em fábricas com ambientes insalubres. Borges de Medeiros enfrentou o desafios de reorganizar o sistema de impostos e da execução de um intenso programa de obras públicas, financiado por empréstimos externos.


Um ano (1912) chave para a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. A construção, liderada pelo empresário Percival Farquhar, visava integrar os trilhos do Sul ao centro do Brasil, mas, causou grandes desapropriações de terras que alimentaram a revolta de camponeses no Contestado - região disputada entre Paraná e Santa Catarina. Embora o foco principal não fosse em solo gaúcho, o conflito envolveu tropas gaúchas e afetou diretamente a economia e a segurança da região serrana e do planalto.


O estado gaúcho continuava recebendo fluxos migratórios significativos, especialmente de italianos e alemães, além de grupos menores como imigrantes russos, que buscavam terras para cultivo nas colônias. Pelotas consolidando-se como o maior centro produtor de charque, abrigando uma aristocracia urbana que se distinguia da capital, enquanto cidades do interior como Bagé e Caxias do Sul já ultrapassavam os dez mil habitantes e adotavam hábitos urbanos sofisticados.


Em 1912 os porto-alegrenses viviam sob os auspícios da Belle Époque gaúcha, marcada por uma intensa modernização urbana e o desejo de transformar a cidade em uma "Paris dos Trópicos" sob o governo de José Montaury, para tal, foi realizado um importante Recenseamento do Município, refletindo a preocupação da administração em organizar o crescimento de uma população que começava a se expandir para além do Centro Histórico, portanto, demandavam aprumos na mobilidade da cidade.


Teve o início neste ano 1912 o tráfego de automóveis, que exigiam adaptações na via pública. O sistema de bondes elétricos (implantado em 1908), substituindo gradualmente as charretes e os bondes puxados por mulas – ainda que pudessem ser vistos em áreas mais afastadas – recebeu maiores investimento para expandir suas atividades. Foi este o ano de fundação da A.J. Renner (originalmente uma fábrica têxtil em São Sebastião do Caí), que logo se tornaria um pilar comercial na capital.


Além das obras infra-estruturais, o ano marcou a fundação do tradicional Colégio Militar e a construção da Biblioteca Pública, cujas obras foram iniciadas pelo engenheiro Affonso Hebert, e a inauguração da suntuosa Confeitaria Rocco, que se tornou mais um ponto de encontro da elite, além dos cafés da Rua da Praia, do Theatro São Pedro e da Praça da Matriz. A revista Kodak, lançada em 1912, na qual de percebia o interesse da sociedade pela fotografia, pela moda e pela cultura.


Nestes tempos de (r)evolução perene e de progressismo viris nas terras gaúchas nasce no trigésimo dia do mês de março de 1912, para exemplar todo o Brasil, Morivalde Calvet Fagundes, 4º filho do incorruto senhor Antonio Lobo da Costa Fagundes e da maviosa senhora Maria Calvet Fagundes, ambos naturais de Pelotas. Imbuído desde na tradição católica, Calvet teve suas primeiras letras no Colégio Anchieta – hoje Colégio dos Padre Jesuítas – dele se ausentando no primeiro ano ginasial (1928) para trabalhar.


As percepções colhidas por Calvet o acompanharam por toda a vida e fizeram de si o lábaro que é. Largar os estudos aos 16 anos significava interromper a formação escolar básica, o que limitava drasticamente as oportunidades futuras. A ausência de uma educação formal dificultava a ascensão social e o acesso a empregos melhor remunerados. Embora o trabalho oferecesse aprendizados práticos, ele não substituía a formação crítica, técnica e intelectual que a escola poderia proporcionar.


Um jovem de 16 anos em 1928 ao largar os estudos para trabalhar em um armazém, enfrentaria uma rotina extenuante. As jornadas de trabalho eram longas, podendo chegar a 12 ou 14 horas diárias, sem garantias de intervalos para refeições ou descanso, muitas vezes em condições insalubres e perigosas, ainda que trabalhando para seu tio. O trabalho em armazéns envolvia tarefas como carregar mercadorias, organizar estoques, anotar pedidos e auxiliar no atendimento, etc.


Apesar das duras condições, o trabalho em um armazém proporcionou a Calvet alguns aprendizados práticos. O jovem desenvolveu habilidades como organização, responsabilidade, leitura e escrita básica, noções de contabilidade e atendimento ao público e de relações interpessoais. A vivência no ambiente de trabalho oferecia um contato direto com relações sociais, hierarquias e a dinâmica do comércio, conhecimentos que não eram ensinados nas escolas da época.


Destinado ao melhor futuro, no segundo dia do mês de maio de 1931 “sentou praça” - termo historicamente ligado ao alistamento de soldados rasos, originando o apelido "pracinha" para os combatentes da Segunda Guerra Mundial - como soldado no então 8º Batalhão de Caçadores, em São Leopoldo, sendo, no prazo de um ano, promovido a Cabo e a 3º Sargento. De 1933 a 1938 realiza um curso de preparação à carreira militar, enquanto estreia no Jornalismo (1935) no periódico Correio de São Leopoldo.


Em 1940 ingressa na Escola Militar de Realengo, sendo declarado Aspirante a Oficial do Serviço de Intendência em 09 de outubro de 1942. E, continua aliando armas e letras, pronunciando e escrevendo dezenas de palestras, conferências e trabalhos, sempre inspirado pelo legado literário deixado por seu tio Avó Francisco Lobo da Costa, um poeta, jornalista e teatrólogo brasileiro - um dos mais expressivos expoentes do movimento romântico da Literatura do Sul Riograndense.


A obra poética de Lobo da Costa foi publicada em jornais, em especial Eco do Sul, Diário de Pelotas e Progresso Literário. De acordo com Guilhermino César, Lobo da Costa publicou o romance Espinhos d'Alma em 1872, na cidade de Rio Grande. Em edições póstumas, poesias suas foram reunidas em Dispersas e em Auras do Sul. Em 1985, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) publicou em livro seu poema épico, Epopeia Farroupilha.


As belezas do romantismo gaúcho despertaram Calvet para real importância da literatura como formadora de homens probos e dignos da sociedade que constroem, posto que, a literatura fomenta o desenvolvimento da imaginação, da criatividade, do senso crítico e da interpretação do mundo. A leitura é uma atividade que transcende a simples aquisição de conhecimento. Mais do que decodificar palavras, ler é um ato de interação que estimula o cérebro, promove a empatia e amplia o senso crítico.


Em 1954 surge o seu primeiro livro – Lobo da Costa, Ascensão e Declínio de um Poeta – homenagem a seu tio-avô. Seu segundo livro – Estórias da Figueira Marcada – sobre folclore gaúcho, é lançado em 1961, com prefácio e anotações do 3 mestre Câmara Cascudo. Em 1969, é eleito membro efetivo e redator-chefe da Revista Ástrea. Em 1972, funda a Academia Brasileira Maçônica de Letras, a primeira do gênero no mundo, congregando intelectuais brasileiros e estrangeiros.


Vanguardista, a iniciativa de Calvet foi extremamente profícua, pois, existem hoje mais de 14 academias no Brasil, realizando intercâmbios culturais, congressos internacionais e publicações de Anais e documentos, inclusive com a participação e colaboração da Academia Brasileira de Letras. Calvet foi, também, fundador da Academia Sul Riograndense Maçônica de Letras (Cadeira 1), sendo atualmente homenageado como seu Patrono. Um reconhecimento justo e perfeito a um homem de letras.


Em 1976, Calvet tem publicado seu 3º livro – A Maçonaria e as Forças Secretas da Revolução, com prefácio do Maçonólogo Nicola Aslan – que retrata a participação da Maçonaria na Revolução Farroupilha. Em março de 1981 organizou o 1º Congresso Maçônico Internacional de História e Geografia, no Rio de Janeiro, reunindo os trabalhos de 12 escritores estrangeiros e 35 brasileiros, constituindo a maior obra maçônica dos tempos modernos, com 4 volumes e 1100 páginas.


Em 1982 publica no Rio de Janeiro o livro Maçonaria, Espírito e Realidade, a partir da Editora Aurora que também publicou: A Bandeira do Brasil como Símbolo Sagrado da Pátria (1983). E Uma Visão Dialética da Maçonaria Brasileira (1985). Em Caxias do Sul-RS, a partir da Editora EDUCS, publicou: História da Revolução Farroupilha – Volume 1 (1984) Volume 2 (1985) e Volume 3 (1989). E Subsídios para a História da Literatura Maçônica Brasileira do Século XIX (1989)


Em Londrina-PR, a Editora A Trolha publicou a obra Rocha Negra, a Legendária (1989). Em Porto Alegre-RS, a Editora EST publicou duas obras de Calvet: Os Maçons – sua Vida e sua Obra. - Dom Pedro I na Intimidade (1994). E Peregrinando pelo Rio Grande (1995). Calvet em suas palestras sempre defendeu que a leitura crítica capacita o indivíduo a interpretar o mundo, elaborar conceitos e posicionar-se de forma ativa na sociedade, indo além da memorização de informações.


Calvet faz parte das seguintes instituições literárias: Academia Maçônica de Letras, Ordem dos Velhos Jornalistas, Academia Anapolina de Ciências e Letras, Instituto Histórico e Academia de Letras de Uruguaiana, Academia Guanabarina de Letras, Instituto Brasileiro-Peruano Marechal Ramón Castilla, Instituto Cultural Simon Bolívar Argentino-Brasileiro, Centro de Estudos de Maçonaria Espanhola, Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul, Academia de História Militar Terrestre do Brasil, etc.


Por justíssimo mérito, diplomado Cidadão do Estado da Guanabara e Benemérito da Cultura, além de Honra ao Mérito da Grande Loja do Estado do Rio de Janeiro e do Grande Oriente Independente do Estado do RJ, Calvet cria que a leitura é uma ferramenta de formação integral do ser humano, sendo um estímulo contínuo para o pensamento e para a transformação pessoal e social, que passa pelas mãos hábeis dos homens de letras, pois, cada palavra é um tijolo na construção de um mundo feliz e digno.


Maranguape, Ceará, 30 de Março de 2026


ACADEMIA INTERNACIONAL DE MAÇONS IMORTAIS
Assessoria Especial da Presidência
Cléber Tomás Vianna
Diretoria de Comunicação Social
Bruno Bezerra de Macedo

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