quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

UM BRASILEIRO CHAMADO MONTEZUMA?

 

Soteropolitano raiz, filho do comerciante português Manuel Gomes Brandão e da mestiça Narcisa Teresa de Jesus Barreto, Montezuma, nascido Francisco Gomes Brandão, no dia 23 de Março de 1794, deles herdou dois tesouros importantes. O primeiro, a cor brasileira (parda). E o segundo, a possibilidade de gozar dos benefícios europeus, como por exemplo, estudar. O velho Brandão, seu Pai, o queria Padre (1807), um sonho que durou pouco meses, pois, Montezuma deixou a Ordem Seráfica dos Franciscanos Descalços para ingressar na Escola Médico-Cirúrgica em Salvador, a primeira escola de medicina da Bahia, fundada por decreto real de Dom João VI em 18 de fevereiro de 1808. Essa escola, que posteriormente se tornaria a Faculdade de Medicina da Bahia, foi um marco no surgimento da medicina e da ciência no Brasil.


Buscador da verdade, Montezuma após três anos dedicados aos estudos medicina, rumou para o velho continente, que lhe abria as portas do vasto mundo do saber que guardava dos incautos e temerários, mas, àqueles destinados a rebeber a verdadeira luz a Europa - da combinação das palavras eurys ("amplo") e ops ("rosto, olho"), significando algo como "ampla contemplação" ou "rosto amplo" – representava um mundo “encantador” de conhecimento a desbravar, contemplar, compreender e aplicar para o melhor de si e para o bem da humanidade. Radicado em Coimbra, cidade que continua a simbolizar a alma intelectual e histórica de Portugal, sendo um dos principais centros culturais de Portugal, lá, em 1816, Montezuma matricula-se na prestigiada Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vindo a graduar-se Bacharel em Direito em 1821.


A vivência em Coimbra no final do período colonial inseriu Montezuma nas discussões sobre o futuro do Brasil, influenciando suas ideias abolicionistas e federalistas. Foi em Coimbra, no ambiente universitário efervescente da época, que Montezuma tomou gosto pelas sociedades políticas secretas e maçonaria. Ele liderou grupos de acadêmicos brasileiros com uma personalidade magnética. Em Coimbra, Montezuma fundou a "Keporática", uma sociedade política de cunho maçônico, o que indica que sua atuação articulada, que mais tarde seria fundamental na independência do Brasil e na maçonaria brasileira, teve raízes na vivência acadêmica coimbrã. Coimbra foi o "laboratório" intelectual e político onde Montezuma se transformou de estudante de medicina (que fora na Bahia) em um advogado e líder ideológico defensor da independência do Brasil e, posteriormente, um Visconde de destaque no Segundo Reinado.


A Sociedade Keporática (ou Keporatica), também conhecida como Sociedade dos Jardineiros ou, às vezes, "Chícaras", foi uma sociedade secreta política e de caráter liberal, criada em Coimbra, Portugal, por volta de 1820-1823. Ela foi fundada principalmente por estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra (dentre os quais se destacam Montezuma e Almeida Garret, sendo uma das muitas organizações secretas (como a maçonaria e a carbonária), funcionou como um núcleo de discussão e ação política, defendendo ideais liberais e constitucionais que influenciaram a política portuguesa no contexto da Revolução Liberal de 1820 (vintismo). A Keporática atuou também no fomento de ideias voltadas à emancipação brasileira, no contexto das agitações de Coimbra entre 1820 e 1823. Coincidentemente, suas cores simbólicas eram o verde e o amarelo.


Em 1823, após a abdicação de Dom Pedro I, Francisco Gomes Brandão, como uma forma de se opor ao colonialismo lusitano e de afirmar uma identidade nacional brasileira, resolve destacar ainda mais sua brasilidade assumindo um novo nome: "Gê" (ou "Jê") representa uma tribo indígena do tronco linguístico não-tupi-guarani, "Acaiaba" é o nome de uma árvore (especie Spondias mombin), e "Montezuma" homenageia o imperador asteca, simbolizando a herança ameríndia. Essa reinação identitária expressa seu compromisso com a construção de uma nação soberana alicerçada na diversidade que dá força aos ideias, beleza às propositura comuns ao bem de todos e sabedoria de uma cultura proeminente formada por cada povo que dá cor ao Brasileiro, além de refletir seu papel como pioneiro do abolicionismo e do nacionalismo brasileiro.


De volta ao Brasil, Montezuma consolidou sua trajetória como figura central do Segundo Reinado, sendo eleito pela primeira vez em 1823, como deputado para a Assembleia Constituinte e, posteriormente, reeleito em 1837, ocupando a cadeira de deputado geral pela Bahia. Além disso, atuou como deputado durante a 4ª legislatura (1838–1841), conforme registrado em documentos históricos. Sua atuação parlamentar foi marcada por posições progressistas, incluindo o papel de pioneiro no movimento abolicionista, ao se tornar o primeiro deputado brasileiro a lutar contra o tráfico negreiro. Exerceu, ainda, os cargos de ministro da Justiça e dos Estrangeiros (1837-1840) e de Conselheiro de Estado, além de ter atuado como ministro plenipotenciário em Londres (1840). Fundou o Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) em 1843, sendo seu primeiro presidente.


O Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB) foi uma resposta à necessidade de organizar e legitimar a classe dos advogados no Brasil, num momento crucial de formação do Estado soberano após a Independência. Sua importância principal, desde o início, era a criação da Ordem dos Advogados do Brasil, com o objetivo de estruturar a profissão, garantir o conhecimento jurídico e contribuir para a elaboração das leis que substituiriam a legislação portuguesa em vigor. O IAB foi concebido como uma academia de juristas, reunindo os principais intelectuais do direito do Império, como primeira instituição jurídica da América Latina assumiu papel central na construção do ordenamento jurídico (como faz ainda hoje, como OAB), atuando como consultor dos Poderes Públicos e participando diretamente da redação de leis e da formação do pensamento jurídico brasileiro.


Maçonicamente, Montezuma, enquanto estava no exílio (1829), recebeu do Supremo Conselho dos Países Baixos (atual Bélgica) uma carta de autorização para instalar um Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil. Em 1832, fundou oficialmente o Supremo Conselho no Rio de Janeiro, tornando-se o 1º Soberano Grande Comendador brasileiro do Grau 33º, cargo que exerceu até sua passagem para o Oriente Eterno (1870). Sua atuação foi fundamental para estruturar e legitimar a Maçonaria no Brasil, influenciando diretamente o desenvolvimento do movimento maçônico no país. Além disso, ele foi um dos principais defensores dos ideais iluministas - liberdade, igualdade e fraternidade - que permeiam a ordem; sua atuação (e exemplo) contribuiu para a formação de um capital intelectual politicamente comprometido com a cidadania e a justiça social.


Montezuma, que já havia participado ativamente da luta pela independência, consolidou-se como um dos principais intelectuais e políticos liberais de seu tempo, atuando no Rio de Janeiro até sua morte em 1870. Tal enlevo foi reconhecido em 1854 com o título de Visconde de Jequitinhonha que reflete os relevantes serviços prestados por Montezuma ao Império do Brasil como jurista, primeiro diplomata negro, senador e político. Visconde é um título nobiliárquico de origem medieval, derivado do latim vicecomes, que significa "vice-conde" ou "substituto do conde", introduzido durante o Império em 1826, representa tanto um título de nobreza com função histórica específica quanto um símbolo de prestígio, reconhecimento e hierarquia social. Jequitinhonha ("rio largo e cheio de peixes", garantem os povos maxacalis), certifica os propósitos de Montezuma para o Brasil: Fartura!


Incorruto, Montezuma, antes de ser visconde, recusou o título de Barão da Cachoeira, alegando que não cederia a favores, tão pouco aceitaria honrarias menores por sua postura independente. Celebrado como o primeiro diplomata negro do Brasil e um dos primeiros intelectuais negros de destaque no período imperial. Sua atuação como ministro das Relações Exteriores e embaixador é um marco histórico frequentemente citado em discussões sobre representatividade e inclusão racial na administração pública brasileira. Para o Brasil de 2026, o legado de Francisco Gê Acaiaba de Montezuma (o Visconde de Jequitinhonha) permanece fundamental, especialmente nos campos do Direito, das relações raciais e da soberania nacional. Sua trajetória é revisitada hoje como um símbolo de pioneirismo intelectual e político na defesa da integridade territorial e da independência nacional frente a influências externas.


Maranguape, 05 de Fevereiro de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9


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