quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

O GRÃO MESTRE NEGRO QUE (R)EVOLUCIONOU O BRASIL

Órfão da Revolução Pernambucana, filho do Capitão de Artilharia Pantaleão Ferreira dos Santos, atuante no início do século XIX e notável por ter participado da Revolução Pernambucana de 1817, onde veio a falecer enquanto defendia a liberdade, a igualdade e a fraternidade, que sustentavam a jovem República Pernambucana; e de Dona Ágata Joaquim de Saldanha, que lhe deram ao infante Joaquim Saldanha Marinho, nascido em 4 de Maio de 1816, não somente a cor brasileira (parda), mas, a bravura e argúcia de um povo fadado ao pioneirismo, a inventividade e ao progresso: o brasileiro.


Olindense destinado à proeminência, Saldanha Marinho crescia sob os influxos da pós-revolução, teve recebeu suas primeiras letras sob a Mestria de Dona Ágata Joaquim de Saldanha até ser admitido no Seminário de Olinda, fundado em 1614 e reorganizado sob o bispado de Azeredo Coutinho (1799–1810), era a principal instituição de ensino superior da região. O historiador Capistrano de Abreu destaca que, sem a iniciativa de Azeredo Coutinho, a geração idealista de 1817 não teria surgido, tão pouco, seria celebrado como formidável formador do capital intelectual brasileiro.


Saldanha Marinho iniciou estudos superiores na Faculdade de Direito de Olinda em 1832. A Academia, como passou a ser chamada, foi undada em 11 de agosto de 1827 por decreto do imperador Dom Pedro I, sendo uma das duas primeiras faculdades de Direito do Brasil, ao lado da de São Paulo. A instituição foi instalada no Mosteiro de São Bento – que também abrigava o Seminário Maior Nossa Senhora da Graça –, em Olinda, em 15 de maio de 1828, com aula inaugural em 2 de junho do mesmo ano, formando sua primeira turma de bacharéis em Ciências Jurídicas após cinco anos de estudos (1832).


Saldanha Marinho graduou-se Bacharel em 1835/1836, um ano antes do esperado por distinção dentre seus iguais, e rumou para a Terra da Luz em 1837 mais precisamente para o "Arraial da Ribeira dos Icós", onde assumiu sua nomeação como Promotor Publico, iniciando sua carreira política e jurídica no Estado do Ceará, que se estabeleceu, para ele, como uma segunda pátria, onde atuou como secretário de governo, professor do liceu estadual e juiz dos feitos da fazenda em Fortaleza, destacando-se na área da administração pública, o que o lançou ao cenário político nacional.


Cearense por amor semeado e bem segado, Saldanha Marinho foi eleito deputado provincial pelo Ceará e, em 1848, tornou-se deputado geral, representando o estado na Câmara dos Deputados do Império. Durante esse período, destacou-se pela sua atuação liberal e pela defesa de causas como a separação entre Igreja e Estado. Sua passagem pela Terra da Luz foi marcada por um profundo envolvimento com a política e com a imprensa, especialmente, durante sua atuação como redator do Diário do Rio de Janeiro, onde colaborou com figuras como Quintino Bocaiúva e Machado de Assis.


Enlevando-se nacionalmente, Saldanha Marinho foi presidente das províncias de Minas Gerais (1865–1867), onde reabilitou a memória de Tiradentes e construiu um monumento em sua homenagem em Ouro Preto. Posteriormente, presidiu a província de São Paulo (1867-1868), onde agiu para aplacar conflitos entre Liberais e Conservadores e incentivou a criação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, impulsionando o desenvolvimento econômico paulista. Sua atuação foi decisiva na unificação de interesses políticos e econômicos, contribuindo para a modernização da Região Sudeste.


A partir de 1868, Saldanha Marinho aderiu à causa republicana, seguindo os passos do Capitão de Artilharia Pantaleão Ferreira dos Santos, seu Pai. Assumindo o papel de chefe reconhecido do Partido Republicano, liderou com seus pares o movimento republicano no Brasil, sendo signatário do Manifesto Republicano, lançado no jornal A República (1870), que exigia a instauração de uma república democrática e laica. Proclamada Provisória em 1889, assim permanecendo até 1993, quando 73,36% do eleitorado, cerca de 66,2 milhões de eleitores, a tornaram ad aeternum República Federativa do Brasil.


Eleito Senador pelo Rio de Janeiro (na época, Distrito Federal da jovem República Brasileira), Saldanha Marinho foi um dos autores do anteprojeto da Primeira Constituição Republicana do Brasil (1891), se consolidando como um dos principais arquitetos do projeto republicano brasileiro, defendendo a laicidade do Estado, a educação gratuita e a descentralização política; e, desde então, é lembrado como o "projetista" de um Brasil moderno. Sua obra literária, como o livro O Rei e o Partido Liberal, permanece como um registro crítico das contradições do Poder Moderador durante o Segundo Reinado.


Maçom de providencial mestria, Saldanha Marinho foi iniciado na Loja Vigilância da Pátria, no Vale do Lavradio, em 1861, durante um período de crise interna da Maçonaria; nela ele, também, se distinguiu. Em 1863, liderou a separação de 45 maçons do Grande Oriente do Brasil, resultando na fundação do Grande Oriente do Brasil do Vale dos Beneditinos, onde atuou como Grão-Mestre (1870). Sua liderança foi fundamental na unificação da maçonaria brasileira, culminando em 1872 com a consolidação da obediência. Sob sua gestão a maçonaria se fez um espaço de cidadania para mulatos, promovendo a inclusão sob a guia da alteridade.


O habilidoso esforço de Saldanha Marinho foi fundamental para a unificação da Maçonaria brasileira, que foi finalmente realizada em 1882, com a fusão dos dois Grandes Orientes, permitindo-lhe renunciar ao cargo de Grão-Mestre em 1883. Durante esse período, a Maçonaria, sob sua liderança, tornou-se um dos principais centros de disseminação de ideias republicanas, liberais e abolicionistas, influenciando fortemente a política e a sociedade brasileira. A Maçonaria eflorescia com a expansão das lojas, com a defesa da instrução pública e com a luta contra o clericalismo.


Neste tocante, Saldanha Marinho foi um dos principais articuladores da Questão Religiosa, atuando na imprensa com o pseudônimo “Ganganelli”, onde criticava a influência da Igreja Católica no Estado. Inegavelmente, sua atuação maçônica foi essencial para a construção de uma identidade republicana e laica no país, consolidando a Maçonaria como uma força social e política de peso – um "grupo estratégico" na transição do regime monárquico para o republicano, que conta hoje com 200 mil membros em 6.000 lojas no Brasil e se mantém reconhecido como um marco na história política do Brasil.


Honrando por seus pares, o Grande Oriente do Brasil mantém o "Medalhão de Prata Joaquim Saldanha Marinho" em reconhecimento à sua importância histórica. Sua trajetória intelectual e política foi amplamente validada: sua imagem apareceu na cédula de 200 mil réis, e várias cidades e ruas – Saldanha Marinho-RS e rua Saldanha Marinho em Fortaleza-CE, por exemplo –, levam seu nome. Como, também, o leva o primeiro vapor a transportar bens e pessoas pelo “Velho Chico”. Hoje, este filho da viúva é lembrado como símbolo de progresso, republicanismo e luta por uma sociedade mais justa e iluminada.


Maranguape, Ceará, 04 de Fevereiro de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9

Um comentário:

CORRESPONDER

  Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu no...