Neste
em que se comemora a língua materna, que vara milênio a milênio, sendo um fenômeno
social bem-sucedido e profundamente enraizado, fruto de um processo histórico e
coletivo que molda e é moldado pela sociedade. Ela não é apenas um sistema de
comunicação, mas um patrimônio cultural imaterial que expressa a identidade, os
saberes, os valores e a visão de mundo de um povo. Para os povos indígenas do
Brasil, por exemplo, a língua materna é considerada a alma de seu povo,
representando memória, território e um universo simbólico único.
Majestosamente,
a língua materna é um espelho da sociedade: ela se transforma com as
gerações, incorpora novos conceitos e se adapta a novas realidades. A variação
linguística é uma prova da dinâmica da língua ao longo do tempo e do espaço,
refletindo mudanças sociais, culturais e históricas. Diferenças regionais,
socioeconômicas e estilísticas são legítimas e estruturadas, não erros. A norma
culta, embora prestigiada, é apenas uma das muitas variedades da língua
originária, e o preconceito contra outras formas de falar perpetua
desigualdades sociais.
Preservar
a língua é essencial para manter a diversidade cultural, pois, a perda de
uma língua significa o fim de um mundo – de histórias, saberes e modos
únicos de existir. Claramente, é uma moção de justiça sociocultural, além de um
ato de resistência contra a homogeneização forçada pela globalização,
principalmente, no que tocante às línguas minoritárias. A revitalização
linguística, por meio de políticas públicas, educação bilíngue e documentação
por etnolinguistas, é um caminho providencial para conter essas perdas.
A
preservação de nossa espécie e o zelo pela biodiversidade são vetores primazes de
sobrevivência do ecossistema Terra; neste mesmo ímpeto, a diversidade
linguística é tão importante quanto a biodiversidade, pois, em ambas as
perspectivas, sua diminuição empobrece a experiência humana e reduz a riqueza
da cultura global. A morte de uma língua
é uma perda irreparável de um universo simbólico, com conhecimentos
sobre a natureza, cosmologias, formas de organização social e expressões
artísticas que não podem ser traduzidos ou substituídos.
Indubitavelmente,
cada língua carrega uma visão única do mundo, histórias orais, saberes
ancestrais, tradições e modos específicos de organizar a vida e a sociedade,
portanto, a língua é o coração da identidade cultural dos povos e um tesouro enriquecendo
a humanidade com mundos encantadores de formas de pensar e existir. Ela não é
estática — ela evolui, se transforma, mas sempre carrega o legado de quem a
fala. Ao valorizar todas as línguas, reconhecemos a pluralidade humana e
fortalecemos a diversidade cultural como um bem comum.
Diferente
da linguagem, que é a capacidade geral de comunicação, a língua é uma
materialidade específica e um organismo vivo, dinâmico, pois, é uma instituição
social herdada, baseada em convenções estabelecidas coletivamente, que garante
a continuidade e a compreensão entre falantes, porém, efloresce em constante
mudança por ação coletiva e inconsciente dos falantes, em resposta às mudanças
culturais, tecnológicas e sociais. A língua só se conserva porque
muda – assim como uma casa precisa de reformas constantes para
permanecer habitável.
Por
falar em casa habitável, a língua materna é a primeira língua que uma pessoa
adquire desde a infância, geralmente por meio da interação com a família e o
ambiente próximo. Ela é fundamental para
o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, atuando como base para a
formação da identidade e da compreensão do mundo, facilitando a transmissão de
tradições, emoções e valores de geração em geração. A língua materna é, também,
chamada de língua nativa e é contraposta à língua estrangeira, que é qualquer
outra língua além daquela de origem.
Aprendida
nos primeiros anos de vida no ambiente familiar, a língua materna é
internalizada na relação com o meio, conectando o falante a um grupo, criando
um "lugar" de conforto e identificação cultural. A troca entre
falantes nativos fortalece a autoexpressão e a autoestima, especialmente em
contextos de imigração, onde manter a língua de origem ajuda na manutenção das
raízes. Através dela, expressões, histórias e nuances culturais são
preservadas, evitando a perda de patrimônio cultural.
Ao
preserva a língua materna, o indivíduo mantém vivo o seu senso de
continuidade histórica, sentindo-se parte de um grupo que compartilha os
mesmos valores e tradições. Quando falamos nossa língua nativa, sentimos que
podemos ser nossa versão mais autêntica. Para quem vive longe de sua terra
natal, a língua materna torna-se o principal instrumento de resistência
cultural. O fenômeno do "pertencimento" muitas vezes é mediado por
comunidades que falam o mesmo idioma, criando uma "pátria
portátil" onde quer que a pessoa esteja.
A
língua materna é a primeira forma como nomeamos o mundo. Por ser carregada de
memórias afetivas e nuances emocionais que muitas vezes não conseguimos
traduzir para um segundo idioma, ela funciona como um "refúgio”. Sentir-se
pertencente exige ser compreendido. Quando a língua materna de um indivíduo é
desvalorizada ou proibida (como ocorre com línguas indígenas ou dialetos
minoritários), o senso de pertencimento é fraturado, gerando um sentimento de
exclusão e invisibilidade social, que deve ser combatido virilmente.
A
falta de acessibilidade linguística no poder público – como a ausência de
tradutores e intérpretes em serviços de saúde, educação e justiça – impede que
indígenas e minorias linguísticas exercitem plenamente seus direitos
fundamentais. Estudos da USP demonstram que essa inacessibilidade gera
violações de direitos humanos, segregação e discriminação, pois, falar de forma
diferente é visto como demérito, gerando exclusão social, baixa autoestima e
até penalidades. No Brasil, o gloticídio e o preconceito linguístico é crime,
conforme a Lei 7.716.
Negligenciar
a preservação das línguas indígenas e minoritárias não é apenas cercear um
direito, mas, principalmente, é negar à diversidade cultural o pertinente
fomento aos formidáveis prodígios que deve semear, como também, é impedir que a
justiça social asperja sobre o povo brasileiro a doce fragrância da equanimidade,
que perfuma igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida de
suas desigualdades. O combate ao glotocídio ou ao preconceito linguístico passa,
também, pelo fortalecimento de políticas de educação bilíngue
intercultural.
Defender
a língua materna em sua diversidade nada difere da defesa à vida, à educação,
etc., pois, é um dever tão veraz, quanto viril, do “homem”, enquanto ente
humano, consignado pela UNESCO no Art. 2º da Declaração dos Direitos Humanos, garantindo
que ninguém seja discriminado por língua, reforçando que o direito à expressão
linguística é inalienável. A valorização da diversidade linguística – incluindo
o português brasileiro, as línguas indígenas e as variedades regionais – é,
portanto, uma extensão do direito à dignidade humana.
Seriamente,
a defesa da língua materna em sua diversidade é tão relevante e urgente quanto
defender a vida, a educação e a liberdade: é reconhecer que cada forma de falar
carrega um universo de saberes, histórias e identidades. Como afirmado
por Paulo Freire, educar é reconhecer o outro – e o outro fala com
sua língua. Respeitar a língua é respeitar o ser humano. No Brasil, orgulhosamente,
o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) trabalha
com o Inventário Nacional da Diversidade Linguística para tentar reverter esse
processo de apagamento.
Celebrar
o Dia Internacional da Língua Materna, sublinha que cerca de 40% da população
mundial não tem acesso à educação no idioma que fala ou entende, tornando a
valorização da língua materna crucial para uma educação inclusiva. O conceito
central desta data é a promoção da diversidade linguística e cultural, além da
preservação do multilinguismo como patrimônio imaterial das nações. Lembrando
que língua materna é um dos pilares fundamentais da identidade humana, da
cultura e do desenvolvimento cognitivo e emocional.
Maranguape,
Ceará, 21 de Fevereiro de 2026
ACADEMIA
INTERNACIONAL DOS MAÇONS IMORTAIS
Diretoria
de Comunicação Social
Bruno
Bezerra de Macedo
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