A
certeza real é que a vida pertence à morte. Biologicamente e filosoficamente, a
morte é considerada o destino final inevitável de todo ser vivo, tornando-a a
única certeza absoluta da vida. Ao aceitarmos que a vida pertence à morte (ou
seja, é finita), somos confrontados com a necessidade de dar valor e sentido a
cada momento de nossa existência. Por isso indagamos: que morte desejo ter?
Este
questionamento nos leva a não buscar apenas prever o fim físico, mas, a definir
a qualidade de sua trajetória até nossa partida para o Oriente Eterno. Isto aponta
para o desejo de uma morte consciente, cercada de sentido, onde a vida foi
vivida de forma plena, com amor e gratidão. Envolve a busca por dignidade e
qualidade de vida (cuidados paliativos), para que não nos expropriemos de nosso
próprio morrer.
Desejar
uma "boa morte" significa desejar chegar ao fim sem o peso do "e
se?". É o conceito de viver de forma autêntica. Se a vida foi
pautada pelas suas próprias escolhas e valores, e não pelas expectativas
alheias, a morte encontra um ser humano "preenchido”. Se o tempo é
escasso, ele se torna o nosso recurso mais valioso. Dar-lhe sentido não
significa viver em euforia constante, mas sim, com presença.
Viver
com presença é substituir o movimento mental compulsivo (pensar demais no
passado ou futuro) por uma "atenção silenciosa", permitindo perceber
a essência do momento. Significa "dizer sim" à realidade atual, mesmo
quando não é perfeita ou bonita, nos oportunizando uma vivência se reorganize
internamente. Envolve valorizar conversas sem pressa, silêncio e/ou
simplesmente estar com quem se ama, sendo amado, segando a merecido o amor que
soube semear.
Assim,
alcançamos a maturidade emocional que nos capacita a dar um novo sentido ao que
foi vivido, sem esquecer o passado, mas, ressignificando-o. A vida ganha
sentido quando paramos de buscar apenas o "prazer e a excitação" e
passamos a cultivar a atenção plena sobre o que fazemos e sentimos, e isto nos
permite viver com plenitude e apreciar o instante. Essa é uma perspectiva
muitíssimo lúcida e sumamente necessária.
Imbuídos
neste pensar, encerramos uma narrativa corrente à “morte desejada”. A paz buscada
se manifesta na sensação de que o ciclo se completou de forma digna. Ter vivido
e partido sob os próprios termos, reflete a autonomia numa viver livre dos grilhões
dos preconceitos, dos vícios e dos erros. Somos, indiscutivelmente, a semente (exemplos)
do porvir digno para muitos que nos semeiam por onde vão.
Qual
a qualidade dos exemplos que promovemos? Eles devem ser muito mais do que
apenas ilustrações; devem servir como modelos práticos que refletem os valores,
a ética e a postura esperados de nós, gerando ressonância com aqueles que nos
margeiam em nosso caminhar em vida. Envolve precisão, relevância, coerência e
adequação ao contexto, pois, assim provocam reflexão e impacto social positivo.
Ditoso,
o exemplo retira uma ideia, valor ou conceito (como "honestidade" ou
"proatividade", etc) do campo das ideias e os materializa em uma
atitude observável, tornando a teoria tangível e compreensível. Ele tem o
condão de transcender o abstrato para se estabelecer valioso, confiável,
preciso e aplicável habitualmente em nossas ações concretas gerando valor ao
passo que, dia a dia, esculpe nossa identidade.
Indiscutivelmente,
como "votos" em uma nova identidade, nossas ações repetidas definem
quem nos tornamos. Ao agir com base no exemplo, reforçamos internamente novos
comportamentos até que se tornem parte de quem somos. "Se a ação for
boa", ela se torna um modelo a ser seguido, sendo preferível à mera
teoria, pois, a experiência vale mais que palavras, pois, traduz valores em
passos práticos.
Imprescindível,
neste mister, é compreendermos que valores e virtudes não vêm exclusivamente de
um lado só, mas sim, emergem de uma interação entre o sagrado (transcendente,
religioso) e o profano (cotidiano, social, do humano). Harmoniosamente, são regras
divinas ou construções sociais essenciais para a convivência. “Não há nada
melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive”. (Eclesiastes
3:12)
O
sociólogo Émile Durkheim argumenta que o próprio "sagrado" pode ser
uma construção da sociedade. A sociedade torna "sagrados" valores
(como a vida, a honestidade, a liberdade) para garantir sua própria ordem. O sagrado
inspira reverência e fundamenta o comportamento moral, dando autoridade e
transcendência às virtudes, enquanto o profano as contextualiza
e aplica elevando os níveis de humanização.
Abraçados
neste espírito, muitos pensadores, como os da Escola de Frankfurt ou
filósofos como André Comte-Sponville, compreendem que, embora os valores
possam ter surgido em contextos religiosos (sagrado), eles se tornaram
patrimônio da razão humana (profano). Notoriamente, a origem dos valores e
virtudes é um dos grandes debates da humanidade, e a resposta depende de qual
"lente" você usa para enxergar o mundo.
Sob
o fito de uma ordem objetiva no universo, vêm do sagrado. Sob o achar
que somos que damos sentido ao mundo, vêm do profano. Profano e
sagrado não se separam nem mesmo na morte, posto que a experiência humana é
marcada por uma contínua união entre o ordinário (profano) e o transcendental
(sagrado), inclusive no momento final da vida.
O
conceito de hierofania presente na obra de Mircea Eliade sugere que o sagrado
se manifesta no profano. Assim, o corpo físico, comumente
profano, pode ser investido de um significado sagrado no momento da morte. “O
pó volta a terra com o é; e o espírito volte a Deus que o deu”. (Eclesiastes
12:7), descreve o destino físico e espiritual após a morte: o corpo (pó) se
decompõe e o espírito (sopro de vida/inteligência) retorna a Deus que o deu.
O
cadáver é o exemplo máximo da união entre o sagrado e o profano, sendo, ao
mesmo tempo, matéria orgânica em decomposição (profano) e o objeto de rituais
de passagem, memória e transcendência (sagrado). A fragilidade humana é uma
ponte para a espiritualidade, onde o reconhecimento da própria pequenez (pó)
leva à humildade e à dependência de algo maior e eterno. A eternidade é “eterno
agora” vencendo o tempo.
Diante
da brevidade da vida, o ser humano tenta tocar a eternidade através do que
deixa para trás – obras de arte, ideias, filhos ou memórias. Como dizia
Sêneca ou os estoicos na prática do Memento Mori, a consciência da
nossa finitude é o que dá valor ao momento presente, cujos mistérios nos encantam.
A consciência da mortalidade é, paradoxalmente, libertadora, e nos leva a
valorizar o presente e a viver com mais propósito.
Somos
seres "de vidro", sujeitos ao tempo, à doença e ao acaso. A sabedoria
encontrada nisto repousa na certeza real de que “a vida pertence à morte”, ou
seja, ao reconhecermos a limitação do tempo para viver de forma mais profunda e
significativa. Se o tempo fosse infinito, nenhum momento teria urgência ou
valor especial. A morte não é, meramente, o fim, mas a moldura que dá forma e
valor à pintura da vida.
Maranguape,
Ceará, 20 de Fevereiro de 2020
Bruno
Bezerra de Macedo
Patroneado
por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira
AIMI nº 9

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