sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A VIDA PERTENCE À MORTE

 

A certeza real é que a vida pertence à morte. Biologicamente e filosoficamente, a morte é considerada o destino final inevitável de todo ser vivo, tornando-a a única certeza absoluta da vida. Ao aceitarmos que a vida pertence à morte (ou seja, é finita), somos confrontados com a necessidade de dar valor e sentido a cada momento de nossa existência. Por isso indagamos: que morte desejo ter?

 

Este questionamento nos leva a não buscar apenas prever o fim físico, mas, a definir a qualidade de sua trajetória até nossa partida para o Oriente Eterno. Isto aponta para o desejo de uma morte consciente, cercada de sentido, onde a vida foi vivida de forma plena, com amor e gratidão. Envolve a busca por dignidade e qualidade de vida (cuidados paliativos), para que não nos expropriemos de nosso próprio morrer.

 

Desejar uma "boa morte" significa desejar chegar ao fim sem o peso do "e se?". É o conceito de viver de forma autêntica. Se a vida foi pautada pelas suas próprias escolhas e valores, e não pelas expectativas alheias, a morte encontra um ser humano "preenchido”. Se o tempo é escasso, ele se torna o nosso recurso mais valioso. Dar-lhe sentido não significa viver em euforia constante, mas sim, com presença.

 

Viver com presença é substituir o movimento mental compulsivo (pensar demais no passado ou futuro) por uma "atenção silenciosa", permitindo perceber a essência do momento. Significa "dizer sim" à realidade atual, mesmo quando não é perfeita ou bonita, nos oportunizando uma vivência se reorganize internamente. Envolve valorizar conversas sem pressa, silêncio e/ou simplesmente estar com quem se ama, sendo amado, segando a merecido o amor que soube semear.

 

Assim, alcançamos a maturidade emocional que nos capacita a dar um novo sentido ao que foi vivido, sem esquecer o passado, mas, ressignificando-o. A vida ganha sentido quando paramos de buscar apenas o "prazer e a excitação" e passamos a cultivar a atenção plena sobre o que fazemos e sentimos, e isto nos permite viver com plenitude e apreciar o instante. Essa é uma perspectiva muitíssimo lúcida e sumamente necessária.

 

Imbuídos neste pensar, encerramos uma narrativa corrente à “morte desejada”. A paz buscada se manifesta na sensação de que o ciclo se completou de forma digna. Ter vivido e partido sob os próprios termos, reflete a autonomia numa viver livre dos grilhões dos preconceitos, dos vícios e dos erros. Somos, indiscutivelmente, a semente (exemplos) do porvir digno para muitos que nos semeiam por onde vão.

 

Qual a qualidade dos exemplos que promovemos? Eles devem ser muito mais do que apenas ilustrações; devem servir como modelos práticos que refletem os valores, a ética e a postura esperados de nós, gerando ressonância com aqueles que nos margeiam em nosso caminhar em vida. Envolve precisão, relevância, coerência e adequação ao contexto, pois, assim provocam reflexão e impacto social positivo.

 

Ditoso, o exemplo retira uma ideia, valor ou conceito (como "honestidade" ou "proatividade", etc) do campo das ideias e os materializa em uma atitude observável, tornando a teoria tangível e compreensível. Ele tem o condão de transcender o abstrato para se estabelecer valioso, confiável, preciso e aplicável habitualmente em nossas ações concretas gerando valor ao passo que, dia a dia, esculpe nossa identidade.

 

Indiscutivelmente, como "votos" em uma nova identidade, nossas ações repetidas definem quem nos tornamos. Ao agir com base no exemplo, reforçamos internamente novos comportamentos até que se tornem parte de quem somos. "Se a ação for boa", ela se torna um modelo a ser seguido, sendo preferível à mera teoria, pois, a experiência vale mais que palavras, pois, traduz valores em passos práticos.

 

Imprescindível, neste mister, é compreendermos que valores e virtudes não vêm exclusivamente de um lado só, mas sim, emergem de uma interação entre o sagrado (transcendente, religioso) e o profano (cotidiano, social, do humano). Harmoniosamente, são regras divinas ou construções sociais essenciais para a convivência. “Não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive”. (Eclesiastes 3:12)

 

O sociólogo Émile Durkheim argumenta que o próprio "sagrado" pode ser uma construção da sociedade. A sociedade torna "sagrados" valores (como a vida, a honestidade, a liberdade) para garantir sua própria ordem. O sagrado inspira reverência e fundamenta o comportamento moral, dando autoridade e transcendência às virtudes, enquanto o profano as contextualiza e aplica elevando os níveis de humanização.

 

Abraçados neste espírito, muitos pensadores, como os da Escola de Frankfurt ou filósofos como André Comte-Sponville, compreendem que, embora os valores possam ter surgido em contextos religiosos (sagrado), eles se tornaram patrimônio da razão humana (profano). Notoriamente, a origem dos valores e virtudes é um dos grandes debates da humanidade, e a resposta depende de qual "lente" você usa para enxergar o mundo.

 

Sob o fito de uma ordem objetiva no universo, vêm do sagrado. Sob o achar que somos que damos sentido ao mundo, vêm do profano. Profano e sagrado não se separam nem mesmo na morte, posto que a experiência humana é marcada por uma contínua união entre o ordinário (profano) e o transcendental (sagrado), inclusive no momento final da vida.

 

O conceito de hierofania presente na obra de Mircea Eliade sugere que o sagrado se manifesta no profano. Assim, o corpo físico, comumente profano, pode ser investido de um significado sagrado no momento da morte. “O pó volta a terra com o é; e o espírito volte a Deus que o deu”. (Eclesiastes 12:7), descreve o destino físico e espiritual após a morte: o corpo (pó) se decompõe e o espírito (sopro de vida/inteligência) retorna a Deus que o deu.

 

O cadáver é o exemplo máximo da união entre o sagrado e o profano, sendo, ao mesmo tempo, matéria orgânica em decomposição (profano) e o objeto de rituais de passagem, memória e transcendência (sagrado). A fragilidade humana é uma ponte para a espiritualidade, onde o reconhecimento da própria pequenez (pó) leva à humildade e à dependência de algo maior e eterno. A eternidade é “eterno agora” vencendo o tempo.

 

Diante da brevidade da vida, o ser humano tenta tocar a eternidade através do que deixa para trás – obras de arte, ideias, filhos ou memórias. Como dizia Sêneca ou os estoicos na prática do Memento Mori, a consciência da nossa finitude é o que dá valor ao momento presente, cujos mistérios nos encantam. A consciência da mortalidade é, paradoxalmente, libertadora, e nos leva a valorizar o presente e a viver com mais propósito.

 

Somos seres "de vidro", sujeitos ao tempo, à doença e ao acaso. A sabedoria encontrada nisto repousa na certeza real de que “a vida pertence à morte”, ou seja, ao reconhecermos a limitação do tempo para viver de forma mais profunda e significativa. Se o tempo fosse infinito, nenhum momento teria urgência ou valor especial. A morte não é, meramente, o fim, mas a moldura que dá forma e valor à pintura da vida.

 

Maranguape, Ceará, 20 de Fevereiro de 2020

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9

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