A
tolerância no mundo atual é um conceito crucial para a harmonia social,
mas, enfrenta desafios significativos como a polarização e a disseminação de
ódio. Embora seja essencial para proteger a diversidade e os direitos humanos,
a falta de compreensão profunda sobre o que significa tolerar pode levar à
perpetuação de práticas intolerantes. A intolerância se manifesta em diversos
âmbitos, desde conflitos em ambientes domésticos devido ao excesso de
convivência até a violência e discriminação religiosa, como mostram dados
recentes no Brasil.
Um
desafio é a própria definição da tolerância, que não é aceitar passivamente
tudo, mas sim respeitar a diversidade de opiniões e modos de vida, exigindo a
capacidade de estabelecer limites quando ações violam direitos fundamentais, um
conceito conhecido como o "paradoxo da tolerância". O paradoxo
da tolerância, proposto pelo filósofo Karl Popper, descreve o dilema de uma
sociedade tolerante ter que decidir se deve tolerar a intolerância. Uma
sociedade tolerante pode ser destruída se permitir que grupos intolerantes
operem livremente.
O
combate à intolerância deve ocorrer, inicialmente, através de argumentos
racionais e debates. No entanto, se a intolerância persistir e se tornar uma
ameaça real, deve ser coibida por meios legais e institucionais (leis,
punições), não necessariamente por violência física, para proteger a
sociedade. Ideias que ferem a dignidade humana, como a apologia ao racismo,
ao fascismo, aos discursos de ódio, à violência etc. não são aceitáveis sob o
pretexto de tolerância, pois, ultrapassam os limites do que é coletivamente
combinado em uma sociedade civilizada.
A
tolerância, na verdade, exige uma postura ativa de defesa dos valores
democráticos. Embora a tolerância não seja o foco, a vontade geral, ao buscar o
bem-estar de todos, implica a tolerância como um dos seus princípios,
especialmente no que diz respeito aos direitos de todos os cidadãos. Ao entrar
no contrato social de Rousseau, o indivíduo renuncia à liberdade que tinha no
"estado de natureza" para se submeter à vontade geral da comunidade. A
lei justa, que emana da vontade geral, não deve oprimir ninguém nem favorecer
um grupo em detrimento de outro.
Rousseau
argumenta que a tolerância deve distinguir entre o que é essencial para a moral
e a ordem pública e o que são opiniões acessórias. Crenças que não prejudicam a
moralidade pública ou a obediência ao pacto social devem ser toleradas. A
verdadeira harmonia social é um estado de equilíbrio social, mediado por leis
justas derivadas da vontade geral, onde a tolerância é uma ferramenta política
para proteger essa ordem de ameaças sectárias ou intolerantes. Neste estado o "ser
cidadão" (construtor social) prevalece sobre o "ser indivíduo" (egocêntrico).
O
"ser indivíduo" (buscando autonomia e interesses pessoais) é a base
da dignidade humana e dos direitos individuais. O "ser cidadão"
(atuando como construtor social) é o que permite a coexistência harmoniosa e o
progresso da comunidade. A maioria das sociedades democráticas busca um equilíbrio
dinâmico entre os direitos e liberdades individuais e as
responsabilidades coletivas para o bem-estar comum, do qual emerge a felicidade
(eudaimonia) que só é possível por meio da interação social, da linguagem e da vida
em comunidade (a pólis), segundo Aristóteles.
Para
sociólogos como Durkheim, a sociedade sempre prevalece sobre o
indivíduo. As normas, regras, costumes e leis sociais (os "fatos
sociais") exercem coerção sobre os indivíduos, moldando seus
comportamentos e garantindo a perpetuação da sociedade. A identidade individual
é, em grande parte, construída a partir do pertencimento a grupos sociais e da
assimilação de valores coletivos. Uma sociedade justa e próspera requer
tanto a proteção robusta dos direitos individuais quanto um compromisso firme
com o bem-estar coletivo e a responsabilidade social.
A responsabilidade
social é o compromisso de indivíduos e organizações em
contribuir para o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida
na comunidade onde operam sob os auspícios da tolerância que se estabelece pelo
respeito, pela aceitação e pelo apreço à diversidade de culturas, modos de
expressão e maneiras de ser dos seres humanos. Não se trata de passividade, mas,
de uma escolha ativa e diária de exercitar a empatia, o diálogo e a cooperação,
combatendo preconceitos e a exclusão, erigindo as bases da melhor convivência
social.
Maçonaria
é convivência, preceitua José Linhares de Vasconcelos Filho, um legado vivo da
maçonaria cearense. Sob o olhar da alteridade, a Maçonaria discerne que o outro
tem o direito de ser e pensar de forma diferente, sem que isso exija
concordância mútua em todos os aspectos. A alteridade é a virtude que busca tornar
feliz a humanidade pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela
tolerância, pela igualdade, pelo respeito à autoridade e à crença (convicção)
de cada um. E a semeadura da dignidade social cuja sega substituir uma cultura
de guerra por uma cultura de paz.
Maçonicamente,
a dignidade social é o reconhecimento da dignidade inerente a cada indivíduo,
que exige que todos sejam tratados com respeito, valor e igualdade,
independentemente de suas características pessoais. Isso se traduz no direito a
ter as necessidades básicas atendidas, como saúde, educação e moradia, e na
proteção contra qualquer tratamento degradante. A dignidade social, sob a égide
tanto da tolerância (harmonia na diferença) quanto a responsabilidade social
(desenvolvimento sustentável e qualidade de vida para todos), lastreia um mundo
mais equitativo, sereno, igualitário e feliz.
Promotora
da felicidade humana, A Maçonaria considera a Felicidade social como o
bem-estar coletivo que se constrói através de relações saudáveis, interação com
outros e um senso de pertencimento e propósito na sociedade, ou seja, um claro
reflexo da inclusão social eficaz, percebida na Maçonaria. Segundo ela, a felicidade
é o objetivo da ordem social e, por sua vez, a ordem social é um meio para
alcançá-la. Transcende a felicidade individual ao enfatizar que o
desenvolvimento humano e a satisfação pessoal estão profundamente ligados às
conexões interpessoais, à solidariedade, às ações que beneficiam a comunidade
na construção da consciência social.
Segundo
Luís Carlos Fernandes, integrante da A.:R.:L.:S.: Acácia de São João n° 266, sediada em José
Bonifácio-SP, “Consciência é a Maçonaria, e o seu estudo, indispensável para
que possamos conhecer-nos a nós mesmos, é o que constitui os mistérios que a
envolvem. A Maçonaria conduz seus membros a encontrar formas ótimas de lidar
com as diferenças. O contato com o diferente é a possibilidade de aprender algo
novo, é a possibilidade real de alargar as fronteiras deste saber. Mais do que
respeitar o diferente, agraciá-lo com a compreensão é dever sublime.
Não
somente tolerando o diferente, que, por vezes, finda em arrogância e
preconceito; tão pouco apenas respeitando o diferente, que, muitas vezes radica
a indiferença, mas, percebendo que o fundamental é reconhecer-lhe por seu
verdadeiro valor, o que potencializa o humano no maçom. Viver maçonicamente é
dialética efusivamente plena, como anuncia a Teoria de Santiago: a vida como um
processo de conhecimento em constante aferição, aprimoramento e evolução, portanto,
se a quisermos conhecer a contento, é pertinente saber como os seres vivos a conhecem.
Tudo
que há é interdependente. Sinergia fervorosamente constante. Cuidar-se e zelar pelo
progresso de todos e do mundo é a consciência basilar e proativamente inculcada
aos adeptos da Maçonaria a cada nova reunião, na qual renovam suas convicções e
seus propósitos de viverem em perfeita igualdade, intimamente unidos por laços
de perfeita estima, confiança e amizade, concitando-se, mutuamente, à prática
das sublimes virtudes. Como justos e valentes ocupam-se em defender os
hipossuficientes, protegendo-os, pois, tal ação é a glória desta antiga
confraria.
Confraria
composta por homens sábios e virtuosos, que não buscam o individualismo, e sim
a individualidade. Que compreendem que o irascível nacionalismo xenófobo e
excludente está afastado, pois, ainda que se saibam cidadão d´algum país, têm
compromisso de cuidado e zelo com a Terra inteira, que é sua Pátria
incontestavelmente. estimulados, perenemente, a combater os preconceitos e
erros; a enaltecer o direito, a justiça e a verdade, suplantando os vícios e
rutilando virtudes, pois, ser Maçom é pertencer à uma Família Universal por si
aceita e por escolha sua.
Concernentemente,
a benfazeja atuação da Maçonaria não se limita à filantropia, pois, suas
iniciativas no plano mundial têm influenciado incontáveis e notórios
acontecimentos mundiais ao longo de sua existência, tendo sempre como premissa
inequívoca fazer o bem que pelo amor ao próprio bem e, nisto, escutar a voz da
própria consciência, estimar os que são bons, lamentar os fracos, fugir aos
maus, porém, não odiando a ninguém, exercendo proficuamente a tolerância que faz
dela (Maçonaria) a habilidosa mãe dos construtores sociais que forma de geração
em geração.
Em
um mundo onde o “vil metal” imbui e condiciona inescrupulosamente, labuta a
Maçonaria, desde sua mais tenra idade, estabelecida na alteridade que a permeia
e a motiva, inaugurando a diferença entre o desencanto e a esperança em meio a
esta cultura acintosamente mercantilista; empreendedoramente associando a boa
vontade de seus adeptos à ação otimamente projetada ao bem fazer à coletividade.
Agindo assim, a Maçonaria contribui para um ambiente social positivo, onde promove
o desenvolvimento pessoal e moral de seus membros, radicando a certeza de que a
capacidade de tolerar o outro nasce do reconhecimento e da aceitação às suas
diferenças; emerge dessa alteridade a essência da Maçonaria.
A
alteridade reflete o que há estabelecido: “a ninguém devais coisa alguma, a não
ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros
cumpriu a lei". (Romanos 13:8). Sob este auspício, a Maçonaria
exorta a todas as sociedades, a partir de seus membros, a serem exemplos de
família universal realizada contentemente, pois, esta é, claramente, uma
semente de felicidade para a humanidade. Humanidade que se realizada no homem,
assim como, a maçonaria se realiza no maçom. Irrefutavelmente, a família célula
mater da sociedade se realiza na simbiose manifesta pelo homem e sua consorte,
fortalecidos pela inequívoca convicção: família acima de tudo é um lábaro de
satisfação e altruísmo para os homens por ela humanizados. Homens que constroem
a humanidade tolerante e feliz que lhes garante um convívio harmônio e
próspero.
O
conceito de tolerância maçônica encontra-se notoriamente presente na Declaração
de Princípios sobre Tolerância, firmada em 16 de novembro de 1995 pela UNESCO,
que define a tolerância como o respeito e a apreciação da rica variedade das
culturas do mundo e das formas de expressão. Essa declaração reforça a
ideia de que a tolerância não é indulgência nem indiferença, mas sim, um
princípio ativo de entendimento e pacificação entre diferentes grupos
culturais, religiosos e políticos. A Maçonaria, ao promover a tolerância, (re)alinha
esse ideal universal, contribuindo para a construção de uma sociedade mais
justa e inclusiva, onde a diversidade é valorizada como fator de progresso.
A
tolerância maçônica também é vista como um imperativo ético que permite superar
os óbices impostos pelas diferenças individuais, favorecendo a solidariedade e
o espírito fraterno. A instituição, ao exigir tolerância, garante a
liberdade de investigação da verdade e a convivência pacífica entre irmãos de
todas as tendências, mesmo que divergentes. Assim, a Maçonaria, ao
promover a tolerância, atua como um espaço de diálogo e entendimento,
consubstanciando e inspirando os valores defendidos pela UNESCO. A prática da
tolerância é parte do processo de aperfeiçoamento moral e espiritual do maçom,
que busca crescer como pessoa e contribuir para o bem-estar da humanidade.
Culturalmente
robustecida pela tradição que a sustém, porém, vanguardista desde sua ciese, a
Maçonaria vara os séculos erodindo os pilares do obscurantismo: a intolerância,
o egocentrismo e a vilania. A tolerância maçônica possui limites. Ela não
compactua com opiniões ou ações que dilaceram a sociedade ou os seres humanos,
como a opressão ou a falta de liberdade. Uma tolerância ilimitada levaria ao
fim da própria tolerância. A Maçonaria proíbe discussões políticas e religiosas
em suas lojas para evitar divisões e promover a união baseada em princípios
morais e éticos compartilhados. Para o maçom, a Ordem pode funcionar como um
ambiente de maior segurança e estabilidade ética, onde valores perenes são
cultivados, em oposição ao caos e à incerteza do mundo "profano".
Coluna
de magnífica sabedoria, a Maçonaria restabelece a solidez à sociedade
liquefeita que eflui para a barbárie da autotutela dos direitos instituindo a
falência das instituições e o caos social jamais vista antes. Os princípios
sólidos e duradouros da Maçonaria, incluindo a tolerância, o amor fraternal e a
lealdade, oferecem um contraponto à volatilidade e à falta de raízes da
sociedade líquida. A tolerância maçônica representa um ideal de convivência
ética e limitada por princípios, que se destaca em um cenário social
"líquido", marcado pela fluidez das relações e a ausência de valores
sólidos e duradouros. O desafio para a Maçonaria hoje é manter seus ideais de
tolerância e solidez moral em um mundo que se molda rapidamente e onde muitos
buscam gratificação imediata e superficial, em vez do aprimoramento contínuo.
Nesse
toar, mais do que nunca, a tolerância maçônica se apresenta não apenas como um
valor passivo, mas, como um desafio ativo para os maçons: o de
promover a união, a ética e o respeito em um mundo que tende à fragmentação e à
superficialidade das relações humanas. A Ordem Maçônica é desafiada a
manifestar-se contra a falta de tolerância e a instabilidade, através da educação
e da disseminação de um discurso baseado na racionalidade e no bem-estar da
humanidade. Uma reverberante conclamação a que sejamos ferramentas
culturo-sociais, desobscurecendo a visão de nossa época, promovendo o senso de
pertencimento e o diálogo, sabendo moldar a cultura doando-lhe proficiência,
influência e sine qua non riqueza intelectual, que tanto contribuem para preservar
a história e identidade humana. Não havendo humanos, fenece a humanidade!
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