sábado, 30 de agosto de 2025

O SONHO DE PROMETEU AINDA INSPIRA A HUMANIDADE

 

       

O sonho de Prometeu (1) é um efusivo questionamento sobre justiça, ética e o papel do etéreo na vida humana, a partir do qual melhor discernimos sobre a natureza da autoridade e o significado da liberdade. Afirmo que a liberdade de agir, de acordo com a própria vontade, requer consciência das consequências de atos praticados e vívido respeito aos direitos dos outros. Da mesma forma, a autoridade a obrigação de responder pelas ações tomadas e suas consequências. Portanto, à liberdade é imprescindível tanto a consciência da responsabilidade, quanto seu pleno exercício que a autoridade demanda.

A liberdade humana é um dom divino que impele à escolha entre o bem e o mal e isto é fundamental para o exercício da liberdade, apregoa Agostinho de Hipona (2). Por isso, a discussão sobre liberdade envolve a relação entre a liberdade individual e o bem comum, buscando um equilíbrio entre a autonomia do indivíduo e a harmonia social, como preceitua Rousseau (3). A liberdade é um conceito associado à autonomia, autodeterminação e capacidade de escolha do indivíduo, nele percebamos, pois, que a liberdade não é absoluta e pode ser limitada por lei, se necessário à proteção d’outros direitos fundamentais ou interesses coletivos estabelecendo, assim, a harmonia social. 

Necessário aqui aduzir que o princípio da legalidade estabelece que ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei. Ou seja, é-nos dada a capacidade agência: de tomar decisões e de realizar escolhas sem interferência indevida de terceiros ou do Estado, desde que a usemos responsavelmente, dentro dos limites traçados (estabelecidos) pelo compasso (ordenamento jurídico). A liberdade é uma condição sine-qua-non à existência humana, assim sendo, “o homem está condenado a ser livre”, sentencia Sartre (4). Para isto, vencemos nossas paixões e submetermos nossas vontades, pois, somente assim progredimos a humanidade estreitando laços e propósitos firmados.

Neste influxo, percebamos a Humanidade, do latim do latim humanĭtas, de várias formas, pois, refere-se à condição humana, à natureza intrínseca do ser humano e à capacidade de desenvolver qualidades como razão, ética e compaixão. Também, pode ser vista como o conjunto de todos os seres humanos, o gênero humano, ou ainda, a qualidade que distingue os humanos de outros seres. Assim sendo, experienciar as condições da existência humana, contemplando o exemplo como uma forma poderosa de transformar a sociedade, não através de mandatos, mas, através de ações, feitos e méritos que mostram um caminho possível e desejável de liberdade, é o convite que nos faz Hannah Arendt. (5)

Incontestavelmente, o ser humano difere dos demais membros do reino animal pela capacidade de raciocínio, de linguagem articulada, de desenvolvimento de culturas e tecnologias, além de possuir consciência de si e do mundo ao seu redor. Neste olhar, a cultura, a história e as produções humanas são aspectos importantes para compreendermos o conceito de humanidade, pois, refletem a potencial criativo e transformador dos seres humanos.  Por oportuno, destaco o Ubuntu, que enfatiza a interconexão e a compaixão, contribuindo eficazmente para o entendimento da relevância das interações sociais e da responsabilidade mútua para a coesão, senso de pertencimento e a identidade social.

Conscientizador, o exemplo é a autoridade primaz, que cativa e compromissa mais que as palavras mais convincentes, pois, um conceito é uma ideia abstrata, ao passo que um exemplo ajuda a materializá-la. Filho do latim “exemplum”, diz respeito a um feito ou comportamento que é tido como modelo a seguir ou, pelo contrário, a evitar, consoante se o perfil é positivo ou negativo. Atuando como um vetor que guia e impulsiona a busca e a conquista da liberdade, o exemplo mostra na prática o que significa ser livre e cria uma ambiência social onde a liberdade se torna mais acessível e realizável para todos. Do exemplo nascem os ícones ou símbolos, que refletem a identidade de algo e/ou de alguém. 

Neste afã, cabe lembrar que a História humana é plena de notáveis vultos que identificam, conceituam e educam a partir de demonstrações de atos livres e conscientes que nos influenciam e nos inspiraram, como também, o fazem as outras pessoas a, também, agirem de forma livre; são como uma força motriz (um vetor) que impulsiona a realização da liberdade em um sentido mais amplo, seja individual ou coletivo. Este proceder ancora a teoria da aprendizagem social desenvolvida por Albert Bandura (6), segundo a qual o comportamento observável, ou seja, o exemplo, é um fator importante na aquisição de novas habilidades e atitudes. Como agimos reverbera quem somos pela eternidade.

Uma agência libertadora - íntegra, ética, comprometida e responsável - que inspira confiança e lealdade, estabelece uma cultura positiva que prioriza o bem-estar e o desenvolvimento das pessoas, promovendo respeito, inclusão e colaboração. Que se manifesta através de comportamentos e valores diários que impulsionam a motivação, a produtividade e o engajamento dos indivíduos, onde a diversidade é celebrada, a empatia é praticada e o respeito mútuo é a norma, viabilizando o sonho de Prometeu: um futuro em que o homem poderia desenvolver suas habilidades e alcançar a superioridade, indo além do que é meramente humano, e evoluindo perenemente.

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REFERÊNCIAS INSPIRADORAS

(1) Prometeu, em grego Promēthéus, "antevisão".

(2) Aurélio Agostinho de Hipona, Sobre a Livre Escolha da Vontade (388 d.C)

(3) Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social (1762)

(4) Jean-Paul Charles Aymard Sartre, O existencialismo é um humanismo (1946)

(5) Hannah Arendt, A condição humana (1958)

(6) Albert Bandura, Teoria da aprendizagem social (1977)


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