O
"Malhete" (martelo) de Nietzsche é habilidoso tanto na tarefa do
desmontar para aferir os materiais e as essências, quanto, em companhia do
cinzel, é formidável no esculpir das realidades – antes destruídas – dando-lhe
a mesma forma, cor, tamanho, etc., mas também, percepções e usos novéis. Essa
metáfora representa uma abordagem crítica, perspicaz e criativa que busca
destruir valores decadentes para possibilitar novas perspectivas de vida. O
martelo não serve unicamente para destruir, mas também como ferramenta de
diagnóstico filosófico.
Nietzsche
não usa o martelo apenas como uma arma de destruição cega, mas como
um diapasão para "auscultar o oco" dos "falsos
ídolos" da modernidade, da moral cristã e da metafísica tradicional. Oso e
falso – falso cognato ou "falso amigo" – ao bater nas verdades
absolutas (Platão, moral judaico-cristã), o martelo revela que elas são ocas,
frágeis e prejudiciais à vida. Enquanto a Régua de Medição serve para medir o
valor de conceitos, desmascarando a decadência e o niilismo disfarçados de
virtude. Embora a imagem do martelo evoque violência, sua função é criadora
e afirmativa.
A
destruição é apenas o primeiro passo, necessário, para liberar espaço para a
criação. Ao desmontar velhas crenças, Nietzsche busca "dar nova
forma" às realidades humanas, utilizando a transvaloração de todos os
valores. Ao contrário de filósofos que negam o mundo sensível, Nietzsche,
valoriza a "aparência" (o mundo da arte e da vida) como uma forma de
fortalecer o indivíduo. A criação nietzschiana ("esculpir") não busca
uma nova verdade universal, mas sim, perspectivas ativas, onde o indivíduo cria
seus próprios valores (Übermensch) enquanto se estabelece como homem integral.
Assim
como o escultor remove o excesso de pedra para revelar a forma escondida,
Nietzsche usa o martelo para desbastar as ilusões, enquanto o cinzel representa
a precisão na reconstrução. A destruição
não é um fim em si, mas um ato de escultura existencial: após o colapso dos
velhos valores, surge a possibilidade de esculpir novas realidades, com novas
formas, cores, percepções e usos. A
liberdade conquistada com o martelo é a base para a criação de si mesmo. um ser
que, livre das amarras morais herdadas, cria seus próprios valores a partir da
vontade de potência.
Como
Nietzsche diria: "Tens de estar pronto para te queimares na tua
própria chama: como te renovarias se primeiro não te tivesses tornado
cinzas?" Portanto, o malhete é habilidoso porque sabe exatamente
onde bater para derrubar o que é fraco, e formidável ao esculpir, do
caos da existência, uma realidade que valoriza a força, a arte e a alegria de
viver (o dionisíaco). O "dionisíaco" representa a embriaguez
criativa, a aceitação da dor e do prazer, o "sim" à vida com todas as
suas contradições. A arte é vista como a grande estimulante da vida – a arte se
faz vida, e a vida é amar.
Nietzsche
define o Amor Fati como "não querer que nada seja diferente, nem no
futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade". Isso significa abraçar
o "fogo" – a dor, o caos e as tragédias – como elementos necessários
para se tornar quem se é, ainda que se tenha que destruir as versões anteriores
de si mesmo, queimar as crenças antigas e ter a coragem de passar pelo
"fogo" do caos para renascer mais forte, como uma fênix. A necessidade
de passar pelo fogo é a coragem de ser o criador da própria existência,
escolhendo moldar o próprio destino em vez de ser moldado por ele.
É
a aceitação do ciclo de destruição e criação. Amar o destino é dizer
"sim" incondicionalmente à realidade, sem ressentimento ou
arrependimento. O sofrimento, nesse contexto, é transformado em ferramenta de
aprendizado e força. Portanto, o Amor Fati é o "funeral" da
versão antiga de si e o "nascimento" da nova, uma aceitação alegre e
dionisíaca de que a destruição é a condição prévia para a criação. Ele é
a suprema afirmação da vida, onde o indivíduo abraça sua existência com tal
intensidade que desejaria vivê-la da mesma maneira, com todos os seus detalhes,
infinitas vezes.
Nietzsche
pensa que o universo e toda a existência ocorrem de forma autossemelhante e
infinita, num ciclo cíclico sem início nem fim. O conceito – diretamente ligado
ao amor fati e ao homem integral – funciona como um "teste supremo"
para a afirmação da vida, exigindo que o indivíduo viva de modo que deseje
reviver sua existência infinitas vezes, tal como ela é. Esse
homem – chamado a ser seu próprio legislador – não obedece a códigos externos, embora
afirme a vida em todas as suas dimensões – incluindo o sofrimento, o caos e o
eterno retorno – um projeto de liberdade e grandeza.
Assim,
a figura do martelo continua viva no pensamento crítico contemporâneo, livre
para desmoronar paradigmas e pujante para estabelecer preceitos. Filósofos como
Foucault, Deleuze e Byung-Chul Han retomam a metáfora para desmontar
dispositivos de poder, ideologias ocultas e patologias culturais da
modernidade. O martelo representa a força destrutiva necessária para expor as
falsas verdades que sustentam a cultura ocidental. E essencial para o
pensamento crítico, desafiando-nos a questionar o que damos por certo e a ousar
criar novos sentidos em um mundo pós-metafísico.
Mais
do que nunca, precisamos de uma filosofia que não se acomode, que não seja
burocrática ou repetitiva. Cumprindo destacar que a universidade contemporânea muitas vezes "esmaga a
criatividade" com exigências de produtividade. Nesse contexto, filosofar com o martelo é um
ato de resistência intelectual. O martelo, portanto, não é apenas um artefato
do passado. É uma atitude filosófica viva, necessária para construir um futuro
mais autêntico, corajoso e criativo.
Essa
visão transforma a filosofia de um exercício de arquivamento em uma ferramenta
de intervenção. Quando a universidade ou o mercado ditam que o pensamento deve
ser "produtivo" (seguindo métricas de quantidade e não de
profundidade), eles estão tentando domesticar o martelo. Porém, o martelo de
Nietzsche não serve para bater ponto; ele serve para auscultar: bater nos
ídolos e nas verdades estabelecidas para ouvir o som oco que eles emitem. O
martelo é o que impede que o pensamento vire museu. É a resistência contra a
burocratização da alma.
Maranguape,
Ceará, 14 de Abril de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo
Patroneado
por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo
Cadeira
ACELP nº 3
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