terça-feira, 14 de abril de 2026

O MALHETE PODEROSO DE NIETZSCHE

 

O "Malhete" (martelo) de Nietzsche é habilidoso tanto na tarefa do desmontar para aferir os materiais e as essências, quanto, em companhia do cinzel, é formidável no esculpir das realidades – antes destruídas – dando-lhe a mesma forma, cor, tamanho, etc., mas também, percepções e usos novéis. Essa metáfora representa uma abordagem crítica, perspicaz e criativa que busca destruir valores decadentes para possibilitar novas perspectivas de vida. O martelo não serve unicamente para destruir, mas também como ferramenta de diagnóstico filosófico.

 

Nietzsche não usa o martelo apenas como uma arma de destruição cega, mas como um diapasão para "auscultar o oco" dos "falsos ídolos" da modernidade, da moral cristã e da metafísica tradicional. Oso e falso – falso cognato ou "falso amigo" – ao bater nas verdades absolutas (Platão, moral judaico-cristã), o martelo revela que elas são ocas, frágeis e prejudiciais à vida. Enquanto a Régua de Medição serve para medir o valor de conceitos, desmascarando a decadência e o niilismo disfarçados de virtude.  Embora a imagem do martelo evoque violência, sua função é criadora e afirmativa.

 

A destruição é apenas o primeiro passo, necessário, para liberar espaço para a criação. Ao desmontar velhas crenças, Nietzsche busca "dar nova forma" às realidades humanas, utilizando a transvaloração de todos os valores. Ao contrário de filósofos que negam o mundo sensível, Nietzsche, valoriza a "aparência" (o mundo da arte e da vida) como uma forma de fortalecer o indivíduo. A criação nietzschiana ("esculpir") não busca uma nova verdade universal, mas sim, perspectivas ativas, onde o indivíduo cria seus próprios valores (Übermensch) enquanto se estabelece como homem integral.

 

Assim como o escultor remove o excesso de pedra para revelar a forma escondida, Nietzsche usa o martelo para desbastar as ilusões, enquanto o cinzel representa a precisão na reconstrução.  A destruição não é um fim em si, mas um ato de escultura existencial: após o colapso dos velhos valores, surge a possibilidade de esculpir novas realidades, com novas formas, cores, percepções e usos.  A liberdade conquistada com o martelo é a base para a criação de si mesmo. um ser que, livre das amarras morais herdadas, cria seus próprios valores a partir da vontade de potência.

 

Como Nietzsche diria: "Tens de estar pronto para te queimares na tua própria chama: como te renovarias se primeiro não te tivesses tornado cinzas?" Portanto, o malhete é habilidoso porque sabe exatamente onde bater para derrubar o que é fraco, e formidável ao esculpir, do caos da existência, uma realidade que valoriza a força, a arte e a alegria de viver (o dionisíaco). O "dionisíaco" representa a embriaguez criativa, a aceitação da dor e do prazer, o "sim" à vida com todas as suas contradições. A arte é vista como a grande estimulante da vida – a arte se faz vida, e a vida é amar.

 

Nietzsche define o Amor Fati como "não querer que nada seja diferente, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade". Isso significa abraçar o "fogo" – a dor, o caos e as tragédias – como elementos necessários para se tornar quem se é, ainda que se tenha que destruir as versões anteriores de si mesmo, queimar as crenças antigas e ter a coragem de passar pelo "fogo" do caos para renascer mais forte, como uma fênix. A necessidade de passar pelo fogo é a coragem de ser o criador da própria existência, escolhendo moldar o próprio destino em vez de ser moldado por ele.

 

É a aceitação do ciclo de destruição e criação. Amar o destino é dizer "sim" incondicionalmente à realidade, sem ressentimento ou arrependimento. O sofrimento, nesse contexto, é transformado em ferramenta de aprendizado e força. Portanto, o Amor Fati é o "funeral" da versão antiga de si e o "nascimento" da nova, uma aceitação alegre e dionisíaca de que a destruição é a condição prévia para a criação. Ele é a suprema afirmação da vida, onde o indivíduo abraça sua existência com tal intensidade que desejaria vivê-la da mesma maneira, com todos os seus detalhes, infinitas vezes.

 

Nietzsche pensa que o universo e toda a existência ocorrem de forma autossemelhante e infinita, num ciclo cíclico sem início nem fim. O conceito – diretamente ligado ao amor fati e ao homem integral – funciona como um "teste supremo" para a afirmação da vida, exigindo que o indivíduo viva de modo que deseje reviver sua existência infinitas vezes, tal como ela é. Esse homem – chamado a ser seu próprio legislador – não obedece a códigos externos, embora afirme a vida em todas as suas dimensões – incluindo o sofrimento, o caos e o eterno retorno – um projeto de liberdade e grandeza.

 

Assim, a figura do martelo continua viva no pensamento crítico contemporâneo, livre para desmoronar paradigmas e pujante para estabelecer preceitos. Filósofos como Foucault, Deleuze e Byung-Chul Han retomam a metáfora para desmontar dispositivos de poder, ideologias ocultas e patologias culturais da modernidade. O martelo representa a força destrutiva necessária para expor as falsas verdades que sustentam a cultura ocidental. E essencial para o pensamento crítico, desafiando-nos a questionar o que damos por certo e a ousar criar novos sentidos em um mundo pós-metafísico.

 

Mais do que nunca, precisamos de uma filosofia que não se acomode, que não seja burocrática ou repetitiva.  Cumprindo destacar que a universidade contemporânea muitas vezes "esmaga a criatividade" com exigências de produtividade.  Nesse contexto, filosofar com o martelo é um ato de resistência intelectual. O martelo, portanto, não é apenas um artefato do passado. É uma atitude filosófica viva, necessária para construir um futuro mais autêntico, corajoso e criativo.

 

Essa visão transforma a filosofia de um exercício de arquivamento em uma ferramenta de intervenção. Quando a universidade ou o mercado ditam que o pensamento deve ser "produtivo" (seguindo métricas de quantidade e não de profundidade), eles estão tentando domesticar o martelo. Porém, o martelo de Nietzsche não serve para bater ponto; ele serve para auscultar: bater nos ídolos e nas verdades estabelecidas para ouvir o som oco que eles emitem. O martelo é o que impede que o pensamento vire museu. É a resistência contra a burocratização da alma.

 

Maranguape, Ceará, 14 de Abril de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo

Patroneado por Aderaldo Ferreira de Araújo – Cego Aderaldo

Cadeira ACELP nº 3

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