quinta-feira, 19 de março de 2026

SÃO JOSÉ E A CONFRARIA DOS CARPITEIROS DE ROMA

 

Neste Dia de São José, no qual se festeja, além da graça do santo, a fundação da Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará, lembrei-me da Confraria dos Carpinteiros de Roma, cujos membros construíram a famosa Igreja de San Giuseppe dei Falegnami sobre o antigo Cárcere Mamertino. O local é um símbolo histórico da união entre a fé e o ofício da construção. E como o ofício da construção é uma biblioteca viva de conhecimentos de todas as áreas científicas que a mente humana compreendeu e empregou a bem da evolução e felicidade dá humanidade, traço estas poucas linhas que seguem falando da relevância das confrarias de ofício.

 

Confrarias de ofício foram associações profissionais que surgiram na Idade Média, composta por artesãos de uma mesma profissão – como carpinteiros, sapateiros, ferreiros ou alfaiates – e desempenharam um papel fundamental na organização do trabalho e na estruturação da sociedade portuguesa. Com forte caráter religioso (padroeiros) e hierarquia (mestre, oficial, aprendiz), sua relevância social incluía proteção mútua, assistência social, regulação do trabalho urbano e promoção de padrões éticos.  Essa estrutura garantia a transmissão do conhecimento técnico, além de estabelecer os critérios de entrada para aprendizes e de assegurando a excelência dos produtos oferecidos. 

 

As confrarias desempenharam um papel central na formação dos artesãos. O jovem iniciava como aprendiz, geralmente a partir dos 7 anos, vivendo na casa de um mestre artesão, que lhe fornecia alimentação, alojamento e vestuário.  Durante esse período – que podia durar vários anos –, o aprendiz recebia formação prática e gradual nas técnicas do ofício, sob supervisão direta do mestre. Concluída a aprendizagem, o artesão tornava-se companheiro, apto a produzir peças com autonomia, embora ainda não pudesse abrir sua própria oficina.  A mestria somente seria alcançada por meio de uma peça de exame, além, de provar-se capaz financeiramente e da aprovação da confraria.

 

Surgidas na Baixa Idade Média (por volta do século XI), essas confrarias foram fundamentais para organizar a economia e a sociedade urbana antes da Revolução Industrial. Criadas para proteger os interesses de mestres artesãos independentes, evitando abusos de senhores feudais, essas confrarias controlavam todo o processo de produção, desde a matéria-prima até o produto final, em conformidade com as normas técnicas e os critérios de qualidade preestabelecidos. Atuavam como representantes dos trabalhadores urbanos – grande era sua influência no governo de cidades medievais (burgos) – e até exerciam o poder jurisdicional, julgando disputas comerciais. 

 

Nenhuma confraria foi tão transparente em seus negócios como a Sociedade dos Mestres de Muro e de Madeira (pedreiros e carpinteiros), que em 8 de agosto de 1248 tornou público seu estatuto social (Statuta et Ordinamenta Societatis Magistrorum Tapia et Lignamilis), sob tutela de Bonifaci di Cario, Prefeito de Bolonha, Itália e Tabelião Público daquela cercania. O documento, chamado de “Carta de Bolonha”, é classificado como uma das "Old Charges" (Antigos Deveres), precedendo em mais de um século outros documentos famosos, como o Manuscrito Regius (c. 1390), relacionados à organização de ofícios de construtores, citados em contextos de história da maçonaria.

 

Funcionando como redes de apoio social, garantindo assistência em casos de doença, morte ou pobreza, promovendo a solidariedade entre membros e fortalecendo a identidade comunitária, as confrarias de ofício ofereciam enterros dignos, distribuíam esmolas e cuidavam dos mais necessitados, preenchendo lacunas que a assistência pública não existia na época. Mantinham como espaços – e eventos – de sociabilidade, promovendo festas, procissões e peças de teatro religioso, reforçando laços entre diferentes estratos sociais. Agiam como redes de influência local – dando voz a coletividade – mediando conflitos com as autoridades municipais e interpessoais.

 

Com as reformas liberais do século XIX, muitas dessas confrarias de ofício foram dissolvidas ou substituídas por novas formas de organização profissional, mas algumas sobreviveram, mantendo tradições de solidariedade e identidade comunitária que remontam à Idade Média. Segundo Riolando Azzi, existem dois tipos principais de confrarias: as irmandades e as ordens terceiras. As irmandades – como as confrarias dos “livres e aceitos” – evoluíram das corporações de pedreiros ("maçons operativos") para incluir membros não construtores ("aceitos"), ancorando a maçonaria especulativa, sustentada pelas originárias tradições que lhe dão vida.

 

Em franca atuação, especialmente a partir do século XVII, os livres eram os operários autônomos, livres de servidão, que trabalhavam com liberdade e eram membros ativos das corporações.  Já os aceitos eram homens de cultura, pensadores, nobres e intelectuais (homens de letra) que, embora não fossem operários, foram admitidos nas lojas por seu status social e interesse nos ideais de fraternidade, moralidade e conhecimento.  Essa inclusão de não operativos marcou a transição da Maçonaria Operativa (baseada na construção física) para a Maçonaria Especulativa, uma transformação gradual que se consolidou com a fundação da Primeira Grande Loja da Inglaterra em 1717.

 

A partir de 1717, a Maçonaria moderna – focada em valores simbólicos, filosóficos e éticos – busca o aperfeiçoamento moral e intelectual do homem através de ferramentas de construção usadas como metáforas:

 

  • Compasso: Simboliza a perfeição, o equilíbrio e o "Grande Arquiteto". Representa a capacidade humana de delimitar espaços e criar ordem a partir do caos.

 

  • Esquadro: Representa a retidão, os ângulos precisos e a base sólida necessária para qualquer construção, seja ela física ou moral.

 

  • Régua e Escalímetro: Ferramentas de medição que simbolizam a escala humana e a necessidade de adequar o mundo construído às dimensões e necessidades reais das pessoa.

 

  • Maço e Cinzel: Simbolizam a força de vontade e o intelecto usados para "lapidar" o caráter humano, removendo as imperfeições da personalidade.

 

  • Nível e Prumo: Representam, respectivamente, a igualdade entre os seres e a retidão ética ou ligação entre o terreno e o transcendental.

 

  • A Balança: Representa o equilíbrio e o peso das intenções e ações no "coração" do ser.

 

  • A Espada: Simboliza a força necessária para aplicar a retidão e cortar o que é injusto dentro de si.

 

Unidos neste cativante propósito do (auto)aperfeiçoamento moral, metaforicamente chamado de transformar a "pedra bruta" – o homem comum com defeitos – em uma "pedra polida" – um homem melhor ainda – para o templo social, os maçons seguem juntos rumo à “verdadeira luz”, por eles compreendida como o "fogo sagrado" no coração do homem que o liga ao Grande Arquiteto do Universo, simbolizando o despertar da consciência e a vida plena.

 

Neste fito, o Maçom percebe que o homem deve ser homem o tempo todo, senão cessa a humanidade e o mundo se desumaniza, o que estabelece uma visão ética e existencial profunda, onde a mantença da essência humana se realiza de forma contínua e, claramente, sob os auspícios da (auto)responsabilidade, pois, "o tempo todo" implica uma vigilância constante sobre as próprias ações, indo além do sentido de gênero (masculino) e alcança com exata proficuidade o sentido genérico de “ser humano”– que age com empatia e consciência, assumindo os frutos de suas escolhas. Somente o homem integral tem liberdade para escolher com acerto seu destino.

 

Sendo por livre escolha um construtor social, cabe ao maçom construir conexões humanizadas, que valorizam o "fator humano", priorizando acolhimento, escuta ativa e comunicação clara para criar vínculos autênticos e de confiança. Estabelecer ambiências onde a empatia, o respeito mútuo e a compreensão, por trás de toda troca de experiências – seja esta pessoal e/ou profissional – sejam guias valiosos, pois, sinalizam como estamos diante de situações, pois, trazem informações sobre nossos desejos e limites. Sem os atributos básicos da humanidade, como a consciência social, o “ser maçom” perderia o propósito. E a maçonaria seria um “Clube do Bolinha”. 

 

A Maçonaria valoriza o esmero não como mero formalismo, mas, como expressão do compromisso com a excelência moral e intelectual, essencial para o aperfeiçoamento do ser humano. É um princípio fundamental que permeia toda a estrutura maçônica, especialmente nos rituais de iniciação e progressão entre os graus. De fato, na formação do maçom, o esmero é animus agendi do aprendizado constante, do estudo dos símbolos (como o compasso, esquadro, acácia, da letra G, etc.), da perene reflexão filosófica sobre a moral, a ética e da incessante busca pelo autoconhecimento. A Maçonaria se manifesta no esmero com que emerge a madureza de seus adeptos.


De seus adeptos, a Maçonaria não exige um nível acadêmico específico, porém, neles valoriza a responsabilidade, a humildade, o senso de justiça e o desejo de contribuir para o bem comum, sinais claros de sua madureza, que não se trata, apenas, da idade, mas, da perceptível maturidade de espírito, alinhada aos ideais de uma vida virtuosa regada à ética, alimentada pela sã moral e, claro, perfeitamente, (re)vestida pela arguta alteridade. Essa madureza é essencial para lidar com os rituais simbólicos, com necessário sigilo e com as responsabilidades assumidas, interna e externamente, onde a tolerância e o respeito às diferenças se robustecem como pilares erigidos pelos arquitetos da paz.

 

A madureza na ordem está profundamente associada à capacidade de gerenciar a vida com consciencioso discernimento e equilíbrio, especialmente no contexto da virtude da ordem, como abordado por Francisco José de Almeida em seu livro “A Virtude da Ordem”. Essa madureza não se limita, apenas, à organização física ou ao mero cumprimento de rotinas, pois, envolve uma maturidade espiritual, emocional e intelectual que permite ao indivíduo agir com propósito, evitar impulsividades e manter a clareza de objetivos. O mundo deixa de ser um lugar de ilusões e passa a ser visto com clareza, exigindo além da responsabilidade, o planejamento e disciplina: ordem!

 

A disciplina na Maçonaria – como o foi em tempos das guildas de ofício – é um princípio fundamental que garante a ordem, a harmonia e o funcionamento eficaz desta secular confraria de guardiões do conhecimento humano. Indubitavelmente, sem disciplina, a Maçonaria perderia sua estrutura, correndo o risco de cair no caos e na anarquia – (des)valores que são diretamente combatidos pela ordem. Como afirma Steve Pavlina, "sem disciplina, sua vida está condenada a permanecer uma sombra pálida do seu potencial. Assim, a disciplina jamais será mera imposição externa, mas sim, um compromisso interno com a ética, o esmero e o respeito mútuo entre os irmãos.

 

Neste dia 19 de Março de 2026, quando São José nos presenteia com bastante chuva, comemoramos 98 anos de fundação da Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará, nos quais sua representatividade vai sempre além do dever cívico, pois, sendo uma democracia robusta exige que todos os membros não apenas tenham assegurado o direito de votar, mas, que tenham garantida a oportunidade real de serem ouvidos e de ocuparem espaços de poder, conforme suas expertises e méritos. Sua governança representativa espelha seus governados naquilo que faz em seu nome na construção de convívio justo e próspero e na promoção do desenvolvimento humano.

 

Maranguape, Ceará, 18 de Março de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9

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