Neste
Dia de São José, no qual se festeja, além da graça do santo, a fundação da Mui
Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará, lembrei-me da Confraria
dos Carpinteiros de Roma, cujos membros construíram a famosa Igreja de San
Giuseppe dei Falegnami sobre o antigo Cárcere Mamertino. O local é um símbolo
histórico da união entre a fé e o ofício da construção. E como o ofício da construção
é uma biblioteca viva de conhecimentos de todas as áreas científicas que a
mente humana compreendeu e empregou a bem da evolução e felicidade dá
humanidade, traço estas poucas linhas que seguem falando da relevância das
confrarias de ofício.
Confrarias
de ofício foram associações profissionais que surgiram na Idade Média, composta
por artesãos de uma mesma profissão – como carpinteiros, sapateiros, ferreiros
ou alfaiates – e desempenharam um papel fundamental na organização do trabalho
e na estruturação da sociedade portuguesa. Com forte caráter religioso
(padroeiros) e hierarquia (mestre, oficial, aprendiz), sua relevância social
incluía proteção mútua, assistência social, regulação do trabalho urbano e
promoção de padrões éticos. Essa estrutura garantia a transmissão do
conhecimento técnico, além de estabelecer os critérios de entrada para
aprendizes e de assegurando a excelência dos produtos oferecidos.
As
confrarias desempenharam um papel central na formação dos artesãos. O jovem
iniciava como aprendiz, geralmente a partir dos 7 anos, vivendo na casa de
um mestre artesão, que lhe fornecia alimentação, alojamento e
vestuário. Durante esse período – que podia durar vários anos –, o
aprendiz recebia formação prática e gradual nas técnicas do ofício, sob
supervisão direta do mestre. Concluída a aprendizagem, o artesão
tornava-se companheiro, apto a produzir peças com autonomia, embora ainda não
pudesse abrir sua própria oficina. A
mestria somente seria alcançada por meio de uma peça de exame, além, de
provar-se capaz financeiramente e da aprovação da confraria.
Surgidas
na Baixa Idade Média (por volta do século XI), essas confrarias foram
fundamentais para organizar a economia e a sociedade urbana antes da Revolução
Industrial. Criadas para proteger os interesses de mestres artesãos
independentes, evitando abusos de senhores feudais, essas confrarias
controlavam todo o processo de produção, desde a matéria-prima até o produto
final, em conformidade com as normas técnicas e os critérios de qualidade preestabelecidos.
Atuavam como representantes dos trabalhadores urbanos – grande era sua influência
no governo de cidades medievais (burgos) – e até exerciam o poder
jurisdicional, julgando disputas comerciais.
Nenhuma
confraria foi tão transparente em seus negócios como a Sociedade dos Mestres de
Muro e de Madeira (pedreiros e carpinteiros), que em 8 de agosto de 1248 tornou
público seu estatuto social (Statuta et Ordinamenta Societatis Magistrorum
Tapia et Lignamilis), sob tutela de Bonifaci di Cario, Prefeito de Bolonha,
Itália e Tabelião Público daquela cercania. O documento, chamado de “Carta de
Bolonha”, é classificado como uma das "Old Charges" (Antigos
Deveres), precedendo em mais de um século outros documentos famosos, como
o Manuscrito Regius (c. 1390), relacionados à organização de ofícios
de construtores, citados em contextos de história da maçonaria.
Funcionando
como redes de apoio social, garantindo assistência em casos de doença, morte ou
pobreza, promovendo a solidariedade entre membros e fortalecendo a identidade
comunitária, as confrarias de ofício ofereciam enterros dignos, distribuíam
esmolas e cuidavam dos mais necessitados, preenchendo lacunas que a assistência
pública não existia na época. Mantinham como espaços – e eventos – de
sociabilidade, promovendo festas, procissões e peças de teatro religioso,
reforçando laços entre diferentes estratos sociais. Agiam como redes de
influência local – dando voz a coletividade – mediando conflitos com as
autoridades municipais e interpessoais.
Com
as reformas liberais do século XIX, muitas dessas confrarias de ofício foram
dissolvidas ou substituídas por novas formas de organização profissional, mas
algumas sobreviveram, mantendo tradições de solidariedade e identidade
comunitária que remontam à Idade Média. Segundo Riolando Azzi, existem
dois tipos principais de confrarias: as irmandades e as ordens terceiras. As
irmandades – como as confrarias dos “livres e aceitos” – evoluíram das
corporações de pedreiros ("maçons operativos") para incluir membros
não construtores ("aceitos"), ancorando a maçonaria especulativa, sustentada
pelas originárias tradições que lhe dão vida.
Em
franca atuação, especialmente a partir do século XVII, os livres eram os
operários autônomos, livres de servidão, que trabalhavam com liberdade e eram
membros ativos das corporações. Já os
aceitos eram homens de cultura, pensadores, nobres e intelectuais (homens de
letra) que, embora não fossem operários, foram admitidos nas lojas por seu
status social e interesse nos ideais de fraternidade, moralidade e
conhecimento. Essa inclusão de não
operativos marcou a transição da Maçonaria Operativa (baseada na construção
física) para a Maçonaria Especulativa, uma transformação gradual que se
consolidou com a fundação da Primeira Grande Loja da Inglaterra em 1717.
A
partir de 1717, a Maçonaria moderna – focada em valores simbólicos, filosóficos
e éticos – busca o aperfeiçoamento moral e intelectual do homem através de
ferramentas de construção usadas como metáforas:
- Compasso: Simboliza
a perfeição, o equilíbrio e o "Grande Arquiteto". Representa a
capacidade humana de delimitar espaços e criar ordem a partir do caos.
- Esquadro: Representa
a retidão, os ângulos precisos e a base sólida necessária para qualquer
construção, seja ela física ou moral.
- Régua e Escalímetro: Ferramentas
de medição que simbolizam a escala humana e a necessidade de adequar o
mundo construído às dimensões e necessidades reais das pessoa.
- Maço e Cinzel: Simbolizam
a força de vontade e o intelecto usados para "lapidar" o caráter
humano, removendo as imperfeições da personalidade.
- Nível e Prumo: Representam,
respectivamente, a igualdade entre os seres e a retidão ética ou ligação
entre o terreno e o transcendental.
- A Balança: Representa
o equilíbrio e o peso das intenções e ações no "coração" do ser.
- A Espada: Simboliza
a força necessária para aplicar a retidão e cortar o que é injusto dentro
de si.
Unidos
neste cativante propósito do (auto)aperfeiçoamento moral, metaforicamente
chamado de transformar a "pedra bruta" – o homem comum com defeitos –
em uma "pedra polida" – um homem melhor ainda – para o templo social,
os maçons seguem juntos rumo à “verdadeira luz”, por eles compreendida como o
"fogo sagrado" no coração do homem que o liga ao Grande Arquiteto do
Universo, simbolizando o despertar da consciência e a vida plena.
Neste
fito, o Maçom percebe que o homem deve ser homem o tempo todo, senão cessa a
humanidade e o mundo se desumaniza, o que estabelece uma visão ética e
existencial profunda, onde a mantença da essência humana se realiza de forma
contínua e, claramente, sob os auspícios da (auto)responsabilidade, pois,
"o tempo todo" implica uma vigilância constante sobre as próprias
ações, indo além do sentido de gênero (masculino) e alcança com exata
proficuidade o sentido genérico de “ser humano”– que age com
empatia e consciência, assumindo os frutos de suas escolhas. Somente
o homem integral tem liberdade para escolher com acerto seu destino.
Sendo
por livre escolha um construtor social, cabe ao maçom construir conexões
humanizadas, que valorizam o "fator humano", priorizando
acolhimento, escuta ativa e comunicação clara para criar vínculos autênticos e
de confiança. Estabelecer ambiências onde a empatia, o respeito mútuo e a
compreensão, por trás de toda troca de experiências – seja
esta pessoal e/ou profissional – sejam guias valiosos,
pois, sinalizam como estamos diante de situações, pois, trazem informações
sobre nossos desejos e limites. Sem os atributos básicos da
humanidade, como a consciência social, o “ser maçom” perderia o propósito. E a maçonaria
seria um “Clube do Bolinha”.
A
Maçonaria valoriza o esmero não como mero formalismo, mas, como expressão do
compromisso com a excelência moral e intelectual, essencial para o
aperfeiçoamento do ser humano. É um princípio fundamental que permeia toda a
estrutura maçônica, especialmente nos rituais de iniciação e progressão entre
os graus. De fato, na formação do maçom, o esmero é animus agendi do
aprendizado constante, do estudo dos símbolos (como o compasso, esquadro,
acácia, da letra G, etc.), da perene reflexão filosófica sobre a moral, a ética
e da incessante busca pelo autoconhecimento. A Maçonaria se manifesta no esmero
com que emerge a madureza de seus adeptos.
De
seus adeptos, a Maçonaria não exige um nível acadêmico específico, porém, neles
valoriza a responsabilidade, a humildade, o senso de justiça e o desejo de
contribuir para o bem comum, sinais claros de sua madureza, que não se trata,
apenas, da idade, mas, da perceptível maturidade de espírito, alinhada aos
ideais de uma vida virtuosa regada à ética, alimentada pela sã moral e, claro,
perfeitamente, (re)vestida pela arguta alteridade. Essa madureza é essencial
para lidar com os rituais simbólicos, com necessário sigilo e com as
responsabilidades assumidas, interna e externamente, onde a tolerância e o
respeito às diferenças se robustecem como pilares erigidos pelos arquitetos da
paz.
A
madureza na ordem está profundamente associada à capacidade de gerenciar a vida
com consciencioso discernimento e equilíbrio, especialmente no contexto da
virtude da ordem, como abordado por Francisco José de Almeida em seu livro “A
Virtude da Ordem”. Essa madureza não se limita, apenas, à organização física ou
ao mero cumprimento de rotinas, pois, envolve uma maturidade espiritual,
emocional e intelectual que permite ao indivíduo agir com propósito, evitar
impulsividades e manter a clareza de objetivos. O mundo deixa de ser um lugar
de ilusões e passa a ser visto com clareza, exigindo além da responsabilidade, o
planejamento e disciplina: ordem!
A
disciplina na Maçonaria – como o foi em tempos das guildas de ofício – é um
princípio fundamental que garante a ordem, a harmonia e o funcionamento eficaz
desta secular confraria de guardiões do conhecimento humano. Indubitavelmente,
sem disciplina, a Maçonaria perderia sua estrutura, correndo o risco de cair no
caos e na anarquia – (des)valores que são diretamente combatidos pela ordem. Como
afirma Steve Pavlina, "sem disciplina, sua vida está condenada a
permanecer uma sombra pálida do seu potencial. Assim, a disciplina jamais será mera
imposição externa, mas sim, um compromisso interno com a ética, o esmero e o
respeito mútuo entre os irmãos.
Neste
dia 19 de Março de 2026, quando São José nos presenteia com bastante chuva, comemoramos
98 anos de fundação da Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará,
nos quais sua representatividade vai sempre além do dever cívico, pois, sendo uma
democracia robusta exige que todos os membros não apenas tenham assegurado o
direito de votar, mas, que tenham garantida a oportunidade real de serem
ouvidos e de ocuparem espaços de poder, conforme suas expertises e méritos. Sua
governança representativa espelha seus governados naquilo que faz em seu nome
na construção de convívio justo e próspero e na promoção do desenvolvimento
humano.
Maranguape,
Ceará, 18 de Março de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo
Patroneado
por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira
AIMI nº 9
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