segunda-feira, 16 de março de 2026

NOS TEMPOS DE GUTEMBERG

 

Era 1939, o Ceará Sporting Club refletia a glória daquele lhe emprestara o nome, nossa Terra da Luz (assim chamada pelo Tigre da Abolição, José do Patrocínio), nosso Estado do Ceará, sendo o principal destaque do futebol local, liderando o primeiro turno com 20 pontos em 11 jogos (9 vitórias, 2 empates e 0 derrotas), com 38 gols marcados e apenas 16 sofridos.

 

Neste tempo de efervescente felicidade, nascem no dia 24 de Março de 1939 os olhos azuis mais visionários e inclusivos que já me fitaram adornando a face de Gutemberg Liberato de Andrade, filho da Augusta Senhora Maria Mercedes Liberato de Andrade e do Altaneiro Senhor Raimundo Liberato Sobrinho, cujos prodígios em breve traria imenso orgulho ao povo cearense.

 

Vanguardista, como sempre, o Ceará inserido no contexto da Era Vargas e da Reforma Francisco Campos (1931), reestruturava o ensino secundário e superior, com já fazia o Brasil, com forte ênfase em disciplina, seriação anual e controle estatal, com concentração de investimentos em Fortaleza e escassez no interior, ou seja, a educação rural permanecia subdesenvolvida.

 

O Liceu Industrial de Fortaleza foi oficialmente transferido para seu novo campus no Centro da capital, em um prédio da Rede de Viação Cearense. A doação do terreno para a sede própria do Liceu, o antigo Campo do Prado, havia sido realizada em 1939 por meio do Decreto 548, gerando polêmica com os times de futebol e o governo estadual devido ao uso do espaço como hipódromo.

 

A instalação da instituição no novo local foi um marco na política educacional do estado, refletindo o esforço de modernização e valorização do ensino técnico. A gestão do Liceu, liderada por Waldyr Diogo de Siqueira (1939–1951), foi fundamental para a transição institucional que culminaria com a criação da Escola Técnica Federal do Ceará em 1968.

 

A capital passava por reformas urbanas inspiradas na Belle Époque tardia, tentando afastar do centro as populações consideradas "indesejadas" (pobres e retirantes) para criar uma imagem de cidade moderna e higienizada. Influenciada pelo cinema: “E o Vento Levou” inspirava a arquitetura da Aldeota.

 

O Instituto do Ceará mantinha intensa atividade intelectual, registrando em suas revistas de 1939 discussões sobre instrução pública, leis estaduais e a influência de correntes filosóficas europeias, aos influxos dos anos 30, onde o debate pedagógico entre forças laicas e católicas, com a educação técnica e a inovação educacional ganhava espaço em meio à instabilidade política do período.

 

Neste lapso temporal de formidáveis transformações sociopolíticas, efloresce o veio literário do jovem Gutemberg, que já dava mostras do que traria de bom e de justo à humanidade, como difusor do conhecimento e como prior da cultura, não somente, em nosso Ceará, como também, no mundo levando os primores de nossa Terra e seus melhores influxos por onde ia.

 

No ano em que Emília Barreto Correia Lima, cearense, foi eleita Miss Brasil (1955) – um marco para o estado no cenário nacional – a juventude no Ceará vivia um momento de transição entre o conservadorismo tradicional e as novas influências culturais que chegavam com a modernização urbana, especialmente em Fortaleza.

 

O Liceu do Ceará mantém-se a principal referência de ensino público de elite, formando a base da intelectualidade cearense. A escola – sediada no prédio na Praça Gustavo Barroso (Jacarecanga) – era um pólo de efervescência política. Os jovens tinham acesso a uma vida social e política intensa, com lutas estudantis organizadas e debates que marcaram a história de Fortaleza.

 

Gutemberg tinha no Liceu do Ceará a formação de lhe faria um cidadão-exemplo para muitos. Lá havia laboratórios e espaços considerados referência para a época. O Currículo era pautado na tradição das humanidades, com forte ênfase em disciplinas como Latim, Português, Matemática e Ciências, além de aulas de Música instrumental e coral.

 

Reconhecido pelo rigor metodológico, o Liceu preparava os alunos diretamente para os vestibulares das faculdades de Direito, Medicina e Engenharia, dispensando muitas vezes a necessidade de cursos preparatórios externos. No Liceu, Gutemberg conheceu as atividades culturais que o levariam a protagonizar avanços significativos para a sociedade cearense.

 

A Academia Cultural foi uma organização estudantil emblemática do Liceu do Ceará, que em meados da década de 1950 – especificamente em 1955 – vivia um período de intensa efervescência intelectual e política. Fundada com a denominação “Academia dos Novos”, reunia-se na Casa Juvenal Galeno, sob a batuta do Poeta Sidney Netto, amigo de Henriqueta Galeno.

 

Enquanto a escola pública ainda era destinada a uma elite intelectual, a Academia dos Novos – do Liceu do Ceará – representava o topo desse aprendizado, onde se depositava a excelência e se formava a "elite mandatária" da região, sob a Presidência de Roberto Átila do Amaral Vieira – que mais tarde viria a ser Ministro de Ciência e Tecnologia (2004).  

 

Dentre os fundadores deste silogeu destacam-se: José Freire de Freitas, Carvalho Nogueira, Antonio Pompeu, Eusélio Oliveira e Cid Saboia de Carvalho, Zelito Nunes Magalhães, Haroldo Maranhão, Max Martins, Linhares Filho – todos eram jovens poetas e escritores que se reuniam para debater literatura e realizar sessões formais inspiradas em academias tradicionais.

 

Academia era o espaço onde os "liceuistas" debatiam literatura, filosofia e política, muitas vezes servindo de berço para futuros escritores e políticos renomados do Ceará. As atividades da Academia, como saraus, grêmios e publicações literárias, influenciavam o cotidiano da cidade, refletindo o prestígio da escola pública de excelência daquela década.

 

A primeira publicação da Academia dos Novos foi “A Pequena Antologia” de 1955 editada pelo Instituto do Ceará. Na Revista "A Aspirante" os "liceuistas" faziam análises sobre literatura nacional e estrangeira, demonstrando o alto nível de erudição dos estudantes da época. O Jornal “O Liceu” e os murais literários eram profícuos canais de difusão destes saberes.

 

Em 1955, o periódico “O Democrata” (ou Democratas), órgão oficial do Centro Liceal de Educação e Cultura (CLEC), era editado por alunos que faziam parte da elite intelectual do Liceu do Ceará e da Academia dos Novos. Nele atuaram como redatores e editores de várias publicações estudantis: Linhares Filho, Sânzio de Azevedo e Zelito Nunes Magalhães.

 

Como qualquer outro jovem nestes anos dourados (1955), Gutemberg usava calças de linho e camisas bem passadas, às vezes, brilhantina no cabelo, e paquerava as moças que usavam vestidos rodados e mantinham um comportamento social rigorosamente vigiado pelas famílias. E uma delas já ganhara seu coração e breve seria sua digna consorte por toda a vida.

 

Uma parceira com quem realizou sonhos de muitos e inspirou progressos incontáveis à sociedade cearense: Maria Argentina Austregésilo “de Andrade”, escritora, poetisa, trovadora e artista plástica, com quem Gutemberg viveu 70 magníficos e felizes anos, nos quais reinou um amor maduro desde plântula que os conduziu pelos caminhos da prosperidade e da solidariedade humana.

 

Bacharel em Administração de Empresas e em Geografia, e, também licenciada com Plenitude de atuação em Geografia e em Música, Argentina  - sempre ancorada a Gutemberg e ele a ela – é sócia efetiva da Academia de Letras e Arte do Estado do Ceará. Da mesma forma, da Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno. E, também, da Academia Feminina de Letras do Ceará – AFELCE.

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Veterano da Escola Industrial do Ceará, atual Centro Federal de Educação Tecnológica – CEFET – onde reencontrou Zelito Nunes Magalhães, com quem viria a compartilhar fundações e silogeus importantíssimos para a difusão cultural cearense – tão logo nela graduou-se, ingressou no corpo efetivo da Gloriosa Polícia Militar do Estado do Ceará onde protagonizou educação e cultura.

 

O Coronelato, coroou os profícuos anos de dedicação e notórios serviços prestados por Gutemberg: Comandante do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças; Fundador e Comandante do Colégio da Polícia Militar; Professor da Academia de Polícia General Edgard Facó; Comandante do Comando de Policiamento da Capital, dentre muitos outros.

 

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e em Pedagogia, e habilitado em Administração Escolar. Além destas expertises, Gutemberg experienciou a cultura cearense como poeta, escritor, trovador, compositor e como cordelista é ex-presidente da União Brasileira de Trovadores, Secção de Fortaleza, que tem como um de seus fundadores Zelito Nunes Magalhães.

 

Empreendedor, Gutemberg foi Presidente do Conselho Estadual das UBTs (União Brasileira de Trovadores) do Ceará. É magnífico cordelista, título concedido pela UBT de Maranguape por ter sido campeão de três concursos de literatura de cordel de âmbito nacional, recebendo por mérito cultural o troféu Carlos Drumond de Andrade, em Itabira Minas Gerais em 2012.

 

Robusta coluna, Gutemberg é vice-Presidente – ad aeternum – da Academia de Letras dos Oficiais Militares do Ceará (ALOMERCE); sócio efetivo da Academia de Letras e Artes do Ceará (ALACE), que tem por fundador Zelito Nunes Magalhães; sócio efetivo da Associação Cearense de Imprensa; sócio colaborador da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil.

 

Colaborador, Gutemberg é sócio honorário da Casa Juvenal Galeno; sócio emérito da Academia de Letras Municipais do Estado do Ceará (ALMECE); sócio correspondente das Academias de Letras de Apodi – RN e do Goiás Velho. E, ainda, detentor do Troféu Diamonds of Arts and Education 2013, galgado junto a Sociedade Europeia de Belas Artes – Viena – Áustria.

 

Gutemberg foi iniciado nos augustos mistérios maçônicos em 17 de Junho de 1972 e alcançou a mestria em 23 de Agosto do ano 1973. Por vontade de seus irmãos, tornou-se Mestre Instalado em 29 de Outubro de 1985. Laborioso, ajudou a fundar as seguintes lojas maçônicas: Gonçalves Ledo nº 89, Aurora Cearense nº 118, Caminhos da Luz nº 120 e João César nº 121.

 

Determinado a sempre fazer o melhor e, assim, exemplar as futuras gerações, Gutemberg é Past Grão Mestre Adjunto ad vitae do Grande Oriente Estadual do Ceará - GOCE, tendo exercido este cargo de 1987 a 1991. Durante este período assumiu interinamente o Grão-Mestrado entre os dias 06 a 09 de Novembro do ano 1997, conforme o ato 09/1987 exarado por aquela potência maçônica.

 

Gutemberg é detentor da Medalha Mário Bering, que lhe fora outorgada no Cinquentenário de fundação da Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará, aos 19 dias do mês de Março do ano 1978, adornando, assim, seus proeminentes feitos e efeitos realizados em prol do progresso do maçom e de nossa Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará.

 

Investido Grande Inspetor Geral da Ordem pelo Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito para República Federativa do Brasil, aos 11 dias do mês de Novembro do ano 1979, alcançou a graduação máxima do Rito Escocês Antigo e Aceito, um vetor imprescindível à que procura o conhecimento, a verdade e a sabedoria para propaga-los à sociedade.

 

Membro efetivo da Academia Maçônica de Letras do Estado do Ceará – que tem por fundadores além de si, Zelito Nunes Magalhães e muitas outras luzidias cearenses –, contribuiu para que os maçons tivessem onde desenvolver seus prodigiosos talentos a bem do desenvolvimento humano, do progresso das sociedades e para o estabelecimento da inclusão social proposta pela Maçonaria.

 

A AMLEC – Academia Maçônica de Letras do Estado do Ceará, foi fundada em 19 de Novembro de 1998 e Gutemberg é dela seu primeiro tesoureiro. O Irmão Gutemberg Liberato de Andrade ocupa a cadeira de nº 9 patroneada por Álvaro Nunes Weyne, que é fundador e primeiro Grão-mestre da Mui Respeitável Grande Loja Maçônica do Estado do Ceará.

 

Os tempos de Gutemberg Liberato de Andrade (en)caminham (n)a memória de todos quantos tiveram a graça de ter sua augusta presença a lhes exemplar os dias, pois, ele não foi meramente uma figura pública ou um profissional dignificado pelo esmero e abnegação, mas sim, uma proeminente referência moral e intelectual cujas atitudes servem de guia para quem o conhece.

 

Gutemberg Liberato de Andrade é o tipo de memória que transforma a biografia em um legado coletivo. Como literato, ele é um autor de cordel contemporâneo, cuja memória é preservada em diversos acervos literários, como na Biblioteca Amadeu Amaral (CNFCP / RJ), que destaca seu papel na tradição popular da literatura de cordel no Brasil.  

 

Gutemberg Liberato de Andrade é uma figura de destaque no cenário cultural e literário do Ceará, especialmente no contexto da promoção da tradição trova e da preservação da memória de Capistrano de Abreu, um dos mais importantes poetas e intelectuais cearenses. Como também nas obras associadas ao Centenário de Viçosa do Ceará.

 

Gutemberg Liberato de Andrade foi nomeado Fiel Depositário do III Prêmio de Trova, Poesia e Prosa Capistrano de Abreu/2020, cargo que conferiu responsabilidade na guarda e integridade do processo de seleção e premiação, refletindo seu compromisso profundo com a valorização da literatura, da tradição oral e da memória coletiva do Ceará.

 

Maranguape, Ceará, 16 de Março de 2026

 

ACADEMIA CEARENSE DE LITERATURA POPULAR
Secretaria
Bruno Bezerra de Macedo

3 comentários:

  1. Esplendoroso resumo, sobre esse magnífico ser humano, que continua sendo, Gutemberg Liberato de Andrade. Parabéns pelo excelente artigo.

    Henrique Eduardo-Ocara-CE

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