“Todos
os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas, tenho muito
tempo, tenho todo o tempo do mundo”, me canta o Legião Urbana, Renato Russo, como
que a me convidar ao “memento mori”, que se traduz literalmente como
"lembre-se da morte" e era usada na Roma Antiga para lembrar generais
vitoriosos de sua mortalidade durante celebrações de triunfo, evitando a
arrogância.
Renato
Russo, em "Tempo Perdido", preceitua que o
passado é irreversível – cada dia que se vai não pode ser
recuperado. No entanto, ao acordar (despertar a consciência), há
uma nova chance: o futuro ainda está aberto. A sinergia entre nostalgia
e esperança, destaca que, embora o tempo já vivido não volte, o tempo que
resta é infinito em potencial. A consciência da morte conduz-nos a viver com
mais propósito, sabedoria e, claro, sem medo.
Essa
dualidade – perda do passado e liberdade do futuro – chama-nos
a viver com consciência, valorizar o presente e transformar experiências
passadas em aprendizados. O tempo jamais é perdido se for vivido com
propósito, pois, cada momento presente é uma oportunidade de reinvenção, há força
para seguir em frente, com dignidade e autonomia, especialmente quando se
tem apoio emocional ("Temos nosso próprio tempo").
Memento
mori é representado por símbolos como crânios, esqueletos, ampulhetas,
velas apagadas, flores murchas, moedas e relógios, comuns em pinturas, joias e
esculturas, especialmente entre os séculos XVI e XVII. Longe de ser apenas
mórbido, o objetivo é prático: ao lembrar que o tempo é limitado, a pessoa
passa a priorizar o essencial, agindo com mais autenticidade e reduzindo a
ansiedade sobre o futuro.
Atualmente,
o memento mori é resgatado pela filosofia moderna e psicologia como uma
ferramenta para combater a ansiedade e a procrastinação. Ao aceitar a
inevitabilidade da morte, o indivíduo é motivado a praticar o Carpe
Diem (aproveite o dia) de forma responsável, valorizando
relacionamentos e propósitos essenciais. Claramente, memento mori é uma
ferramenta prática para a saúde mental, para o bem-estar e para uma vida plena.
Funciona
como um freio mental contra a procrastinação, distrações e decisões sem
propósito ao trazer a consciência da mortalidade (memento mori)
para o momento presente. Ao reconhecermos a natureza passageira das ambições
humanas e a efemeridade da vida, a mente é purificada da necessidade de
acumular ou de se distrair com trivialidades. Envolve perceber que vanitas
vanitatum et omnia vanitas,
"Vaidade
das vaidades, tudo é vaidade", saber percebido por Salomão e, por ele, legado
às futuras gerações em Eclesiastes, permite que as decisões sejam tomadas com
base no que realmente importa, alinhando ações com valores duradouros em vez de
vaidades momentâneas. Reconhecer a vaidade das coisas diminui a pressão por
perfeccionismo e o medo do fracasso, pois a própria vida é compreendida como
algo que transcende os bens materiais.
Essa
perspectiva, longe de ser depressiva, é usada em várias tradições filosóficas
(como a Maçonaria) e espirituais como um mecanismo de foco,
desmagnetizando a mente das ilusões passageiras e garantindo uma existência
mais deliberada e consciente. As Meditações de Marco Aurélio oferecem
exercícios práticos para manter a clareza mental e evitar a busca por glórias
passageiras do mundo (Sic Transit Gloria Mundi).
A
Maçonaria embora não se posicione dogmaticamente sobre a vida após a morte, porém,
utiliza memento mori como ferramenta ética e espiritual, incentivando os
membros a viverem com integridade, paciência e foco no bem comum. O objetivo é
evitar o egoísmo e o orgulho, especialmente em momentos de glória, lembrando
que todos são mortais – assim como os líderes romanos que ouviam “Memento Mori”
após uma vitória.
Memento
Mori na Maçonaria é uma de suas colunas mestras que serve como um lembrete
constante da mortalidade humana, usado para orientar seus adeptos a viverem com
propósito, humildade e sabedoria. O conceito é simbolizado por símbolos como a
caveira e ossos cruzados, que não representam medo da morte, mas, efusivamente,
convidam à reflexão sobre a finitude da vida, pois, esta consciência desperta aponta
o que é essencial.
Naturalmente,
ao confrontar a mortalidade, o indivíduo é levado a priorizar o que
realmente importa: relações significativas, ações alinhadas com valores
pessoais e experiências que trazem verdadeiro significado. Hoje, Memento Mori
ressurge como uma ferramenta prática de autoconhecimento. A prática é simples:
questionar, ao tomar decisões, se aquilo ainda importa diante do fim
inevitável. O suficiente (ou o essencial) é fartura por toda a eternidade.
Conscientes
de que o tempo é limitado somos levados a uma "limpeza" nas
prioridades, destacando o que é essencial. A morte é compreendida com um
"spoiler" da vida que ajuda a diminuir o tempo gasto com
trivialidades, fofocas, ressentimentos bobos ou preocupações exageradas com
bens materiais. O memento mori é um princípio de igualdade ao lembrar
que a morte abraça a todos os seres vivos, reduzindo a vaidade e o ego.
Essa
reflexão sobre a morte não torna a vida inútil, mas sim, intencional. A vida
intencional combate o hábito de viver sem reflexão, questionando o
"porquê" de cada atitude e garantindo que ela esteja em paz com seus
valores. A constância na intencionalidade cria novas conexões cerebrais,
fortalecendo hábitos e permitindo a adaptação, conforme destaca a neurociência.
O que fazemos ecoa por toda a eternidade, portanto, façamos o melhor.
Sair
do piloto automático envolve momentos de autoconhecimento e, este desvelar de
nós mesmos, nos faz compreender que somos iminentemente o que fazemos. Nossos
hábitos são nossa impressão digital – nossa íris – não somente a nos identificar,
mas, principalmente, a projetar nossos exemplos, como luzeiros-guia para muitos
que conosco se identificam, assim, o memento mori nos indaga: que imagem de si
você deseja de fato projetar?
Ao
projetarmo-nos como um luzeiro-guia, não estamos apenas inspirando outros, estamos
vivendo com consciência. A imagem que desejamos projetar deve ser aquela que
ressoa com nossa essência, não com a ilusão de eternidade ou reconhecimento. A
verdadeira luz vem da autenticidade, da simplicidade e do cuidado com o
presente, como sugerem os estoicos: “enquanto vives, enquanto estiver em teu
poder, seja bom!
Fervorosamente,
ao reconhecermos a finitude da vida, somos instados a projetar uma imagem de
nós mesmos que reflita valores autênticos – presença, propósito,
bondade e clareza – em vez de viver no automático ou buscar aprovação
externa, pois, o homem integral é pleno em si mesmo. Como afirmam filósofos
como Sêneca e Marco Aurélio, essa consciência fortalece a coragem para imprimir sua integridade por onde passa.
Neste
toar, afirma Renato Russo, “não tenho medo do escuro, mas, deixe as luzes acesas. Agora, o que
foi escondido é o que se escondeu. E o que foi prometido, ninguém prometeu. Nem
foi tempo perdido. Somos tão jovens. Tão jovens!” Memento Mori desafia a ilusão do tempo,
lembrando que cada momento é único e irrepetível, nele somos lépidos e tão
jovens quanto nossa leveza d’alma.
Maranguape,
Ceará, 11 de Fevereiro de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo
Patroneado
por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira
AIMI nº 9
Belíssimo texto.
ResponderExcluirComo sempre, um texto ímpar!
ResponderExcluirQue bela reflexão poética e filosófica sobre o tempo e a vida. Inspirador!
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