As
cãs, do latim canas, o acusativo feminino plural do adjetivo canus, que
significa "branco", "grisalho" ou "canoso",
simbolizam honra e sabedoria, especialmente quando associadas a uma vida de
justiça. O termo é utilizado como metonímia para designar a velhice ou a
maturidade, por isso em algumas tradições as cãs são uma "coroa de
glória", simbolizando uma vida longa e plena. A interpretação pode variar
de acordo com o contexto cultural e pessoal, mas, geralmente aponta para
transformação, aceitação do envelhecimento e crescimento interior.
Assumir
os fios brancos é um ato de aceitação do envelhecimento e uma transformação
para uma fase de maior autoconfiança e identidade. Espiritualmente, cabelos
brancos simbolizam experiência, pureza e uma conexão mais profunda com a
espiritualidade ou com a própria essência, representando retidão e dignidade
quando associados a uma vida equilibrada e justa – a mediunidade em algumas
crenças, refletindo a captação de energias externas e a madureza espiritual. O
branco remete à pureza, inocência e à luz.
Os
cabelos brancos indicam uma sensibilidade maior a energias, atuando como um
"marcador" do estado espiritual e/ou da mediunidade, sendo mais
comuns em quem capta vibrações externas com facilidade. Em cada cultura humana,
o cabelo tem sua relevância, dentre os indígenas, por exemplo, o corte de
cabelo era (e ainda é) um ritual de passagem, de luto ou transformação. Mesmo
nas religiões, os fios têm significado. Na tradição bíblica, a força de Sansão
estava em seus cabelos. No hinduísmo, raspar os cabelos representar
desapego e renovação espiritual.
Biologicamente,
o surgimento das cãs é chamado de canície. Ocorre quando os melanócitos
(células nos folículos capilares) diminuem ou cessam a produção de melanina, o
pigmento que dá cor aos fios. Curiosamente, o fio não é "branco", mas
sim, transparente; ele parece branco devido à reflexão da luz. Os cabelos
brancos, além do aspecto biológico, são um símbolo poderoso de jornada, de
sabedoria adquirida e de conexão com o divino e o eu interior. A honra das cãs
está condicionada ao (auto)respeito e (auto) disciplina que a sustenta.
A
honra não é automática pela idade, mas sim, cultivada através do caminho da
justiça e do autorrespeito, o que implica viver de modo a não envergonhar o
legado familiar ou a própria trajetória. A repetição constante de conquistas
passadas indica uma dificuldade em lidar com o presente, especialmente quando
ele não corresponde às expectativas anteriores. E, claro, uma busca ensandecida
– vaidosa – por manter um poder para o qual não tem mais habilidade e um status
quo que requer uma proeminência que os feitos passados (lembranças) nada
provém.
A
honra das cãs é o resultado de uma vida bem vivida e disciplinada, tornando a
velhice uma fase de reconhecimento e sabedoria, que não deve ser ofuscada por
uma doentia supervalorização de realizações passadas como forma de justificar
relevância perdida, tão pouco para esconder ineficiências e ineficácias que coíbem
o progresso das cãs e a evolução da comunidade por elas impactadas. É um hábito
desgraçado e inescrupulosamente imaturo de quem jamais aceitará que venceu,
portanto, deve ascender à próxima etapa do jogo-vida.
Egocêntricas,
cãs desumanizadas pela demente vaidade impedem a nova geração de ser o futuro. Há
casos horripilantes em que cãs adoecidas pela gerontofobia, que ladinamente
usando a argúcia narcisista, fazem da velhice argumento dizendo por causa dela
lhe perseguem, atingem, etc., emergindo um piedosismo geral onde a massa
desapercebida por elas intercede: "deixa-as permanecer, são como as
criancinhas". Outros chegam a dizer que mesmo obsoletos, somente suas
presenças (imagens) rodam o moinho vencem a competição-vida, sem esforço, tão
pouco esmero algum.
Ciumentas,
estas cãs, sob a tutela da vaidade e da necessidade de ser admirado, tornam-se
centrais, mascarando um vazio interior e medo de ser descoberto como
"falso". Erguendo alto a bandeiro do “fiz tudo sozinho”, como se uma
solitária andorinha fizesse radiante verão e/ou como se a interdependência
entre tudo que há em nada influísse no colaborativo progresso que beneficia a
todos no propósito comum que realizam. Imperiosas se põem como as únicas a
saber, a fazer, a saber fazer, intoxicando ambiências familiares e laborais.
Esse
padrão não se limita ao ambiente pessoal, mas também se manifesta em contextos
profissionais, sociais e até políticos, onde a necessidade de validação externa
supera a autenticidade do momento atual.
Invejosas, algumas cãs totalmente supliciadas pela gerontofobia, supervalorizam
seu passado, como última forma de manter uma autoimagem idealizada, mesmo que
desconectada da realidade atual, porém, a negação das mudanças da velhice e a
luta incessante para aparentar ser quem não é mais (tanto física quanto
psiquicamente) desmorona construções de vida sólidas.
Essas
atitudes representam o polo do "desespero" na teoria de Erik Erikson,
onde, ao invés de integrar e aceitar a própria trajetória, a pessoa entra em
conflito com o envelhecer, desvalorizando sua história real em troca de uma
"fantasia". É um processo de "martírio" próprio, onde
o medo de envelhecer impede o vivenciar pleno do presente, arruinando, muitas
vezes, a imagem construída ao longo da vida. A necessidade de aprovação social
ou profissional se tornar um ciclo vicioso, onde a autenticidade do momento
presente é ignorada numa busca de reforço externo, pautado na nostalgia.
A
nostalgia excessiva desbota a imagem pessoal formado durante longos e esmerados
anos. Embora relembrar boas memórias possa fortalecer a autoidentidade e trazer
benefícios psicológicos, o apego exagerado ao passado – frequentemente tingido
por idealizações – pode causar frustração, melancolia e dificuldade em aceitar
o presente. A mente tende a intensificar aspectos positivos e
"apagar" os negativos – distorce e enfraquece a imagem pessoal –,
criando uma versão de "pátria fantasma" ou um eu autêntico fictício
que não corresponde à realidade.
A
nostalgia funcional é diferente da excessiva. Quando usada de forma
equilibrada, ela ajuda a conectar o presente com o passado, mantendo uma linha
temporal coesa que fortalece a identidade em vez de desbotá-la. Cultuar
câs como as de João Darcy Ruggeri é (re)viver 100 de uma vida dedicada à
cultura, ao conhecimento e ao amor. Três robustas colunas sobre as quais se
ergue e se perpetua a humanidade em seu perene processo de (re)humanização constante
do homem, que a (r)evoluciona, geração a geração pelo exemplo que de si prestam
ao mundo.
Contemplar
as cãs de Helio Pereira Leite, em sua perece procura pela verdade. Não a
verdade imposta por indelével vontade sua, mas, a veraz verdade que enleva a excelsos
patamares àqueles a quem se faz conhecida. Verdade, esta, semeada a cada “café
da manhã” por Hélio servido a matinalmente para o bem, engrandecimento e
felicidade da coletividade a quem se destina. Uma verdade atemporal, que torna equânime
sentimentos e pensamentos; feitos e efeitos, pois, sendo vetor da igualdade anula
divisões e acepções, ao passo que iguala a todos.
Reverenciar
câs magníficas as de Cleber Tomas Vianna, que por onde passam e com estão
imprimem as mosaicas belezas, notabilizando a certeza de que cada coisas e/ou
ser tem significado e lugar na constituição do universo que move ordenadamente
como uma orquestra em sua elipse; na construção da sabedoria que se edifica a
partir das certezas que se abraçam num só compreender para que ela exista; na
humanidade composta por diversas cores de pele e de olhos; de idade e
sentimentos; e de gênero e de pensamentos que como rios rumam para o mar onde
tudo vive igual.
"Respeitar
as cãs" é um reverberante convite a valorizar a trajetória e a sabedoria
acumulada por aqueles que envelheceram regulares e prontos para ser reconhecidamente
matrizes de tudo que efervescesse a possibilidade de ser melhorado e (re)
validado a partir do novo, das novas gerações que conduzem ao futuro os formidáveis
legados construídos e firmados ao longo das eras, porém, dando-lhes (re)signifições
novéis e lhes potencializando os usos sob a égide da inventividade do presente.
Respeitar as cãs é reconhecer e celebrar o cabelo branco pela igualdade que ele
representa e estabelece.
Maranguape,
Ceará, 02 de Fevereiro de 2026
Bruno
Bezerra de Macedo
Patroneado
por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira
AIMI nº 9

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