segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

FOMENTADORES DA IGUALDADE

As cãs, do latim canas, o acusativo feminino plural do adjetivo canus, que significa "branco", "grisalho" ou "canoso", simbolizam honra e sabedoria, especialmente quando associadas a uma vida de justiça. O termo é utilizado como metonímia para designar a velhice ou a maturidade, por isso em algumas tradições as cãs são uma "coroa de glória", simbolizando uma vida longa e plena. A interpretação pode variar de acordo com o contexto cultural e pessoal, mas, geralmente aponta para transformação, aceitação do envelhecimento e crescimento interior.

 

Assumir os fios brancos é um ato de aceitação do envelhecimento e uma transformação para uma fase de maior autoconfiança e identidade. Espiritualmente, cabelos brancos simbolizam experiência, pureza e uma conexão mais profunda com a espiritualidade ou com a própria essência, representando retidão e dignidade quando associados a uma vida equilibrada e justa – a mediunidade em algumas crenças, refletindo a captação de energias externas e a madureza espiritual. O branco remete à pureza, inocência e à luz.

 

Os cabelos brancos indicam uma sensibilidade maior a energias, atuando como um "marcador" do estado espiritual e/ou da mediunidade, sendo mais comuns em quem capta vibrações externas com facilidade. Em cada cultura humana, o cabelo tem sua relevância, dentre os indígenas, por exemplo, o corte de cabelo era (e ainda é) um ritual de passagem, de luto ou transformação. Mesmo nas religiões, os fios têm significado. Na tradição bíblica, a força de Sansão estava em seus cabelos. No hinduísmo, raspar os cabelos representar desapego e renovação espiritual.

 

Biologicamente, o surgimento das cãs é chamado de canície. Ocorre quando os melanócitos (células nos folículos capilares) diminuem ou cessam a produção de melanina, o pigmento que dá cor aos fios. Curiosamente, o fio não é "branco", mas sim, transparente; ele parece branco devido à reflexão da luz. Os cabelos brancos, além do aspecto biológico, são um símbolo poderoso de jornada, de sabedoria adquirida e de conexão com o divino e o eu interior. A honra das cãs está condicionada ao (auto)respeito e (auto) disciplina que a sustenta.

 

A honra não é automática pela idade, mas sim, cultivada através do caminho da justiça e do autorrespeito, o que implica viver de modo a não envergonhar o legado familiar ou a própria trajetória. A repetição constante de conquistas passadas indica uma dificuldade em lidar com o presente, especialmente quando ele não corresponde às expectativas anteriores. E, claro, uma busca ensandecida – vaidosa – por manter um poder para o qual não tem mais habilidade e um status quo que requer uma proeminência que os feitos passados (lembranças) nada provém.

 

A honra das cãs é o resultado de uma vida bem vivida e disciplinada, tornando a velhice uma fase de reconhecimento e sabedoria, que não deve ser ofuscada por uma doentia supervalorização de realizações passadas como forma de justificar relevância perdida, tão pouco para esconder ineficiências e ineficácias que coíbem o progresso das cãs e a evolução da comunidade por elas impactadas. É um hábito desgraçado e inescrupulosamente imaturo de quem jamais aceitará que venceu, portanto, deve ascender à próxima etapa do jogo-vida.

 

Egocêntricas, cãs desumanizadas pela demente vaidade impedem a nova geração de ser o futuro. Há casos horripilantes em que cãs adoecidas pela gerontofobia, que ladinamente usando a argúcia narcisista, fazem da velhice argumento dizendo por causa dela lhe perseguem, atingem, etc., emergindo um piedosismo geral onde a massa desapercebida por elas intercede: "deixa-as permanecer, são como as criancinhas". Outros chegam a dizer que mesmo obsoletos, somente suas presenças (imagens) rodam o moinho vencem a competição-vida, sem esforço, tão pouco esmero algum.

 

Ciumentas, estas cãs, sob a tutela da vaidade e da necessidade de ser admirado, tornam-se centrais, mascarando um vazio interior e medo de ser descoberto como "falso". Erguendo alto a bandeiro do “fiz tudo sozinho”, como se uma solitária andorinha fizesse radiante verão e/ou como se a interdependência entre tudo que há em nada influísse no colaborativo progresso que beneficia a todos no propósito comum que realizam. Imperiosas se põem como as únicas a saber, a fazer, a saber fazer, intoxicando ambiências familiares e laborais.

 

Esse padrão não se limita ao ambiente pessoal, mas também se manifesta em contextos profissionais, sociais e até políticos, onde a necessidade de validação externa supera a autenticidade do momento atual.  Invejosas, algumas cãs totalmente supliciadas pela gerontofobia, supervalorizam seu passado, como última forma de manter uma autoimagem idealizada, mesmo que desconectada da realidade atual, porém, a negação das mudanças da velhice e a luta incessante para aparentar ser quem não é mais (tanto física quanto psiquicamente) desmorona construções de vida sólidas.

 

Essas atitudes representam o polo do "desespero" na teoria de Erik Erikson, onde, ao invés de integrar e aceitar a própria trajetória, a pessoa entra em conflito com o envelhecer, desvalorizando sua história real em troca de uma "fantasia". É um processo de "martírio" próprio, onde o medo de envelhecer impede o vivenciar pleno do presente, arruinando, muitas vezes, a imagem construída ao longo da vida. A necessidade de aprovação social ou profissional se tornar um ciclo vicioso, onde a autenticidade do momento presente é ignorada numa busca de reforço externo, pautado na nostalgia.

 

A nostalgia excessiva desbota a imagem pessoal formado durante longos e esmerados anos. Embora relembrar boas memórias possa fortalecer a autoidentidade e trazer benefícios psicológicos, o apego exagerado ao passado – frequentemente tingido por idealizações – pode causar frustração, melancolia e dificuldade em aceitar o presente. A mente tende a intensificar aspectos positivos e "apagar" os negativos – distorce e enfraquece a imagem pessoal –, criando uma versão de "pátria fantasma" ou um eu autêntico fictício que não corresponde à realidade.

 

A nostalgia funcional é diferente da excessiva. Quando usada de forma equilibrada, ela ajuda a conectar o presente com o passado, mantendo uma linha temporal coesa que fortalece a identidade em vez de desbotá-la. Cultuar câs como as de João Darcy Ruggeri é (re)viver 100 de uma vida dedicada à cultura, ao conhecimento e ao amor. Três robustas colunas sobre as quais se ergue e se perpetua a humanidade em seu perene processo de (re)humanização constante do homem, que a (r)evoluciona, geração a geração pelo exemplo que de si prestam ao mundo.

 

Contemplar as cãs de Helio Pereira Leite, em sua perece procura pela verdade. Não a verdade imposta por indelével vontade sua, mas, a veraz verdade que enleva a excelsos patamares àqueles a quem se faz conhecida. Verdade, esta, semeada a cada “café da manhã” por Hélio servido a matinalmente para o bem, engrandecimento e felicidade da coletividade a quem se destina. Uma verdade atemporal, que torna equânime sentimentos e pensamentos; feitos e efeitos, pois, sendo vetor da igualdade anula divisões e acepções, ao passo que iguala a todos.

 

Reverenciar câs magníficas as de Cleber Tomas Vianna, que por onde passam e com estão imprimem as mosaicas belezas, notabilizando a certeza de que cada coisas e/ou ser tem significado e lugar na constituição do universo que move ordenadamente como uma orquestra em sua elipse; na construção da sabedoria que se edifica a partir das certezas que se abraçam num só compreender para que ela exista; na humanidade composta por diversas cores de pele e de olhos; de idade e sentimentos; e de gênero e de pensamentos que como rios rumam para o mar onde tudo vive igual.

 

"Respeitar as cãs" é um reverberante convite a valorizar a trajetória e a sabedoria acumulada por aqueles que envelheceram regulares e prontos para ser reconhecidamente matrizes de tudo que efervescesse a possibilidade de ser melhorado e (re) validado a partir do novo, das novas gerações que conduzem ao futuro os formidáveis legados construídos e firmados ao longo das eras, porém, dando-lhes (re)signifições novéis e lhes potencializando os usos sob a égide da inventividade do presente. Respeitar as cãs é reconhecer e celebrar o cabelo branco pela igualdade que ele representa e estabelece.

 

Maranguape, Ceará, 02 de Fevereiro de 2026

 

Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9

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