“Tudo me é permitido,
mas, nem tudo me convém”, esclarece Paulo em sua primeira carta aos Coríntios,
como que a admoestar a Saulo de Tarso, que ainda em si habita com sua
irreverência, sua euforia e, principalmente, com seu proativo stalking sempre
direcionado ao que lhe é contrário. Saulo é para Paulo o que o lado negro é
para a lua: obscuro, tenebroso e, indiscutivelmente, imprevisível. Todos nós
temos um lado escuro, cuja força indelével é domada pelos limites que lhe
impomos, pois, ainda que reine licitude, todo feito tem consequências, sendo
sábio e sadio aferir se seus efeitos trazem bonança e protagonismo à
coletividade da qual se é parte.
Responsáveis
socialmente, ao invés de uma imagem idealizada do Brasil, os modernistas
traziam uma visão antropofágica retratada numa arte comprometida com a
realidade nacional – crítica e, por vezes, "grotesca" da identidade
nacional –, “afastando-se da mera cópia dos modelos europeus” – frase que
define o cerne da independência cultural brasileira. Proposta por Oswald
de Andrade, a antropofagia não significava rejeitar a cultura europeia, mas sim, "devorá-la", absorvendo suas técnicas vanguardistas e
reprocessando-as com elementos nativos (indígenas, africanos e populares) para o
ciese do (i)novo – autêntico e original – permanente desde então no Brasil.
Os modernistas
revolucionam a literatura brasileira, permitindo que ela passasse de uma
"mera herança cultural" para uma "composição cultural"
autônoma. Liderado por figuras como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, o
movimento buscou romper com o academicismo, o parnasianismo e a dependência
estética de Portugal e da França. Houve uma forte valorização da identidade
brasileira, da língua coloquial (o "português falado no Brasil" em
vez do padrão lusitano), das lendas, da fauna, da flora e da temática social
brasileira. Especialmente com a Geração de 30, a literatura mergulhou nos
problemas sociais do Nordeste e de outras regiões.
O Estado Novo (de
Vargas) auroresceu os anos 30, valorizando o modernismo, mas, depurado de suas
experiências mais radicais, transformando-o em símbolo oficial do nacionalismo
cívico. Aproveitou-se do conceito de miscigenação (influenciado por
Gilberto Freyre) e fomentou a ideia de união nacional, transformando elementos
da cultura popular, como o samba e o futebol, em símbolos
oficiais do país. O modernismo é (desde sempre) uma ferramenta cultural que
dialoga com as estruturas autoritárias e nacionalistas, não só da Era Vargas, e
age constantemente como mediador, apoiando desde o nacionalismo varguista,
enquanto a arte oficial do Estado Novo focava na ordem, pátria e no trabalho; rumando até a construção
da identidade brasileira como a temos hoje.
Justiça seja feita, o
positivismo, forte na maçonaria brasileira e no Exército, influencia a busca
por uma nova ordem social e cultural, alinhando-se com o desejo de renovação
dos modernistas, a pleno vapor na Era Vargas. A Maçonaria, no Estado Novo,
atuou no bastidor político e educacional para a "modernização
educativa" do Brasil, através da defesa da educação laica e racional.
Embora não haja um registro unânime sobre quais modernistas eram maçons ativos,
a influência do liberalismo maçônico preparou o terreno intelectual para a
aceitação de novas ideias estéticas e filosóficas propostas pelos modernistas,
sendo parte da história intelectual brasileira. Ainda assim, cabe destacar
entes humanos magníficos como Benjamim Constant – capital intelectual maçônico cativante
– que deixaram seu legado glorioso a disposição dos Brasileiros
Embora a Maçonaria
seja uma instituição tradicionalmente masculina, muitos maçons apoiaram as
causas sufragistas do início do século XX, vendo o voto feminino como uma
extensão natural da liberdade civil e da cidadania. Sob este auspício, o Brasil
instituiu o voto feminino em 24 de fevereiro de 1932 – a exemplo do
Equador que o fez primeiro – por meio do Código Eleitoral promulgado por
Getúlio Vargas, que não foi Maçom, porém, era virilmente influenciado por seu
pai, Manoel do Nascimento Vargas (Loja Vigilância Fé) e pelos irmãos, Coronel
Manoel Viriato Dornelles Vargas (Loja Brasil) e o Coronel Protásio Vargas (Loja
Brasil). Quem sai aos seus, não degenera!
Decididamente, a
relevância do voto feminino vai muito além do simples ato de depositar uma
cédula na urna; ele é o alicerce da democracia moderna e o ponto de partida
para a conquista de direitos civis básicos para as mulheres. Antes do sufrágio,
as mulheres eram frequentemente consideradas juridicamente incapazes,
subordinadas a pais ou maridos e impedidas de participar de decisões públicas.
O direito ao voto simbolizou o reconhecimento da mulher como cidadã
plena, com voz própria e capacidade de influenciar os rumos da nação, como
deve ser! Atualmente, as mulheres são a maioria do eleitorado (cerca
de 52,4%), o que as torna a força decisiva na escolha de representantes em
todos os níveis.
Uma democracia só é
plena quando todos os grupos da sociedade estão representados. O voto feminino
permitiu que pautas específicas (saúde da mulher, proteção à infância, equidade
no trabalho) entrassem na agenda política. A legislação evoluiu para
garantir que pelo menos 30% das candidaturas sejam de um dos gêneros, além de
exigir que recursos públicos de campanha e tempo de TV sejam distribuídos
proporcionalmente às candidatas. A entrada das mulheres na política
pressionou por legislações que antes eram ignoradas. Conquistas como o direito
à educação superior e igualdade salarial, dentre outras, são exemplos de leis que
foram impulsionadas por essa maior participação e representatividade feminina.
Getúlio Vargas, embora
tenha suspendido atividades de maçonaria durante o Estado Novo, promulgou a CLT,
concluindo a semeadura de Washington Luiz, que abrira caminho para isto com a
criação de Câmara de Mediação. Muitos juristas e políticos influentes na época,
maçons ou influenciados por seus ideais de "fraternidade", defendiam
a regularização do trabalho para evitar conflitos de classe. Cabendo destacar, Joaquim
Pedro Salgado Filho, Primeiro Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio
(1932-1934), responsável pela criação da Carteira de Trabalho e das
regulamentações sobre férias e jornada. Salgado Filho, maçom dedicado, teve
grande participação na Loja Capitular Harmonia, sendo considerado ícone da
maçonaria paraense e sustentáculo do jornal maçônico "O Pelicano”.
Orgulhosamente, desde
1943, o Brasil é referência na proteção ao trabalhador devido à robustez
de sua legislação trabalhista, especialmente a Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT), que consolidou direitos fundamentais e continua sendo um dos
conjuntos de leis mais extensos do mundo. Sob a regência do nível e do prumo, o direito
do trabalho brasileiro é guiado pelo "princípio da proteção" (norma
mais favorável ao trabalhador), que visa equilibrar a relação de desigualdade
entre patrão e empregado. Plenamente absorvida pela Constituição Federal de
1988, que colocou o trabalho como direito fundamental e fortalecendo a proteção
social, as garantias já existentes na CLT foram ampliadas.
A participação da
maçonaria na elaboração técnica do direito brasileiro não só é incontestável,
como formidável são seus produtos. E no Estado Novo de Vargas isso não foi
diferente. O Código de 1940 refletia o caráter técnico e secular, consolidando
a autoridade do Estado na aplicação da norma penal, um princípio caro à visão
positivista compartilhada por muitos maçons da elite política. Roberto Lyra, renomado
jurista brasileiro conhecido como o "Príncipe do Ministério Público"
e Grande Orador do Grande Oriente do Brasil (Loja Liberdade e União) foi
o principal responsável pela parte do Código Penal que trata das medidas de
segurança.
Sendo o terceiro e
mais longevo código da história do Brasil, O Código Penal Brasileiro demonstra prodigiosa
capacidade de adaptação através de reformas pontuais, mantendo sua Parte Geral
técnica, enquanto a Parte Especial evolui sempre que pertinente para acompanhar
as mudanças sociais. Funciona hoje como uma "tríade" junto ao Código
de Processo Penal e à Lei de Execução Penal, garantindo que o convívio em
sociedade seja regido por normas claras e previsíveis. Com o advento
da Lei de Execução Penal (1984), o sistema buscou ir além do castigo,
focando na reeducação do condenado. Absorvido pela Constituição Federal de
1988, O Código firmou-se como instrumento que operacionaliza princípios
constitucionais como a Legalidade (não há crime sem lei
anterior) e a Humanidade das penas (proibição de tortura ou
penas cruéis).
Sob a tutela modernista
avança o Brasil sempre progressista. Além da arte, o ideário modernista
influenciou o urbanismo e a arquitetura, culminando em projetos como a
construção de Brasília, que ainda hoje estimula a busca por um Brasil moderno,
funcional e com identidade própria, tendo “voz” a partir da liberdade de expressão,
livre dos condicionamentos trazidos por quem não tem em si a brasilidade nativa,
vetores que impulsionam a nação a superar-se diuturnamente, valorizando a língua
falada pelo povo, os temas nacionais, o folclore, a cultura popular. Ao
contestar o tradicional e abraçar a liberdade de estilo, o Modernismo forçou o
Brasil a olhar para suas próprias peculiaridades com mais consciência, senso de
humor, ironia e, sobretudo, discernimento crítico.
Discernir me lembra
que “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém" (1 Coríntios 6:12), significa
que, embora o ser humano tenha livre arbítrio para realizar qualquer ação, nem
todas as escolhas são benéficas, construtivas ou saudáveis para si, para a
família ou para a comunidade. Traz como conceito central a liberdade com
responsabilidade, pois, embora o ser humano possua o livre-arbítrio para
agir como desejar, a maturidade reside em filtrar essas ações através de dois
critérios: Edificação - ação que constrói algo positivo para si ou para o
próximo - e Domínio Próprio - a capacidade de não se tornar escravo de seus
próprios desejos ou hábitos. É um "choque" de realidade que nos leva
à reflexão sobre a "brasilidade".

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