quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

SERENAMENTE O CAOS VICEJA ORDEM

Não existe uma virtude mais incompreendida que a serenidade, daí a preceituação do Sublime Mestre abrindo o caminho do entendimento: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas” (Mateus 11:29). A serenidade apresenta-se como um caminho ativo, que requer aprendizado e prática, e jamais como algo passivo que simplesmente acontece. O "jugo" mencionado nada oprime, ao contrário, reflete (auto)disciplina ou modo de vida que, paradoxalmente, traz alívio e descanso. 


A serenidade é um estado profundo de relaxamento no qual a mente adquire clareza suficiente para observar os problemas como se estivéssemos de fora, reduzindo o impacto do estresse no córtex pré-frontal, responsável pelas decisões lógicas. Ela não é um estado de torpor emocional ou de anestesia, mas, uma calma suficiente para enxergar com clareza o nosso caminho. Clareza para discernir os obstáculos e encontra maneiras de transpô-los, ou mesmo contorná-los, adverte Rubens Sakay. Em um mundo hiper conectado, o "contornar obstáculos" exige filtrar o excesso de informação.

 

“Um aspecto que considero muito importante para a questão da serenidade é a competência dos indivíduos para lidar com o tempo”, afirma o Dr. Flávio Gikovate. Segundo o qual, “Saber esperar é uma das virtudes mais raras que tenho conhecido e, certamente, contribui enormemente para que uma pessoa desenvolva esse estado de calmaria correspondente à serenidade. Sim, porque é fato que, de certa forma, estamos continuamente esperando eventos que irão influenciar nossas ações futuras.” A serenidade traz a sabedoria para saber quando é hora de transpor e quando é hora de contornar.

 

Serenidade, segundo Rita Ribeiro, é "aquela dose de calma e confiança que nos vale para o fito seguro de tudo que é passageiro, pois, tudo deve ser sentido e vivenciado como experiências que nos tragam crescimento, aprendizado, conhecimento de quem somos verdadeiramente. É uma busca contínua, um trabalho diário, uma realização nossa para que o viver bem seja constante, enfrentando as grandes emoções de nossas vidas com o equilíbrio condizente, confiantes de que a vida deve ser vivida intensamente." Envolve manter a mente e o coração pacificados, sem ódio ou agitação.

 

Aquilo que carregamos no coração é o que nos faz enxergar no mundo, “Pois a boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12:34). A Serenidade é mais do que apenas paz; é uma virtude ativa que permite enfrentar a vida com sabedoria e força interior, mantendo-se firme mesmo quando o mundo ao redor está agitado. Na psicologia e na filosofia, a serenidade é percebida na resiliência e na prática de Mindfulness (Atenção Plena); é uma ferramenta essencial para a saúde mental e a tomada de decisões conscientes. Do latim "serenitas, -atis", significa calmo, com origem no estado do céu sem nuvens.

 

A verdade é que o homem em estado bruto não consegue o equilíbrio entre atitude e domínio próprio, não consegue entrar numa briga justa sem cometer excessos e é compreensível, afinal, este equilíbrio só é possível quando vindo da Centelha Divina, que por sua vez, só habita os corações bem formados devidamente chancelados pela Luz que vem do alto. “Melhor é o homem paciente do que o guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade”. (Provérbios 16:32) É uma virtude essencial e um dos frutos do Espírito Santo, que nos capacita a viver uma vida de moderação.

 

“Estamos em permanente simbiose e interação com o Universo”, adverte o Monge Thich Nhat Hanh, pois, quanto maior a iluminação do coração, mais fulgurante é o universo. Como também, quanto maior for a virilidade do coração mais pujantes são as forças evolutivas universais. A calma, a tranquilidade e o equilíbrio emocional, são imprescindíveis garantidores da harmonia, na qual se alicerça a feliz convivência humana, sob a égide dos sublimes princípios da sã moral e da razão, que a todos os povos permite o pleno exercício da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

 

Serenidade jamais é, tão pouco foi, nem será covardia, lentidão, preguiça ou leniência (excesso de tolerância), mas sim, a força revestida de veludo, ou seja, é um estado de domínio próprio e força contida, em vez de passividade. No contexto da inteligência emocional, ser sereno significa manter a clareza mental e a firmeza de propósito mesmo sob pressão, agindo com precisão em vez de reagir por impulso. “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão bramando, buscando a quem possa tragar”. (1 Pedro 5:8).  Envolve perceber a realidade sem julgamentos ou devaneios.

 

Na filosofia antiga, especialmente no Estoicismo, a serenidade (ataraxia) é alcançada através da razão. Ao entender que não podemos controlar eventos externos, apenas nossa reação a eles, libertamo-nos da perturbação. Diferente de uma alegria passageira, a serenidade é uma disposição estável que permite ao indivíduo agir com temperança e lucidez. Envolve autoconhecimento, autocontrole e a capacidade de manter o coração e a mente pacificados, enxergando as situações com sabedoria e tomando decisões com mais assertividade focando na aceitação e na ação consciente.

 

A virtude da serenidade, embora rara, nos ajuda a ver as coisas face sua verdadeira luz e a apreciá-las no seu justo valor, o valor real e objetivo que têm, e que nos é revelado pelo equilíbrio e pelo bom senso; e a contemplá-las segundo o valor sobrenatural que devem alcançar, ao passo que conduzem o espírito à unicidade com o universo, donde emanam todas as conquistas e o feliz progresso da humanidade. "Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus". (Salmos 46:40) Envolve reconhecer e aceitar o que não pode ser mudado, liberando a energia para o que pode ser feito. 

 

Indiscutivelmente, grande parte da angústia humana deriva da resistência fútil à realidade presente e a eventos passados que não podem ser alterados. Desta forma, ao liberarmos potenciais cognitivos presos em ruminações improdutivas, propiciamos a nossa mente mais inventividade para resoluções inovadoras de problemas, pois, nosso foco fita as áreas onde a agência pessoal é real, maximizando a eficácia. É a base da Oração da Serenidade: "Concedei-me, Senhor, a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar as que posso e sabedoria para discernir a diferença". 

 

Longe de ser uma manifestação de apatia, ou seja, uma ausência de resposta a estímulos – indiferença, insensibilidade ou falta de vontade e motivação para atividades diárias, emocionais ou sociais –, um sinal de alerta para a saúde mental, que em nada evoca calma estoica chamada apatheia (sem paixões) que é um estado de liberdade das emoções violentas, alcançado pela sabedoria, a serenidade é a flor de lótus, que representa sua pureza e argúcia emergindo do lodo (adversidade) sem se sujar dele – ou seja, ainda que tocada pela matéria, sua essencial divinal mantém sua galhardia.

 

“Não é força de vontade natural, mas, uma qualidade produzida por Deus (Gálatas 5:22-23), portanto, a serenidade nunca seria um ato de fingir possuir crenças, sentimentos, virtudes ou valores morais que, na verdade, não se tem, assumindo-se hipócrita, palavra nascida do grego "hypokrisis", que significa "representação" ou "disfarce". A serenidade é uma virtude baseada na autenticidade e na paz interior – reflete a coerência interna –, enquanto a hipocrisia é uma deformidade moral (vício) baseada na falsidade e na aparência – é um comportamento que demonstra uma profunda incoerência.

 

A serenidade real resiste a crises e críticas sem perder o eixo. A hipocrisia, quando confrontada com a verdade ou sob pressão extrema, geralmente se desfaz, revelando irritação, reatividade ou vitimismo, pois, sua calma externa é uma ferramenta de ocultação do caos ou da malícia interna. O hipócrita vive em constante tensão, pois precisa sustentar uma imagem que não corresponde à sua realidade interna, o que é o oposto da verdadeira paz de espírito, pois, ancora-se na integridade. Uma pessoa serena não precisa esconder seus pensamentos, pois está em paz com suas escolhas.

 

O Filósofo Epiteto, ensinava que a felicidade reside em distinguir o que depende de nós (nossas opiniões, intenções e ações) do que não depende (o passado, as ações de terceiros, a natureza). Assim, ao pararmos de lutar contra o incontrolável, nossa energia mental e emocional é redirecionada de forma produtiva para as áreas onde a mudança é possível. Esse pensamento é um pilar central em várias abordagens psicológicas – por exemplo, a Terapia de Aceitação e Compromisso - ACT – e de autoajuda, conduzindo indivíduos a navegar por desafios, perdas e estresses, com sobriedade e altruísmo.

 

Ao mantermos a limpidez e o inalterabilidade (sobriedade), guardamos a calma e a paz (serenidade), pois, jamais somos tragados por paixões efêmeras ou distrações desnecessárias, portanto, a sobriedade é a base para a perspicaz serenidade que põe “ordem ao caos” manifestado na autocrítica implacável, culpa excessiva, ruminação (pensamentos circulares e negativos sobre falhas passadas) e uma incapacidade de perdoar a si mesmo por erros, mesmo pequenos. Verdadeiramente serenos, possuímos a estabilidade necessária para agir com generosidade e desprendimento – com altruísmo.

 

Assim, “livrem-se de toda impureza moral e da maldade que prevalece e aceitem humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los” (Tiago 1:21), pois, uma vez enraizada no coração, ela tem o poder transformador para regenerar a mente e guiar nossa a ação de tirar a roupa suja, de abandonar conscientemente  comportamentos e atitudes que corrompem o caráter - a imoralidade e a amoralidade –, sob a tutela da serenidade, que é o solo fértil (onde o amor "viceja") a partir do qual o amor genuíno e incondicional germina e cresce para que ele se cumpra em nossos feitos e efeitos.

 

 

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

CORRESPONDER

  Corresponder é o que fazemos – ou buscamos fazê-lo – durante três quintos de nossa existência. Força contumaz do princípio que leva seu no...