Não
existe uma virtude mais incompreendida que a serenidade, daí a preceituação do
Sublime Mestre abrindo o caminho do entendimento: “Tomai sobre vós o meu jugo,
e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso
para as vossas almas” (Mateus 11:29). A serenidade apresenta-se como um caminho
ativo, que requer aprendizado e prática, e jamais como algo passivo que
simplesmente acontece. O "jugo" mencionado nada oprime, ao contrário,
reflete (auto)disciplina ou modo de vida que, paradoxalmente, traz alívio e
descanso.
A
serenidade é um estado profundo de relaxamento no qual a mente adquire clareza
suficiente para observar os problemas como se estivéssemos de fora, reduzindo o
impacto do estresse no córtex pré-frontal, responsável pelas decisões lógicas. Ela
não é um estado de torpor emocional ou de anestesia, mas, uma calma suficiente
para enxergar com clareza o nosso caminho. Clareza para discernir os obstáculos
e encontra maneiras de transpô-los, ou mesmo contorná-los, adverte Rubens
Sakay. Em um mundo hiper conectado, o "contornar obstáculos" exige
filtrar o excesso de informação.
“Um
aspecto que considero muito importante para a questão da serenidade é a
competência dos indivíduos para lidar com o tempo”, afirma o Dr. Flávio
Gikovate. Segundo o qual, “Saber esperar é uma das virtudes mais raras que
tenho conhecido e, certamente, contribui enormemente para que uma pessoa
desenvolva esse estado de calmaria correspondente à serenidade. Sim, porque é
fato que, de certa forma, estamos continuamente esperando eventos que irão
influenciar nossas ações futuras.” A serenidade traz a sabedoria para saber
quando é hora de transpor e quando é hora de contornar.
Serenidade,
segundo Rita Ribeiro, é "aquela dose de calma e confiança que nos vale
para o fito seguro de tudo que é passageiro, pois, tudo deve ser sentido e
vivenciado como experiências que nos tragam crescimento, aprendizado,
conhecimento de quem somos verdadeiramente. É uma busca contínua, um trabalho
diário, uma realização nossa para que o viver bem seja constante, enfrentando
as grandes emoções de nossas vidas com o equilíbrio condizente, confiantes de
que a vida deve ser vivida intensamente." Envolve manter a mente e o
coração pacificados, sem ódio ou agitação.
Aquilo
que carregamos no coração é o que nos faz enxergar no mundo, “Pois a boca fala
do que está cheio o coração” (Mateus 12:34). A Serenidade é mais do que apenas
paz; é uma virtude ativa que permite enfrentar a vida com
sabedoria e força interior, mantendo-se firme mesmo quando o mundo ao redor
está agitado. Na psicologia e na filosofia, a serenidade é percebida na
resiliência e na prática de Mindfulness (Atenção Plena); é uma ferramenta
essencial para a saúde mental e a tomada de decisões conscientes. Do latim
"serenitas, -atis", significa calmo, com origem no estado do céu sem
nuvens.
A
verdade é que o homem em estado bruto não consegue o equilíbrio entre atitude e
domínio próprio, não consegue entrar numa briga justa sem cometer excessos e é
compreensível, afinal, este equilíbrio só é possível quando vindo da Centelha
Divina, que por sua vez, só habita os corações bem formados devidamente
chancelados pela Luz que vem do alto. “Melhor é o homem paciente do que o
guerreiro, mais vale controlar o seu espírito do que conquistar uma cidade”. (Provérbios
16:32) É uma virtude essencial e um dos frutos do Espírito Santo, que nos capacita
a viver uma vida de moderação.
“Estamos
em permanente simbiose e interação com o Universo”, adverte o Monge Thich Nhat
Hanh, pois, quanto maior a iluminação do coração, mais fulgurante é o universo.
Como também, quanto maior for a virilidade do coração mais pujantes são as
forças evolutivas universais. A calma, a tranquilidade e o equilíbrio
emocional, são imprescindíveis garantidores da harmonia, na qual se alicerça a feliz
convivência humana, sob a égide dos sublimes princípios da sã moral e da razão,
que a todos os povos permite o pleno exercício da liberdade, da igualdade e da
fraternidade.
Serenidade
jamais é, tão pouco foi, nem será covardia, lentidão, preguiça ou leniência
(excesso de tolerância), mas sim, a força revestida de veludo, ou seja, é um
estado de domínio próprio e força contida, em vez de passividade. No contexto
da inteligência emocional, ser sereno significa manter a clareza mental e a
firmeza de propósito mesmo sob pressão, agindo com precisão em vez de reagir
por impulso. “Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda
em derredor, como leão bramando, buscando a quem possa tragar”. (1 Pedro 5:8). Envolve perceber a realidade sem julgamentos
ou devaneios.
Na
filosofia antiga, especialmente no Estoicismo, a serenidade (ataraxia)
é alcançada através da razão. Ao entender que não podemos controlar eventos
externos, apenas nossa reação a eles, libertamo-nos da perturbação. Diferente
de uma alegria passageira, a serenidade é uma disposição estável que permite ao
indivíduo agir com temperança e lucidez. Envolve autoconhecimento, autocontrole
e a capacidade de manter o coração e a mente pacificados, enxergando as
situações com sabedoria e tomando decisões com mais assertividade focando na
aceitação e na ação consciente.
A
virtude da serenidade, embora rara, nos ajuda a ver as coisas face sua
verdadeira luz e a apreciá-las no seu justo valor, o valor real e objetivo que
têm, e que nos é revelado pelo equilíbrio e pelo bom senso; e a contemplá-las segundo
o valor sobrenatural que devem alcançar, ao passo que conduzem o espírito à
unicidade com o universo, donde emanam todas as conquistas e o feliz progresso
da humanidade. "Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus". (Salmos 46:40) Envolve reconhecer e
aceitar o que não pode ser mudado, liberando a energia para o que pode ser
feito.
Indiscutivelmente,
grande parte da angústia humana deriva da resistência fútil à realidade
presente e a eventos passados que não podem ser alterados. Desta forma, ao
liberarmos potenciais cognitivos presos em ruminações improdutivas, propiciamos
a nossa mente mais inventividade para resoluções inovadoras de problemas, pois,
nosso foco fita as áreas onde a agência pessoal é real, maximizando a eficácia.
É a base da Oração da Serenidade: "Concedei-me, Senhor, a serenidade
para aceitar as coisas que não posso mudar, a coragem para mudar as que posso e
sabedoria para discernir a diferença".
Longe
de ser uma manifestação de apatia, ou seja, uma ausência de resposta a
estímulos – indiferença, insensibilidade ou falta de vontade e motivação para
atividades diárias, emocionais ou sociais –, um sinal de alerta para a saúde
mental, que em nada evoca calma estoica chamada apatheia (sem paixões) que
é um estado de liberdade das emoções violentas, alcançado pela sabedoria, a
serenidade é a flor de lótus, que representa sua pureza e argúcia emergindo do
lodo (adversidade) sem se sujar dele – ou seja, ainda que tocada pela matéria,
sua essencial divinal mantém sua galhardia.
“Não
é força de vontade natural, mas, uma qualidade produzida por Deus (Gálatas
5:22-23), portanto, a serenidade nunca seria um ato de fingir possuir crenças,
sentimentos, virtudes ou valores morais que, na verdade, não se tem, assumindo-se
hipócrita, palavra nascida do grego "hypokrisis", que significa
"representação" ou "disfarce". A serenidade é uma virtude baseada
na autenticidade e na paz interior – reflete a coerência
interna –, enquanto a hipocrisia é uma deformidade moral (vício) baseada
na falsidade e na aparência – é um comportamento que demonstra
uma profunda incoerência.
A
serenidade real resiste a crises e críticas sem perder o eixo. A hipocrisia,
quando confrontada com a verdade ou sob pressão extrema, geralmente se desfaz,
revelando irritação, reatividade ou vitimismo, pois, sua calma externa é uma
ferramenta de ocultação do caos ou da malícia interna. O hipócrita vive em
constante tensão, pois precisa sustentar uma imagem que não corresponde à sua
realidade interna, o que é o oposto da verdadeira paz de espírito, pois, ancora-se
na integridade. Uma pessoa serena não precisa esconder seus pensamentos,
pois está em paz com suas escolhas.
O
Filósofo Epiteto, ensinava que a felicidade reside em distinguir o que depende
de nós (nossas opiniões, intenções e ações) do que não depende (o passado, as
ações de terceiros, a natureza). Assim, ao pararmos de lutar contra o
incontrolável, nossa energia mental e emocional é redirecionada de forma
produtiva para as áreas onde a mudança é possível. Esse pensamento é um
pilar central em várias abordagens psicológicas – por exemplo, a Terapia de
Aceitação e Compromisso - ACT – e de autoajuda, conduzindo indivíduos a navegar
por desafios, perdas e estresses, com sobriedade e altruísmo.
Ao
mantermos a limpidez e o inalterabilidade (sobriedade), guardamos a calma e a
paz (serenidade), pois, jamais somos tragados por paixões efêmeras ou
distrações desnecessárias, portanto, a sobriedade é a base para a perspicaz
serenidade que põe “ordem ao caos” manifestado na autocrítica implacável, culpa
excessiva, ruminação (pensamentos circulares e negativos sobre falhas passadas)
e uma incapacidade de perdoar a si mesmo por erros, mesmo pequenos. Verdadeiramente
serenos, possuímos a estabilidade necessária para agir com generosidade e
desprendimento – com altruísmo.
Assim,
“livrem-se de toda impureza moral e da maldade que prevalece e aceitem
humildemente a palavra implantada em vocês, a qual é poderosa para salvá-los” (Tiago
1:21), pois, uma vez enraizada no coração, ela tem o poder transformador para
regenerar a mente e guiar nossa a ação de tirar a roupa suja, de abandonar
conscientemente comportamentos e atitudes que corrompem o caráter - a imoralidade
e a amoralidade –, sob a tutela da serenidade, que é o solo fértil (onde
o amor "viceja") a partir do qual o amor genuíno e incondicional germina
e cresce para que ele se cumpra em nossos feitos e efeitos.
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