domingo, 4 de janeiro de 2026

O CEGO MAIS VISIONÁRIO DO CEARÁ

 

INTRODUÇÃO

 

Nascemos desconhecendo o virá, porém, havidos pra viver essa vida intrinsecamente incerta e imprevisível. Ninguém sabe o que o futuro nos reserva; cada pessoa nasce sem conhecimento prévio dos desafios, alegrias, perdas e oportunidades que encontrará ao longo de sua jornada. O futuro é um livro em branco que escrevemos com nossas ações e experiências, mas também, é influenciado por eventos e circunstâncias além do nosso controle, que nos move a viver plenamente o momento presente, neste processo contínuo de aprendizagem e adaptação, onde descobrimos o "virá" à medida que avançamos: a jornada de descoberta.

 

Nesta jornada de descoberta, que chamamos vida, encontramos companheiros que aninam nossos passos evolutivos com suas expertises, expericianções vividas, legados etc. São os amigos, colegas e familiares que compartilham suas cicatrizes e vitórias. Aqui, o aprendizado não vem da teoria, mas da empatia e da ressonância emocional. Aprendemos a ser humanos através da humanidade do outro. São os mentores e mestres que nos oferecem atalhos através do conhecimento estruturado. Eles nos ensinam a técnica, o "como fazer", e nos ajudam a evitar erros que outros já cometeram. São aqueles que, mesmo não estando mais presentes fisicamente (ou através de suas obras), deixam uma trilha de valores e propósitos. O legado nos dá um senso de direção e nos lembra que somos parte de algo maior.

 

Reconhecer esses companheiros é um exercício de gratidão e humildade. A relevância de reconhecer reside em atender uma necessidade humana fundamental de valorização, impulsionando a motivação, o engajamento e o bem-estar em âmbitos pessoais e profissionais, resultando em maior satisfação, produtividade, retenção de talentos e um ambiente mais positivo, além de fortalecer a autoestima e as relações interpessoais. O reconhecimento de identidades culturais e sociais permite que indivíduos se sintam parte integrante de uma comunidade, de uma Arcádia, e a expressão mais resplandecente do orgulho de ser comparado ao Cego Aderaldo no Nordeste é um elogio à inteligência, à oratória e à capacidade de "enxergar" o mundo através da poesia e do sentimento, muito além da visão física. Reconhecer é o animus daquele que se assenta numa cadeira acadêmica por Aderaldo Ferreira de Araújo.

 

Vencendo todos os obstáculos e desafios, Cego Aderaldo tornou-se um exemplo de talento, coragem e superação. Mesmo cego, ele viajava pelo sertão levando um gramofone e um projetor de cinema manual, sendo um dos primeiros a difundir imagens em movimento e música gravada em regiões remotas do Ceará, provando que a arte é capaz de transcender as limitações físicas, transformando a escuridão dos olhos em uma luz eterna para a poesia e a identidade do povo brasileiro.

 

CEGO ADERALDO – ORIGENS  

 

O Ceará na antepenúltima década de século XIX é marcado com a brutalidade da Grande Seca (1877-1879), que forçou uma migração massiva do interior para Fortaleza, superpovoando a capital e criando condições insalubres, culminando na devastadora epidemia de varíola que causou milhares de mortes, com um dia do ano 1878 ficando conhecido como o dos "Mil Mortos", enquanto a elite debatia soluções e a literatura registrava a tragédia humanitária, a movimentação abolicionista no Ceará estava em um estágio de crescente organização e ativismo, um  passo crucial para os eventos subsequentes que levariam o Ceará a abolir a escravidão em 25 de março de 1884, sendo desde então, historicamente, conhecido como a "Terra da Luz" e esse título foi, de fato, popularizado pelo jornalista e abolicionista José do Patrocínio, que era apelidado de "O Tigre da Abolição". 

 

Crato, em 1878, era um importante núcleo de povoamento e um centro em crescimento no interior do Nordeste, elevado à categoria de cidade em 1853, coroando sua história destacada por movimentos políticos significativos, como a participação na Revolução Pernambucana de 1817, quando a vila chegou a declarar independência de Portugal por alguns dias; a seca causou uma grande carestia e fome, levando a um enorme afluxo de flagelados do sertão para cidades com recursos hídricos mais perenes, como o Crato e a região do Cariri, que possuíam fontes de água na encosta da Chapada do Araripe. Relatos da época mencionam discussões sobre a necessidade de obras de infraestrutura, como a construção de açudes para garantir a criação de gado na serra do Araripe, preservando as árvores para evitar que as fontes secassem; e o prolongamento da estrada de ferro de Baturité até o Crato, para facilitar o transporte de materiais e mitigar os efeitos de futuras secas. 

 

Neste ano, em que a ordem destemidamente apascenta o caos, luzidias esplendorosas emergem para dar novos destinos ao mundo, implementar prodígios e progressos ao viver humano, além de protagonizarem os verazes e sólidos legados, cujos exemplos alcançam nossos dias com a mesmo efervescente potencial de convencimento e cativação que manifestam desde sua ciese. Dentre estas ilustres rutilâncias, Aderaldo Ferreira de Araújo nasce na vanguardista cidade de Crato, Estado do Ceará, aos 24 de Junho de 1878 – animando a festa junina com sempre farão suas visionárias inspirações – filho de um alfaiate e de uma dona de casa. Seu pai faleceu quando tinha dois anos, em 1880, o que levou a família a migrar para a Terra dos Monolitos, Quixadá, em busca de melhores oportunidades de labor e de dignidade em meio à grande seca que assolava toda a Região Nordeste naqueles dias.

 

CEGO ADERALDO – INFÂNCIA

 

O Ceará na penúltima década do Século XIX se destacava por seu pioneirismo na luta pela liberdade, vivenciando as complexas transformações sociais e econômicas de uma sociedade que acabara de dar um passo ousado rumo ao fim da escravidão.  Economicamente, o Ceará era uma região periférica, cuja economia baseava-se principalmente na pecuária e, posteriormente, na cultura do algodão. A economia do algodão estava em declínio, somado aos efeitos devastadores da Grande Seca (1877-1879), o que influenciou robustamente o movimento abolicionista, pois, para muitos proprietários, a venda de escravos para outras províncias era mais rentável do que mantê-los em uma economia em crise. A sociedade era marcada por relações patriarcais e um mandonismo local, com uma população majoritariamente pobre e subalternizada.

 

Quixadá, em 1885, vivia um período de transição como vila, consolidando-se social e administrativamente, após sua emancipação de Quixeramobim em 1870 e apesar das dificuldades econômicas e climáticas do sertão, via o estabelecimento de instituições importantes e o planejamento de obras hídricas que se tornariam marcos históricos, como o Açude do Cedro. Embora o acesso fosse restrito e as condições precárias, Quixadá já possuía núcleos de instrução pública em 1885 que serviam como base para o crescimento urbano impulsionado pelas obras ferroviárias e hídricas do final do século XIX. Em 24 de junho de 1885, foi estabelecida a primeira Conferência da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) na Terra dos Monolitos, sob a invocação de Jesus, Maria e José, um marco importante para a comunidade local e suas atividades de caridade.

 

Nesta data, Aderaldo Ferreira de Araújo festejava sete anos de idade, num ceio familiar probo e firmemente devoto à Maria Santíssima, que desde cedo lhe ensinava aos preceitos cristãos, principalmente, o dever de servir ao próximo com galhardia e amor fraterno, refletindo a pujante influência religiosa na moral e nos costumes, que repercutia,  também, nas diretrizes educacionais da época, que incluíam aulas de religião, num sistema, ainda rudimentar, que seguia o modelo de "Escolas de Primeiras Letras", criado pela lei de 1827. Naqueles dias finais do século XIX, o ensino ocorria frequentemente nas residências dos próprios professores ou em locais improvisados, com foco em ler, escrever e contar. Sob a influência materna, sempre presente e incentivadora, Aderaldo Ferreira de Araújo, dia a dia, avança na estrada da cognição e do desenvolvimento pessoal, aproveitando eficazmente o que a vida no Sertão Central Cearense lhe oportunizava.

 

CEGO ADERALDO – OPERÁRIO

 

O Ceará na última década do Século XIX é um marco na história do Ceará, pois dá início a um dos períodos políticos mais influentes e duradouros do estado: a Oligarquia Aciolina. Embora a Terra da Luz ainda se recuperasse dos impactos de secas severas do final do século XIX, buscava com vivaz desenvoltura modernizar sua infraestrutura para escoar a produção agrícola e enfrentar os períodos de estiagem. Em 1896 teve início a construção da ferrovia Sobral-Crateús, um empreendimento liderado por Antônio Sampaio Pires Ferreira, fundamental para a integração do interior cearense. A "Belle Époque" em Fortaleza, ainda que emergida em 1860, eflorescia neste ano com a consolidação do Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico) - fundado em 1887 – como um relevante equipamento de preservação da memória e produção intelectual do estado. Embora fundada em 1892, a Padaria Espiritual, neste ano, se confirmava como agremiação literária de vanguarda e crítica social em pleno ativismo em Fortaleza, reunindo letrados na Praça do Ferreira para debater cultura e política.

 

Quixadá, em 1896, viveu um ano de efervescência social e cultural, marcado pela fundação dos seus primeiros jornais: Três jovens caixeiros fundaram o primeiro jornal da cidade, chamado "O Matuto". No mesmo ano, funcionários da Comissão de Açudes fundaram outro periódico, "O Açude", refletindo um período de modernidade e pensamento científico emergente na região. Neste, a economia de Quixadá impulsionada principalmente pela agropecuária e pelo dinamismo gerado por grandes obras federais, como a construção do Açude do Cedro – primeira grande obra hídrica do Brasil –, que atraía engenheiros, técnicos e milhares de operários, movimentando o comércio local e gerando um "surto" de modernidade técnica e circulação de moeda. Neste influxo de crescimento, progresso e evolução, a Estrada de Ferro de Baturité já alcançava a região, facilitando o escoamento da produção agrícola e a chegada de mercadorias, integrando Quixadá ao mercado de Fortaleza e ao exterior.

 

Neste ano, aos 18 anos de idade, atraído pelas oportunidades de labor que o Quixadá, como um importante centro agroindustrial, na produção e comércio da matéria-prima (algodão em caroço), disponibilizava, ao passo que sustentava a economia da província, Aderaldo Ferreira de Araújo, trabalhava alimentando uma fornalha na beneficiadora de algodão de propriedade Daniel de Moura, em Quixadá, quando sofreu um acidente que o fez perder a visão. Um acidente lamentável para o operário dedicado, porém, um despertar fulminante para o capital humano formidável para as artes e para a cultura brasileira.

 

 CEGO ADERALDO – SUPERADOR

 

A perda da visão é uma transição profunda que exige um processo de luto, adaptação física e reestruturação emocional. É uma experiência transformadora que desafia profundamente o indivíduo e a sociedade. No entanto, a história da reabilitação visual demonstra que a cegueira não é o fim da autonomia, mas o início de uma nova forma de interagir com o mundo. A superação não significa a restauração da visão, mas sim, a conquista da autonomia, da qualidade de vida e da realização pessoal, utilizando novas formas de interação com o mundo. Aliás, a jornada da perda da visão para a superação é um testemunho da notável neuroplasticidade do cérebro e do indomável espírito humano, que encontra novos caminhos para perceber e interagir com o mundo. O suporte familiar oferece um apoio inspirador ao auxiliar a pessoa com deficiência a vivenciar a vida de forma plena, promovendo sua independência, autonomia e bem-estar emocional e social.

 

Incentivado pela mãe, sempre apoio forte, constante e incondicional, um contumaz divisor de águas em seu caminhar em Terra, Aderaldo Ferreira de Araújo começou a cantar e a improvisar. Uma incipiente certeza, que a vida tornou robusta: a falta da visão frequentemente leva ao desenvolvimento aprimorado de outros sentidos, como a audição e a percepção tátil, que são cruciais para o aprendizado musical, que, em essência, transcende a visão, permitindo que o talento e a expressão floresçam e toquem a vida de todos, independentemente das barreiras físicas. A música, portanto, transcende barreiras físicas, permitindo que pessoas cegas não apenas participem, mas, liderem e inovem na arte, desafiando estereótipos e enriquecendo a cultura global. 

 

A música é uma das ferramentas mais potentes para a inclusão social e educacional, que estimula a criatividade, a imaginação, a atenção e a concentração; e o improviso, cuja importância reside em desenvolver flexibilidade, agilidade e criatividade, permitindo adaptação a situações inesperadas, resolução de problemas e a tomada de decisões mais assertivas, tanto na vida pessoal quanto profissional, transformando o caos em oportunidades de aprendizado e inovação, e fortalecendo a autoconfiança. A música, para Aderaldo Ferreira de Araújo, transcendeu o simples entretenimento; tornou-se um proficiente catalisador para seu autodesenvolvimento, oferecendo-lhe um caminho para sua força interior, onde suas habilidades interpessoais oportunizaram uma vida plena de exemplo que transformam o mundo ainda hoje. A música é um pilar do protagonismo socioeconômico-cultural.

 

CEGO ADERALDO – VISIONÁRIO

 

O Ceará na primeira década do Século XX, vivia um período de otimismo e crescimento para o Ceará, que se projetava nacionalmente com suas melhorias urbanas e produção cultural, embora as secas e seus impactos sociais fossem uma realidade constante no sertão. Registros mostram a presença de obras de arte, como telas restauradas de 1908, evidenciando a vida cultural eflorescendo virilmente neste jovem século. A capital cearense passava por um processo de embelezamento, com registros fotográficos da época mostrando esses avanços, o que destacou a Terra da Luz nacionalmente por sua mostra de fotos de jardins, praças e comércios, na Exposição Nacional de 1908 no Rio de Janeiro; e pela produção de materiais como a Revista do Instituto do Ceará e jornais históricos, refletindo a vida social, política e cultural do período, com a capital Fortaleza inusitadamente modernizadora. Vivia-se, portanto, o auge da Belle Époque cearense, um período marcado por esforços de modernização urbana, efervescência cultural e tensões políticas da República Velha.

 

Crato, em 1908, vivia um período de crescimento, que se consolidava como um importante núcleo urbano e cultural do interior do Nordeste brasileiro. O desenvolvimento da região foi impulsionado pela Estrada de Ferro de Baturité, que transformou a dinâmica local e fez do Crato um ponto vital para o transporte de mercadorias e pessoas, simbolizando o progresso e a conexão com grandes centros urbanos. Havia uma elite intelectual ativa, que se autodenominava "boas famílias" e que frequentava os mesmos espaços sociais, buscando o progresso da cidade, consolidando assim seu desenvolvimento intelectual e econômico. Personalidades como o intelectual Manuel de Oliveira transitaram entre a Capital do Cariri – naqueles dias – e grandes centros como o Rio de Janeiro, contribuindo para a fama do Crato como a "Cidade da Cultura”.

 

Nestes efervescentes dias do início do Século XX, Aderaldo Ferreira de Araújo – visionário – nasce o Cego Aderaldo nas ruas, feiras e espaços de sociabilidade, manifestando cultural popular contínua, que coexistia e robusteciam os ideais de “Cidade da Cultura” que que estabeleciam o senso de pertencimento dos intelectuais que faziam parte integrante do cenário cultural e social do Nordeste e do Cariri no início do século XX, narrando o cotidiano, histórias e eventos da época, e essa manifestação é uma marca da identidade regional, reconhecida até hoje com eventos como a Semana Cultural Poeta Pedro Bandeira, um famoso cantador natural da região. Além dos cantadores, o Crato de 1908 já vivenciava festejos tradicionais como a Festa de Nossa Senhora da Penha, que unia o sagrado ao profano com música e versos populares. 

 

CEGO ADERALDO – PIONEIRO

 

Viola é uma palavra cujo som evoca, não apenas, um objeto capaz de produzir sons. Ela simboliza memórias, sentimentos, lugares, pessoas, tradições, modos de ser e de viver. No peito do violeiro, não é só instrumento musical: faz-se expressão de identidade. O ponteio de suas cordas conta histórias e é motor de uma espécie de máquina do tempo que funciona dentro de cada ouvinte. A viola é um instrumento que veio ao Brasil com as primeiras levas de colonizadores e jesuítas. Utilizado como ferramenta na catequese, esse instrumento, aos poucos, foi ganhando a cara da nova terra nas mãos de bandeirantes, tropeiros e cantadores.

 

O "baião da viola" é um elemento fundamental da cultura popular nordestina, especificamente na tradição do repente, onde a viola caipira dita o ritmo para a poesia improvisada. Tendo raízes no lundu e na chula portuguesa, recebeu influências das modas de viola. O "baião da viola" pode ter variações na execução entre diferentes cantadores, alguns optando por uma forma mais simples e outros por uma mais elaborada. A batida da viola nesse contexto é percussiva e rítmica, muitas vezes descrita como um "bate aqui" ou "batendo na viola", o que ajuda a marcar o tempo para o cantador. A viola é essencial para o cantador, funcionando como um suporte rítmico que o ajuda a manter o fluxo do improviso. Tocada com um volume mais baixo durante o canto para não ofuscar a voz, e com toques mais fortes nos intervalos entre as estrofes. A temática das cantorias de viola geralmente aborda o cotidiano dos nordestinos, as dificuldades da vida e "causos" da região.

 

Inventivo, o Cego Aderaldo foi um dos primeiros cantadores a ganhar notoriedade nacional, levando a cantoria de improviso para grandes capitais como Rio de Janeiro e São Paulo. Ele participou da inauguração da primeira emissora de TV no Brasil. Admirado por intelectuais como Rachel de Queiroz, sua trajetória inspirou gerações de artistas, incluindo Luiz Gonzaga. Inusitado, o Cego Aderaldo tirou o baião da viola, orquestrando-o e influenciando grandes artistas como Luiz Gonzaga, que usando a sanfona, o triângulo e a zabumba, popularizou a dança e a cultura nordestina, tornando-se um ícone nacional. A música de Gonzaga levou o baião para as cidades, modernizando-o e criando uma identidade musical forte para o Nordeste, porém, sempre mantendo a essência do ritmo original, como em "Baião de Dois". Empreendedor, foi um dos primeiros a levar novidades tecnológicas para o interior, atuando como exibidor de cinema itinerante na década de 1930 e utilizando gramofones para apresentar discos ao povo sertanejo.

 

CEGO ADERALDO – INSPIRADOR

 

Em 1969, o violonista Baden Powell compôs e gravou a toada “O Cego Aderaldo (Nordeste)”, no LP  “27 Horas de estúdio”, da gravadora Elenco. Em 1974, o cantor e violeiro Téo Azevedo, no LP “Grito selvagem”, da gravadora Central Park Tapes, gravou a cantiga “Cego Aderaldo “, do próprio Téo Azevedo. Em 1977, o cantor Ari Toledo em LP da gravadora Beverly, adaptou e gravou a música tradicional nordestina “Desafio do Cego Aderaldo X Zé Pretinho”. Em 1979, a composição “Cego Aderaldo”, de Egberto Gismonti, foi gravada por Naná Vasconcelos no LP “Saudades”, da     WEA. Em 1980, o baião “Cego Aderaldo”, de João Silva e Pedro Maranguape, foi lançado por Luiz Gonzaga no LP “O Homem da terra”, da gravadora RCA Victor. No mesmo ano, “Cego Aderaldo”, de César Barreto e Marcus Accioly, foi gravada por César Barreto no LP “Nordestinados – A poesia de Marcus Accioly com música de César Barreto”, da gravadora Continental.

 

Em 2005, o Estado do Ceará tomba a residência do Cego Aderaldo, em Quixadá e incorpora ao Patrimônio Cultural do Estado. A casa foi transformada na "Casa de Saberes Cego Aderaldo", um importante centro cultural, inaugurado como equipamento em 2017, e que se dedica à memória do poeta Aderaldo Ferreira de Araújo. A Casa é voltada à arte, educação, saberes tradicionais e patrimônio cultural, visa ampliar a preservação da memória, do patrimônio e das tradições culturais em diálogo com as linguagens artísticas contemporâneas, valorizando e fomentando a arte e a cultura nos diversos territórios no Sertão Central.

 

Em 2025, os deputados da Assembleia Legislativa do Estado (Alece) aprovaram o projeto de lei que estabelece o ‘Dia do Cantador’ no Ceará, em homenagem ao poeta caririense Cego Aderaldo (1878 - 1967). A proposta é de autoria do parlamentar Heitor Férrer (União Brasil). A data escolhida faz referência ao dia do nascimento de Cego Aderaldo, em 24 de junho de 1878, no Crato. O projeto visa incentivar atividades culturais na comemoração, como apresentações musicais, leituras de poesia, exposições de arte e oficinas de criação literária. Além de Aderaldo, o projeto destaca outros poetas populares cearenses, como Patativa do Assaré, Geraldo Amâncio, Dideus Sales e Sávio Pinheiro.

 

CONCLUSÃO

 

Morremos sem saber para onde vamos, além de refletir a a incerteza fundamental que a maioria das pessoas sente sobre o pós-vida, é um dos maiores mistérios da existência humana e um tema central em muitas culturas e religiões ao redor do mundo. Muitas vezes, exploram a ideia de a alma continuar sua jornada em diferentes planos de existência ou dimensões espirituais, focando no crescimento e aprendizado contínuo. Continuo aprendizado para uma perene mestria. É um lema para quem busca excelência, humildade e crescimento constante, lembrando que o aprendizado é um compromisso vitalício. Essa vitaliciedade (imortalidade) é um anseio humano que se manifesta na busca por transcender a finitude, seja através da fé, da filosofia ou da tecnologia, explorando o que significa ser um "ser" para além da vida material.

 

A crença em um "ser" para além da vida material implica que há um aspecto da existência que não pode ser explicado apenas pela ciência materialista e que persiste após o fim do funcionamento biológico do corpo.  A expressão em latim "Ad immortalitatem", que significa "Rumo à imortalidade" sela o compromisso de ser um "imortal das letras", que significa ser um guardião e uma figura de destaque vitalícia na literatura e na cultura brasileira, cuja contribuição é considerada duradoura e de grande valor. Significa, ainda, que o autor alcançou o ápice do reconhecimento nacional por sua contribuição à língua e à cultura. Nos imortalizamos ao imortalizarmos o patrono de nossas cadeiras acadêmicas, ao honrarmos e perpetuarmos a memória de sua figura notável (o patrono) que dá nome à nossa posição ou afiliação acadêmica, nós próprios garantimos nossa relevância e legado, "À l'immortalité".

 

Imortal, Aderaldo Ferreira de Araújo, vive nas memórias daqueles que o viram atuar, daqueles que declamam suas poesias, daqueles que ouvirão seu gramofone e tiveram a grata alegria de serem incluídos por ele no mundo das artes e do conhecimento. Aderaldo não apenas "viu" o mundo através de sua sensibilidade poética, mas ensinou gerações a enxergar a riqueza da identidade sertaneja. Ao incentivar a cultura e o compartilhamento do conhecimento ele é fundamental para o progresso individual e social, robustecendo os pilares para o desenvolvimento humano e a inovação. O Cego enxergava longe!

 

 

 

3 comentários:

  1. A alga (Espirito) de Aderaldo Ferreira de Araujo é imortal, ele apenas saiu do corpo que é mortal; ele veio a terra cumprir uma missão enviado por Cristo.

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  2. A arte e a cultura imortaliza, pois a finitude da matéria se perpetua nas gerações. A qualidade da arte é que torna o criador mais ou menos evidente. O Cego Aderaldo jamais deixará de ser evidenciado.

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  3. Parabéns meu caro irmão. Só assim eu conheci a história de um ditado que sempre se diz. Parece o cego Aderaldo, aqui em nossa região

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